“A rua é nós” é uma frase muito conhecida no meio daqueles que curtem rap nacional. É o grito de guerra do rapper Emicida e, como o próprio diz, não é uma coisa só dele, pois outros também podem dizer isso se viverem isso.
De uns tempos pra cá, essa frase virou meu jargão diário: fico repetindo isso o dia todo em vários momentos que consigo adaptá-la. Principalmente em conversas com os meus amigos mais próximos, quando constantemente conversamos numa linguagem bastante informal e mandamos até freestyles durante a conversa, isso começou a fazer um sentido intrínseco na minha vida.
Há mais ou menos dois meses atrás reativei minha vida de missionário urbano. Quando fazia parte do movimento neopentecostal, era missionário sem o cargo nominal do pastor, mas fazia a função: ia de manhã pra igreja, limpava e falava de Deus pra quem passava pela rua da mesma, a tarde ia pra aula e também evangelizava, a noite geralmente tinha culto e quando não tinha, eu ministrava para o grupo de jovens. Quando mudei de igreja, passei a ser líder de jovens em outra comunidade local. Eu sempre convivi com essa galera e fui pra essa comunidade justamente para liderar este grupo. É óbvio que eu era inexperiente, mas sabia como falar com eles, afinal eu era um deles.
Na Escola Bíblica Dominical, sempre procurava falar um linguagem acessível para que eles entendessem que eu não era mais puro e nem merecedor, mas sim um deles. Hoje, tendo um ministério para cuidar e sabendo que preciso aprender muita coisa ainda e que não sei 1% do que preciso saber para liderar um ministério, eu levo as missões urbanas como algo mais sério. Considero uma atividade primordial na igreja e que esse é o nosso papel fundamental.
Sobre o Emicida: conheci seu trabalho em 2014, apesar de ouvir uma música ou outra dele entre as mídias que eu tinha acesso na adolescência. Eu passei a ser fã do artista e de como sua rima fazia sentido demais para a nossa vida diária. Não só no sentido cristão, mas na vida diária mesmo, como quando você acorda atrasado para o trabalho, tendo que tomar aquele banho meia-boca, engolir um pão com café e correr para pegar o ônibus – que geralmente sai lotado de manhã. As letras do Emicida são bastante sinceras e ouvindo ele penso: se 50% dos artistas intitulados gospel fossem sinceros assim em suas letras como são as do Emicida, o gospel seria o melhor tipo de música pra se ouvir no Brasil. É só pôr a Verdade que temos através da Bíblia com o que vivemos diariamente. É isso que tentam fazer no novo movimento né? Hibernia, Tanlan, Palavrantiga, Lorena Chaves, Bruno Branco e essa galera enorme que faz um bom trabalho cristão. Sua relevância para o cristianismo e principalmente para as missões urbanas, são grandes. Basta lapidar nossa cosmovisão e entender isso. Fiquei sabendo que até o Marcos Almeida já usou uma das músicas do rapper em suas palestras.
Mas o que essa frase em questão tem de fato a ver com as missões urbanas? Ilustrarei aqui três pontos:
1º) A rua é um campo missionário, portanto devemos fazer parte dela. Talvez haja uma falta de compreensão enorme quando é falado “a rua é nós!’ Muitos podem achar que isso é uma expressão de posse da rua como algo tipo “é meu, ninguém chega perto” e etc. Mas uma pequena análise de concordância gramática percebemos que há uma diferença significante entre “nós” e “nossa”. “Nós” indica primeira pessoa do plural, ou seja, significa “nós fazemos parte disso”. Já “nossa” (ou “nosso”) realmente indica posse e não é isso o que a frase propõe. É mais simples para nós irmos para a rua falar de Jesus para as pessoas com a proposta de levarmos-as pra nossa comunidade local. Isso é errado? Não. Devemos mesmo discipular os novos convertidos, mas a questão é essa: o ato missionário nem sempre acaba em conversão, então nos privar da realidade das ruas porque não conseguimos atrair todos a quais pregamos, é um erro que precisa urgentemente ser corrigido. Avalie comigo: se você é um(a) trabalhador(a) ou estudante universitário, vai ter que concordar que passa 85% do dia fora de casa e boa parte desse tempo, passa nas ruas. Em outros casos, esse número aumenta para 90%, que é aquela turma muito ocupada e que só vai em casa pra dormir. Ainda vai negar que você faz parte da rua? Nós fazemos parte disso e refutamos com o argumento de que precisamos levar as pessoas para as igrejas. Ao invés de dizermos “vai e não peques mais”, dizemos “vem comigo pra minha igreja”. Talvez isso seja um vício da nossa cultura ou consequência do conceito de que é necessário achar um destino pra tudo. A rua é um campo missionário, então negar que não fazemos parte dela, é negar que somos missionários urbanos.
2º) O maior campo missionário de Jesus foi as ruas
Não entendo essa supervalorização dos templos quando nosso exemplo maior pregou a verdade mais nas ruas para pecadores do que em quatro paredes para santos. Não me entenda mal: não tô refutando a importância da comunidade local, como já disse, ela é importante para o discipulado, mas ela não é algo fim. Quando evangelizamos nas ruas a pergunta que mais ouvimos é “de que igreja vocês são?” Respondemos que fazemos parte de um ministério independente e que não temos ligação com nenhuma igreja institucional. E o mais engraçado nisso é que eles nos recebem bem. Talvez pelo modo que conversamos ou porque o nome de uma instituição religiosa já vem carregada de informações, mas somos bem recebidos e vemos o claro interesse das pessoas para conhecer esse “ministério independente” que falamos. Jesus andava pela ruas falando de amor e salvação, e se você tivesse vivido naquele tempo, o último lugar que você deveria procurá-lo era num templo. Não que ele não fosse lá ou algo assim, mas ele não se restringia àquele lugar. A rua é o nosso referencial de pregação e, como um simples e inexperiente missionário urbano, meu conselho é: vivam o evangelho até debaixo d’água, pois eu te garanto, Jesus viveria isso lá também. Quando dizemos que “a rua é nós”, estamos claramente dizendo que não estamos a par do mundo e nem dividindo ele entre sagrado e profano, estamos vivendo essa realidade, mesmo sendo de outra forma. Jesus não pediu para que Deus nos tirasse do mundo (das ruas) mas que nos guardasse do mal (João 17:15). Viva a rua manos!
3º) Se a rua não for nós, ela será o crime
Eu odeio ter que apelar para coisas que emitem uma drástica consequência, por exemplo: se você não se arrepender vai para o inferno. Mas isso que digo como o terceiro ponto da frase de Emicida, é real. Se a rua não for nós, missionários urbanos e cristãos que pregam a Verdade de Cristo, ela será continuamente esse crime doido que nos cerca. É simples proteger os nossos debaixo do teto dos nossos templos, guardá-los em nossos arrais e impedir que os impuros nos influencie para o caminho do mal. Eu lembro que quando tinha mais ou menos 9 anos, era privado de ouvir rap por ser “música de bandido”. Resultado: cresci ignorante e com a consciência de que o mundo era só paz e amor e com coisas lindas no mundo. O rap é dedo na ferida como canta o próprio Emicida e, o evangelho não é diferente: ele confronta nossos pecados e nos mostra o quanto somos inferiores e dependentes de Deus. Se não pregarmos consciente de que as pessoas que encontramos na rua são complexas e que precisam ouvir a verdade, o crime e as mazelas modernas irão dominar e aumentar o esteriótipo de que rua não é lugar de pessoas decentes. Quantas vezes já não fui parado pela polícia na rua por estar andando fora de hora comercial e isso, porque o evangelho está infelizmente restrito somente a comunidade local e a eventos evangelísticos. Relacionar-se com a cultura que estamos envolvidos virou um pecado social e que deve ser evitado. E é assim que queremos salvar os perdidos? É com essa visão fajuta das ruas que temos que queremos que o drogado, a prostituta, o ladrão, os pivetes do crime sejam salvos? Vou ficar olhando daqui sentado para não cansar, pois isso é utopia. Para o caro leitor que me acompanha aqui nessa humilde coluna, aconselho que procure ouvir a discografia do cantor, pois vamos falar muito dele ainda justamente por várias de suas músicas terem uma relevante ligação com o cristianismo.
Papo reto: a rua é nós porque Jesus nos deixou uma missão: “E disse-lhe: ide por todo o mundo, e pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16:15) e se Ele disse para irmos pelo mundo pregar sua palavra, nada mais óbvio que procurar conhecer esse mundo que estamos envolvido. Meu conselho: sejam cristãos onde forem e isso envolve a parada de ônibus, faculdade, local de trabalho, terminal urbano, trânsito e principalmente, nas ruas. A rua é nós! Um brinde!

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