Categoria: Rocklogia

  • Rocklogia – The End

    Tive uma missão árdua, difícil e de grande responsabilidade este ano, aqui no O Propagador: escrever o primeiro post do ano, e agora o último. Passou-se um ano, e tão rapidamente… um ano difícil.

    E é com pesar, mas ao mesmo tempo satisfeito, que anuncio hoje, no findar de 2015, o fim da coluna Rocklogia aqui no O Propagador.

    Durante esta época de Rocklogia, tive a oportunidade de reproduzir, com minhas palavras e visões, um pouco de tudo o que já li em algumas monografias, teses de mestrado e doutorado sobre o rock cristão brasileiro, livros, notícias, entrevistas e fóruns de cada época. É claro que houveram vários erros de informação, algumas das vezes por simples confusão minha, em outras por imprecisões e omissões que já existiam nas fontes. E fiquem tranquilos, os erros cometidos foram corrigidos, e por mais que já estão ajustados, me deixaram constrangido. Aqui, faço uma menção especial ao maior erro da coluna, num post sobre o Fruto Sagrado lá nos primeiros meses do ano, cujo ex-integrante da banda, Flávio Amorim, me alertou e prontamente corrigi (acabei confundindo os integrantes na hora de escrever algo).

    Na verdade, o que me faz terminar a Rocklogia aqui é um projeto pessoal: contar e analisar, criticamente, uma história do rock cristão brasileiro, em um livro. Tenho lido e pesquisado sobre o assunto desde 2011. Há mais de dois anos, pessoas me sugeriram, mas sempre temi, afinal, é uma missão muito difícil, especialmente para mim, que sou muito jovem. Mas, anos depois, decidi aceitar o desafio, e me porei diante dele. Os textos, publicados aqui, então, são apenas rascunhos. O que eu pretendo fazer é algo muito mais profundo, e que promete citar várias bandas e acontecimentos não mencionados durante este tempo. Por isso, caso você tenha sugestões de conteúdos que faltaram, ou que poderiam ser melhor desenvolvidos, comente aqui ou entre em contato comigo. Espero que daqui a alguns anos, eu possa voltar com este material em mãos.

    Foram cerca de três anos aqui, juntamente com grande parte dos colunistas mais antigos, mas está na hora de eu me despedir do portal. De vez em quando vocês ainda verão um ou outro material meu aqui no site, pelo fato de ter muitos textos guardados para postagens futuras.

    Mas fiquem tranquilos: no ano que está chegando, o site aguarda muitas novidades, e uma nova coluna de historiografia musical, com outras pessoas, vem aí.

    Feliz 2016 a todos e… fui!

  • Rocklogia – Citações

    Este é o post mais simples, e talvez o mais “divertido” da Rocklogia. Em grande parte dos textos aqui já publicados, utilizei de citações e citei entrevistas. Mas está na hora de apresentar, aqui, uma série de citações interessantes, alguma até então pouco conhecidas.


    “Somos amigos da galera do G3. Nos afastamos na época da saída deles da Renascer, coisa de igreja, infantilidades denominacionais, mas amamos os caras”. [Zé Bruno, sobre saída da Oficina G3 da Gospel Records, Ruben Mukama, 2012]

    “Conheci o Rebanhão que… na minha época era como se fosse o Metallica do meio gospel (risos), era o terror de todos os pastores e eu me tornei uma versão piorada de tudo isso”. [Marcão, sobre sua inserção no rock cristão, no The Talk GO!, 2015]

    “Nós queríamos entrar na igreja com bateria e guitarra com som distorcido. No início houve um certo preconceito, depois eles aceitaram”. [Carlinhos Felix, sobre o início do Rebanhão e as resistências de cristãos, Folha de S. Paulo, 1991].

    “Pois é, coragem é sinônimo de Catedral! Queiram ou não temos história, fatos, resultados que confirmam tudo isso, enquanto muita gente ainda tem que comer muito feijão com arroz em vários sentidos…”. [Kim, sobre declarações de Marcos Almeida acerca do Catedral, O Propagador, 2013]

    “Fiz de tudo. Meditação, ioga. Um dia, aqui em São Paulo, o pastor Estevam Hernandes Filho, idealizador da Fundação Renascer, me viu tocando e disse para eu tocar para Deus. Eu disse: esse cara tá meio pirado”. [Brother Simion, sobre sua conversão religiosa, Folha de S.Paulo, 1993]

    “[…] não inventaram nada depois de Beatles e Queen!” [Dudu Borges, sobre suas referências musicais, Ruben Mukama, 2008]

    “Havia um cenário muito criativo desde os anos 60. Várias canções de autores famosos expressavam o melhor de suas angústias, desejos e celebrações. Algumas letras foram de fato tocantes para muitos corações e, creio eu, usadas por Deus ao menos para despertar indagações e sonhos”. [Wolô, em entrevista pessoal, 2015]

    “As pessoas ainda pensam que música evangélica é bater bumbo na praça”. [Marco Salomão, sobre a incipiência do mercado evangélico, O Globo, 1991]

    “Não acho que seja a MK a responsável pela mudança nas bandas. Sempre falei que ela é empresa, não entidade filantrópica. E uma empresa é boa quando sabe fazer dinheiro. O profissionalismo acima do comprometimento com a verdade, sim, transforma o caráter de uma banda ou cantor. A MK não é babá espiritual de ninguém. A falta de palavra, se seriedade, de honestidade, tudo isso que em geral vem no kit com a fama é que faz uma banda se transformar da noite pro dia”. [Bênlio Bussinguer, sobre a MK Music, Dot Gospel, 2005]

    “Quero agregar o máximo de bandas e artistas nessa caminhada. O que eu lamento, é que muitas vezes me sinto o único a pensar assim. Todos estão tão preocupados com o seu, e em fazer a sua história, que esquecem que juntos a gente pode ir mais longe”. [Fábio Sampaio, sobre sua ligação com outras bandas do novo movimento, O Propagador, 2014]

    “Já tocamos com moçada pesada, como os Ratos de Porão. O som da gente é semelhante. A diferença está nas letras”. [Luciano Manga, sobre a agenda da Oficina G3, Folha de S.Paulo, 1993]

    “Em tempos em que o “serviço de implantação de novos produtos no mercado” andava de vento em popa entre as gravadoras e as rádios, a música “Eu quero sol nesse jardim” já tocava em FMs jovens. Nem a Legião Urbana soaria tão caricaturalmente Legião Urbana quanto naquela balada de violãozinho com vocal empostado e letra sobre jardins, luz da manhã e azul do céu”. [Ricardo Alexandre, no artigo Catedral e o Juízo Gospel, 2013]

    “Acho que podemos falar algo sobre o rock gospel nacional, que é a nossa praia e que em geral é fraco, poderia ter mais qualidade e ser mais inovador principalmente, além de proporcionar mais espaço aos novos compositores que surgem e desaparecem a cada ano por falta de espaço”. [Arvid Auras, sobre o rock cristão brasileiro, Super Gospel, 2005]

    “[…] como banda, posso dizer que originalmente Stryper foi uma das grandes influências do Oficina G3”. [Duca Tambasco, sobre as influências musicais dos integrantes da Oficina G3, Troféu Talento, 2009]

    “Só costumo ouvir as minhas músicas”. [Paulinho Makuko, sobre suas preferências musicais, Super Gospel, 2004]

    “Sou um artista pop. O meu CD tem de tudo, de baião a rock. Por isso, não vejo por que tenha de ficar limitado às lojas de gospel”. [Carlinhos Felix, sobre parcerias com supermercados e Lojas Americanas para distribuição do álbum Toda Reverência, O Globo, 1997]

    “Acho que o “gospel” é um malabarismo entre o universo da fé e do entretenimento. Ora é culto, ora é entretenimento”. [Marcos Almeida, sobre o movimento da música evangélica, Lagoinha, 2014]

    “O rótulo “gospel” para a música de conteúdo cristão foi uma imposição mercadológica”. [Murilo Braga, sobre o movimento gospel, O Propagador, 2015]

    “Há muito tempo que não vejo a galera do Fruto Sagrado. Marcão, Bênlio, Flávio… As letras do Fruto são demais, até hoje sinto que há uma lacuna. Ninguém faz o que eles faziam. Não conheço a nova formação, parece ser bem legal, quando digo saudades, é daqueles caras”. [Zé Bruno, sobre músicos dos tempos da Gospel Records, Super Gospel, 2015]

    “Somos um povo desunido. Não nos entendemos em diversos aspectos. Por isso não somos mais fortes”. [Jean Carllos, sobre os cristãos, Território da Música, 2006]

    “Acho que o movimento perdeu o fio da meada e se envolveu numa profusão de bandas, reuniões sem propósito, gente oportunista e falta de visão do Reino de Deus”. [Paulo Marotta, sobre o movimento gospel, Revista MPC, 2000]

    “Começamos como uma banda puramente evangelística. Viajávamos, por exemplo, até 22h de ônibus sem ganhar nada para levar a palavra de Deus em vários estados do país”. [Bênlio Bussinguer, sobre o propósito do Fruto Sagrado, para a Revista Eclésia, 2004]

    “Quando começamos, ninguém falava de Rookmaaker ou Schaeffer. Não existia um embasamento teórico/teológico para o que a gente fazia”. [Fábio Sampaio, sobre o seu início com a Tanlan, O Propagador, 2014].

    “Vivemos em uma sociedade cada vez mais sectária, excludente, onde tudo é categorizado, dividido, rotulado, departamentado para que aquele que faz parte do grupo A não se misture com o B. Entendemos que a mensagem do Evangelho é de inclusão, mistura, unidade e não de divisão. Procuramos contextualizar a música e a mensagem para que não exista essa divisão entre “rock cristão’, “rock secular”, louvor, evangelismo ou qualquer outra segmentação. Fazemos música. Fazemos rock. Pregamos o evangelho”. [Fábio Garcia, sobre o rótulo “rock cristão” na música dos Militantes, Super Gospel, 2015]

    “Fui para e escola com a manga da camisa maior que todas as outras crianças e ai o pessoal pegou no meu pé”. [Luciano Manga, sobre seu apelido, Super Gospel, 2003]

    “Eu não tenho idéia de gravar um CD gospel. Sou evangélico, mas meu trabalho é este. Quero fazer música para todos aqueles que estão no “mundão”. Quero passar uma mensagem positiva”. [Rodolfo Abrantes, sobre planos de carreira ao lado do Rodox, Super Gospel, 2002]

    “A banda Oficina G3, por exemplo, é rock’n roll puro e da melhor qualidade”. [Carlinhos Felix, sobre o preconceito com certos ritmos musicais, G1, 2012]

    “Existe um enorme preconceito. O mínimo que uma igreja poderia fazer era acompanhar a banda, fechar as portas e levar a galera pra prestigiar o trabalho e ajudar a evangelizar, mas não é isso que acontece. Alguns ainda criticam porque estamos lá no meio. Não entendo muito bem como funcionaria essa evangelização (rs). Mas enfim, ninguém vence a guerra sem um exército, concorda?” [Marcelo, sobre a apresentação da banda PontoCom num evento não-religioso, Super Gospel, 2004]

    “O Tchu, antigo baixista tinha saído, e eu queria tocar com a banda. Afinal, quem não gostaria, até um funkeiro como eu gostaria de tocar no Kats, mesmo sendo rock. Finalizando, o Simion saiu dali e foi falar para o Ap. Estevam o que a gente conversou”. [Jadão, sobre sua entrada no Katsbarnea mediada por Brother Simion, Super Gospel, 2005]

    “Sendo bem honesto, a gente não tem medo de nada. Acho que um dos grandes diferenciais do G3 é esse: a gente faz o que dá na cabeça”. [Jean Carllos, sobre o filme Histórias e Bicicletas, Guia-me, 2015].

    “Aonde chegaremos com tanto legalismo e distorções teológicas a respeito da arte? Será que em nosso atual “ambiente” ainda existe oxigênio criativo? Quantos observam estarrecidos a ditadura da mediocridade que impera em grande parte das livrarias, programas de TV, rádios, gravadoras e igrejas?” [Marcão, em artigo, Dot Gospel, 2004]

    “[…] só depende do público gospel exigir na programação de TV, rádios e jornais mais a presença da música gospel. São mais de 26 milhões de evangélicos no país (público tem: é so começar a correria!)”. [Betinho Fonseca, sobre a presença da música evangélica e do Juízo Final nas grandes mídias, Super Gospel, 2003]

    “Tem muita gente hoje que é referência no Brasil porém, para mim, o Oficina G3 é exemplo de compromisso com o Reino e com o público”. [JT, sobre suas referências, Super Gospel, 2004]

  • Rocklogia – Figuras à parte, fundamentais!

    Já parou para pensar na quantidade de músicos e cantores que, apesar de não fazerem exatamente (ou exclusivamente rock) foram fundamentais e ativamente participativos na cena? Por isso, neste post, vamos falar um pouco sobre eles.


    Vencedores por Cristo: O grupo musical cristão mais importante dos anos 70, tinha uma estética musical que transgredia qualquer limite de gêneros. Revelando grandes músicos, algumas canções da banda e seus compositores seriam gravadas pelo Rebanhão, especialmente a clássica “Viajar” (1985), escrita por Sérgio Pimenta.

    Edson e Tita: Dupla formada pelos músicos Edson Lobo e Tita Lobo, os instrumentistas gravaram o primeiro trabalho, juntos, em 1982. Chamado Novidade de Vida, o álbum até esteve em nossa lista dos 100 maiores álbuns da história da música cristã brasileira, e com este projeto os músicos cariocas se apresentavam em uma série de locais, especialmente teatros, com a banda Rebanhão e a atriz Darlene Glória (pseudônimo de Helena Brandão). O segundo disco foi lançado em 1990, chamado Partiu do Alto, pela Gospel Records. E lá estavam eles no meio dos roqueiros da Renascer…

    João Alexandre: Ex-Vencedores por Cristo, João criou outro grupo ainda muito jovem (Pescador). Participou do disco Janires e Amigos (1985) do ex-Rebanhão Janires. Mais tarde, Alexandre ingressou no Milad, grupo que não era de rock, mas tinha seu posto dentre os conjuntos jovens da época. Em carreira solo, lançou seu primeiro disco em 1991 pela Gospel Records com produção do tecladista Pedro Braconnot. E lá estava ele no meio dos roqueiros da Renascer… Anos depois, participaria do disco O que na Verdade Somos (2003), do Fruto Sagrado. Aliás, em termos de discurso e contestação, João Alexandre é roqueiro por natureza.

    Banda Fé: Foi um grupo de curta duração. Lançou apenas um vinil e tocou no disco Janires e Amigos. Mais tarde, alguns membros deste grupo fundaram o Banda & Voz.

    Banda & Voz: Com um som muito mais próximo do que pode se chamar de soul e black music, a Banda & Voz cresceu num espaço pouquíssimo explorado no meio evangélico, até mesmo nos dias de hoje. Mas eles estavam bem mais próximos dos roqueiros do que de muitas outras pessoas. Com uma parceria antiga com os integrantes do Rebanhão, membros do grupo participaram de vários discos como backing vocals: Natan Brito participou do disco Semeador (1986). Mais tarde, Carlinhos Felix escreveu e gravou o sucesso “Falando de Vida” no disco homônimo, e Beno César tocou baixo com o Rebanhão num curto período, em substituição de Paulo Marotta. Nos anos 90, Pedro Braconnot produziria alguns discos de Marina de Oliveira e Cristina Mel ao lado de Natan e Jolce Brito.

    Novo Som: Talvez uma das três maiores bandas pop que o meio cristão brasileiro já conheceu, o Novo Som cresceu e se popularizou, de certa forma, sozinho e isolado. Uma banda jovem, mas não pertencente ao circuito do rock cristão propriamente dito, a banda até adotou uma certa aproximação com o Catedral, ao longo dos anos. Mito participou de um dos discos do Catedral e ambos grupos lançaram um disco ao vivo juntos em 2013.

    Actos 2 ou Kadoshi: Banda que se aventurava em diversos sons, mas identificava-se na proposta jovem das bandas de rock, foi crescendo vertiginosamente em sua carreira, especialmente nos anos 90.

    Cristina Mel: Durante certo período, a mais importante e conhecida cantora evangélica de seu tempo, Cristina teve seus primeiros passos diretamente guiados por Pedro Braconnot e Natan Brito. Amante dos grupos de rock cristão (o Sinal de Alerta, por exemplo), Cristina por algumas vezes se apresentou próxima a eles e fez até regravações.

    Renascer Praise: Surgida para ser a banda de louvor da Renascer em Cristo (Katsbarnea era a banda da igreja até então), a instituição centralizou (ou monopolizou) o movimento das bandas de rock cristão nos anos 90. O primeiro disco, e vários, contém a participação de Zé Bruno, Brother Simion, Luciano Manga e outras figuras.

    Amaury Fontenele: Amaury que usava o rock e a vibe do rap para constituir sua carreira musical, ainda foi produtor e parceiro musical de Brother Simion, Luciano Manga e da banda Fruto Sagrado.

    Patmus: Banda pop revelou Dudu Borges, que mais tarde seria integrante do Resgate. Um de seus ex-integrantes, Cris de Matteis, ainda produziu o disco Eclipse (Brother Simion) e Na Estrada (Walter Lopes).

    SILVA: Cantor que se destaca cada vez mais na cena pop-MPB nacional, foi produtor musical e principal compositor de várias canções de seu irmão, Lucas Souza. Produziu, também, o Palavrantiga.

    Leonardo Gonçalves: Admirado pelos integrantes da Oficina G3 e vice-versa, Leonardo subiu ao mainstream da música cristã de uma forma muito incomum: Preservando sua arte e agindo com extremo perfeccionismo. Ao conseguir agradar públicos muito diferentes, o cantor mostrou versatilidade participando das sessões de gravação do álbum Histórias e Bicicletas, ainda se juntando a Mauro Henrique e Guilherme de Sá nos shows Loop Session + Friends.

  • Rocklogia – Rebanhão 35 anos – o retorno

    De 2010 pra cá, muitos grupos, outrora sumidos, retornaram as atividades, ou fizeram pequenas apresentações. Stauros e Banda Azul voltaram com todo o fôlego, Complexo J fez algumas apresentações com alguns membros originais e Sinal Verde fez uma apresentação única… mas nada causou impacto em termos de público e imprensa do que a volta do Rebanhão em 2014.

    Quando o O Propagador surgiu, nós da equipe do site, decidimos trazer algumas matérias sobre a banda, e a cada ano, se possível, abordar um cantor ou grupo que já tenha encerrado as atividades. O retorno deste grupo foi praticamente uma surpresa pra mim, e veio exatamente na mesma época em que nós do site estávamos publicando muitos materiais sobre eles.

    Anteriormente a isso, Pedro Braconnot, juntamente com Anderson Freire, foi o compositor da canção “Ame Mesmo Assim”, gravada por Cristina Mel. Em uma entrevista a uma revista em 2013 (que já está fora do ar), Braconnot afirmou que tocava com o Pablo Chies em alguns eventos, mas que estava difícil reunir o grupo, embora fosse uma vontade geral. No aniversário de Carlinhos Felix em janeiro daquele ano, Pedro e Pablo fizeram uma surpresa e os três tocaram juntos. Carlinhos, inclusive, estreava pela Sony com o disco Lindo Senhor.

    Mais tarde, ainda em 2013, numa entrevista ao Super Gospel, Carlinhos falou um pouco sobre a banda.

    “Acho não. Estivemos juntos dia 25 de janeiro no meu aniversario, que era a festa de 40 anos da vigília de Bento Ribeiro. Foi emocionante. Sempre falamos que só faríamos se fosse uma produção maravilhosa, pois o Rebanhão merece. E o povo que curte também merece. Creio que a Sony faria isso com muita propriedade”. [Carlinhos Felix, sobre uma reunião em fevereiro de 2013, Super Gospel]

    O movimento continuou, e no final de 2013, Braconnot divulgou uma música inédita no iTunes, chamada “Mais que Palavras”, com a participação de uma de suas filhas nos vocais. Mais tarde, em seu Soundcloud, publicaria mais duas novas músicas, com a tendência mais congregacional existente em Vamos Viver o Amor: “Nada Mais” e “Amado da Minh’Alma” (esta última recebeu a hashtag #Rebanhão).

    Enquanto isso, Carlinhos e Paulo Marotta, nestes anos, tornaram-se intensamente críticos da pobreza de conteúdo do meio gospel. Marotta, em uma entrevista à MPC em 2000, diria que “é preciso tirar Jesus do rótulo e trazê-lo de volta para o centro“, e Felix, diria repetidamente, em entrevistas, que estava vendo muita música sem criatividade no meio. Paulo foi o único integrante do grupo a participar do Tributo a Janires, gravado no Som do Céu em 2003.

    Quando Braconnot, Felix e Marotta anunciaram a reunião do grupo, lembro que foi uma surpresa para todos, e imediatamente, a nova página da banda no Facebook passou a ser divulgada. Fernando Augusto ia participar, mas acabou ocorrendo algo que inviabilizou sua participação. Para completar, a banda chamou Pablo Chies para a guitarra solo, e trabalhou com o músico contratado Lucio de Paula para a bateria, durante os ensaios.

    Depois da volta, Pedro Braconnot e Carlinhos Felix responderam entrevistas aqui no site, falando sobre a carreira e projetos com o grupo. Durante os ensaios, se encontraram com Lucas Ribeiro, principal mente atrás da Sinal Verde, um dos embriões antecedentes do Rebanhão e Bené Gomes, líder do Koinonya.

    Depois disso, o Rebanhão acabou firmando uma parceria com a Mess Entretenimento, que fará a distribuição do futuro álbum de 35 anos do grupo.

    Abaixo, veja os blocos de uma entrevista com o Rebanhão veiculada pela TV Boas Novas e vamos aguardar as novidades do Rebanhão 35 anos.

  • Rocklogia – Desafios para o novo movimento

    Fico muito feliz sempre quando vejo algum músico do novo movimento divulgando um dos primeiros textos que escrevi para a Rocklogia em 2014, sobre o assunto. E fico mais satisfeito ainda quando muitos cristãos veem, nestes artistas, questões muito interessantes sobre os desdobramentos do segmento evangélico no país (por seus lados bons e ruins).

    Mas antes de tudo, eu preciso dizer que não acredito mais na existência do novo movimento da mesma forma com a qual disse naquele texto. Acredito que um movimento, com contexto e raízes históricas, nos dias de hoje, não existe. Sim, existe a ideologia, mas o movimento não. E naquele texto, fiz uma confusão, pois não diferenciei o novo movimento como movimento e o novo movimento como ideologia.

    Confesso que os meus conceitos estão mudando conforme me aprofundo no assunto que, aliás, é ainda bastante complexo. Vejo que o contexto para a existência deste “movimento” já passou, e foi na década passada. Este pano de fundo foi quando os mais esclarecidos já observavam os rumos errados do chamado “meio gospel” e cresceu a falta de identificação ao “rock gospel” (toda aquela estrutura de eventos e gravadoras e a crescente letargia lírica). Sem falar nos fóruns cristãos, cheio de pessoas em busca de novidades que fugissem o lugar-comum. Nisso, o campo estava formado para novas ideias. E, particularmente, acho que de 2011 para cá, as ideias sobre um movimento foram esvaziadas. Se tudo é novo movimento, logo novo movimento não significa nada. O termo crossover, definido como um sinônimo, entrou no vocabulário dos diretores de gravadoras, artistas de vários gêneros, e a discussão, que antigamente era muito mais profunda, parece ter se limitado a discutir o possível alcance mercadológico da música produzida por esses músicos.

    Em contrapartida (uma divagação pessoal), parte do que alguns gostam de chamar de “pós-gospel” (estes artistas mais novos que tem despontado de uns quatro anos pra cá), para mim, não é nada mais do que um “gospel” que certas pessoas querem vender (ou simplesmente divulgar) como música popular. Então, particularmente, não creio que um novo movimento, organizado e concreto, exista hoje.

    E dentre os remanescentes do movimento, com o passar dos anos, alguns artistas procuraram embasar todo aquele descontentamento verbalizado em músicas por correntes teóricas. Foi aí que os nomes de Rookmaaker, por exemplo, caíram como uma luva para estas propostas. Naquele momento, a questão musical tornou-se muito mais ideológica (uma perda enorme, diga-se de passagem). Estas teorias bebem da fonte de clássicos da antropologia e sociologia nacional. Ver um músico cristão citando Sérgio Buarque de Holanda, por exemplo, é algo muito incomum para o que temos visto nas últimas décadas. Mas, ao mesmo tempo, é preciso lembrar que o chamado ‘gospel’ (nada mais do que um rótulo bizarro surgido no início dos anos 90) é um mercado com letras maiúsculas: está muito bem articulado, forte e segmentado. Transitar entre os meios ‘populares’ e neste espaço, dependendo da forma como se é proposto, não faz sentido algum. Reforçando: Vejo que a proposta essencial do novo movimento era de questionar, proporcionar alternativas, restaurar o sentimento de muitos artistas cristãos aos tempos que antecederam o movimento gospel. Afirmar, ou utilizar-se do novo movimento como mera ideologia de mercado é usar de um reducionismo muito inocente.

    Mas, se o questionamento é de fazer uma música que provoque identificação para um público religioso e não-religioso, a questão fica ainda mais tênue e difícil. É impossível? Tenho a absoluta certeza que não. É interessante para o mercado gospel? Tenho a absoluta certeza que não. Mas, considerando que fosse, diria o seguinte:

    O preconceito, talvez, é a chave de toda a dificuldade de transitar entre o ‘gospel’ e o ‘secular’, o ‘profano’ e o ‘sagrado’. O crescimento dos evangélicos na população, o surgimento de todo um meio específico e segmentado para este público, ilhou e destruiu a maioria das pontes possíveis. Nos anos 70, era normal Wolô e Ozéias de Paula serem produzidos por Ângelo Apolônio (Poli). Nos anos 80, era normal o Rebanhão gravar com Jessé Sadoc, um dos melhores trompetistas do Brasil, trabalhar com Amaro Moço, engenheiro de gravação responsável por discos da Legião Urbana, Paralamas do Sucesso e Martinho da Vila. Era normal serem produzidos por Paulo Debétio, que trabalhou em diversos discos para a Polygram nos anos 80 e gravar uma composição de Tutuca Borba, tecladista/pianista do cantor Roberto Carlos. Sem falar na dupla Edson e Tita, que tocam até hoje com medalhões da MPB. Era totalmente aceitável Carlinhos Felix gravar com Paulinho Guitarra, um dos mestres da guitarra no Brasil. Mesmo após o início do chamado movimento gospel, não era estranho Resgate e Katsbarnea trabalhar com Paulo Anhaia e Rick Bonadio, este último que se tornou nacionalmente conhecido produzindo os Mamonas Assassinas, e até hoje é um produtor musical extremamente notável. Mais recentemente, ocorreu a ascensão de Dudu Borges no cenário sertanejo e como um dos produtores musicais mais caros do país, e sua consequente saída do Resgate fomentou novas discussões. Vi, por várias vezes, pessoas acusando-o de falso cristão, mercenário, ou coisas do tipo. Curiosamente, quando é entrevistado por grandes mídias, sequer citam que, por dez anos, trabalhou com o Resgate (sendo seis anos como integrante), e, no máximo, diz que gravou com músicos do gospel. Por que? Pela “aparelhagem” do meio. E, mesmo querendo ou não, introduzir-se neste mercado obriga o artista a abrir mão de várias coisas. No ‘gospel’, há regras, linguajar e propostas específicas e que dificultam muito o diálogo com qualquer meio que não seja o seu. Eles, com razão, não entendem o que nós produzimos.

    Em 2012, tivemos três coisas interessantes: Uma delas foi o discurso tido, por um portal de música não-religiosa, como confuso do álbum Sobre o Mesmo Chão, as fortes críticas do disco Este Lado para Cima e as polêmicas de Zé Bruno acerca de sua insatisfação com o meio gospel. Esses acontecimentos e registros reiniciaram uma discussão que precisa ser trazida constantemente para o nosso meio. Para questionar os que dizem que tudo é válido, questiono: Será que, realmente, esta popularização do gospel no mercado é real e benéfica? Será que, como evangélicos, as pessoas não tem sido apenas usadas e manipuladas como consumidores fiéis de produtos originais? Será que vale a pena renegar a cultura brasileira, a crítica, a alma artística, tão valorizada em clássicos dos anos 70 e 80, para importar e copiar, irracionalmente, o pop-rock-Hillsong-Gateway-Masterizado-No-Sterling-Sound nos anos 2010? Será que trazer de volta os clichês “Jesus-luz”, “Jesus-cruz” e “Jesus-conduz” não é cuspir em todo o esforço que cristãos das décadas anteriores tiveram para tornar a música feita por evangélicos mais criativa e menos caracterizada como mera propaganda fútil? Seja qual a resposta, é importante refletir.

    Por isso, talvez seja interessante bandas e artistas pensarem se o mais válido, no momento, seria se livrar de toda a estrutura e associação com o chamado meio “gospel” que, pelo menos em minha visão, representa todo o oposto do que querem fazer. Ou então, tentarem, à sua maneira, transformar o mercado, pois em seu estado atual, qualquer proposta de transgressão ao rótulo é impossível e desinteressante para toda a sua estrutura. Até porque, se definir adepta ao novo movimento e ter toda a sua agenda dedicada ao meio gospel é, no mínimo, incoerente.

    Antes do final, eu preciso pontuar algo que eu venho observando: é necessário também, aos grupos que conseguirem contratos com gravadoras, explicitar o que realmente se propõem a fazer. Um caso: há uns meses, estava visitando a página do selo gospel da gravadora Sony Music Brasil e notei que a Tanlan, por exemplo, estava sendo chamada, em um post, de “pop rock gospel”. Só que Tanlan é uma banda de rock alternativo, não de pop rock (engraçado que no Brasil, tudo é pop).

    Portanto, acima e independentemente de tudo, sigam fazendo o que todos os bons músicos fizeram e fazem: música com arte. Daqui a algumas décadas, veremos no que deu tudo isso.

  • Rocklogia – O Kats ainda é o Kats?

    Há algo que incomoda a todos que conhecem o Katsbarnea: a excessiva mudança de integrantes, ao longo dos anos. Desde 1991, quando Estevam Hernandes mandou que a formação de cerca de dez músicos fosse “enxugada”, o Kats se tornou uma banda instável, com constantes mudanças de formações, pondo em xeque sua identidade.

    Mesmo assim, A Tinta de Deus tem vários prós e pela sua qualidade acabou tornando-se um disco importante na discografia da banda, que, em 2010 novamente estava sem Déio e Marcelo Gasperini. Embora Gasperini se arrependa de deixar a banda, Déio Tambasco publicou, em 2014, uma foto das sessões de Armagedom, afirmando que era a melhor formação da época (Simion, Jadão, Giovani, Déio e Flávio). Brother Simion deu RT na imagem, centralizando, especialmente, Jadão e Déio (que, junto a Giovani, já tocaram em discos solo do músico).

    https://www.facebook.com/deio.tambasco/photos/a.545128545536471.1073741825.428733013842692/636315379751120/

    Makuko seguiu com dois novos músicos, jovens, e que fazem parte desta nova formação: Marrash (filho do vocalista) e Moisés Brandão. Completando o lineup, o grupo contém Jeff Fingers nas guitarras.

    O single do disco, “Nasceu um Novo Dia“, foi divulgado em 2012. As gravações do disco foram extensamente atrasadas, embora um making of tenha sido divulgado. Em justificativa, Makuko afirmou que o primeiro estúdio, com o qual gravaram o disco, não era um bom ambiente, e decidiram refazer todo o projeto.

    https://www.youtube.com/watch?v=AsOhSR9gxDE

    Enfim, Eis que Estou à Porta e Bato foi lançado na segunda metade de 2013, e pode ser resumido da seguinte forma: músicas inéditas, regravações da carreira solo de Makuko, e uma sonoridade mais direta ainda em relação ao ‘A Tinta’, que ainda mergulhava sutilmente em teclados. O grupo lançou também, em divulgação, clipes de algumas canções.

    Sem qualquer outro integrante da formação original (o último destes a sair foi Simion, em 1999), Makuko segue com a música e o nome Katsbarnea, embora a formação seja muito diferente da maioria de seus anos. O grupo já anunciou, em suas redes sociais, que gravará um futuro disco de inéditas em breve.

    Para você, o atual Kats ainda é o Kats?

    https://www.youtube.com/watch?v=BTbz4I7WIOQ

  • Rocklogia – A dramaticidade de Histórias e Bicicletas

    Apesar de o novo movimento ter começado em 2000, creio que se tornou apenas algo em alta, no meio cristão, quando se transformou em ideologia. Agora, a Oficina G3 está claramente influenciada, e seu álbum Histórias e Bicicletas é fruto disso. Letras que professam a fé, mas com muito menos religiosidade e mais senso artístico.

    O sucesso de Depois da Guerra deve ter tido um peso muito grande na banda. Agora, o grupo completava 25 anos de carreira, com o seu lado progressivo assumido há quase dez anos, novo vocalista e novo baterista. Anos de silêncio, e um novo disco anunciado. A surpresa: o câncer da esposa de Mauro Henrique. Apesar de ser uma questão mais pessoal, é óbvio que um acontecimento como este afetou a banda como um todo, já que o sofrimento de um integrante torna-se de todos. A soberana vontade de Deus se manifestou, e Ele resolveu levá-la. Mauro tornou-se viúvo e o novo disco seria dedicado à Jaky Dantas.

    Acredito que esta época foi a mais difícil para a Oficina G3 não apenas por este acontecimento, mas também com problemas na vida de Duca Tambasco e Jean Carllos. Duca divorciou-se após dez anos de casamento pela traição de sua esposa com um pastor da igreja a qual frequentavam. Durante um tempo, o compositor manifestou em suas redes sociais a insatisfação de ter sua filha levada junto com a esposa. Mais tarde, postagens publicadas por sites da categoria do O Fuxico Gospel jogavam o acontecimento pessoal para o ventilador. Jean também divorciou-se e chegou a namorar a cantora Israela Claro, filha de Cláudio Claro e, até o momento em que escrevo este texto, mantém-se solteiro. A alegria estava para Alexandre Aposan, que teve seu primeiro filho. A gravação do projeto foi cercada por muito mistério, o que deixou os fãs apreensivos.

    Devido a todos esses acontecimentos, Histórias e Bicicletas pode ser considerado como o álbum mais triste feito pela Oficina G3, por suas letras que citam as dores e desilusões da vida, a morte, eternidade e o mundo dinâmico e complexo que vivemos atualmente. Ou seja, pelos ocorridos, era óbvio que chegaria um disco mais denso e “leve” que os anteriores. Apesar de tudo, não é um registro pessimista. A arte do álbum foi feita pelo tecladista Jean Carllos com Hugo Pessoa. Este disco mantém-se na vibe do anterior, porém com baladas bem mais trabalhadas.

    A melhor música é “Lágrimas”. Inicialmente seria um dueto de Mauro com Leonardo Gonçalves, que colaborou nas gravações, mas não obteve permissões da gravadora para a divulgação (e até hoje acho isto um pouco estranho, pois foi citado na ficha técnica). “Água Viva”, dentre as pesadas é a melhor. Por outro ponto, interessante a inclusão do cover de “Aos Pés da Cruz”, que recolocou o sucesso de Kleber Lucas em muitas igrejas pelo país.

    As músicas de Histórias e Bicicletas eram um prato cheio para que fizessem algo que até nos tempos de PG estava em falta: a maior presença do grupo em igrejas. Pensando nisso, a banda criou o G3 na Igreja, em que a banda daria, em sua agenda, certa prioridade aos eventos neste local, com toda a sua apresentação adaptada para o clima congregacional. Um desses eventos, ocorrido na Primeira Igreja Batista de São Paulo, foi gravado, e divulgado em clipes no canal oficial da banda no YouTube. A primeira das canções foi “Encontro”, que foi digna até de uma bela introdução por Juninho Afram e Jean Carllos, que parecem beber no instrumental da clássica “Magia Alguma”, dos álbuns Ao Vivo e Indiferença.

    Em 2014, logo após este evento, Aposan sairia do grupo, após questões de contrato, como era possível prever, devido à sua intensa atividade com artistas de outras gravadoras. Celso Machado também anunciou o afastamento de suas atividades como músico contratado do grupo em 2015, e agradeceu por todo este tempo. No lugar de Aposan, a banda passou a trabalhar com Maick Souza.

    Em 2015, a banda anunciou o filme Histórias e Bicicletas, com a participação efetiva de Alexandre Aposan, afinal, nas sessões de gravação, o instrumentista ainda era integrante. O registro é uma espécie de documentário das gravações do CD, e também é um registro de clipes.

    https://www.youtube.com/watch?v=BmgKJ6RpEDE

    “De uns quatro anos para cá, nós do G3 fomos… não vou dizer ‘massacrados’, mas fomos extremamente machucados pela vida – não por ninguém especificamente – com a permissão de Deus. Hoje eu vejo desta forma. Nada acontece, nenhum fio de cabelo cai da nossa cabeça sem que Deus permita. Para mim, foi permissão de Deus e se Deus permitiu, foi para que Ele tratasse, cuidasse de tudo. A gente teve muitas perdas. O Mauro perdeu a esposa – vítima de uma doença terrível, que é o câncer – o Duca se separou, eu me separei… São situações que marcam muito a vida da gente, machucam muito. A gente escreve e passa nas músicas, exatamente isso: o que a gente está sentindo.

    Acho que o cristão não é nenhum ‘super herói’. O ‘super herói’ aqui é Jesus. A gente é muito falho, a gente vacila, pisa na bola, erra muito, mas também tem vontade de acertar, de estar perto do Pai e precisa disto. O resultado disso é o que pessoal viu neste trabalho. O D.D.G. saiu de um jeito e o ‘Histórias’ saiu de outro jeito e por que ele saiu dessa forma? Porque, de fato, foi o momento que a gente estava vivendo. Foi um momento de perda, de dificuldade, de dor, mas também um momento de esperança, descanso, espera e é isso, cara. Sabe? Não é um desabafo ou um ‘recado para alguém’.. de forma alguma. É só como nós estamos, de fato”. [Jean Carllos, sobre o conceito do álbum, em entrevista ao Guia-me, 2015].

  • Rocklogia – Este Lado para Cima e as polêmicas de Zé Bruno

    Após o lançamento de Ainda não É o Último, como dito, a agenda do Resgate continuou a aumentar, e os compromissos de Dudu Borges também. Enquanto isso, comemorando os vários anos de carreira, a banda decidiu revisitar os seus discos antigos e fazer um greatest hits definitivo: Pretérito Imperfeito, mais que Perfeito. Para quem já teve a oportunidade de conferir a obra física em mãos, nota-se que o acabamento foi interessante, com fotografias antigas, depoimentos e o repertório bem escolhido e remasterizado. Mais que uma coletânea, a obra é praticamente um documentário sobre o Resgate.

    Nesta época, Dudu Borges forneceu uma entrevista ao Super Gospel, e afirmou que cada vez mais seu tempo para a banda estava diminuindo. Borges passou a faltar vários shows, e teve que deixar o grupo para dedicar-se à sua crescente carreira de produtor musical. E não preciso dizer que o Resgate perdeu muito com isso, mas Dudu também perdeu. Afinal, sua atividade no rock lhe rendeu grande parte da sua formação e experiência musical, tanto como instrumentista, quanto como compositor.

    Após a saída de Dudu, quem produziria um disco de respeito do Resgate? Só restou um nome: Paulo Anhaia. O produtor de On the Rock, após dez anos de Eu Continuo de Pé, estava de volta assinando um disco do quarteto. Acabou que a sonoridade também se tornou mais crua, voltada ao hard rock, em relação às influências pop trazidas por Dudu.

    As gravações do disco se seguiram durante o inverno de 2012. Em junho, a bateria para o disco, e depois o baixo, foram gravados. Um ponto a salientar é que, pela primeira vez, as sessões de gravação e produção foram detalhadamente filmados e divulgados no canal da banda. E este trabalho com a internet é um dos pontos positivos do Resgate em seus últimos anos.

    Ao contrário do disco anterior, este trabalho conteria mais material individual de Zé Bruno, que aliás, envolveu-se em várias polêmicas por conta de algumas afirmações ácidas, as quais também são parte do conceito do disco Este Lado para Cima. A primeira delas foi na semana de lançamento do disco. Zé divulgou um texto na página da banda, chamado Quero Ganhar o Troféu Promessas, com críticas diretas ao prêmio e a toda forma e estrutura do chamado ‘mercado gospel’. Um dos trechos, falando sobre versões, irritou uma legião de fãs do Diante do Trono, que se juntaram em peso para promover ataques a Zé Bruno nas redes sociais. O fato foi notícia aqui no site e até entrou na lista das maiores polêmicas de 2012.

    É claro que as críticas não ficaram por assim mesmo, e no Troféu Promessas 2013, o Resgate não foi candidato em nenhuma das categorias. Foi decidido pela comissão organizadora que a banda seria banida do prêmio.

    Após a primeira polêmica, o músico fez uma segunda parte do texto, parafraseando a canção “O Pulso”, dos Titãs. Este texto, curiosamente, foi excluído das redes sociais, mas você pode lê-lo aqui. O disco foi lançado durante a Expocristã 2012, no dia 27 de setembro, e é um dos discos mais conceituais da banda. Este Lado para Cima é um álbum que retrata a importância de nos desligarmos deste mundo terreno e caminharmos em direção ao céu. As letras seguem o que o Resgate fez nos últimos anos, mas trazendo críticas mais explícitas. O destaque foi para “Eles Precisam Saber”,  com uma crítica contundente ao neopentecostalismo, como um todo.

    Falando em “Eles Precisam Saber”, nas gravações do álbum, o guitarrista da Oficina G3, Juninho Afram, participou no solo explosivo da música, mas a gravadora MK Music não permitiu que fosse lançado. Por conta disso, Zé e Hamilton regravaram o trecho.

    Numa entrevista ao Missão Gospel, Zé Bruno falou um pouco sobre o conceito do disco:

    Acho que a própria fase que a gente está vivendo, no meio apologético, de recomeço, da nossa fé, do nosso cristianismo, acabou desembocando, Fora do sistema, Eles precisam saber, falando um pouco da missão como Eu estou aqui, Errando e aprendendo. Resgate nunca foi assim uma banda muito comum, e como agora estamos também em um momento pastoral, de igreja, de mudança, acabou que culminou nisso aí.” [Zé Bruno, sobre o álbum, 2013].

    O lançamento do álbum foi gravado, e mais tarde tornou-se um DVD, de título Aos Vivos. Além dos sucessos, as faixas de Este Lado para Cima, muitas canções de Ainda não É o Último estiveram neste projeto. O Making Of deste projeto traz um pouco da história da banda, com seus membros a falar acerca de vários assuntos.

    Em 2013, as polêmicas não diminuíram, e durante a Feira Internacional Cristã, no lançamento de Aos Vivos, uma entrevista da banda para a TV Boas Novas foi notícia pelas declarações de Zé, Hamilton Gomes e Marcelo Bassa. No vídeo, os músicos criticaram a forma que o cristianismo tem sido utilizado por instituições e afirmaram a necessidade de se ‘acordar’. Com todos estes acontecimentos, a mensagem do álbum soou mais contundente e contextualizada.

    A mim, particularmente, Este Lado para Cima representa simplesmente a volta definitiva do Resgate a essência do rock. Não em termos de sonoridade, mas de discurso. A grande função do rock, em sua história, foi de transcender limites, denunciar e falar o que deve ser dito, conflitar com o sistema: e depois de muitos anos, o Resgate fez isso lindamente. O período de letargia da banda, que chegou ao seu ápice entre 2002 e 2008, não foi um período sem grandes canções, no entanto, o renascimento do grupo em seus discos mais recentes tem provado que nem tudo está perdido no meio musical protestante.

    Confira, também, uma entrevista com Zé Bruno feita este ano para o Super Gospel.

  • Rocklogia – Um dia a Mais

    Antes de tudo, após a Tanlan ter lançado o Tudo que eu Queria, o vocalista Fábio Sampaio ficou notório na rede pelo cover que fez de “É Preciso Saber Viver”, na época, um dos vídeos mais assistidos do YouTube. Se você ainda não viu, dá uma olhada:

    Após as perguntas feitas em Tudo que eu Queria, a Tanlan preparou-se para dar as respostas em um disco chamado Um Dia a Mais, que claramente se contrasta com o anterior. É preciso deixar bem claro que, na altura do campeonato, o “público cristão” da banda era muito pequeno, a banda estava bem mais inserida dentre eventos não-religiosos. Este segundo disco, então, meio que ‘supre’ esta falta, ou até mesmo desequilibrou a “gangorra” dos públicos.

    Em 2010, a revista Época tenta falar de um suposto movimento dentro do meio protestante que, segundo a publicação, é uma “nova reforma protestante”. Dentre alguns nomes, na parte musical, citaram a Tanlan. O texto é um pouco confuso, mas a intenção da Época valeu. Sobre este assunto, vale ouvir um episódio do podcast irmaos.com.

    No mesmo ano, após as prévias dadas através das músicas “De Onde Vem” e “Fingir”, divulgadas no site da banda, o grupo estava a todo vapor para produzir um disco que acabou soando mais ‘gospel’ que o anterior (se é que podemos chamá-lo assim, para uma compreensão mais geral).

    “Louco Amor”, faixa que abre o álbum, mostra bem o que o grupo se propôs a fazer neste projeto: com letras que falam mais evidentemente do cristianismo do que o anterior e versos bem marcantes, a sonoridade ficou menos experimental e mais direta, com um post-grunge que lembra bastante bandas como o Foo Fighters. Os teclados, mais presentes no trabalho anterior, ficaram ofuscados e deram espaço para mais guitarras, gerando mais “peso”.

    Outro destaque acerca do disco foi a participação de Marcos Almeida nos vocais de “Vaidade”. O disco foi lançado de forma independente, e meses depois, atraiu o interesse da Sony Music, que decidiu relançá-lo, distribuindo-o com o novo selo. Um pequeno problema entre a Som Livre e a Sony ocorreu, pois a gravadora queria vetar a faixa com a participação de Marcos. No fim das contas, a versão lançada pela Sony tem só os vocais de Fábio (como podem conferir no Spotify).

    Beto Reinke acabou tendo que se afastar do grupo, embora tenha participado das gravações. Em seu lugar, a banda efetivou Lucas Moser, que já estava tocando com a Tanlan há um bom tempo. Após algumas diferenças e discussões internas com o grupo (leia nossa entrevista com Fábio para entender), acabou saindo. Beto voltou e segue com a banda nos dias de hoje.

  • Rocklogia – Esperar é caminhar sobre o mesmo chão

    Após o lançamento do EP, a Palavrantiga seguiu com o produtor Lúcio Souza, o SILVA, e Jordan Macedo, e gravou Esperar é Caminhar. Este disco, cuja distribuição ficou a cargo da CanZion, conteve quatro das seis faixas do disco anterior, mais uma série de inéditas, todas assinadas por Marcos Almeida.

    Neste álbum, o cantor Thalles participa na faixa-título: “Em junho de 2009, conheci o Thalles quando ele esteve no Polo Estúdio para gravar uma participação no disco do Palavrantiga, que, na época, estava sendo produzido. Desde então, ele decidiu finalizar Na Sala do Pai comigo, apesar de já ter iniciado a gravação em outro estúdio”, disse Jordan ao Super Gospel.

    O lançamento do disco catapultou a popularidade do grupo, com canções como “Seguro Vou”, “Amor que nos Faz Um”, e principalmente “Rookmaaker”. Para completar, o disco foi masterizado no Abbey Road Studios, o que de certa forma foi um diferencial importante. Sonoramente, o disco tem referências bem explícitas ao britpop.

    Mais tarde, no segundo semestre de 2011, o grupo gravou um Recife um álbum ao vivo que teve o lançamento cancelado. O título era Uma Noite em Recife e foi completamente engavetado. Por outro lado, a banda seria contratada pela Som Livre, selo pelo qual gravariam e distribuiriam um novo projeto.

    Em 2012, o novo disco, de título Sobre o Mesmo Chão, seria decisivo na filosofia do grupo. Foi gravado no estúdio da banda Diante do Trono, com um repertório autoral de Marcos. O compositor afirmou, em entrevistas, que as influências para o álbum foram totalmente diferentes do primeiro, a começar pela vida de homem casado que estava começando a ter. As letras deste disco foram mais ousadas, mas não foi tão unânime quanto o anterior. Por exemplo, um jornalista do portal Fita Bruta, site conhecido por suas análises por vezes polêmicas, considerou o disco morno, hermético e as ideias do grupo bastante confusas. Os portais de música cristã, no entanto, foram amplamente favoráveis a obra. A produção musical ficou, novamente, a cargo de Jordan Macedo.

    Algo incomum aconteceu na época de lançamento do álbum, que foi a participação do Palavrantiga no programa da Rede Super, 6ª Básica. Além do quarteto, era noite de Oficina G3. Juninho Afram e Marcos Almeida, representando as duas bandas, falaram sobre a carreira e novos projetos. Depois, Mauro Henrique ainda cantou “Feito de Barro” com o Palavrantiga. A Igreja Batista da Lagoinha, nesta noite, ficou lotada.

    https://www.youtube.com/watch?v=2Cr5RnLvdGI

    Após o lançamento do disco, o clipe da canção “Rio Torto” foi divulgada, e Marcos participaria de uma faixa num disco da Tanlan, o qual falaremos no próximo post. Muitas coisas no grupo ocorreria nestes breves anos.

    Naquela altura do campeonato, era óbvio que a banda chamava a atenção. Eles saíram do underground, como nomes do extinto novo movimento, trazem de vez a palavra crossover para a discussão no mercado, mas era Marcos Almeida, ali, que se preparava para dar mais passos. Apesar de toda a contribuição sonora da cozinha, o vocalista e letrista decidiu traçar seus rumos, sozinho, enquanto a banda seguiria, ao menos teoricamente, com um novo vocalista.

    Mais de um ano depois, o silêncio continua, e é muito cedo para qualquer um “teorizar” a importância que a curta discografia da banda tem na história do rock produzido por cristãos no Brasil.

    Enquanto isso, Marcos já produziu single, gravou disco ao vivo e planeja lançamento inédito para 2016.

    https://www.youtube.com/watch?v=SPZgo9SDI3o


    Retalhos

    Em 2015, Marcos Almeida falou um pouco sobre suas composições. Decidimos reproduzir, abaixo, seus comentários.

    Branca [2011]: Nenhum móvel sequer no apartamento. Apenas um modem de internet wireless e um violão. A emoção de entrar no nosso futuro lar ainda é viva na minha memória. Eu estava sozinho e aproveitei o reverb do quarto vazio para dar vazão àquele sentimento em erupção. Foi impressionante; o primeiro acorde que toquei? Um Sol menor com décima terceira e logo, de imediato, como que soprado por Ele, veio a melodia pra ela: “Branca, acordei você”…

    Casa [2006]: Só consegui acreditar que a dupla Chrystian e Ralf gravaria a minha composição depois de gravada.
    Eu dava aula no Colégio Presbiteriano de Belo Horizonte e foi no intervalo que corri na sala dos professores, abri o computador, baixei o mp3 e, ainda sem fé, comecei a escutar o que eles tinham feito. Confesso que me emocionei. Por muitas razões: era uma homenagem de uma dupla que eu nunca conheci pessoalmente e até hoje não tenho contato com eles. Era Chrystian e Ralf do hit “tinha um sonho ir pra Nova York”, que a gente cantava em casa quando era criança! Era uma dupla sertaneja gravando uma canção de rock e aumentando o ganho da distorção ainda mais – sim, eles conseguiram ser mais roquenrou que o Palavrantiga. Era eu, um iniciante no mundo da música, que de repente começava a receber ligação de gente importante querendo saber mais do meu trabalho como autor.

    “Casa” é minha obra prima, obra prima no sentido de primeira obra, porque depois dela entendi que poderia ser compositor com um caminho próprio. Olha, estou mais seguro hoje do que nunca, quase 10 anos depois de ter escrito essa canção, que não posso receber todos os créditos por ela. Na verdade, tudo aconteceu por causa Dele, o Deus gracioso que jamais nos abandonou. O Deus da obra, que trabalha na gente e através da gente, numa misteriosa jornada de cooperação,tornando possível o absurdo: uma estranha dupla, uma mística dupla. Casa e Dono da Casa!

    Vem Me Socorrer [2008]: Estávamos no estúdio do SKANK em Belo Horizonte gravando uma participação para o programa Feira Moderna da REDE MINAS. O Henrique Portugal escolheu 4 bandas da cena independente, entre elas a belíssima TRANSMISSOR, da qual eu me tornaria um fã logo depois daquele dia.
    A brincadeira era assim: cada banda tocava duas – uma releitura e outra autoral. Levei para os meninos do Palavra – nesse dia só o baterista não participou – a surpreendente “Todos estão surdos”, do Roberto Carlos e uma inédita de minha autoria: “Vem me socorrer”. Tivemos o luxo de tocar as duas com o Henrique Portugal fazendo um Rhods cheio de sentimento.
    O curioso aconteceu nos bastidores. Fiquei sabendo disso depois. Quando o técnico do estúdio – uma figura bastante conhecida da cena musical belorizontina – me ouviu cantar o refrão de “Vem me socorrer”, muito surpreso perguntou para a equipe: “ele disse ‘Deus’? Foi isso mesmo!?” Ao que responderam pra ele: “sim, o cara disse Deus!”. O técnico, como que não acreditando no que ouvia, e com muito entusiasmo, foi enfático na sua alegria soltando um clássico palavrão : “do CARAL**O!!”.
    “Vem me socorrer” hoje é tocada em bares e igrejas. Foi mais longe do que eu imaginava. É a música da vida de muita gente. Outro dia recebi uma mensagem dizendo: “minha mulher começou a sentir as contrações e corremos para o hospital. Quando entramos no carro ela disse: coloca “Vem me socorrer”, me acalma. E a nossa filha se preparou para vir ao mundo ao som da sua música”! Muito lindo, não?!
    “Vem me socorrer” é um grito, e como percebeu o cara do estúdio, do jeito dele, de fato essa não é mais uma canção de amor!

    Deus, Onde Estás? [2007]: Estava em casa e recebi um telefonema. Era minha mãe dizendo que não tinha jeito, teria que fazer uma delicada operação que há anos tentava evitar com outros tratamentos. O médico disse que era um procedimento urgente que (talvez) resolveria o problema, mas disse também que não era uma cirurgia fácil.
    A gente lida com a dor de forma muito arbitrária, damos audiência às diversas formas de sofrimento que passam nos canais de notícias, às versões impressas nos jornais; ou quando conversamos com algum vizinho ali tem sempre uma tragédia sendo relatada e nada disso incomoda de verdade. A não ser que aconteça com quem amamos. Aí tudo muda. Dói de verdade.
    Mas, aprendi uma coisa: quando sentimos uma dor de verdade, ela nos abre um campo de inédita sensibilidade, fazendo a gente perceber um mundo que já estava ali – só não tínhamos visto antes. A cirurgia de minha mãe e a dor que senti com essa notícia me abriram uma paisagem a princípio detestável, estava diante daquela matéria mais difícil da vida, que os filósofos e teólogos lutam tanto pra explicar: o Sofrimento Humano. A natureza do mal, por que o mundo é assim… E é nesse momento que crentes e ateus se encontram com a mesma pergunta: se o mundo é injusto, como pode existir um Deus justo? Deus, onde estás???

    Rio Torto [2012]: A gestação de uma nova canção pode durar meses. É um assunto que incomoda o compositor, um problema para resolver, mas que precisa descansar no inconsciente para em algum misterioso momento ser iluminado por uma Idéia que chega como uma grande descoberta, um espanto. “Rio Torto” é dessas canções. E quase três anos depois ainda consigo sentir aquela emoção de estar cantando algo nascido das regiões mais íntimas da minha alma, por isso ainda meio incompreensível, mas que foi iluminado pela Graça.

    Partiu [2011]: Inspirado no primeiro homem a quebrar aquela ideia de que a vida é circular, fiz essa canção. Antes dele, estaríamos repetindo a vida dos nossos pais, estaríamos presos ao que construíram, à geografia em que nascemos, ao ambiente que nos deram; e como um karma, seria impossível se libertar desse destino repetitivo, estaríamos presos a um círculo. Abraão partiu, quando ainda era apenas Abrão filho de Terá. Partiu e desfez o círculo. Partiu e esticou a linha. Partiu e ganhou um novo nome. Partiu e inventou a jornada!

    Minha Menina [2011]: Quintana já disse: “nunca me perguntes o assunto de um poema: um poema sempre fala de outra coisa.” Rubem Alves me ensinou a responder assim: “o que eu quis dizer é exatamente isso que escrevi. Porque, se eu quisesse dizer outra coisa, teria escrito diferente.”

    Os dois estão tocando no mesmo ponto; que, a não ser que alguém revele, não é possível saber “a outra coisa”, “a outra interpretação”, apenas a minha coisa, a minha interpretação. Um poema em si é a melhor “revelação” que o poeta pode nos oferecer, até que ele faça outro e mais outro e mais outro, na tentativa de ver melhor o que aponta.

    Eu incentivo sempre os meus amigos a buscar a interpretação mais pessoal que puderem ter. A beleza disso é deixar ouvir o que a canção canta em mim, os efeitos desse som na grande sala do coração.

    “Minha Menina” tem participado de inúmeros roteiros e narrativas aonde chega. Deixou de ser apenas minha, mas continua uma menina, insegura e carente de amor.

    Sagrado [2011]: “Sagrado” nasce depois de eu ter andado algum tempo no meio de avivalistas, de ver de perto certas estruturas religiosas já corrompidas pela filosofia do “conquistar e dominar” e sobretudo de verificar o resultado prático na vida daqueles que defendiam essa onda. Foi um choque perceber que aquilo que 10 anos antes era sagrado na vida de tantos amigos, passou a animar as rodas de piada; eles agora riam do misterioso e intocável. A constatação não foi outra, e foi imediata: “é que o sagrado se tornou hilário…”

    Rookmaaker [2010]: Tenho guardado na caixa de e-mails dezenas de cartas, recebidas de várias partes do país, com a pergunta: quem é Rookmaaker? “Não achei nada na internet” ou “ouvi a música doidona que você cantou no show, quero saber mais”; “velho, você fumou o que?”. E coisas do tipo… De fato, na época, se alguém procurasse e encontrasse dois ou três links em português sobre Rookmaaker, ficaria contente. Passados 5 anos, o Google chega a apontar quase 100.000 menções desse nome tão importante na história recente da renovação intelectual da nossa juventude. Livros foram lançados pela Ultimato, artigos acadêmicos nasceram, covers da canção se espalharam no YouTube…
    O barulho foi tão grande que Marleen Rookmaaker, filha de Hans, chegou a mandar uma mensagem, antes do nosso inesquecível encontro em Natal, que me enche de alegria até hoje! “apreciamos muito os vídeos da canção no Youtube… Gostamos muito de ver a animada resposta do público e que as pessoas cantam junto nas apresentações. Apreciamos também a entrevista no rádio, apesar de compreendermos muito pouco por não falarmos português. É maravilhoso ver isso acontecendo no Brasil nesse momento. Ah! Achamos muito engraçada a maneira que vocês pronunciam Rookmaaker /rukimaki/! Por fim, consideramos toda essa manifestação cultural muito especial. Tenho certeza que meu pai teria ficado com muito orgulho.” Da pronúncia ela achou graça, mas morreria de rir se ouvisse alguns bilíngues que dizem “ruquimeiquer”, como se fosse uma palavra inglesa, ou outros que chegam a cantar algo próximo à “riquimartin”! Depois dessa mensagem, como disse, nos encontramos em Natal. Seu esposo é o cara mais gentil que já conheci… Tivemos a oportunidade de conversar durante quase 3 horas, sobre seu pai, sobre arte, brasilidade, os tempos na Holanda e Suíça… E tudo começou despretensiosamente com uma canção…

    Sobre o Mesmo Chão [2010]: Havia dito em uma entrevista que o trabalho dos novos artistas era, também, o de conseguir criar novas categorias de pensamento que superassem a oposição gospel/secular (especialmente, enquanto fórmula de comunicação). Cheguei a apresentar o “esperances” como vocabulário dessa aventura e a distinção entre gênero musical e circuito cultural como base para invenção de um espaço mais criativo para todos nós.

    Alguém comentou a entrevista dizendo algo do tipo: “vocês estão é em cima do muro, cuidado”. Logo em seguida, um outro comentário, só que com outra perspectiva: “eles não estão em cima do muro… Sabem que quem já foi criança não vê dificuldade em saltar muros. Pois, todos os muros estão sobre o mesmo chão.” Uau! Aquilo foi um lampejo, uma revelação! Existiria, então, algo anterior e mais importante que o muro, aquilo que sustenta o peso de todas as diferenças, aquilo que nos torna iguais: o chão! Devo ao Guilherme de Carvalho, amigo e filosofo mineiro, autor desse último comentário, todas as imagens de liberdade que essa canção tão importante traz em si.

    Boa Nova [2009]: Ela passou a ser um hino para quem cansou de teologizar a fé sem ver o resultado numa vida prática, real e humana. É uma obra contra o religiosismo, contra o filosofismo, contra os debates intermináveis e tolos que não levam em conta o encontro com a realidade do Amor. Aquele Amor que me faz bem, me deixa amar, sem perguntar a quem.

    De Manhã [2012]: Como uma necessidade imperiosa. Não tive como escapar. Uma certa saudade, já conhecida e experimentada, surgiu no meu coração. Fui para a varanda e com o violão em mãos tentei ouvir minha alma. Fiz de tudo para que nada interrompesse, na minha mente, aquele sussurro interior.
    Quis falar com Deus. Quis ficar a sós com Ele. Lembrei, enquanto dedilhava o violão, que aquilo não seria um monólogo, uma prosa imanente. Me agarrei nas palavras Dele: “jamais te deixarei”. E senti que Ele estava ali me abraçando.

    Hoje Tem Guerra [2007]: “Hoje tem guerra” anunciava para mim a possibilidade de uma música que canta os temas mais profundos (guerra e paz, amor e distância, tempo e eternidade) mas sem formalidades. O próprio refrão em lá, lá, lá, uma reminiscência de rock anos 60, alguma coisa Beatles, deixou a canção mais leve. Foi um achado aquele acorde inicial: um Ré Maior, com sétima maior, décima primeira aumentada e a sétima maior dobrando uma oitava acima [D7M (#11)]. Essa coisa brasileira na harmonia, coloca essa e outras canções que fiz mais perto da tradição bossa-nova atualizada nos Novos Baianos, grupo que juntamente com o Clube da Esquina apontam infinitas combinações entre as intenções do Rock e a tal MPB.

    Eu Olhei o Meu Dia [2007]: A construção da harmonia veio primeiro e poucos minutos depois eu já estava cantarolando alguma coisa parecida com: “eu olhei o meu dia, percebi que tu és melhor que uma canção de amor…”. A linha melódica foi me levando para outros blocos harmônicos, o Lá menor se tornou maior no refrão e eu tinha agora uma outra cor para trabalhar. Foi então que cheguei na letra: “me esconda em Ti, meu Deus eu preciso andar no teu caminho…” Depois dessas duas partes prontas, resolvi voltar na parte A e fazer uma segunda letra para ser cantada na repetição. Só que agora ao invés de ir do tom menor para o maior, o caminho era contrário; estava voltando do maior para o menor – precisei de uma ponte! Gastei um tempo pensando em como resolver isso e mais uma vez a melodia me ajudou a escolher os acordes certos para a transição.
    “Eu olhei o meu dia” é uma das canções que mais me realiza nesse aspecto harmônico. O Lúcio Souza, produtor da gravação que foi feita com o Palavrantiga, soube valorizar essa atmosfera quando minuciosamente inseriu aquele timbre de teclado tão marcante.

    Amor que nos Faz Um [2007]: Foi um ano em que ouvi Bob Marley um tanto! Nas férias da faculdade em 2007 eu acordava e dormia ouvindo “Exodus”, “One Love”, “Get up, Stand Up”, “Is This Love”… Eu queria fazer música como Bob Marley!!! Ele mostrava ser possível criar uma música profundamente espiritual e ao mesmo tempo alegre e dançante. Ele conseguia colocar dentro do discurso social e político a sua esperança e isso pra mim era fascinante.
    “Amor que nos faz um” é a minha primeira tentativa de expressar esse sentimento reggae que me habita. Essa vontade de ver as pessoas juntas, superando os discursos religiosos e misticistas, se encontrando.

    Esperar é Caminhar [2006]: Todo o sentido peregrino da minha fé se tornou claro quando assistindo ao seriado “Hoje é dia de Maria”, a personagem principal diz: “Vamo, Maria, que esperança num é esperá! Esperança é caminhá!”. Guardei essa revelação durante um tempo no meu coração e isso foi gerando versos, melodias e ideias que transformei em canção meses depois.
    A minisérie foi exibida em 2005 pela Rede Globo. Mas, foi só depois de entrarmos para estúdio em 2008, com o trabalho já mixado, que percebi o óbvio: essa música não deveria se chamar “Espero em Ti”, como eu a chamava até então. A parte principal da letra que revela todo o paradoxo guardado em meu coração desde aquele dia que assisti a minisérie estava no final do último verso: “esperar em Ti é sempre caminhar”. Esperar é Caminhar. Era isso! Era Abraão resolvendo Babel, era Maria me ajudando a entender a narrativa cristã: que esperar vem de esperança e aquele que tem esperança caminha!

    Palavra Antiga [2007]: São tantos lados de uma mesma canção, mas aqui só cabe pedaço, fragmento, retalho.
    Essa canção de 2007 eu escrevi antes mesmo de formar a banda que todos vocês conhecem com o mesmo nome (ou o mesmo som, a escrita que difere – num grande detalhe que poucos percebem de cara).
    Durante um curto período, o grupo de rock se chamou Verbo Remoto! (sim, com essa exclamação no final). Não durou muito essa coisa terrível – “Verbo Remoto!”. Graças a sinceridade de Marcel Lins Camargo, sociólogo amigo, que no final de três meses de “Verbo Remoto!” viu chegar Palavra Antiga, que depois virou Palavrantiga, afim de dar mais sentido ao paradoxo velho/novo que sempre curti tanto.
    Palavra Antiga chegara como a composição mais próxima do disco Ventura dos Los Hermanos. Na época, eu não percebia a influência do disco dos caras na minha forma de escrever. Mas hoje, mais maduro e menos bobo, percebo que as horas que eu passava ouvindo Ventura, aquele show deles transmitido ao vivo pela rádio 98 (rádio do rock em BH) e as rodinhas de violão indie dos irmãos da igreja, contribuíram para que eu chegasse naqueles caminhos melódicos e harmônicos. Bem, só não estou satisfeito ainda, porque nunca consegui fazer um arranjo oficial de marchinha de carnaval, especialmente para os versos iniciais: “No acaso ia, não vou mais / vou pela fé na tua voz”… Pam pam pamram / Pam pam pam pam! Ei! Quem sabe agora nesse futuro que acaba de chegar!? Lá vamos nós!