Apesar de o novo movimento ter começado em 2000, creio que se tornou apenas algo em alta, no meio cristão, quando se transformou em ideologia. Agora, a Oficina G3 está claramente influenciada, e seu álbum Histórias e Bicicletas é fruto disso. Letras que professam a fé, mas com muito menos religiosidade e mais senso artístico.
O sucesso de Depois da Guerra deve ter tido um peso muito grande na banda. Agora, o grupo completava 25 anos de carreira, com o seu lado progressivo assumido há quase dez anos, novo vocalista e novo baterista. Anos de silêncio, e um novo disco anunciado. A surpresa: o câncer da esposa de Mauro Henrique. Apesar de ser uma questão mais pessoal, é óbvio que um acontecimento como este afetou a banda como um todo, já que o sofrimento de um integrante torna-se de todos. A soberana vontade de Deus se manifestou, e Ele resolveu levá-la. Mauro tornou-se viúvo e o novo disco seria dedicado à Jaky Dantas.
Acredito que esta época foi a mais difícil para a Oficina G3 não apenas por este acontecimento, mas também com problemas na vida de Duca Tambasco e Jean Carllos. Duca divorciou-se após dez anos de casamento pela traição de sua esposa com um pastor da igreja a qual frequentavam. Durante um tempo, o compositor manifestou em suas redes sociais a insatisfação de ter sua filha levada junto com a esposa. Mais tarde, postagens publicadas por sites da categoria do O Fuxico Gospel jogavam o acontecimento pessoal para o ventilador. Jean também divorciou-se e chegou a namorar a cantora Israela Claro, filha de Cláudio Claro e, até o momento em que escrevo este texto, mantém-se solteiro. A alegria estava para Alexandre Aposan, que teve seu primeiro filho. A gravação do projeto foi cercada por muito mistério, o que deixou os fãs apreensivos.
Devido a todos esses acontecimentos, Histórias e Bicicletas pode ser considerado como o álbum mais triste feito pela Oficina G3, por suas letras que citam as dores e desilusões da vida, a morte, eternidade e o mundo dinâmico e complexo que vivemos atualmente. Ou seja, pelos ocorridos, era óbvio que chegaria um disco mais denso e “leve” que os anteriores. Apesar de tudo, não é um registro pessimista. A arte do álbum foi feita pelo tecladista Jean Carllos com Hugo Pessoa. Este disco mantém-se na vibe do anterior, porém com baladas bem mais trabalhadas.
A melhor música é “Lágrimas”. Inicialmente seria um dueto de Mauro com Leonardo Gonçalves, que colaborou nas gravações, mas não obteve permissões da gravadora para a divulgação (e até hoje acho isto um pouco estranho, pois foi citado na ficha técnica). “Água Viva”, dentre as pesadas é a melhor. Por outro ponto, interessante a inclusão do cover de “Aos Pés da Cruz”, que recolocou o sucesso de Kleber Lucas em muitas igrejas pelo país.
As músicas de Histórias e Bicicletas eram um prato cheio para que fizessem algo que até nos tempos de PG estava em falta: a maior presença do grupo em igrejas. Pensando nisso, a banda criou o G3 na Igreja, em que a banda daria, em sua agenda, certa prioridade aos eventos neste local, com toda a sua apresentação adaptada para o clima congregacional. Um desses eventos, ocorrido na Primeira Igreja Batista de São Paulo, foi gravado, e divulgado em clipes no canal oficial da banda no YouTube. A primeira das canções foi “Encontro”, que foi digna até de uma bela introdução por Juninho Afram e Jean Carllos, que parecem beber no instrumental da clássica “Magia Alguma”, dos álbuns Ao Vivo e Indiferença.
Em 2014, logo após este evento, Aposan sairia do grupo, após questões de contrato, como era possível prever, devido à sua intensa atividade com artistas de outras gravadoras. Celso Machado também anunciou o afastamento de suas atividades como músico contratado do grupo em 2015, e agradeceu por todo este tempo. No lugar de Aposan, a banda passou a trabalhar com Maick Souza.
Em 2015, a banda anunciou o filme Histórias e Bicicletas, com a participação efetiva de Alexandre Aposan, afinal, nas sessões de gravação, o instrumentista ainda era integrante. O registro é uma espécie de documentário das gravações do CD, e também é um registro de clipes.
https://www.youtube.com/watch?v=BmgKJ6RpEDE
“De uns quatro anos para cá, nós do G3 fomos… não vou dizer ‘massacrados’, mas fomos extremamente machucados pela vida – não por ninguém especificamente – com a permissão de Deus. Hoje eu vejo desta forma. Nada acontece, nenhum fio de cabelo cai da nossa cabeça sem que Deus permita. Para mim, foi permissão de Deus e se Deus permitiu, foi para que Ele tratasse, cuidasse de tudo. A gente teve muitas perdas. O Mauro perdeu a esposa – vítima de uma doença terrível, que é o câncer – o Duca se separou, eu me separei… São situações que marcam muito a vida da gente, machucam muito. A gente escreve e passa nas músicas, exatamente isso: o que a gente está sentindo.
Acho que o cristão não é nenhum ‘super herói’. O ‘super herói’ aqui é Jesus. A gente é muito falho, a gente vacila, pisa na bola, erra muito, mas também tem vontade de acertar, de estar perto do Pai e precisa disto. O resultado disso é o que pessoal viu neste trabalho. O D.D.G. saiu de um jeito e o ‘Histórias’ saiu de outro jeito e por que ele saiu dessa forma? Porque, de fato, foi o momento que a gente estava vivendo. Foi um momento de perda, de dificuldade, de dor, mas também um momento de esperança, descanso, espera e é isso, cara. Sabe? Não é um desabafo ou um ‘recado para alguém’.. de forma alguma. É só como nós estamos, de fato”. [Jean Carllos, sobre o conceito do álbum, em entrevista ao Guia-me, 2015].
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