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  • Rocklogia – Um dia a Mais

    Antes de tudo, após a Tanlan ter lançado o Tudo que eu Queria, o vocalista Fábio Sampaio ficou notório na rede pelo cover que fez de “É Preciso Saber Viver”, na época, um dos vídeos mais assistidos do YouTube. Se você ainda não viu, dá uma olhada:

    Após as perguntas feitas em Tudo que eu Queria, a Tanlan preparou-se para dar as respostas em um disco chamado Um Dia a Mais, que claramente se contrasta com o anterior. É preciso deixar bem claro que, na altura do campeonato, o “público cristão” da banda era muito pequeno, a banda estava bem mais inserida dentre eventos não-religiosos. Este segundo disco, então, meio que ‘supre’ esta falta, ou até mesmo desequilibrou a “gangorra” dos públicos.

    Em 2010, a revista Época tenta falar de um suposto movimento dentro do meio protestante que, segundo a publicação, é uma “nova reforma protestante”. Dentre alguns nomes, na parte musical, citaram a Tanlan. O texto é um pouco confuso, mas a intenção da Época valeu. Sobre este assunto, vale ouvir um episódio do podcast irmaos.com.

    No mesmo ano, após as prévias dadas através das músicas “De Onde Vem” e “Fingir”, divulgadas no site da banda, o grupo estava a todo vapor para produzir um disco que acabou soando mais ‘gospel’ que o anterior (se é que podemos chamá-lo assim, para uma compreensão mais geral).

    “Louco Amor”, faixa que abre o álbum, mostra bem o que o grupo se propôs a fazer neste projeto: com letras que falam mais evidentemente do cristianismo do que o anterior e versos bem marcantes, a sonoridade ficou menos experimental e mais direta, com um post-grunge que lembra bastante bandas como o Foo Fighters. Os teclados, mais presentes no trabalho anterior, ficaram ofuscados e deram espaço para mais guitarras, gerando mais “peso”.

    Outro destaque acerca do disco foi a participação de Marcos Almeida nos vocais de “Vaidade”. O disco foi lançado de forma independente, e meses depois, atraiu o interesse da Sony Music, que decidiu relançá-lo, distribuindo-o com o novo selo. Um pequeno problema entre a Som Livre e a Sony ocorreu, pois a gravadora queria vetar a faixa com a participação de Marcos. No fim das contas, a versão lançada pela Sony tem só os vocais de Fábio (como podem conferir no Spotify).

    Beto Reinke acabou tendo que se afastar do grupo, embora tenha participado das gravações. Em seu lugar, a banda efetivou Lucas Moser, que já estava tocando com a Tanlan há um bom tempo. Após algumas diferenças e discussões internas com o grupo (leia nossa entrevista com Fábio para entender), acabou saindo. Beto voltou e segue com a banda nos dias de hoje.

  • Um Brinde – Se eu não fosse sincero…

    Um Brinde – Se eu não fosse sincero…

    Se eu não fosse sincero comigo mesmo, com certeza diria que era o cristão mais santo do mundo. Mas, graças a Deus, eu sou sincero e por isso digo que sou o maior dos pecadores. Desculpa-me, sou errado! Erro todos os dias por coisas triviais. Acho que os caros leitores também disso: sabe que o tal erro que está prestes a fazer é pecado. Isso irrita Deus e mesmo assim vamos lá e erramos. Estou falando do pecado consciente mesmo, aquele que calculamos e montamos estratégias. Para não escandalizar muito os irmãos, vou citar apenas dois desses pecados que fazemos quase todos os dias: fazer fofoca e cobiçar a mulher do próximo. Se você não fosse sincero negaria isso. Tudo é muito bem (mal) calculado por nós cristãos.

    Por vezes, pensamos que todos os nossos pecados são meros vacilos. A criança inocente foi lá e colocou a mão na tomada e tomou um choque. OK, a criança é inocente. Agora nós, adultos e conscientes do que é certo e errado vamos lá colocar o dedo na tomada e pegar um choque assim de graça? Não, né. E por que estou escrevendo isso? Por dois motivos: para lembrar quem somos e do que precisamos. Oro para que Deus nos guie nessa leitura em amor.

    Quando nos convertemos, somos ensinados que devemos ter uma vida de devoção como orar, ler a Bíblia, ir para os cultos, batizar e pregar o Evangelho. Tudo bem, está certinho, é isso mesmo. Mas você não concorda comigo que isso é muito pouco? Não concorda que estas ações são muito rasas diante da profundidade do evangelho? Algumas doutrinas pregam que essa “devoção” é o equivalente para sermos salvos. É óbvio que como um bom calvinista irei discordar. E não só como calvinista, mas também como ministro desse evangelho.

    Sempre digo aos meus irmãos, antes de irmos pregar nas ruas, que se não fosse a graça e pela graça de Deus, nós nem sairíamos de casa para falar desse amor que arde em nós. Não temos capacidade de transformar ninguém. Mudar até podemos, ainda assim superficialmente, agora transformar – que é algo sobre-humano, pois mexe com o íntimo, sentimentos e visões –, é algo que só o Eterno pode fazer. Essa “vida devocional” que aprendemos não é errada em si, mas também não é suficiente. Estes atributos que damos a um cristão é algo facilmente atribuído a qualquer pessoa que não tem religião alguma. É algo relativamente fácil cumprir e, se eu não fosse sincero, indicaria uma vida assim no aconselhamento do discipulado da minha igreja. E essa sinceridade toda não me faz melhor que você e sim, mas pecador consciente de quão pequeno é. Sou sincero ao ponto de afirmar que essa vida a qual fomos ensinados a levar, é mera representação dos fariseus na época de Jesus. Ele viviam a lei de pé a cabeça mas não tinham o essencial que era Cristo.

    “Pois Cristo é o fim da lei para justificar a todo aquele que crê.” (Romanos 10:4)

    Usar Jesus para ter um referencial filosófico, uma identidade para pôr na ficha do IBGE quando te perguntarem qual a sua religião e como mantra religioso é, no mínimo, constrangedor. Cristo não permite ser usado, Ele é quem usa. Não permite ser secundário, Ele é o centro. Ele nunca vai ser figurante mas sempre o artista principal. E se nós não fôssemos sinceros, iríamos veementemente negar isso, mas como somos, honramos e louvamos o nome de Jesus. Então o que há de errado com nossas vidas devocionais? Essa vida de oração, leitura bíblica diária e pregação? É justamente o que disse no começo do texto: isso não é suficiente. O evangelho nunca vai ser esse roteiro dado por nossos lideres. Nunca será uma simples apostila com três ou quatros heresias e só.

    Evangelho é renúncia. Renúncia até mesmo de uma vida morna. Renúncia até de uma apologética que defende a igreja local. O que Jesus fez aqui na terra? Renunciou. Ele saiu do seu trono maior, da condição de soberano e se fez homem. Cristo renunciou e nos deixou esse exemplo. Devemos orar, não pra cumprir um mero devocional, mas para renunciar o tempo em que assistimos nossas séries; devemos ler a Bíblia, não para aprendermos mais de Deus, mas para renunciar o tempo em que passamos nas redes sociais; devemos sim pregar, não apenas para cumprir o IDE e sim para renunciar nossas idas ao shopping. Evangelho é renúncia e o nosso devocional diário deve ser consequência dessa renúncia.

    Se eu não fosse sincero, diria que cumpro tudo o que falei, mas não cumpro. Se eu não fosse sincero, diria que estava prestes a me tornar um cristão exemplar, mas não estou. Se eu não fosse sincero diria que oro mais do que assisto séries, mas não oro. Se eu não fosse sincero, diria que leio mais a Bíblia do que fico nas redes sociais, no entanto não leio. Se eu não fosse sincero, diria que minha vida devocional está perfeita, mas não está. E do que vale essa sinceridade? Vale de reconhecimento próprio. Nós precisamos disso: olhar para dentro e reconhecer essas falhas que existem em nós. Assim, entender que cada gesto e atitude que tomamos devem ser para glória de Deus.

    Portanto, quer comais quer bebais, ou façais, qualquer outra coisa, fazei tudo para glória de Deus. (1Coríntios 10:31)

    Que sejamos sinceros irmãos, pois isso vai nos ajudar a melhorarmos como filhos de Deus. Um brinde!

  • Análise: CD Acelera e Pisa – André e Felipe

    Gravado no festival Jesus Vida Verão na praia de Itapoã em Vila Velha, Espírito Santo, Acelera e Pisa é o sétimo álbum da dupla André e Felipe e o segundo CD gravado ao vivo.

    Lançado pela Sony Music, o álbum contém 17 faixas, sendo que a dupla conseguiu mesclar seus grandes sucessos com 7 faixas inéditas. Talvez, o maior ponto negativo deste trabalho seja o excesso de regravações, já que os irmãos também são compositores talentosos, logo isso poderia ter sido evitado. No entanto, para abrilhantar as participações, o disco contou com grandes nomes da música cristã contemporânea, como Anderson Freire, Damares, Daniela Araújo, DJ PV, Paulo César Baruk e Raquel Santoro, irmã dos cantores.

    A produção musical ficou a cargo de Jimmy Oliveira, que soube conduzir muito bem este trabalho dentro da proposta de estilo da dupla. Desde o álbum anterior, podemos perceber que André e Felipe estavam completamente dentro do gênero sertanejo universitário. Embora muitos admiradores do ministério dos irmãos acreditavam que ainda poderia vir algo com influências pentecostais nos trabalhos sucessos, infelizmente não ocorreu.

    A faixa-título, Acelera e Pisa, começa com uma pequena introdução lembrando o famigerado funk, logo depois entra a sanfona e a bateria acompanhadas dos outros instrumentos, e a canção segue outro caminho, indo de vez para o sertanejo. Em Fim do Deserto e É Milagre, as participações especiais de Anderson Freire e Damares, respectivamente, foram essenciais para o desenvolvimento do repertório que, até então, apresentava-se arrastado.

    O grande hit do quinto disco da dupla, Chuva de Poder, não ficou de fora do projeto, com uma ótima letra que até lembra canções pentecostais, a música apresenta um ritmo atraente para os adeptos do sertanejo universitário, com um refrão chiclete, chega muitas a lembrar músicas seculares. Há Esperança, vem mais calma se comparada com as anteriores e apesar de ter uma mensagem linda, parece aquele momento fraco que praticamente todos os álbuns tem. Como um bônus, Quem é Esse? encerra o disco com maestria, sendo a única canção gravada em estúdio, com uma letra forte e impactante conta com a participação de Daniela Araújo, cujos vocais foram um grande acerto para essa faixa.

    Portanto, para quem ainda tinha dúvidas, Acelera e Pisa veio para confirmar de vez o espaço garantido da dupla no cenário do sertanejo universitário.

  • TOP 10 – canções gospel no meio secular

    Que a música gospel venceu preconceitos, derrubou barreiras e expandiu seu espaço, é visível, basta fazer um breve levantamento dos avanços que o mercado gospel conquistou. Nos últimos anos, podemos destacar a abertura das grandes gravadoras para a música cristã. As canções do nicho chamaram a atenção também de grandes nomes da música secular, muitos destes chegando a gravar versões que extrapolaram as fronteiras de nosso gueto, invadindo de vez o meio não-religioso. Confira:

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    Ele não Desiste de Você – Péricles (Marquinhos Gomes)

    O cantor Péricles Faria, ex-vocalista do Exaltasamba, gravou juntamente com o cantor Marquinhos Gomes a canção “Ele não Desiste de Você”. A faixa, que é um dos maiores sucessos da carreira de Marquinhos Gomes foi gravada originalmente em 2010, no disco de mesmo nome. (2012)

    https://www.youtube.com/watch?v=sdf3aMxqqys

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    Pensando em Você – Babado Novo (Pimentas do Reino)

    “Pensando em Você”, composição de Henrique Cerqueira, foi gravada por sua ex-banda, Pimentas do Reino. Henrique é amigo de Cláudia Leitte, que acabou regravando esta canção ainda quando era vocalista do Babado Novo, e obteve um sucesso regular. Confira. (2007)

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    Que Bom que Você Chegou – Silvanno Salles (Bruna Karla)

    O cantor Silvanno Salles fez uma versão pra lá de inusitada da canção romântica “Que Bom que Você Chegou” de Bruna Karla. A canção conseguiu cair no gosto dos amantes do ritmo, sendo bastante executada nas rádios do nordeste. (2012)

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    Segura na Mão de Deus – César Menotti & Fabiano

    A clássica canção “Segura na Mão de Deus” também ganhou uma versão “assertanejada” nas vozes de Cesar Menotti & Fabiano. A dupla gravou a canção no álbum .com_você. Vale ressaltar que Cesar é evangélico, porém não planeja deixar a carreira secular ao lado do Fabiano. (2007)

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    A Voz – Michel Teló

    O cantor sertanejo Michel Teló também não ficou fora da onda de incluir música gospel em sua obra, e gravou a música “A Voz”. Porém, esta não é a primeira vez que o cantor grava canções deste gênero. Antes de estourar com o sertanejo universitário, ainda quando fazia parte do grupo Tradição, gravou “Deus é 10”. (2010)

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    Vai Dar Tudo Certo – Zezé di Camargo & Luciano (Waldecy Aguiar)

    Outro clássico da nossa música, “Vai Dar Tudo Certo” foi regravada pela dupla sertaneja Zezé di Camargo & Luciano. Composta e gravada por Waldecy Aguiar, esta canção foi muito cantada nas igrejas nos anos 90. Além de Zezé di Camargo & Luciano, diversos cantores evangélicos a regravaram, a exemplo de Noemi Nonato, Marcelo Aguiar e Gerson Rufino. (2005)

    https://www.youtube.com/watch?v=7Uv4cZ7r23I

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    DNA de Adorador – Gusttavo Lima (Anderson Barony)

    Gusttavo Lima foi outro cantor sertanejo que gravou música gospel. Eu seu trabalho Ao Vivo em São Paulo, Gusttavo Lima gravou a canção “DNA de Adorador”, sucesso na voz do cantor Anderson Barony. O fato de gravar uma canção gospel, além de algumas declarações em shows fez levantar a suspeita de que o cantor estivesse insatisfeito com a carreira secular e planejasse migrar para o gospel, fato que foi desmentido por Lima. (2012)

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    Casa – Chrystian & Ralf (Palavrantiga)

    A famosa dupla goiana Chrystian & Ralf fez uma versão de “Casa”, sucesso da banda Palavrantiga. Escrita por Marcos Almeida, a faixa é um tributo ao grupo e foi produzida pouco tempo depois do grupo mineiro lançá-la. (2010)

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    O Mover do Espírito – Eduardo Costa (Armando Filho)

    Há alguns anos, o cantor Eduardo Costa regravou a canção “O Mover do Espírito”, um clássico da música cristã. Eternizada na voz do grande Armando Filho, também foi gravada pela cantora Ludmila Ferber. A canção que pode ser conferida no canal do cantor no Youtube ganhou uma interpretação expressiva e cativante do cantor sertanejo. (2013)

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    Conquistando o Impossível – Luan Santana (Jamily)

    O queridinho das adolescentes, sucesso de vendas na música secular, o sertanejo Luan Santana se rendeu à música gospel, cantando o grande hit “Conquistando o Impossível”, música que ganhou notoriedade na voz da cantora Jamily. Foi gravada no álbum Luan Santana ao vivo no Rio. (2011)

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    O que achou deste nosso TOP 10 de canções gospel? Conhece mais músicas acerca deste tema? Comente e compartilhe com todos, sua opinião é importante!

  • Rocklogia – Esperar é caminhar sobre o mesmo chão

    Após o lançamento do EP, a Palavrantiga seguiu com o produtor Lúcio Souza, o SILVA, e Jordan Macedo, e gravou Esperar é Caminhar. Este disco, cuja distribuição ficou a cargo da CanZion, conteve quatro das seis faixas do disco anterior, mais uma série de inéditas, todas assinadas por Marcos Almeida.

    Neste álbum, o cantor Thalles participa na faixa-título: “Em junho de 2009, conheci o Thalles quando ele esteve no Polo Estúdio para gravar uma participação no disco do Palavrantiga, que, na época, estava sendo produzido. Desde então, ele decidiu finalizar Na Sala do Pai comigo, apesar de já ter iniciado a gravação em outro estúdio”, disse Jordan ao Super Gospel.

    O lançamento do disco catapultou a popularidade do grupo, com canções como “Seguro Vou”, “Amor que nos Faz Um”, e principalmente “Rookmaaker”. Para completar, o disco foi masterizado no Abbey Road Studios, o que de certa forma foi um diferencial importante. Sonoramente, o disco tem referências bem explícitas ao britpop.

    Mais tarde, no segundo semestre de 2011, o grupo gravou um Recife um álbum ao vivo que teve o lançamento cancelado. O título era Uma Noite em Recife e foi completamente engavetado. Por outro lado, a banda seria contratada pela Som Livre, selo pelo qual gravariam e distribuiriam um novo projeto.

    Em 2012, o novo disco, de título Sobre o Mesmo Chão, seria decisivo na filosofia do grupo. Foi gravado no estúdio da banda Diante do Trono, com um repertório autoral de Marcos. O compositor afirmou, em entrevistas, que as influências para o álbum foram totalmente diferentes do primeiro, a começar pela vida de homem casado que estava começando a ter. As letras deste disco foram mais ousadas, mas não foi tão unânime quanto o anterior. Por exemplo, um jornalista do portal Fita Bruta, site conhecido por suas análises por vezes polêmicas, considerou o disco morno, hermético e as ideias do grupo bastante confusas. Os portais de música cristã, no entanto, foram amplamente favoráveis a obra. A produção musical ficou, novamente, a cargo de Jordan Macedo.

    Algo incomum aconteceu na época de lançamento do álbum, que foi a participação do Palavrantiga no programa da Rede Super, 6ª Básica. Além do quarteto, era noite de Oficina G3. Juninho Afram e Marcos Almeida, representando as duas bandas, falaram sobre a carreira e novos projetos. Depois, Mauro Henrique ainda cantou “Feito de Barro” com o Palavrantiga. A Igreja Batista da Lagoinha, nesta noite, ficou lotada.

    https://www.youtube.com/watch?v=2Cr5RnLvdGI

    Após o lançamento do disco, o clipe da canção “Rio Torto” foi divulgada, e Marcos participaria de uma faixa num disco da Tanlan, o qual falaremos no próximo post. Muitas coisas no grupo ocorreria nestes breves anos.

    Naquela altura do campeonato, era óbvio que a banda chamava a atenção. Eles saíram do underground, como nomes do extinto novo movimento, trazem de vez a palavra crossover para a discussão no mercado, mas era Marcos Almeida, ali, que se preparava para dar mais passos. Apesar de toda a contribuição sonora da cozinha, o vocalista e letrista decidiu traçar seus rumos, sozinho, enquanto a banda seguiria, ao menos teoricamente, com um novo vocalista.

    Mais de um ano depois, o silêncio continua, e é muito cedo para qualquer um “teorizar” a importância que a curta discografia da banda tem na história do rock produzido por cristãos no Brasil.

    Enquanto isso, Marcos já produziu single, gravou disco ao vivo e planeja lançamento inédito para 2016.

    https://www.youtube.com/watch?v=SPZgo9SDI3o


    Retalhos

    Em 2015, Marcos Almeida falou um pouco sobre suas composições. Decidimos reproduzir, abaixo, seus comentários.

    Branca [2011]: Nenhum móvel sequer no apartamento. Apenas um modem de internet wireless e um violão. A emoção de entrar no nosso futuro lar ainda é viva na minha memória. Eu estava sozinho e aproveitei o reverb do quarto vazio para dar vazão àquele sentimento em erupção. Foi impressionante; o primeiro acorde que toquei? Um Sol menor com décima terceira e logo, de imediato, como que soprado por Ele, veio a melodia pra ela: “Branca, acordei você”…

    Casa [2006]: Só consegui acreditar que a dupla Chrystian e Ralf gravaria a minha composição depois de gravada.
    Eu dava aula no Colégio Presbiteriano de Belo Horizonte e foi no intervalo que corri na sala dos professores, abri o computador, baixei o mp3 e, ainda sem fé, comecei a escutar o que eles tinham feito. Confesso que me emocionei. Por muitas razões: era uma homenagem de uma dupla que eu nunca conheci pessoalmente e até hoje não tenho contato com eles. Era Chrystian e Ralf do hit “tinha um sonho ir pra Nova York”, que a gente cantava em casa quando era criança! Era uma dupla sertaneja gravando uma canção de rock e aumentando o ganho da distorção ainda mais – sim, eles conseguiram ser mais roquenrou que o Palavrantiga. Era eu, um iniciante no mundo da música, que de repente começava a receber ligação de gente importante querendo saber mais do meu trabalho como autor.

    “Casa” é minha obra prima, obra prima no sentido de primeira obra, porque depois dela entendi que poderia ser compositor com um caminho próprio. Olha, estou mais seguro hoje do que nunca, quase 10 anos depois de ter escrito essa canção, que não posso receber todos os créditos por ela. Na verdade, tudo aconteceu por causa Dele, o Deus gracioso que jamais nos abandonou. O Deus da obra, que trabalha na gente e através da gente, numa misteriosa jornada de cooperação,tornando possível o absurdo: uma estranha dupla, uma mística dupla. Casa e Dono da Casa!

    Vem Me Socorrer [2008]: Estávamos no estúdio do SKANK em Belo Horizonte gravando uma participação para o programa Feira Moderna da REDE MINAS. O Henrique Portugal escolheu 4 bandas da cena independente, entre elas a belíssima TRANSMISSOR, da qual eu me tornaria um fã logo depois daquele dia.
    A brincadeira era assim: cada banda tocava duas – uma releitura e outra autoral. Levei para os meninos do Palavra – nesse dia só o baterista não participou – a surpreendente “Todos estão surdos”, do Roberto Carlos e uma inédita de minha autoria: “Vem me socorrer”. Tivemos o luxo de tocar as duas com o Henrique Portugal fazendo um Rhods cheio de sentimento.
    O curioso aconteceu nos bastidores. Fiquei sabendo disso depois. Quando o técnico do estúdio – uma figura bastante conhecida da cena musical belorizontina – me ouviu cantar o refrão de “Vem me socorrer”, muito surpreso perguntou para a equipe: “ele disse ‘Deus’? Foi isso mesmo!?” Ao que responderam pra ele: “sim, o cara disse Deus!”. O técnico, como que não acreditando no que ouvia, e com muito entusiasmo, foi enfático na sua alegria soltando um clássico palavrão : “do CARAL**O!!”.
    “Vem me socorrer” hoje é tocada em bares e igrejas. Foi mais longe do que eu imaginava. É a música da vida de muita gente. Outro dia recebi uma mensagem dizendo: “minha mulher começou a sentir as contrações e corremos para o hospital. Quando entramos no carro ela disse: coloca “Vem me socorrer”, me acalma. E a nossa filha se preparou para vir ao mundo ao som da sua música”! Muito lindo, não?!
    “Vem me socorrer” é um grito, e como percebeu o cara do estúdio, do jeito dele, de fato essa não é mais uma canção de amor!

    Deus, Onde Estás? [2007]: Estava em casa e recebi um telefonema. Era minha mãe dizendo que não tinha jeito, teria que fazer uma delicada operação que há anos tentava evitar com outros tratamentos. O médico disse que era um procedimento urgente que (talvez) resolveria o problema, mas disse também que não era uma cirurgia fácil.
    A gente lida com a dor de forma muito arbitrária, damos audiência às diversas formas de sofrimento que passam nos canais de notícias, às versões impressas nos jornais; ou quando conversamos com algum vizinho ali tem sempre uma tragédia sendo relatada e nada disso incomoda de verdade. A não ser que aconteça com quem amamos. Aí tudo muda. Dói de verdade.
    Mas, aprendi uma coisa: quando sentimos uma dor de verdade, ela nos abre um campo de inédita sensibilidade, fazendo a gente perceber um mundo que já estava ali – só não tínhamos visto antes. A cirurgia de minha mãe e a dor que senti com essa notícia me abriram uma paisagem a princípio detestável, estava diante daquela matéria mais difícil da vida, que os filósofos e teólogos lutam tanto pra explicar: o Sofrimento Humano. A natureza do mal, por que o mundo é assim… E é nesse momento que crentes e ateus se encontram com a mesma pergunta: se o mundo é injusto, como pode existir um Deus justo? Deus, onde estás???

    Rio Torto [2012]: A gestação de uma nova canção pode durar meses. É um assunto que incomoda o compositor, um problema para resolver, mas que precisa descansar no inconsciente para em algum misterioso momento ser iluminado por uma Idéia que chega como uma grande descoberta, um espanto. “Rio Torto” é dessas canções. E quase três anos depois ainda consigo sentir aquela emoção de estar cantando algo nascido das regiões mais íntimas da minha alma, por isso ainda meio incompreensível, mas que foi iluminado pela Graça.

    Partiu [2011]: Inspirado no primeiro homem a quebrar aquela ideia de que a vida é circular, fiz essa canção. Antes dele, estaríamos repetindo a vida dos nossos pais, estaríamos presos ao que construíram, à geografia em que nascemos, ao ambiente que nos deram; e como um karma, seria impossível se libertar desse destino repetitivo, estaríamos presos a um círculo. Abraão partiu, quando ainda era apenas Abrão filho de Terá. Partiu e desfez o círculo. Partiu e esticou a linha. Partiu e ganhou um novo nome. Partiu e inventou a jornada!

    Minha Menina [2011]: Quintana já disse: “nunca me perguntes o assunto de um poema: um poema sempre fala de outra coisa.” Rubem Alves me ensinou a responder assim: “o que eu quis dizer é exatamente isso que escrevi. Porque, se eu quisesse dizer outra coisa, teria escrito diferente.”

    Os dois estão tocando no mesmo ponto; que, a não ser que alguém revele, não é possível saber “a outra coisa”, “a outra interpretação”, apenas a minha coisa, a minha interpretação. Um poema em si é a melhor “revelação” que o poeta pode nos oferecer, até que ele faça outro e mais outro e mais outro, na tentativa de ver melhor o que aponta.

    Eu incentivo sempre os meus amigos a buscar a interpretação mais pessoal que puderem ter. A beleza disso é deixar ouvir o que a canção canta em mim, os efeitos desse som na grande sala do coração.

    “Minha Menina” tem participado de inúmeros roteiros e narrativas aonde chega. Deixou de ser apenas minha, mas continua uma menina, insegura e carente de amor.

    Sagrado [2011]: “Sagrado” nasce depois de eu ter andado algum tempo no meio de avivalistas, de ver de perto certas estruturas religiosas já corrompidas pela filosofia do “conquistar e dominar” e sobretudo de verificar o resultado prático na vida daqueles que defendiam essa onda. Foi um choque perceber que aquilo que 10 anos antes era sagrado na vida de tantos amigos, passou a animar as rodas de piada; eles agora riam do misterioso e intocável. A constatação não foi outra, e foi imediata: “é que o sagrado se tornou hilário…”

    Rookmaaker [2010]: Tenho guardado na caixa de e-mails dezenas de cartas, recebidas de várias partes do país, com a pergunta: quem é Rookmaaker? “Não achei nada na internet” ou “ouvi a música doidona que você cantou no show, quero saber mais”; “velho, você fumou o que?”. E coisas do tipo… De fato, na época, se alguém procurasse e encontrasse dois ou três links em português sobre Rookmaaker, ficaria contente. Passados 5 anos, o Google chega a apontar quase 100.000 menções desse nome tão importante na história recente da renovação intelectual da nossa juventude. Livros foram lançados pela Ultimato, artigos acadêmicos nasceram, covers da canção se espalharam no YouTube…
    O barulho foi tão grande que Marleen Rookmaaker, filha de Hans, chegou a mandar uma mensagem, antes do nosso inesquecível encontro em Natal, que me enche de alegria até hoje! “apreciamos muito os vídeos da canção no Youtube… Gostamos muito de ver a animada resposta do público e que as pessoas cantam junto nas apresentações. Apreciamos também a entrevista no rádio, apesar de compreendermos muito pouco por não falarmos português. É maravilhoso ver isso acontecendo no Brasil nesse momento. Ah! Achamos muito engraçada a maneira que vocês pronunciam Rookmaaker /rukimaki/! Por fim, consideramos toda essa manifestação cultural muito especial. Tenho certeza que meu pai teria ficado com muito orgulho.” Da pronúncia ela achou graça, mas morreria de rir se ouvisse alguns bilíngues que dizem “ruquimeiquer”, como se fosse uma palavra inglesa, ou outros que chegam a cantar algo próximo à “riquimartin”! Depois dessa mensagem, como disse, nos encontramos em Natal. Seu esposo é o cara mais gentil que já conheci… Tivemos a oportunidade de conversar durante quase 3 horas, sobre seu pai, sobre arte, brasilidade, os tempos na Holanda e Suíça… E tudo começou despretensiosamente com uma canção…

    Sobre o Mesmo Chão [2010]: Havia dito em uma entrevista que o trabalho dos novos artistas era, também, o de conseguir criar novas categorias de pensamento que superassem a oposição gospel/secular (especialmente, enquanto fórmula de comunicação). Cheguei a apresentar o “esperances” como vocabulário dessa aventura e a distinção entre gênero musical e circuito cultural como base para invenção de um espaço mais criativo para todos nós.

    Alguém comentou a entrevista dizendo algo do tipo: “vocês estão é em cima do muro, cuidado”. Logo em seguida, um outro comentário, só que com outra perspectiva: “eles não estão em cima do muro… Sabem que quem já foi criança não vê dificuldade em saltar muros. Pois, todos os muros estão sobre o mesmo chão.” Uau! Aquilo foi um lampejo, uma revelação! Existiria, então, algo anterior e mais importante que o muro, aquilo que sustenta o peso de todas as diferenças, aquilo que nos torna iguais: o chão! Devo ao Guilherme de Carvalho, amigo e filosofo mineiro, autor desse último comentário, todas as imagens de liberdade que essa canção tão importante traz em si.

    Boa Nova [2009]: Ela passou a ser um hino para quem cansou de teologizar a fé sem ver o resultado numa vida prática, real e humana. É uma obra contra o religiosismo, contra o filosofismo, contra os debates intermináveis e tolos que não levam em conta o encontro com a realidade do Amor. Aquele Amor que me faz bem, me deixa amar, sem perguntar a quem.

    De Manhã [2012]: Como uma necessidade imperiosa. Não tive como escapar. Uma certa saudade, já conhecida e experimentada, surgiu no meu coração. Fui para a varanda e com o violão em mãos tentei ouvir minha alma. Fiz de tudo para que nada interrompesse, na minha mente, aquele sussurro interior.
    Quis falar com Deus. Quis ficar a sós com Ele. Lembrei, enquanto dedilhava o violão, que aquilo não seria um monólogo, uma prosa imanente. Me agarrei nas palavras Dele: “jamais te deixarei”. E senti que Ele estava ali me abraçando.

    Hoje Tem Guerra [2007]: “Hoje tem guerra” anunciava para mim a possibilidade de uma música que canta os temas mais profundos (guerra e paz, amor e distância, tempo e eternidade) mas sem formalidades. O próprio refrão em lá, lá, lá, uma reminiscência de rock anos 60, alguma coisa Beatles, deixou a canção mais leve. Foi um achado aquele acorde inicial: um Ré Maior, com sétima maior, décima primeira aumentada e a sétima maior dobrando uma oitava acima [D7M (#11)]. Essa coisa brasileira na harmonia, coloca essa e outras canções que fiz mais perto da tradição bossa-nova atualizada nos Novos Baianos, grupo que juntamente com o Clube da Esquina apontam infinitas combinações entre as intenções do Rock e a tal MPB.

    Eu Olhei o Meu Dia [2007]: A construção da harmonia veio primeiro e poucos minutos depois eu já estava cantarolando alguma coisa parecida com: “eu olhei o meu dia, percebi que tu és melhor que uma canção de amor…”. A linha melódica foi me levando para outros blocos harmônicos, o Lá menor se tornou maior no refrão e eu tinha agora uma outra cor para trabalhar. Foi então que cheguei na letra: “me esconda em Ti, meu Deus eu preciso andar no teu caminho…” Depois dessas duas partes prontas, resolvi voltar na parte A e fazer uma segunda letra para ser cantada na repetição. Só que agora ao invés de ir do tom menor para o maior, o caminho era contrário; estava voltando do maior para o menor – precisei de uma ponte! Gastei um tempo pensando em como resolver isso e mais uma vez a melodia me ajudou a escolher os acordes certos para a transição.
    “Eu olhei o meu dia” é uma das canções que mais me realiza nesse aspecto harmônico. O Lúcio Souza, produtor da gravação que foi feita com o Palavrantiga, soube valorizar essa atmosfera quando minuciosamente inseriu aquele timbre de teclado tão marcante.

    Amor que nos Faz Um [2007]: Foi um ano em que ouvi Bob Marley um tanto! Nas férias da faculdade em 2007 eu acordava e dormia ouvindo “Exodus”, “One Love”, “Get up, Stand Up”, “Is This Love”… Eu queria fazer música como Bob Marley!!! Ele mostrava ser possível criar uma música profundamente espiritual e ao mesmo tempo alegre e dançante. Ele conseguia colocar dentro do discurso social e político a sua esperança e isso pra mim era fascinante.
    “Amor que nos faz um” é a minha primeira tentativa de expressar esse sentimento reggae que me habita. Essa vontade de ver as pessoas juntas, superando os discursos religiosos e misticistas, se encontrando.

    Esperar é Caminhar [2006]: Todo o sentido peregrino da minha fé se tornou claro quando assistindo ao seriado “Hoje é dia de Maria”, a personagem principal diz: “Vamo, Maria, que esperança num é esperá! Esperança é caminhá!”. Guardei essa revelação durante um tempo no meu coração e isso foi gerando versos, melodias e ideias que transformei em canção meses depois.
    A minisérie foi exibida em 2005 pela Rede Globo. Mas, foi só depois de entrarmos para estúdio em 2008, com o trabalho já mixado, que percebi o óbvio: essa música não deveria se chamar “Espero em Ti”, como eu a chamava até então. A parte principal da letra que revela todo o paradoxo guardado em meu coração desde aquele dia que assisti a minisérie estava no final do último verso: “esperar em Ti é sempre caminhar”. Esperar é Caminhar. Era isso! Era Abraão resolvendo Babel, era Maria me ajudando a entender a narrativa cristã: que esperar vem de esperança e aquele que tem esperança caminha!

    Palavra Antiga [2007]: São tantos lados de uma mesma canção, mas aqui só cabe pedaço, fragmento, retalho.
    Essa canção de 2007 eu escrevi antes mesmo de formar a banda que todos vocês conhecem com o mesmo nome (ou o mesmo som, a escrita que difere – num grande detalhe que poucos percebem de cara).
    Durante um curto período, o grupo de rock se chamou Verbo Remoto! (sim, com essa exclamação no final). Não durou muito essa coisa terrível – “Verbo Remoto!”. Graças a sinceridade de Marcel Lins Camargo, sociólogo amigo, que no final de três meses de “Verbo Remoto!” viu chegar Palavra Antiga, que depois virou Palavrantiga, afim de dar mais sentido ao paradoxo velho/novo que sempre curti tanto.
    Palavra Antiga chegara como a composição mais próxima do disco Ventura dos Los Hermanos. Na época, eu não percebia a influência do disco dos caras na minha forma de escrever. Mas hoje, mais maduro e menos bobo, percebo que as horas que eu passava ouvindo Ventura, aquele show deles transmitido ao vivo pela rádio 98 (rádio do rock em BH) e as rodinhas de violão indie dos irmãos da igreja, contribuíram para que eu chegasse naqueles caminhos melódicos e harmônicos. Bem, só não estou satisfeito ainda, porque nunca consegui fazer um arranjo oficial de marchinha de carnaval, especialmente para os versos iniciais: “No acaso ia, não vou mais / vou pela fé na tua voz”… Pam pam pamram / Pam pam pam pam! Ei! Quem sabe agora nesse futuro que acaba de chegar!? Lá vamos nós!

  • Um Brinde – “A rua é nós!”: Frase de um missionário urbano

    Um Brinde – “A rua é nós!”: Frase de um missionário urbano

    “A rua é nós” é uma frase muito conhecida no meio daqueles que curtem rap nacional. É o grito de guerra do rapper Emicida e, como o próprio diz, não é uma coisa só dele, pois outros também podem dizer isso se viverem isso.

    De uns tempos pra cá, essa frase virou meu jargão diário: fico repetindo isso o dia todo em vários momentos que consigo adaptá-la. Principalmente em conversas com os meus amigos mais próximos, quando constantemente conversamos numa linguagem bastante informal e mandamos até freestyles durante a conversa, isso começou a fazer um sentido intrínseco na minha vida.

    Há mais ou menos dois meses atrás reativei minha vida de missionário urbano. Quando fazia parte do movimento neopentecostal, era missionário sem o cargo nominal do pastor, mas fazia a função: ia de manhã pra igreja, limpava e falava de Deus pra quem passava pela rua da mesma, a tarde ia pra aula e também evangelizava, a noite geralmente tinha culto e quando não tinha, eu ministrava para o grupo de jovens. Quando mudei de igreja, passei a ser líder de jovens em outra comunidade local. Eu sempre convivi com essa galera e fui pra essa comunidade justamente para liderar este grupo. É óbvio que eu era inexperiente, mas sabia como falar com eles, afinal eu era um deles.

    Na Escola Bíblica Dominical, sempre procurava falar um linguagem acessível para que eles entendessem que eu não era mais puro e nem merecedor, mas sim um deles. Hoje, tendo um ministério para cuidar e sabendo que preciso aprender muita coisa ainda e que não sei 1% do que preciso saber para liderar um ministério, eu levo as missões urbanas como algo mais sério. Considero uma atividade primordial na igreja e que esse é o nosso papel fundamental.

    Sobre o Emicida: conheci seu trabalho em 2014, apesar de ouvir uma música ou outra dele entre as mídias que eu tinha acesso na adolescência. Eu passei a ser fã do artista e de como sua rima fazia sentido demais para a nossa vida diária. Não só no sentido cristão, mas na vida diária mesmo, como quando você acorda atrasado para o trabalho, tendo que tomar aquele banho meia-boca, engolir um pão com café e correr para pegar o ônibus – que geralmente sai lotado de manhã. As letras do Emicida são bastante sinceras e ouvindo ele penso: se 50% dos artistas intitulados gospel fossem sinceros assim em suas letras como são as do Emicida, o gospel seria o melhor tipo de música pra se ouvir no Brasil. É só pôr a Verdade que temos através da Bíblia com o que vivemos diariamente. É isso que tentam fazer no novo movimento né? Hibernia, Tanlan, Palavrantiga, Lorena Chaves, Bruno Branco e essa galera enorme que faz um bom trabalho cristão. Sua relevância para o cristianismo e principalmente para as missões urbanas, são grandes. Basta lapidar nossa cosmovisão e entender isso. Fiquei sabendo que até o Marcos Almeida já usou uma das músicas do rapper em suas palestras.

    Mas o que essa frase em questão tem de fato a ver com as missões urbanas? Ilustrarei aqui três pontos:

    1º) A rua é um campo missionário, portanto devemos fazer parte dela. Talvez haja uma falta de compreensão enorme quando é falado “a rua é nós!’ Muitos podem achar que isso é uma expressão de posse da rua como algo tipo “é meu, ninguém chega perto” e etc. Mas uma pequena análise de concordância gramática percebemos que há uma diferença significante entre “nós” e “nossa”. “Nós” indica primeira pessoa do plural, ou seja, significa “nós fazemos parte disso”. Já “nossa” (ou “nosso”) realmente indica posse e não é isso o que a frase propõe. É mais simples para nós irmos para a rua falar de Jesus para as pessoas com a proposta de levarmos-as pra nossa comunidade local. Isso é errado? Não. Devemos mesmo discipular os novos convertidos, mas a questão é essa: o ato missionário nem sempre acaba em conversão, então nos privar da realidade das ruas porque não conseguimos atrair todos a quais pregamos, é um erro que precisa urgentemente ser corrigido. Avalie comigo: se você é um(a) trabalhador(a) ou estudante universitário, vai ter que concordar que passa 85% do dia fora de casa e boa parte desse tempo, passa nas ruas. Em outros casos, esse número aumenta para 90%, que é aquela turma muito ocupada e que só vai em casa pra dormir. Ainda vai negar que você faz parte da rua? Nós fazemos parte disso e refutamos com o argumento de que precisamos levar as pessoas para as igrejas. Ao invés de dizermos “vai e não peques mais”, dizemos “vem comigo pra minha igreja”. Talvez isso seja um vício da nossa cultura ou consequência do conceito de que é necessário achar um destino pra tudo. A rua é um campo missionário, então negar que não fazemos parte dela, é negar que somos missionários urbanos.

    2º) O maior campo missionário de Jesus foi as ruas

    Não entendo essa supervalorização dos templos quando nosso exemplo maior pregou a verdade mais nas ruas para pecadores do que em quatro paredes para santos. Não me entenda mal: não tô refutando a importância da comunidade local, como já disse, ela é importante para o discipulado, mas ela não é algo fim. Quando evangelizamos nas ruas a pergunta que mais ouvimos é “de que igreja vocês são?” Respondemos que fazemos parte de um ministério independente e que não temos ligação com nenhuma igreja institucional. E o mais engraçado nisso é que eles nos recebem bem. Talvez pelo modo que conversamos ou porque o nome de uma instituição religiosa já vem carregada de informações, mas somos bem recebidos e vemos o claro interesse das pessoas para conhecer esse “ministério independente” que falamos. Jesus andava pela ruas falando de amor e salvação, e se você tivesse vivido naquele tempo, o último lugar que você deveria procurá-lo era num templo. Não que ele não fosse lá ou algo assim, mas ele não se restringia àquele lugar. A rua é o nosso referencial de pregação e, como um simples e inexperiente missionário urbano, meu conselho é: vivam o evangelho até debaixo d’água, pois eu te garanto, Jesus viveria isso lá também. Quando dizemos que “a rua é nós”, estamos claramente dizendo que não estamos a par do mundo e nem dividindo ele entre sagrado e profano, estamos vivendo essa realidade, mesmo sendo de outra forma. Jesus não pediu para que Deus nos tirasse do mundo (das ruas) mas que nos guardasse do mal (João 17:15). Viva a rua manos!

    3º) Se a rua não for nós, ela será o crime

    Eu odeio ter que apelar para coisas que emitem uma drástica consequência, por exemplo: se você não se arrepender vai para o inferno. Mas isso que digo como o terceiro ponto da frase de Emicida, é real. Se a rua não for nós, missionários urbanos e cristãos que pregam a Verdade de Cristo, ela será continuamente esse crime doido que nos cerca. É simples proteger os nossos debaixo do teto dos nossos templos, guardá-los em nossos arrais e impedir que os impuros nos influencie para o caminho do mal. Eu lembro que quando tinha mais ou menos 9 anos, era privado de ouvir rap por ser “música de bandido”. Resultado: cresci ignorante e com a consciência de que o mundo era só paz e amor e com coisas lindas no mundo. O rap é dedo na ferida como canta o próprio Emicida e, o evangelho não é diferente: ele confronta nossos pecados e nos mostra o quanto somos inferiores e dependentes de Deus. Se não pregarmos consciente de que as pessoas que encontramos na rua são complexas e que precisam ouvir a verdade, o crime e as mazelas modernas irão dominar e aumentar o esteriótipo de que rua não é lugar de pessoas decentes. Quantas vezes já não fui parado pela polícia na rua por estar andando fora de hora comercial e isso, porque o evangelho está infelizmente restrito somente a comunidade local e a eventos evangelísticos. Relacionar-se com a cultura que estamos envolvidos virou um pecado social e que deve ser evitado. E é assim que queremos salvar os perdidos? É com essa visão fajuta das ruas que temos que queremos que o drogado, a prostituta, o ladrão, os pivetes do crime sejam salvos? Vou ficar olhando daqui sentado para não cansar, pois isso é utopia. Para o caro leitor que me acompanha aqui nessa humilde coluna, aconselho que procure ouvir a discografia do cantor, pois vamos falar muito dele ainda justamente por várias de suas músicas terem uma relevante ligação com o cristianismo.

    Papo reto: a rua é nós porque Jesus nos deixou uma missão: “E disse-lhe: ide por todo o mundo, e pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16:15) e se Ele disse para irmos pelo mundo pregar sua palavra, nada mais óbvio que procurar conhecer esse mundo que estamos envolvido. Meu conselho: sejam cristãos onde forem e isso envolve a parada de ônibus, faculdade, local de trabalho, terminal urbano, trânsito e principalmente, nas ruas. A rua é nós! Um brinde!

  • Análise: CD Innocence & Instinct – RED

    Innocence & Instinct é o segundo trabalho da RED, composto por 10 músicas, tendo 4 faixas bônus. E eu começo falando delas: a primeira é uma introdução básica de piano que traz aquela tensão de filme de terror com uma mistura – razoável – de emoção ao ver alguém partir. Overtake You, em contrapartida, é um hardcore bem executado. Forever decai um pouco o peso da anterior, mas continua com aquele peso rediano. Uma mistura pop no refrão mostra de forma mais latente o lado básico do grupo, com guitarras limpas. Nothing and Everything é uma versão acústica e um pouco mais diferente de Fight Inside, que abre o disco. Confesso que ambas as versões são muito agradáveis. Death of Me vem em seguida, mostrando que o peso do álbum ainda vai ser mostrado e que a primeira faixa foi só um prelúdio do que a banda tem a oferecer. Um fator que considero muito interessante no RED é que no mesmo tempo em que eles parecem referenciar um aglomerado de outras bandas, eles não parecem com ninguém e acabam sendo simplesmente eles. É, de longe, o trabalho mais seguro do que eles são por essência.

    Carregada de referências hard rock, Mystery of You vem em seguida, oscilando o nível de agressividade do disco. Start Again suaviza mais ainda, abrindo espaço para a faixa seguinte, Never Be the Same, que começa com um dedilhado de violão e ganha peso mais na frente. O álbum segue uma linha melódica agradável. Diferente dos outros do gênero, Innocence & Instinct não tem a intenção de mostrar solos, guturais e nem fazer com que a galera pire numa roda punk. Em contrapartida, é muito mais enfático nas conduções melódicas, como um todo. É claro que há guturais como no final de Confession (What’s Inside My Head). Mas, em comparação ao seu primeiro trabalho, que já começa meio gritado e tem uma influência eletrônica bem presente, este projeto propõe novos caminhos, mostrando a essência do grupo. É possível ver a evolução dos integrantes em Shadows. A música tem uma pegada pulsante de baixo e refrão um tanto pegajoso. Ordinary World é um cover do Duran Duran com o arranjo todo modificado e a cara da banda sendo impressa.

    Out From Under resgata o lado eletrônico do grupo e os guturais. Uma coisa que certamente agrada é a oscilação vocal apresentada pelo vocalista, que passeia dentre agudos e guturais com proficiência. Take It All Away suaviza o álbum e o fecha com chave de ouro. A canção é acústica e desperta aquela essência trovadoresca com o arranjo de cordas e piano. É um disco claramente direto, e tem poucas faixas, se adequando completamente ao que foi proposto no projeto.

  • Aeroilis – discografia e obra

    Fundada em terras catarinenses, a Aeroilis foi a primeira banda do chamado novo movimento, ocorrido no início dos anos 2000.


    Guia discográfico

    Aeroilis (Bompastor/2004): Antes do rock alternativo e do novo movimento – o tal crossover – estar em alta, a banda já chegava com um disco, com guitarras limpas, bateria com chimbau aberto e composições introspectivas, guiadas pela voz e timbre singular de Raphael Campos. (Nota: [usr 4])

    Nada Mais Além (Independente/2010): Numa sonoridade mais experimental, com teclados, sintetizadores, guiando a ambientação lírica da Aeroilis, o álbum fecha bem sua curta discografia. (Nota: [usr 4])


    Melhores músicas

    Cega Inocência, Coragem, Não Importa Mais, O Tempo, Passos Lentos e Silêncio.


    Notícias e matérias sobre a Aeroilis

    Para ver todo o conteúdo sobre ou relacionado a Aeroilis no O Propagador, clique aqui.

  • Fronteira – A Pintura Musical de Neomorphus

    Depois de duas semanas sem publicar (perdão, leitores), hoje vou expor uma obra musical minha e de meus amigos de faculdade. No meu primeiro semestre na faculdade, fiz um trabalho da matéria Circuitos Artísticos e Culturais para apresentar sobre determinado tema artístico que foi envolvido nas aulas. Como a professora não deu um modelo certo para apresentar o trabalho, qual foi a minha ideia: criar uma música sobre o tema.

    Como o trabalho envolvia produções de animações do MUMIA (Mostra Udigrudi Mundial de Animação), resolvi pegar quatros vídeos que constavam em apresentações de 7, 14 e 28 de abril organizadas pela mostra em BH (maiores informações clique aqui). Os vídeos foram: “O Homem que pintava músicas”, de Jackson Abacatu; “A Gaiola”, de Samira Daher; “Neomorphus”, do Animatório; e o curta alemão “LaNuit deL’Ours (A Noite do Urso)”, de Sam e Fred Guillaum.

    The man who painted music (O homem que pintava músicas) – Jackson Abacatu from Jackson Abacatu on Vimeo.

    “O Homem que pintava músicas”
    “O homem que pintava músicas” relaciona a música com a imagem. O vídeo conta a história de um homem chamado Votagus, um artista que buscava como todos os outros do seu ramo desenhar e pintar paisagens, pessoas e coisas. Mas Votagus também buscava expressar visualmente os ruídos, os sons, os acordes, etc. E nisso, descobriu o seu desejo: músicas de pinturas. É interessante as analogias que ele faz ao longo do vídeo, como a das notas graves representarem pessoas ranzinzas, o trítono (chamado de som do diabo) as coisas obscuras, etc.

    A Gaiola from Samira Daher on Vimeo.

    “A Gaiola”
    Esse é o mais genial. Curto, direto e simples, o vídeo tratou um tema bastante recorrente na nossa sociedade pós-moderna: a mística da liberdade. Construindo uma sátira, ela coloca os homens dentro duma gaiola, que é a própria Terra, e os pássaros como criaturas livres. É o único que não quero explicar tanto, a própria animação fala por si própria.

    Neomorphus from Animatorio on Vimeo.

    “Neomorphus”
    Esse vídeo é o mais complexo (ou eu tentei aprofundar demais e não consegui), mas é sobre uma criatura que constantemente se transforma na duração do vídeo.

    La nuit de l’ours Trailer from Cine3D Association on Vimeo.

    “LaNuit deL’Ours (A Noite do Urso)”
    Como não é brasileiro, o áudio do vídeo está em alemão e não possui links completos. Num resumo mais simples, é a história de pessoas de uma cidade que se reúnem a noite na casa de um urso (ou ursa) depois de um dia de trabalho.

    Unindo ideias desses quatro vídeos eu escrevi a seguinte canção:

    A Pintura Musical de Neomorphus

    Essa é a gaiola de Neomorphus
    E a música que ele foi pintar,
    Ele foi buscar a sua flor de lótus,
    Mas se perdeu ao ver esse luar.

    Dentro da gaiola ele se criava,
    Querendo pintar o silêncio da canção,
    E aqueles pássaros lá conversavam:
    E se nós soltássemos uma dessas mãos?

    Pintou um tom menor,
    Querendo ser maior.

    Neomorphus está procurando
    A grande casa deste Urso,
    Preso na gaiola a tanto,
    Com a alma de um mendigo.

    Era um dó menor de tanta dó
    Vivendo como um belo sol maior
    Era grave a vida, baixo em si
    Colorindo um quadro que era sobre si

    Existem notas que colorem a noite fria?
    Existe silêncio que pinta o dia?
    O menor e o maior são da mesma melodia,
    Vivendo em ré querendo ir pra lá.

    Os pombos dizem liberdade,
    Mas homens não sabem ser livres.

    Neomorphus está procurando
    A grande casa deste Urso,
    Preso na gaiola a tanto,
    Com a alma de um mendigo.

    A canção foi apresentada pela primeira vez como trabalho de Circuitos Artísticos e Culturais na sala de aula com muitos elogios por Luiz no vocal, Matheus na guitarra e backing vocal, Lucas no backing vocal e baixo improvisado no violão e eu, Thiago Junio, no violão e num backing vocal choroso e detestável.

    Ela foi reapresentada num sarau da Igreja Cristã Esperança em uma versão diferente, com mudanças tonais no refrão e reinterpretações nas notas musicais. Ficou mais interessante a nova versão, porém não foi executada com a mesma qualidade musical da sala. A nossa apresentação fica entre o trecho de 6m33segs até 8m33segs, e contém apenas uma parte da canção.

    Algo que eu tenho a impressão de ter acontecido com relação a letra da obra é que ninguém deve ter compreendido bem. Nunca neguei a subjetividade das poesias musicais, mas uma boa interpretação e buscar entender o conteúdo e as expressões artísticas do artista são tão importantes quanto as experiências pessoais ao consumir uma arte. Isso proporciona mais enriquecimento cultural, de valores, e retira o eu receptor do seu próprio mundo, possibilita o exercício da empatia, do aprendizado através do próximo e respostas para próprias perguntas que nunca conseguiu confrontar. Logo, por esse motivo eis que abrirei o véu: vou explicar a letra.

    Essa é a gaiola de Neomorphus
    E a música que ele foi pintar,
    Ele foi buscar a sua flor de lótus,
    Mas se perdeu ao ver esse luar.

    Há vários símbolos nessa estrofe que precisam ser explicados. A palavra “gaiola” foi recortada do vídeo “A Gaiola” e é o símbolo da escravidão do ego humano e da falsa liberdade.

    Neomorphus é a criatura da canção. Trazida do vídeo “Neomorphus”, simboliza alguém que constantemente se transforma para se adaptar a ideias humanas, como é enxergado na animação. A palavra “neomorphus” une outras duas: “morphus”, quem vem da palavra grega “morphe”, cujo significado é “forma”; e “neo”, que significa novo. As duas sintetizam “nova forma”.

    A “música que ele foi pintar” é uma clara referência ao “O Homem que pintava músicas”, só que o homem que expressava essa música visivelmente dentro do contexto da letra é o Neomorphus. A pintura musical de Neomorphus é a expressão de sua vida, presa dentro de uma gaiola.

    Flor de lótus” foi algo que escrevi para rimar sonoramente com “Neomorphus”, não é descrito em nenhum dos vídeos. Porém, possui sua ideia própria dentro da poesia. Apesar de simbolizar na maior parte da cultura asiática a pureza espiritual, o nascimento divino, eu peguei uma ideia particular dela: a prosperidade.

    O “luar” é o encontro com a complexidade e a beleza do mundo. Neomorphus perdeu-se nas perguntas sem respostas da humanidade ao tentar encontrar sua prosperidade, sua felicidade.

    Dentro da gaiola ele se criava,
    Querendo pintar o silêncio da canção,
    E aqueles pássaros lá conversavam:
    E se nós soltássemos uma dessas mãos?

    Neomorphus criava-se dentro da gaiola. Eu associo com frequência a palavra “criar” com tirar algo do nada, e no contexto da canção é ligado à criação da identidade, pois essa criação é a única característica que não é predefinida e nos resta formar como indivíduos carentes de uma imagem própria. Essa característica é algo impossível para o homem, já que tudo que ele faz é baseado em algo (criar difere-se de transformar, já dizia Lavoisier). Neomorphus poderia se criar? Poderia construir uma identidade?

    Essa estrofe é bastante introspectiva, o silêncio da canção confirma isso. Neomorphus, perdido pela complexidade terrena, no luar, exercitava o mergulho na interioridade, pintava uma canção que buscasse refletir o esvaziamento, silêncio do que o cercava, da humanidade, de sua ideia de prosperidade.

    Há um contraste nesse trecho, uma dialética que atormenta esses versos. Os pássaros descritos na letra é uma ideia retirada da “A Gaiola”. Dois pássaros, ao observar a gaiola dos homens, estavam conversando sobre a liberdade humana. Um pássaro pergunta ao outro:

    -E se soltássemos alguns deles?

    A reposta está na segunda ponte da canção. No entanto, percebe-se o contraste do retorno a si mesmo e a ideia da escravidão humana. Neomorphus exercitava a introspectividade porque estava percebendo que vivia dentro duma gaiola, ou pior, porque ele tentava se criar. Ao tentarmos criar um conceito de liberdade, de valores sociais, cairemos numa gaiola, ergueremos um sistema e entraremos dentro dele para que o próprio nos governe. Ah, a mística da liberdade!

    Pintou um tom menor,
    Querendo ser maior.

    A canção explora diversas facetas da vida do Neomorphus. Essa ponte de dois versos expõe um lado do personagem e um dos maiores problemas da humanidade: a hipocrisia. Baseando-se na criatividade de “O Homem que pintava músicas”, o tom menor é bastante ligado a músicas tristes. Tons menores expressa a solidão, a tristeza e a depressão. O tom maior é uma escolha melhor para quem quer demonstrar alegria e felicidade. Esses versos explora as máscaras que Neomorphus constrói de si mesmo, com sorrisos comprados, o afundando nas suas próprias mentiras que ele mesmo acredita. Ele vive no meio do vazio da contemporaneidade acreditando estar completo. Além disso, expressa a busca por lugares altos, buscando ser maior, o tom maior, mas sempre será menor, pois todos somos iguais, independente de nossas conquistas. Como diria C.S. Lewis no livro Príncipe Caspian:

    “É honra suficientemente grande para que o mendigo mais miserável possa andar de cabeça erguida, e também vergonha suficientemente grande para fazer vergar os ombros do maior imperador da Terra. Dê-se assim por satisfeito.” (1951, p. 276)

    Neomorphus está procurando
    A grande casa deste Urso,
    Preso na gaiola a tanto,
    Com a alma de um mendigo.

    Explicarei os versos com uma citação do C.S. Lewis, em Cristianismo Puro e Simples, novamente:

    “Se descubro em mim um desejo que nenhuma experiência deste mundo pode satisfazer, a explicação mais provável é que fui criado para um outro mundo.” (2005, p. 50)

    Antes de esclarecer o sentido do refrão, explicarei os símbolos encontrados nele. “A grande casa deste Urso” é uma referência a animação alemã “LaNuit deL’Ours (A Noite do Urso)”. A tal casa era onde o Urso acolhia os animais da cidade, onde ele organizava as festividades, alimentava os moradores, etc. O Urso simboliza Cristo.

    Há duas possíveis interpretações para o refrão:

    • Neomorphus, por reconhecer que era um mendigo espiritual, entender sua realidade interior e saber que estava preso a uma gaiola, buscava um descanso, um alimento que não é encontrado nesse mundo, ele desejava a grande casa. Ele queria se desprender do sistema humano, de si mesmo e poder se encontrar a Deus e, consequentemente, a si mesmo;
    • Um homem andante, desesperado, procurando um lugar, descansar das falsas ideias, de sua ilusória liberdade, com fome de algo que não sabia o que era. Ele estava apenas procurando, mas não entendia o que buscava ou não queria entender.

    Escolham por si mesmos o que querem entender.

    Era um dó menor de tanta dó
    Vivendo como um belo sol maior
    Era grave a vida, baixo em si
    Colorindo um quadro que era sobre si

    Ousei criar uma bela pintura musical nessa estrofe, com muitos jogos de palavras. Dó menor, um acorde triste só por ser menor, se relaciona com o sentimento de pena de si mesmo, mas esse Neomorphus, um cara de tanta dó, vivia como se fosse radiante como o sol. A palavra “sol” também designa um acorde musical e, no contexto da música, é maior. A estrofe trabalha, como a primeira ponte da música, as máscaras que são construídas pelo personagem. Ele era um dó menor – um cara imerso na solidão interior – vivendo como um sol maior – um acorde musical triste, mas exibindo uma alegre.

    “Si” pode ter quatro símbolos nesse trecho: geralmente, é o tom mais grave do contrabaixo, logo simboliza as trevas interiores; si também é um pronome reflexivo pessoal oblíquo, indicando introspectividade (baixo em si mesmo);  a tríade (conjunto de 3 notas musicais que formam a estrutura de um acorde) do sol maior contém o si como 3ª Maior, percebe-se então que, apesar de ser um sol radiante, ele também era um grave si; semelhante ao símbolo anterior, quando se forma um sol maior e, ao tirar a nota dominante (o próprio sol), cria-se um sol com baixo em si (G/B). Neomorphus era grave, um ser imerso numa escuridão profunda, era baixo em si. E essa era sua pintura: cores claras na visibilidade, tons escuros na sua invisível alma.

    Existem notas que colorem a noite fria?
    Existe silêncio que pinta o dia?
    O menor e o maior são da mesma melodia,
    Vivendo em ré querendo ir pra lá.

    Existem notas que colorem a noite fria? Existe silêncio que pinta o dia? Essas perguntas são retóricas, são questionamentos do eu lírico: há algo para simbolizar a minha existência sem identidade?

    A sociedade, independente de sua época, sempre levantou características para designar status sociais: o homem cultural, o inteligente, o de classe média, o universitário, o santo e religioso, determinadas profissões, o que curte determinado estilo musical e vários outros. A felicidade e a identidade são construídas sobre esses fundamentos culturais e relativos, e essas identidades qualificam o que é menor e maior. Na música, existem notas maiores e notas menores, mas o conceito dessas notas não é constituído pela sua força e magnitude, e nem pelos seus méritos sonoros. São duas notas que ocupam e tem funções diferentes numa obra sonora e tem a mesma importância. O que chamamos de maior e menor na sociedade, o engenheiro e o pedreiro, o gari e o empresário, o político e o mendigo, são todos iguais, estão na mesma melodia humana.

    “Vivendo em ré querendo ir pra lá” é um dos meus versos preferidos da canção. Ré é uma nota musical, lá também. Uma frase assim parece mostrar alguém tocando um tom, porém desejando tocar outro, um contraste em si mesmo. Mas a palavra “ré” também é significa outra coisa: retrocesso. Essa trecho simboliza o andar em círculos, uma pessoa perdida, em constante guerra consigo mesmo, ela quer ir para algum lugar que a livre de suas obscuridades interiores, para lá, criando várias miragens, no entanto vive retrocedendo, tocando o ré na vida.

    Os pombos dizem liberdade,
    Mas homens não sabem ser livres.

    Essa ponte é a resposta da segunda estrofe (Dentro da gaiola ele se criava,/ Querendo pintar o silêncio da canção,/ E aqueles pássaros lá conversavam:/ E se nós soltássemos uma dessas mãos?). Essa estrofe de duas linhas tem uma citação indireta a “A Gaiola”. Enquanto os dois pássaros observavam o funcionamento do sistema humano, eles conversavam sobre isso. Um pássaro indagou sobre a possibilidade da liberdade dos homens, porém, quando viram a reação alienada que um garoto teve quando foi liberto, ele percebeu a impossibilidade do tal:

    -E se soltássemos alguns deles?

    -Impossível.

    -Por quê?

    -Não sobreviveriam aqui fora.

    Um cara disse sobre pássaros, liberdade e homens há mais ou menos dois mil anos.

    26 Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas?
    27 E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura?
    28 E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam;
    29 E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles.
    30 Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé?
    31 Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos?
    32 Porque todas estas coisas os gentios procuram. Decerto vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas;
    33 Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.
    Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.
    Mateus 6:26-34

    Talvez esse cara queria dizer que somos escravos de nós mesmos, de sistemas egocêntricos, que a liberdade só seria encontrada num passo para a transcendentalidade. Talvez ele quisesse dizer que Neomorphus é um indivíduo que desejava buscar a sua liberdade em mais materialismo, tornando-se escravo dele. Talvez.

    Uma poesia de um amigo meu, Tiago Abreu, chamada “Onde?”, retrata nossa busca incansável por tesouros velhos, mas que não passam de miragens vazias:

    De todas as vias, um alvo
    Do início vejo o meu fim
    Onde quero chegar?
    Andando em círculos
    Dançando em círculos
    Assim vivo

    De todas as pessoas, uma
    A atenção direta e única
    A quem quero alcançar?
    Esta é minha vida
    Este é o meu mundo
    É o meu lar

    Um objetivo é meu troféu
    Empoeirado na estante
    E neste instante
    Vívido, mas distante
    Perdendo mais uma chance
    Aquela chance

    Peço, por favor
    Aumente o sabor
    Não quebre o encanto
    Não me acorde
    Não me transforme

    Neomorphus simboliza todas aquelas pessoas cansadas de serem escravizadas pelos seus eus de vazio, pelas gaiolas que todos os homens criam, que procuram a verdadeira liberdade através de um grande salto a um precipício de fé, aquelas que querem encontrar o descanso na casa do Urso. Ou simplesmente, uma música ininteligível para aqueles que não querem entender.

    Vocês escolhem.


     

    Referências

    Lewis, Clive Staples. As Crônicas de Nárnia: Príncipe Caspian. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p.276
    Lewis, Clive Staples. Cristianismo Puro e Simples. São Paulo: Martins Fontes, 2005. p. 50.
    Agenda BH, MUMIA – Mostra Udigrudi Mundial de Animação. Disponível em <http://www.agendabh.com.br/eventos_detalhes.php?CodEve=16130> Acesso em 30 de setembro de 2015.
    Significados, Significado de Flor de lótus. Disponível em <https://www.significadosbr.com.br/flor-de-lotus> Acesso em 30 de setembro de 2015.
    Luiz David S. Mendes, AULA XI – TRÍADE MAIOR e MENOR. Disponível em <http://aprendendotocaroviolao.blogspot.com.br/2012/03/aula-xi-triades-parte-1.html> Acesso em 07 de agosto de 2015.
    Wikipédia, Tríade. Disponível em <https://pt.wikipedia.org/wiki/Tr%C3%ADade> Acesso em 07 de agosto de 2015.

  • Rocklogia – De Rodolfo Abrantes a Militantes

    Ninguém é louco de dizer que um disco, lançado lá nos idos de 1994, chamado Raimundos, não foi de extrema importância para o rock brasileiro. Quando esses ‘caras’ produziram uma obra contendo clássicos que misturavam hardcore, punk, forró e outros gêneros tipicamente brasileiros e revelou canções como “Puteiro em João Pessoa” e “Nêga Jurema”, o país conhecia um quarteto que se estabelecia, especialmente, pela criatividade de um guitarrista chamado Rodolfo.

    Enquanto outras bandas, como o Legião Urbana, se despediam ou se afundavam em melancolias, esses sujeitos de Brasília se jogavam a um som cheio de atitude, humor e energia, que marcaram a cena nos anos 90. A história mostraria que a intensidade ainda se seguiu com o disco sucessor, Lavô Tá Novo (1995), que revelou “Esporrei na Manivela” e “Eu Quero Ver o Oco” e a mistura musical que faziam, chamada de forrocore. E no sucesso meteórico do Mamonas, então (que mesmo tendo uma vibe musical distinta, era fortemente adepta do humor), o Raimundos encontrava legitimidade para o meio, que sofria retrações comerciais frente ao sertanejo e pagode.

    Mais tarde, escorregaram com Lapadas do Povo (1997), mas certamente a banda teve o atestado de que, naquela altura do campeonato, a grande massa e a indústria não estava levando o rock (embalado nos Acústicos MTV) tão a sério. Com um disco mais direto, complexo, estranho e próximo ao hardcore, a banda teve imensa dificuldade de se inserir nas rádios. A única opção, então, era retornar a caricatura que os fizeram conhecidos, mas sempre a inserir uma certa crítica bem implícita. A capa de Só No Forévis (1999), maior sucesso comercial do Raimundos, já tecia, com uma dose certeira de ironia e bom-humor, a declaração de que os ‘pagodeiros’ estavam tomando espaço. “Me Lambe”, “A Mais Pedida” e o enorme hit “Mulher de Fases” era uma amostra das várias boas músicas no repertório, como “Fome do Cão” e “Alegria”. Fecharam os anos 90 com um sucesso que nenhuma outra banda, nos anos 2000, emplacou.

    Se o sucesso do grupo estava cada vez maior, seu guitarrista e principal letrista, Rodolfo, não estava em seus melhores momentos. O músico, que sempre enfatiza isso, tornou-se cristão protestante após afundar no vício em drogas, o que mudaria fortemente sua visão acerca das coisas. Agora, tomando uma nova “ótica”, Abrantes notou que estava sendo um “personagem”, e para não se tornar uma mera caricatura decadente, optou deixar a banda em 2001.

    O Rodox surgiu em seguida, com o disco Estreito, cujas canções, por vezes, falam abertamente da nova fé de Rodolfo. “Olhos Abertos” abre o disco com frases como “Mais de uma coisa eu sei / Foi o homem quem criou a lei / Que eu conheço e não sigo / Hoje eu só sirvo ao meu Rei” e é seguido por “Não Lembro Mais” e seu trecho “Já não sou mais eu quem está na direção“. O grande feito do Rodox, talvez, é de ter chamado a atenção de dois diferentes públicos: parte do público cristão, menos legalista e mais ligado ao rock, e ao público não-religioso, que acompanhou a banda por consequência do caso Rodolfo. Musicalmente, era um grupo com excelentes músicos, trazendo até Canisso, ex-colega de Raimundos, na última formação. Mas aquele equilíbrio estético entre as boas letras, sem qualquer proselitismo, e as experiências de fé de Rodolfo tinha um curtíssimo prazo de validade. Logo Abrantes queria promover suas crenças sem a aprovação de seus colegas, a gota d’água.

    Punk e cristianismo, uma mistura possível ou estranha? Seja qual a resposta, uma banda, em cenário protestante, chamava a atenção naquele período. Militantes, conjunto surgido no fim dos anos 90, chegava em 2004 com o seu segundo disco de inéditas, Escute o que Digo e Faça como eu Faço. Com letras menos religiosas que o anterior, o trabalho, que foi distribuído pela gravadora Gospel Records, trouxe a participação de Rodolfo na música “Velho Homem”.

    Se os Militantes alçavam, a cada projeto, em trabalhos mais complexos e menos religiosos, Rodolfo foi exatamente ao contrário. Seu primeiro disco totalmente solo, Santidade ao Senhor, deu as pistas do caminho que o músico seguiria deste então: letras presas ao “evangeliquês”, que versam seu novo momento sem qualquer autocensura. Além da sonoridade não se comparar aos anos de Rodox, as canções acabaram soando compreensíveis apenas para a massa evangélica, o que é uma pena.

    Os Militantes chegaram a 2010 com o seu disco mais agressivo e direto, Destrua o Controle, com canções que, em maioria, fazem críticas diretas a mídia, política e economia. Algumas músicas já soaram completamente sem qualquer traço de religiosidade, e o som, mais agressivo do que nunca.