Rocklogia – Desafios para o novo movimento

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Fico muito feliz sempre quando vejo algum músico do novo movimento divulgando um dos primeiros textos que escrevi para a Rocklogia em 2014, sobre o assunto. E fico mais satisfeito ainda quando muitos cristãos veem, nestes artistas, questões muito interessantes sobre os desdobramentos do segmento evangélico no país (por seus lados bons e ruins).

Mas antes de tudo, eu preciso dizer que não acredito mais na existência do novo movimento da mesma forma com a qual disse naquele texto. Acredito que um movimento, com contexto e raízes históricas, nos dias de hoje, não existe. Sim, existe a ideologia, mas o movimento não. E naquele texto, fiz uma confusão, pois não diferenciei o novo movimento como movimento e o novo movimento como ideologia.

Confesso que os meus conceitos estão mudando conforme me aprofundo no assunto que, aliás, é ainda bastante complexo. Vejo que o contexto para a existência deste “movimento” já passou, e foi na década passada. Este pano de fundo foi quando os mais esclarecidos já observavam os rumos errados do chamado “meio gospel” e cresceu a falta de identificação ao “rock gospel” (toda aquela estrutura de eventos e gravadoras e a crescente letargia lírica). Sem falar nos fóruns cristãos, cheio de pessoas em busca de novidades que fugissem o lugar-comum. Nisso, o campo estava formado para novas ideias. E, particularmente, acho que de 2011 para cá, as ideias sobre um movimento foram esvaziadas. Se tudo é novo movimento, logo novo movimento não significa nada. O termo crossover, definido como um sinônimo, entrou no vocabulário dos diretores de gravadoras, artistas de vários gêneros, e a discussão, que antigamente era muito mais profunda, parece ter se limitado a discutir o possível alcance mercadológico da música produzida por esses músicos.

Em contrapartida (uma divagação pessoal), parte do que alguns gostam de chamar de “pós-gospel” (estes artistas mais novos que tem despontado de uns quatro anos pra cá), para mim, não é nada mais do que um “gospel” que certas pessoas querem vender (ou simplesmente divulgar) como música popular. Então, particularmente, não creio que um novo movimento, organizado e concreto, exista hoje.

E dentre os remanescentes do movimento, com o passar dos anos, alguns artistas procuraram embasar todo aquele descontentamento verbalizado em músicas por correntes teóricas. Foi aí que os nomes de Rookmaaker, por exemplo, caíram como uma luva para estas propostas. Naquele momento, a questão musical tornou-se muito mais ideológica (uma perda enorme, diga-se de passagem). Estas teorias bebem da fonte de clássicos da antropologia e sociologia nacional. Ver um músico cristão citando Sérgio Buarque de Holanda, por exemplo, é algo muito incomum para o que temos visto nas últimas décadas. Mas, ao mesmo tempo, é preciso lembrar que o chamado ‘gospel’ (nada mais do que um rótulo bizarro surgido no início dos anos 90) é um mercado com letras maiúsculas: está muito bem articulado, forte e segmentado. Transitar entre os meios ‘populares’ e neste espaço, dependendo da forma como se é proposto, não faz sentido algum. Reforçando: Vejo que a proposta essencial do novo movimento era de questionar, proporcionar alternativas, restaurar o sentimento de muitos artistas cristãos aos tempos que antecederam o movimento gospel. Afirmar, ou utilizar-se do novo movimento como mera ideologia de mercado é usar de um reducionismo muito inocente.

Mas, se o questionamento é de fazer uma música que provoque identificação para um público religioso e não-religioso, a questão fica ainda mais tênue e difícil. É impossível? Tenho a absoluta certeza que não. É interessante para o mercado gospel? Tenho a absoluta certeza que não. Mas, considerando que fosse, diria o seguinte:

O preconceito, talvez, é a chave de toda a dificuldade de transitar entre o ‘gospel’ e o ‘secular’, o ‘profano’ e o ‘sagrado’. O crescimento dos evangélicos na população, o surgimento de todo um meio específico e segmentado para este público, ilhou e destruiu a maioria das pontes possíveis. Nos anos 70, era normal Wolô e Ozéias de Paula serem produzidos por Ângelo Apolônio (Poli). Nos anos 80, era normal o Rebanhão gravar com Jessé Sadoc, um dos melhores trompetistas do Brasil, trabalhar com Amaro Moço, engenheiro de gravação responsável por discos da Legião Urbana, Paralamas do Sucesso e Martinho da Vila. Era normal serem produzidos por Paulo Debétio, que trabalhou em diversos discos para a Polygram nos anos 80 e gravar uma composição de Tutuca Borba, tecladista/pianista do cantor Roberto Carlos. Sem falar na dupla Edson e Tita, que tocam até hoje com medalhões da MPB. Era totalmente aceitável Carlinhos Felix gravar com Paulinho Guitarra, um dos mestres da guitarra no Brasil. Mesmo após o início do chamado movimento gospel, não era estranho Resgate e Katsbarnea trabalhar com Paulo Anhaia e Rick Bonadio, este último que se tornou nacionalmente conhecido produzindo os Mamonas Assassinas, e até hoje é um produtor musical extremamente notável. Mais recentemente, ocorreu a ascensão de Dudu Borges no cenário sertanejo e como um dos produtores musicais mais caros do país, e sua consequente saída do Resgate fomentou novas discussões. Vi, por várias vezes, pessoas acusando-o de falso cristão, mercenário, ou coisas do tipo. Curiosamente, quando é entrevistado por grandes mídias, sequer citam que, por dez anos, trabalhou com o Resgate (sendo seis anos como integrante), e, no máximo, diz que gravou com músicos do gospel. Por que? Pela “aparelhagem” do meio. E, mesmo querendo ou não, introduzir-se neste mercado obriga o artista a abrir mão de várias coisas. No ‘gospel’, há regras, linguajar e propostas específicas e que dificultam muito o diálogo com qualquer meio que não seja o seu. Eles, com razão, não entendem o que nós produzimos.

Em 2012, tivemos três coisas interessantes: Uma delas foi o discurso tido, por um portal de música não-religiosa, como confuso do álbum Sobre o Mesmo Chão, as fortes críticas do disco Este Lado para Cima e as polêmicas de Zé Bruno acerca de sua insatisfação com o meio gospel. Esses acontecimentos e registros reiniciaram uma discussão que precisa ser trazida constantemente para o nosso meio. Para questionar os que dizem que tudo é válido, questiono: Será que, realmente, esta popularização do gospel no mercado é real e benéfica? Será que, como evangélicos, as pessoas não tem sido apenas usadas e manipuladas como consumidores fiéis de produtos originais? Será que vale a pena renegar a cultura brasileira, a crítica, a alma artística, tão valorizada em clássicos dos anos 70 e 80, para importar e copiar, irracionalmente, o pop-rock-Hillsong-Gateway-Masterizado-No-Sterling-Sound nos anos 2010? Será que trazer de volta os clichês “Jesus-luz”, “Jesus-cruz” e “Jesus-conduz” não é cuspir em todo o esforço que cristãos das décadas anteriores tiveram para tornar a música feita por evangélicos mais criativa e menos caracterizada como mera propaganda fútil? Seja qual a resposta, é importante refletir.

Por isso, talvez seja interessante bandas e artistas pensarem se o mais válido, no momento, seria se livrar de toda a estrutura e associação com o chamado meio “gospel” que, pelo menos em minha visão, representa todo o oposto do que querem fazer. Ou então, tentarem, à sua maneira, transformar o mercado, pois em seu estado atual, qualquer proposta de transgressão ao rótulo é impossível e desinteressante para toda a sua estrutura. Até porque, se definir adepta ao novo movimento e ter toda a sua agenda dedicada ao meio gospel é, no mínimo, incoerente.

Antes do final, eu preciso pontuar algo que eu venho observando: é necessário também, aos grupos que conseguirem contratos com gravadoras, explicitar o que realmente se propõem a fazer. Um caso: há uns meses, estava visitando a página do selo gospel da gravadora Sony Music Brasil e notei que a Tanlan, por exemplo, estava sendo chamada, em um post, de “pop rock gospel”. Só que Tanlan é uma banda de rock alternativo, não de pop rock (engraçado que no Brasil, tudo é pop).

Portanto, acima e independentemente de tudo, sigam fazendo o que todos os bons músicos fizeram e fazem: música com arte. Daqui a algumas décadas, veremos no que deu tudo isso.

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