Rocklogia – Esperar é caminhar sobre o mesmo chão

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Após o lançamento do EP, a Palavrantiga seguiu com o produtor Lúcio Souza, o SILVA, e Jordan Macedo, e gravou Esperar é Caminhar. Este disco, cuja distribuição ficou a cargo da CanZion, conteve quatro das seis faixas do disco anterior, mais uma série de inéditas, todas assinadas por Marcos Almeida.

Neste álbum, o cantor Thalles participa na faixa-título: “Em junho de 2009, conheci o Thalles quando ele esteve no Polo Estúdio para gravar uma participação no disco do Palavrantiga, que, na época, estava sendo produzido. Desde então, ele decidiu finalizar Na Sala do Pai comigo, apesar de já ter iniciado a gravação em outro estúdio”, disse Jordan ao Super Gospel.

O lançamento do disco catapultou a popularidade do grupo, com canções como “Seguro Vou”, “Amor que nos Faz Um”, e principalmente “Rookmaaker”. Para completar, o disco foi masterizado no Abbey Road Studios, o que de certa forma foi um diferencial importante. Sonoramente, o disco tem referências bem explícitas ao britpop.

Mais tarde, no segundo semestre de 2011, o grupo gravou um Recife um álbum ao vivo que teve o lançamento cancelado. O título era Uma Noite em Recife e foi completamente engavetado. Por outro lado, a banda seria contratada pela Som Livre, selo pelo qual gravariam e distribuiriam um novo projeto.

Em 2012, o novo disco, de título Sobre o Mesmo Chão, seria decisivo na filosofia do grupo. Foi gravado no estúdio da banda Diante do Trono, com um repertório autoral de Marcos. O compositor afirmou, em entrevistas, que as influências para o álbum foram totalmente diferentes do primeiro, a começar pela vida de homem casado que estava começando a ter. As letras deste disco foram mais ousadas, mas não foi tão unânime quanto o anterior. Por exemplo, um jornalista do portal Fita Bruta, site conhecido por suas análises por vezes polêmicas, considerou o disco morno, hermético e as ideias do grupo bastante confusas. Os portais de música cristã, no entanto, foram amplamente favoráveis a obra. A produção musical ficou, novamente, a cargo de Jordan Macedo.

Algo incomum aconteceu na época de lançamento do álbum, que foi a participação do Palavrantiga no programa da Rede Super, 6ª Básica. Além do quarteto, era noite de Oficina G3. Juninho Afram e Marcos Almeida, representando as duas bandas, falaram sobre a carreira e novos projetos. Depois, Mauro Henrique ainda cantou “Feito de Barro” com o Palavrantiga. A Igreja Batista da Lagoinha, nesta noite, ficou lotada.

https://www.youtube.com/watch?v=2Cr5RnLvdGI

Após o lançamento do disco, o clipe da canção “Rio Torto” foi divulgada, e Marcos participaria de uma faixa num disco da Tanlan, o qual falaremos no próximo post. Muitas coisas no grupo ocorreria nestes breves anos.

Naquela altura do campeonato, era óbvio que a banda chamava a atenção. Eles saíram do underground, como nomes do extinto novo movimento, trazem de vez a palavra crossover para a discussão no mercado, mas era Marcos Almeida, ali, que se preparava para dar mais passos. Apesar de toda a contribuição sonora da cozinha, o vocalista e letrista decidiu traçar seus rumos, sozinho, enquanto a banda seguiria, ao menos teoricamente, com um novo vocalista.

Mais de um ano depois, o silêncio continua, e é muito cedo para qualquer um “teorizar” a importância que a curta discografia da banda tem na história do rock produzido por cristãos no Brasil.

Enquanto isso, Marcos já produziu single, gravou disco ao vivo e planeja lançamento inédito para 2016.

https://www.youtube.com/watch?v=SPZgo9SDI3o


Retalhos

Em 2015, Marcos Almeida falou um pouco sobre suas composições. Decidimos reproduzir, abaixo, seus comentários.

Branca [2011]: Nenhum móvel sequer no apartamento. Apenas um modem de internet wireless e um violão. A emoção de entrar no nosso futuro lar ainda é viva na minha memória. Eu estava sozinho e aproveitei o reverb do quarto vazio para dar vazão àquele sentimento em erupção. Foi impressionante; o primeiro acorde que toquei? Um Sol menor com décima terceira e logo, de imediato, como que soprado por Ele, veio a melodia pra ela: “Branca, acordei você”…

Casa [2006]: Só consegui acreditar que a dupla Chrystian e Ralf gravaria a minha composição depois de gravada.
Eu dava aula no Colégio Presbiteriano de Belo Horizonte e foi no intervalo que corri na sala dos professores, abri o computador, baixei o mp3 e, ainda sem fé, comecei a escutar o que eles tinham feito. Confesso que me emocionei. Por muitas razões: era uma homenagem de uma dupla que eu nunca conheci pessoalmente e até hoje não tenho contato com eles. Era Chrystian e Ralf do hit “tinha um sonho ir pra Nova York”, que a gente cantava em casa quando era criança! Era uma dupla sertaneja gravando uma canção de rock e aumentando o ganho da distorção ainda mais – sim, eles conseguiram ser mais roquenrou que o Palavrantiga. Era eu, um iniciante no mundo da música, que de repente começava a receber ligação de gente importante querendo saber mais do meu trabalho como autor.

“Casa” é minha obra prima, obra prima no sentido de primeira obra, porque depois dela entendi que poderia ser compositor com um caminho próprio. Olha, estou mais seguro hoje do que nunca, quase 10 anos depois de ter escrito essa canção, que não posso receber todos os créditos por ela. Na verdade, tudo aconteceu por causa Dele, o Deus gracioso que jamais nos abandonou. O Deus da obra, que trabalha na gente e através da gente, numa misteriosa jornada de cooperação,tornando possível o absurdo: uma estranha dupla, uma mística dupla. Casa e Dono da Casa!

Vem Me Socorrer [2008]: Estávamos no estúdio do SKANK em Belo Horizonte gravando uma participação para o programa Feira Moderna da REDE MINAS. O Henrique Portugal escolheu 4 bandas da cena independente, entre elas a belíssima TRANSMISSOR, da qual eu me tornaria um fã logo depois daquele dia.
A brincadeira era assim: cada banda tocava duas – uma releitura e outra autoral. Levei para os meninos do Palavra – nesse dia só o baterista não participou – a surpreendente “Todos estão surdos”, do Roberto Carlos e uma inédita de minha autoria: “Vem me socorrer”. Tivemos o luxo de tocar as duas com o Henrique Portugal fazendo um Rhods cheio de sentimento.
O curioso aconteceu nos bastidores. Fiquei sabendo disso depois. Quando o técnico do estúdio – uma figura bastante conhecida da cena musical belorizontina – me ouviu cantar o refrão de “Vem me socorrer”, muito surpreso perguntou para a equipe: “ele disse ‘Deus’? Foi isso mesmo!?” Ao que responderam pra ele: “sim, o cara disse Deus!”. O técnico, como que não acreditando no que ouvia, e com muito entusiasmo, foi enfático na sua alegria soltando um clássico palavrão : “do CARAL**O!!”.
“Vem me socorrer” hoje é tocada em bares e igrejas. Foi mais longe do que eu imaginava. É a música da vida de muita gente. Outro dia recebi uma mensagem dizendo: “minha mulher começou a sentir as contrações e corremos para o hospital. Quando entramos no carro ela disse: coloca “Vem me socorrer”, me acalma. E a nossa filha se preparou para vir ao mundo ao som da sua música”! Muito lindo, não?!
“Vem me socorrer” é um grito, e como percebeu o cara do estúdio, do jeito dele, de fato essa não é mais uma canção de amor!

Deus, Onde Estás? [2007]: Estava em casa e recebi um telefonema. Era minha mãe dizendo que não tinha jeito, teria que fazer uma delicada operação que há anos tentava evitar com outros tratamentos. O médico disse que era um procedimento urgente que (talvez) resolveria o problema, mas disse também que não era uma cirurgia fácil.
A gente lida com a dor de forma muito arbitrária, damos audiência às diversas formas de sofrimento que passam nos canais de notícias, às versões impressas nos jornais; ou quando conversamos com algum vizinho ali tem sempre uma tragédia sendo relatada e nada disso incomoda de verdade. A não ser que aconteça com quem amamos. Aí tudo muda. Dói de verdade.
Mas, aprendi uma coisa: quando sentimos uma dor de verdade, ela nos abre um campo de inédita sensibilidade, fazendo a gente perceber um mundo que já estava ali – só não tínhamos visto antes. A cirurgia de minha mãe e a dor que senti com essa notícia me abriram uma paisagem a princípio detestável, estava diante daquela matéria mais difícil da vida, que os filósofos e teólogos lutam tanto pra explicar: o Sofrimento Humano. A natureza do mal, por que o mundo é assim… E é nesse momento que crentes e ateus se encontram com a mesma pergunta: se o mundo é injusto, como pode existir um Deus justo? Deus, onde estás???

Rio Torto [2012]: A gestação de uma nova canção pode durar meses. É um assunto que incomoda o compositor, um problema para resolver, mas que precisa descansar no inconsciente para em algum misterioso momento ser iluminado por uma Idéia que chega como uma grande descoberta, um espanto. “Rio Torto” é dessas canções. E quase três anos depois ainda consigo sentir aquela emoção de estar cantando algo nascido das regiões mais íntimas da minha alma, por isso ainda meio incompreensível, mas que foi iluminado pela Graça.

Partiu [2011]: Inspirado no primeiro homem a quebrar aquela ideia de que a vida é circular, fiz essa canção. Antes dele, estaríamos repetindo a vida dos nossos pais, estaríamos presos ao que construíram, à geografia em que nascemos, ao ambiente que nos deram; e como um karma, seria impossível se libertar desse destino repetitivo, estaríamos presos a um círculo. Abraão partiu, quando ainda era apenas Abrão filho de Terá. Partiu e desfez o círculo. Partiu e esticou a linha. Partiu e ganhou um novo nome. Partiu e inventou a jornada!

Minha Menina [2011]: Quintana já disse: “nunca me perguntes o assunto de um poema: um poema sempre fala de outra coisa.” Rubem Alves me ensinou a responder assim: “o que eu quis dizer é exatamente isso que escrevi. Porque, se eu quisesse dizer outra coisa, teria escrito diferente.”

Os dois estão tocando no mesmo ponto; que, a não ser que alguém revele, não é possível saber “a outra coisa”, “a outra interpretação”, apenas a minha coisa, a minha interpretação. Um poema em si é a melhor “revelação” que o poeta pode nos oferecer, até que ele faça outro e mais outro e mais outro, na tentativa de ver melhor o que aponta.

Eu incentivo sempre os meus amigos a buscar a interpretação mais pessoal que puderem ter. A beleza disso é deixar ouvir o que a canção canta em mim, os efeitos desse som na grande sala do coração.

“Minha Menina” tem participado de inúmeros roteiros e narrativas aonde chega. Deixou de ser apenas minha, mas continua uma menina, insegura e carente de amor.

Sagrado [2011]: “Sagrado” nasce depois de eu ter andado algum tempo no meio de avivalistas, de ver de perto certas estruturas religiosas já corrompidas pela filosofia do “conquistar e dominar” e sobretudo de verificar o resultado prático na vida daqueles que defendiam essa onda. Foi um choque perceber que aquilo que 10 anos antes era sagrado na vida de tantos amigos, passou a animar as rodas de piada; eles agora riam do misterioso e intocável. A constatação não foi outra, e foi imediata: “é que o sagrado se tornou hilário…”

Rookmaaker [2010]: Tenho guardado na caixa de e-mails dezenas de cartas, recebidas de várias partes do país, com a pergunta: quem é Rookmaaker? “Não achei nada na internet” ou “ouvi a música doidona que você cantou no show, quero saber mais”; “velho, você fumou o que?”. E coisas do tipo… De fato, na época, se alguém procurasse e encontrasse dois ou três links em português sobre Rookmaaker, ficaria contente. Passados 5 anos, o Google chega a apontar quase 100.000 menções desse nome tão importante na história recente da renovação intelectual da nossa juventude. Livros foram lançados pela Ultimato, artigos acadêmicos nasceram, covers da canção se espalharam no YouTube…
O barulho foi tão grande que Marleen Rookmaaker, filha de Hans, chegou a mandar uma mensagem, antes do nosso inesquecível encontro em Natal, que me enche de alegria até hoje! “apreciamos muito os vídeos da canção no Youtube… Gostamos muito de ver a animada resposta do público e que as pessoas cantam junto nas apresentações. Apreciamos também a entrevista no rádio, apesar de compreendermos muito pouco por não falarmos português. É maravilhoso ver isso acontecendo no Brasil nesse momento. Ah! Achamos muito engraçada a maneira que vocês pronunciam Rookmaaker /rukimaki/! Por fim, consideramos toda essa manifestação cultural muito especial. Tenho certeza que meu pai teria ficado com muito orgulho.” Da pronúncia ela achou graça, mas morreria de rir se ouvisse alguns bilíngues que dizem “ruquimeiquer”, como se fosse uma palavra inglesa, ou outros que chegam a cantar algo próximo à “riquimartin”! Depois dessa mensagem, como disse, nos encontramos em Natal. Seu esposo é o cara mais gentil que já conheci… Tivemos a oportunidade de conversar durante quase 3 horas, sobre seu pai, sobre arte, brasilidade, os tempos na Holanda e Suíça… E tudo começou despretensiosamente com uma canção…

Sobre o Mesmo Chão [2010]: Havia dito em uma entrevista que o trabalho dos novos artistas era, também, o de conseguir criar novas categorias de pensamento que superassem a oposição gospel/secular (especialmente, enquanto fórmula de comunicação). Cheguei a apresentar o “esperances” como vocabulário dessa aventura e a distinção entre gênero musical e circuito cultural como base para invenção de um espaço mais criativo para todos nós.

Alguém comentou a entrevista dizendo algo do tipo: “vocês estão é em cima do muro, cuidado”. Logo em seguida, um outro comentário, só que com outra perspectiva: “eles não estão em cima do muro… Sabem que quem já foi criança não vê dificuldade em saltar muros. Pois, todos os muros estão sobre o mesmo chão.” Uau! Aquilo foi um lampejo, uma revelação! Existiria, então, algo anterior e mais importante que o muro, aquilo que sustenta o peso de todas as diferenças, aquilo que nos torna iguais: o chão! Devo ao Guilherme de Carvalho, amigo e filosofo mineiro, autor desse último comentário, todas as imagens de liberdade que essa canção tão importante traz em si.

Boa Nova [2009]: Ela passou a ser um hino para quem cansou de teologizar a fé sem ver o resultado numa vida prática, real e humana. É uma obra contra o religiosismo, contra o filosofismo, contra os debates intermináveis e tolos que não levam em conta o encontro com a realidade do Amor. Aquele Amor que me faz bem, me deixa amar, sem perguntar a quem.

De Manhã [2012]: Como uma necessidade imperiosa. Não tive como escapar. Uma certa saudade, já conhecida e experimentada, surgiu no meu coração. Fui para a varanda e com o violão em mãos tentei ouvir minha alma. Fiz de tudo para que nada interrompesse, na minha mente, aquele sussurro interior.
Quis falar com Deus. Quis ficar a sós com Ele. Lembrei, enquanto dedilhava o violão, que aquilo não seria um monólogo, uma prosa imanente. Me agarrei nas palavras Dele: “jamais te deixarei”. E senti que Ele estava ali me abraçando.

Hoje Tem Guerra [2007]: “Hoje tem guerra” anunciava para mim a possibilidade de uma música que canta os temas mais profundos (guerra e paz, amor e distância, tempo e eternidade) mas sem formalidades. O próprio refrão em lá, lá, lá, uma reminiscência de rock anos 60, alguma coisa Beatles, deixou a canção mais leve. Foi um achado aquele acorde inicial: um Ré Maior, com sétima maior, décima primeira aumentada e a sétima maior dobrando uma oitava acima [D7M (#11)]. Essa coisa brasileira na harmonia, coloca essa e outras canções que fiz mais perto da tradição bossa-nova atualizada nos Novos Baianos, grupo que juntamente com o Clube da Esquina apontam infinitas combinações entre as intenções do Rock e a tal MPB.

Eu Olhei o Meu Dia [2007]: A construção da harmonia veio primeiro e poucos minutos depois eu já estava cantarolando alguma coisa parecida com: “eu olhei o meu dia, percebi que tu és melhor que uma canção de amor…”. A linha melódica foi me levando para outros blocos harmônicos, o Lá menor se tornou maior no refrão e eu tinha agora uma outra cor para trabalhar. Foi então que cheguei na letra: “me esconda em Ti, meu Deus eu preciso andar no teu caminho…” Depois dessas duas partes prontas, resolvi voltar na parte A e fazer uma segunda letra para ser cantada na repetição. Só que agora ao invés de ir do tom menor para o maior, o caminho era contrário; estava voltando do maior para o menor – precisei de uma ponte! Gastei um tempo pensando em como resolver isso e mais uma vez a melodia me ajudou a escolher os acordes certos para a transição.
“Eu olhei o meu dia” é uma das canções que mais me realiza nesse aspecto harmônico. O Lúcio Souza, produtor da gravação que foi feita com o Palavrantiga, soube valorizar essa atmosfera quando minuciosamente inseriu aquele timbre de teclado tão marcante.

Amor que nos Faz Um [2007]: Foi um ano em que ouvi Bob Marley um tanto! Nas férias da faculdade em 2007 eu acordava e dormia ouvindo “Exodus”, “One Love”, “Get up, Stand Up”, “Is This Love”… Eu queria fazer música como Bob Marley!!! Ele mostrava ser possível criar uma música profundamente espiritual e ao mesmo tempo alegre e dançante. Ele conseguia colocar dentro do discurso social e político a sua esperança e isso pra mim era fascinante.
“Amor que nos faz um” é a minha primeira tentativa de expressar esse sentimento reggae que me habita. Essa vontade de ver as pessoas juntas, superando os discursos religiosos e misticistas, se encontrando.

Esperar é Caminhar [2006]: Todo o sentido peregrino da minha fé se tornou claro quando assistindo ao seriado “Hoje é dia de Maria”, a personagem principal diz: “Vamo, Maria, que esperança num é esperá! Esperança é caminhá!”. Guardei essa revelação durante um tempo no meu coração e isso foi gerando versos, melodias e ideias que transformei em canção meses depois.
A minisérie foi exibida em 2005 pela Rede Globo. Mas, foi só depois de entrarmos para estúdio em 2008, com o trabalho já mixado, que percebi o óbvio: essa música não deveria se chamar “Espero em Ti”, como eu a chamava até então. A parte principal da letra que revela todo o paradoxo guardado em meu coração desde aquele dia que assisti a minisérie estava no final do último verso: “esperar em Ti é sempre caminhar”. Esperar é Caminhar. Era isso! Era Abraão resolvendo Babel, era Maria me ajudando a entender a narrativa cristã: que esperar vem de esperança e aquele que tem esperança caminha!

Palavra Antiga [2007]: São tantos lados de uma mesma canção, mas aqui só cabe pedaço, fragmento, retalho.
Essa canção de 2007 eu escrevi antes mesmo de formar a banda que todos vocês conhecem com o mesmo nome (ou o mesmo som, a escrita que difere – num grande detalhe que poucos percebem de cara).
Durante um curto período, o grupo de rock se chamou Verbo Remoto! (sim, com essa exclamação no final). Não durou muito essa coisa terrível – “Verbo Remoto!”. Graças a sinceridade de Marcel Lins Camargo, sociólogo amigo, que no final de três meses de “Verbo Remoto!” viu chegar Palavra Antiga, que depois virou Palavrantiga, afim de dar mais sentido ao paradoxo velho/novo que sempre curti tanto.
Palavra Antiga chegara como a composição mais próxima do disco Ventura dos Los Hermanos. Na época, eu não percebia a influência do disco dos caras na minha forma de escrever. Mas hoje, mais maduro e menos bobo, percebo que as horas que eu passava ouvindo Ventura, aquele show deles transmitido ao vivo pela rádio 98 (rádio do rock em BH) e as rodinhas de violão indie dos irmãos da igreja, contribuíram para que eu chegasse naqueles caminhos melódicos e harmônicos. Bem, só não estou satisfeito ainda, porque nunca consegui fazer um arranjo oficial de marchinha de carnaval, especialmente para os versos iniciais: “No acaso ia, não vou mais / vou pela fé na tua voz”… Pam pam pamram / Pam pam pam pam! Ei! Quem sabe agora nesse futuro que acaba de chegar!? Lá vamos nós!

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