Blog

  • Rocklogia – Sobre o Rock in Rio, Queen e o rock clássico

    Este ano, há alguns meses, fiquei fascinado pelo Musical Maps, uma ferramenta extremamente útil do Spotify, que lista as músicas mais ouvidas em várias cidades do mundo. Para quem sempre está a procura de algo diferente ou novo, é muito interessante conhecer grupos e músicos que estão ‘estourando’ em outros lugares e talvez, daqui a muitos anos, serão citados na imprensa local.

    Pois bem, pelas minhas andanças, fui com sede nas cidades britânicas, porque, pelo menos por gosto pessoal, tenho um apreço muito maior pela música feita no Reino Unido do que nos EUA. Ao passear pelos hits em Londres, Cambridge e Leicester, conheci uma banda de art rock chamada Everything Everything, que estava lançando o seu terceiro trabalho, Get it Heaven que, somente o clipe de “Distant Past” traz um milhão e meio de visualizações para o grupo no YouTube. Também conferi alguns nomes novatos no rap e uma banda de punk e hardcore chamada Slaves. E, curiosamente, não vi nenhum “dinossauro” na lista.

    Quando se está no Brasil, a realidade, ao menos em termos de rock, é muito diferente. Para começar, além do sertanejo universitário dominar as paradas de praticamente todas as cidades com 90% das listas, cantores de outros gêneros tomam espaço com várias músicas. Wesley Safadão, por exemplo, é praticamente um ícone brasileiro desde a última vez que olhei. A surpresa veio com Marcela Taís, do meio evangélico, se infiltrando em várias cidades do país com o disco Moderno à Moda Antiga. Em Goiânia, cidade que moro há alguns anos, pensei que o sertanejo fecharia a listagem, mas tive a grata surpresa de que há materiais interessantes, como a banda psicodélica Boogarins e alguns grupos de rap. Aliás, grupos locais são uma tendência observada nas cidades (obviamente). Você vê Selvagens à Procura de Lei em “queda de braço” com bandas de forró em Fortaleza, Palavrantiga em Vitória, o veterano Skank em Belo Horizonte… e por aí vai.

    A cidade realmente diferente é Porto Alegre. Aliás, sem qualquer bairrismo, o Rio Grande do Sul é um ponto fora da curva em relação aos outros estados do país. Com uma lista muito diferente de praticamente todas as demais capitais brasileiras, o setlist foi equilibrado, eclético e recheado de bandas de rock nacionais, tanto alternativas, emocore e indie. A lista também contemplava músicos já longevos e muito conhecidos, como Júpiter Maçã, sem faltar, claro, os sertanejos e as músicas de massa vistas nas outras capitais. Inclusive, a quem se interessar, escrevi uma notícia sobre isso para um site de rock.

    Agora, em setembro, ocorreu o Rock in Rio. A primeira surpresa, diretamente, é que não há nenhum grupo ou músico, dentre as atrações principais, que não tenha participado em alguma edição do festival. Dentre as atrações mais “conhecidas”, a que eu achei, de fato, mais curiosa, foi o supergrupo Queen + Adam Lambert, ainda mais depois dos comentários pós-apresentação que ocorreram pela rede. Do nada, observei vários novos “fãs” da banda e até mesmo uma aclamação que, em minha visão particular, é completamente exagerada. No entanto, eu já imaginava que esta apresentação “daria o que falar” e que a imprensa brasileira escreveria muitas bobagens sobre o assunto.

    Para quem não conhece bem o trabalho do Queen, vou contextualizar: a banda acabou em 1991, com a morte do pianista e vocalista Freddie Mercury. Dentre 1991 e 1997, os três membros ainda vivos, Brian May, Roger Taylor e John Deacon, fizeram poucas apresentações, lançaram uma música inédita, um disco póstumo e só. De 1997 pra frente, a única coisa feita com o nome “Queen” foi a coletânea Queen Forever de 2014, cujo repertório ainda incluiu três músicas “inéditas” – na verdade, versões novas de músicas já lançadas anteriormente por outros artistas, mas gravadas pelo Queen.

    Em meados de 2004, a dupla Brian e Roger se reuniu com um dos melhores cantores de rock de todos os tempos, o experiente Paul Rodgers. Dessa união, surgiu o supergrupo Queen + Paul Rodgers, que excursionou mundialmente (incluindo o Brasil, em 2008) e lançou um disco inédito, bem fraco, inclusive, chamado The Cosmos Rocks. A parceria, insatisfatória, acabou em 2009. Anos depois, o mesmo tipo de colaboração seria formado com o cantor pop Adam Lambert. Aí, as associações e afirmações grosseiras de “continuação do grupo original” seguiram-se de forma bem mais intensa. Os fãs mais conservadores torceram o nariz: afinal, para um grupo que trouxe alguém do nível de Rodgers, apresentar um cantor jovem e pouco aclamado foi algo arriscado. Mas os senhores Brian e Roger gostaram do garoto, e seguem felizes com ele.

    E o que John Deacon sempre pensou disso? Ele não quer estar envolvido em gravações e shows ao vivo e em 2001 até teceu críticas a uma gravação de seus ex-colegas com Robbie Williams, através do The Sun. Dentro do que certamente uma parte de pessoas acham, o músico prefere manter preservada a memória da banda. Enfim, não adiantou Mercury e Deacon estarem de fora e o Queen, de fato, não existir mais, a imprensa dirigiu para meio mundo que se tratava de um “retorno” e que Adam era o “novo vocalista”. Reportagens superficiais e mal apuradas brotaram aos montes no UOL, G1 (e pasmem, até na Superinteressante!), confirmando outro dado lamentável: de todos os textos que eu li, apenas um publicado na Folha de S. Paulo, cujo artigo é uma crítica negativa da apresentação, citou o ex-baixista como músico da formação clássica.

    Isso vem a revelar, além da má apuração de muitos jornalistas (não é o foco deste texto), é que as pessoas, no geral, parecem ter perdido completamente o discernimento entre um grupo original em ótima forma, um grupo original cansado e nas últimas, um músico substituto, ou até mesmo um tributo. Chamar de “Queen” um grupo com metade da formação clássica e um músico convidado é brincar e zombar com a inteligência do leitor. Esta superficialidade nas matérias seguiu-se diretamente para os comentários na rede. Usando as notícias como base, pessoas passaram a sustentar teses e opiniões acerca da apresentação, partindo de pressupostos equivocados.

    OK. Sobre a apresentação, assisti, e como alguém que gosta bastante do trabalho e do legado do Queen, sofri muito, especialmente nas primeiras músicas. Ver Roger Taylor, sempre o mais enérgico dos quatro, em uma performance evidentemente menos acelerada e com a ajuda do filho, é o atestado de que a idade, infelizmente, hora ou hora alcança a todos. Adam Lambert cantando, sem qualquer tipo de alma, a lindíssima “In the Lap of the Gods…Revisited”, foi o ápice da minha agonia. Brian May é o alívio da apresentação. Um músico visivelmente honesto, estava ali, com sua Red Special. Depois disso, o show até melhorou. Não que a performance da dupla e de Adam tenha ajudado, mas o repertório, juntamente com o público que em uníssono cantava as músicas, deixou a experiência menos amarga e mais nostálgica. Definitivamente, lá no fundo, você vê o quanto o rock de arena da banda é eficiente mesmo em uma performance tão plastificada. E, no fim, dentro de uma zona de conforto extrema, a apresentação, aparentemente, funcionou. Mas para falar a verdade, nos dias de hoje, outras bandas, como o Muse, conseguem mostrar mais a “alma” do Queen do que os próprios May e Taylor (já ouviram o disco The Resistance? Aquilo seria o Queen do século XXI).

    https://www.youtube.com/watch?v=L6StSABIa4k

    É ouvir e comparar (não simplesmente os vocalistas, mas toda a química de banda em torno)…

    https://www.youtube.com/watch?v=kO_w7GHMAUw

    Os dilemas do Queen, em diferentes contextos, se aplicam a várias bandas clássicas e com nomes já escritos na história. Afinal, como esquecer o The Who, ainda na ativa com apenas dois integrantes vivos? O que dizer das mudanças no AC/DC do ano passado para cá? Os desgastes cruéis no Yes e as inúmeras formações no Nazareth? E os inúmeros contratempos que atingem o Black Sabbath? Por fim, Motörhead e a lamentável situação do vocalista Lemmy? Esses são apenas alguns exemplos dos limites extremos que estes grupos, de longa trajetória, tem alcançado. Os motivos? Obviamente, são vários, e dependem de cada situação. Mas, no geral, podemos afirmar que estes caras viveram a vida inteira nos palcos, e se dissociar desta rotina não é fácil. E, claro, a indústria da música explora nomes estabelecidos o máximo que pode, pois há um público consumidor muito forte desta música. A internet, por outro lado, até hoje deixa as gravadoras, que antes monopolizavam tudo, confusas.

    Considerando isso, o Rock in Rio, em 2015, pode ser facilmente considerado como uma edição abarrotada de comodismo. Muitos, em contrapartida, afirmam que este ano é uma exceção, pois comemora-se os trinta anos, desde a primeira edição. Mas, analisando todas as atrações, existem alguns nomes que não serão atrações principais, mas que poderiam, tranquilamente, debutar e nos oferecer uma visão de “novidade”: Mastodon, Lamb of God, Queens of Stone Age e Deftones.

    Minha preocupação com isso também se reserva a bandas novas e que tentam seu lugar ao sol. Todo mundo está careca de saber que grupos autorais não tem espaço frente aos conjuntos que tocam covers. Todo mundo sabe que ser músico independente é difícil, e muitas pessoas, de certa forma, querem culpar o chamado “rock clássico” nisso. A minha impressão, por incrível que pareça, é que músicos destas bandas, na verdade, são vítimas e reféns de seu próprio trabalho. No fim das contas, a situação é muito mais complexa e envolve a indústria, gravadoras e, principalmente, público. O baixista do Deep Purple, Roger Glover, utilizando uma abordagem interessantíssima, diria em 2011 que o lance de “classic rock” atrapalha. Interessante, né?

    Por fim, nesta abertura de Rock in Rio, todos estiveram satisfeitos. O público que, em algum momento, alimentou a fantasia de que aquilo foi uma grande, maravilhosa e legítima apresentação, a organização do festival, que lucrou e, em momento algum, se arriscou, além de Brian e Roger, que descansam sob os louros e o legado que construíram. Quando se olha com os olhares da indústria, infelizmente sujeitos como John Deacon parecem loucos.

  • Confira os álbuns indicados ao Grammy Latino 2015

    Em sua décima sexta edição, o Grammy Latino divulgou sua lista de indicados. No meio nacional, nomes como Humberto Gessinger, Banda do Mar, Malta e Pato Fu competiam entre categorias de música brasileira, rock e outros gêneros. Para o meio cristão brasileiro, vários discos também entraram dentre os finalistas.

    Este ano, a gravadora MK Music foi recordista em indicações. Os discos Ao Vivo (Anderson Freire), Da Eternidade (Fernanda Brum), Não Vou Desistir (Wilian Nascimento) e Como Águia (Bruna Karla), todos com distribuição da distribuidora carioca, receberam espaço dentre os finalistas. Como exceção, a cantora Jane Gomes, com um lançamento independente, chamado Posso Tudo Nele.

    Em 2012, a gravadora causou polêmica por publicar uma pauta sobre a vitória de Aline Barros, antes do comitê anunciar o vencedor que, naquele ano, foi Aline, com álbuns Aline Barros & Cia 3.

    Confira todas as indicações na página do prêmio.

  • Melhores discos de rock cristão nacionais: 1995 a 1999

    Continuando a nossa lista de melhores discos de rock cristão nacionais, chegamos a segunda metade da década de 90, uma época bastante produtiva, em termos de rock cristão nacional. O ápice do boom, grandes bandas chegaram ao seu auge, musicalmente falando. Desta vez, o Resgate rouba a cena com a maior quantidade de discos na lista. Confira!

    Leia também as listas anteriores: Década de 70, década de 80 e 1990-1994

    [infobox title=’10º: A Revolução’]Artista: Catedral
    Ano de lançamento: 1998
    Número de faixas: 11[/infobox]

    Catedral - A Revolução - 1998Jhonata: Sem comentários!

    João: Achei uma lástima esse disco estar nessa posição, é um álbum fabuloso da Catedral, um dos melhores da banda, e o primeiro em que eles literalmente romperam de vez com a linguagem “religiosa”, colocando uma linguagem muito mais direta ao povo em geral, não uma música feita “só pra crente”, um mal que começaria ainda nessa década, mas que se alastrou a partir da década de 2000, literalmente fazendo o povo “voltar pra dentro da igreja” ao invés de trazer uma mensagem mais Para Todo Mundo (parafraseando o álbum seguinte deles). Eu mesmo na primeira vez que ouvi esse disco, em 2002 (um ano depois daquele caso lá daquela usina sonora [risos]) eu achava um disco bem bizarro, que quase não mencionava o nome de Deus, etc e tal. Só depois de um tempo vi como a ideia foi inteligente e hoje em dia virou até “modinha”, espero que as bandas do Novo Movimento tenham cuidado pra não fazer tal cosmovisão de qualquer jeito, ou as coisas podem ficar com muita polêMK, ops, polêmica sem direção (risos). Em suma, esse disco fez minha adolescência e digamos que foi um dos culpados por eu ser tão “perigosamente pensante” pra muitos.

    Phil: Esse é um álbum do Catedral que eu não reclamo. Eu não gosto da banda, acho meio “frankenstein” (umas coisas até interessantes mas que não rola juntá-las), mas A Revolução é bem feito. Um pop rock até bem ajustado, apesar da bateria meio esquisita – ou é detalhismo meu, que sou baterista – mas Cezar veio quebrando tudo com as guitarras. Não tenho muito a destacar, senão que foi o último álbum com a MK e foi bastante elogiado pela crítica, e não à toa entrou no nosso TOP 10.

    Thiago: A Revolução do Catedral, talvez, é um álbum até interessante para se estar numa posição melhor, mas eu o acho apenas bom. Kim já estava incorporando, em suas interpretações, performances que lembram totalmente Renato Russo. A banda seguia fazendo seu pop rock, misturado a outros gêneros musicais em algumas canções. Cezar é um bom guitarrista, e mostrou proficiência em alguns solos. É uma grande perda sua morte. A melhor música é “A Revolução”, com seus arranjos contagiantes, interpretações vocais eletrizantes e uma ótima letra sobre a verdadeira revolução. O álbum, aliás, é mais identificável pelas suas boas letras. “Os Filhos de Caim”, “O Sonho”, “Onde o Amor Reina” e “Por Te Conhecer”são boas faixas também. Porém, fiquei incomodado com o violão, inserido tão estranhamente em “Somos Todos Iguais”. Eu não sou o melhor para falar desse álbum, no entanto, creio que vale ter sido colocado na lista.

    Tiago: A Revolução é um disco muito importante para o Catedral e, aliás, deveria estar um pouco mais acima, hein? Já mostrando claramente o que queriam fazer nos anos seguintes, a obra mantém uma linguagem muito menos religiosa que nos outros discos, no entanto, aposta em algumas músicas radiofônicas, que deram o sucesso garantido. Só não consigo gostar de “A Revolução” que, francamente, me remete muito à “Perfeição”, do Legião Urbana (Do O Descobrimento do Brasil, de 1993). Destaque para “Somos Todos Iguais” e “Os Filhos de Caim”. Esta última contém riffs de baixo que só o melhor músico da banda, Júlio, poderia fazer. Foi o primeiro da banda que tive a oportunidade de ouvir inteiro.

    [infobox title=’9º: Asas’]Artista: Brother Simion
    Ano de lançamento: 1998
    Número de faixas: 10[/infobox]

    Asas - Brother Simion - 1998Jhonata: Para não ser arrogante e nem sair por “crítico que não entende de música”, eu opto por não comentar esse álbum.

    João: O maior sucesso do Brother, a primeira música que eu ouvi do mesmo, lá em 1998, no ano que lançou, tocava à exaustão na rádio Manchete Gospel FM 94.3 Recife e muito embora pra mim seja bem inferior musicalmente ante os discos Brother, Esperança, Na Virada do Milênio e Eclipse, é inegável a importância desse disco. Foi um dos meus iniciadores no rock cristão, gastei um dinheirão na época pra comprar o meu exemplar (eu era só um pré-adolescente, cara, não tinha grana nem pro chiclete direito [risos]), e o guardo com muito carinho até hoje. “Voaaaaaaar nas asas do Espírito de Deus”, uma mensagem que ficou na minha memória de 1998 até hoje, dá pra imaginar o quanto isso vale a pena né. Destaco também as faixas “Liberdade”, “S.O.S Terra” e a regravação de “Etéreo”, que pra mim ficou bem melhor que a original do Katsbarnea.

    Phil: Brother mostra de novo porque é um grande compositor (e compulsivo). O cara escreve um monte de coisas. Criatividade é o sobrenome desse cara, só pode, gente! É um álbum tão gostoso de ouvir. Tem umas boas doses de rock, pop rock, folk rock, mas é claro que viaja bastante, se não, não seria o Simion. Até axé entra no álbum. E nada mal, viu? Esse experimentalismo é marca dele, e mesmo assim consegue fazer um álbum com menos rock do que outros tantos grupos, mas que é bem melhor do que qualquer um desses outros. Esse, aliás, foi o último álbum solo do Brother antes de sair do Katsbarnea. Uma pena pro Kats, eu diria, mas Brother continua sendo uma referência de música cristã nacional e ganha um merecido nono lugar nessa lista.

    Thiago: Asas ocupou uma posição muito injusta pela qualidade do disco. Brother Simion caprichou nas composições, junto com Estevam Hernandes, e deixou-nos um rock com arranjos e uma produção musical bem feita. Os teclados foram destaques e as guitarras muito bem colocadas. Os riffs de guitarra e a gaita de “S.O.S. Terra”, “Hey, Brother”, canção com grandes influências dos Beatles, “Tempestade” e sua verve eletrônica e “I Hope You See the Light” são as mais legais do disco. “Canguru Águia” me incomodou demais, principalmente do barulho de percussão e sua pegada de lambada exagerada. O disco foi o maior sucesso de Simion e realmente é uma ótima produção. Merecia uma colocação melhor.

    Tiago: Eu sempre vou dizer que Brother Simion é o nosso Bowie do cenário nacional. Ele nunca cansa de experimentar e fazer algo diferente. Em carreira solo, com a presença de Amaury Fontenele na produção musical e participação de Paulo Anhaia no baixo, começou a trazer, levemente, o techno para suas músicas. Era uma tendência internacional, mas ia totalmente na contramão do que as bandas e cantores faziam no cenário nacional, com seus acústicos. É claro que isso seria aprofundado no disco seguinte, pois este ainda revela um hard “I Hope You See Light”, a gostosa “Hey, Brother” e preocupações acerca do meio ambiente, explícitas em “SOS Terra” e “Tempestade”, sem falar da faixa-título “Asas”, o maior sucesso da carreira solo do cantor. Gosto tanto deste disco que consegui comprá-lo recentemente, mesmo fora de catálogo.

    [infobox title=’8º: Angústia Suprema’]Artista: Rosa de Saron
    Ano de lançamento: 1997
    Número de faixas: 10[/infobox]

    Rosa de Saron - Angústia Suprema - 1997Jhonata: Este álbum não é um dos melhores da banda, mas é um bom álbum. Angústia Suprema é cheio de influências de hard rock e heavy metal. Inclusive, nessa época a banda bebia muito da banda Stryper, o que explica todo o peso das guitarras. Destaco as clássicas “Anjos das Ruas” e a faixa-título, “Angústia Suprema”.

    João: Meu primo Thiago Batinga é fã doente de bandas católicas, em especial Anjos de Resgate e Rosa de Saron. Católico do pé roxo, era de se esperar. Mas o Rosa que ele ouvia nunca me encheu os ouvidos, um pop rock mais manso que bandas como RM6 e Tempus. Mas daí eu ouvi falar de uma fase heavy metal da banda. Isso me chocou um bocado e eu fui lá ouvir. O Diante da Cruz, de 1994, embora mais importante, devido ser o primeiro disco de heavy metal católico do mundo lançado, não me agradou muito, seja pelo vocal ou pela qualidade da gravação mesmo, e por pouco desisti por completo da banda. Daí decidi dar outra chance e ouvi o disco seguinte, Angústia Suprema. Esse disco mexeu comigo demais, foi o extremo oposto do anterior. Realmente é um disco que não é pra muitos “tão bom assim”, mas pra mim é o momento que eu decidi ouvir mais sem preconceito nenhum, uma banda que numa música fala de Maria sem aquela devoção doentia de muitos católicos (“Linda Menina”) e faz um cover irado da banda Tourniquet (“Carregue os Feridos”), isso me fez querer ouvir outros sons dessa vertente religiosa, como Eterna, Testemunha, Beatrix, Extremo Unção e Ceremonya, entre outras.

    Phil: Rosa é outra banda que eu não sou tão fã, porém é mais fácil gostar de algo dela do que Catedral, e o Angústia Suprema é um rock com bastante pegada, viu. Achei bem “plug and play“, som direto, sem muita firula, apesar de o CD ter uma faixa introdutória e algumas faixas longas, o que não é nada demais, né? Bem redondinho, bem produzido, mereceu TOP 10 dessa meia-década 95-99.

    Thiago: Eu achei injusta a colocação dessa banda aqui. Rosa de Saron começou a progredir com entrada do Guilherme e Angústia Suprema não mereceu entrar nessa lista. Sem muitos comentários, é um disco da fase hard rock e heavy metal dela, e é muito mal produzido.

    Tiago: Se toda lista tem sua parte ruim, aqui está a desta. Ainda estou me perguntando o que este disco está fazendo aqui. O Rosa tinha um problema com a bateria… nos trabalhos mais antigos, ela quase nunca tinha peso (quer dizer, esse problema ainda persiste, de forma mais leve). A banda, tecnicamente falando, estava muito limitada para os demais grupos musicais da época. Particularmente, acho que as letras também não são muito fortes. No mais, não mereceu entrar entre os dez. Rosa é uma boa banda, tem bons discos, mas ainda é muito cedo para tê-la aqui.

    [infobox title=’7º: Demonocídio’]Artista: Antidemon
    Ano de lançamento: 1999
    Número de faixas: 27[/infobox]

    Demonocídio_-_Antidemon - 1999Jhonata: Estava no ensino médio quando ouvi o Demonocídio pela primeira vez. Estava começando a ouvir um rock mais pesado e, gostei da banda. Este álbum traz significantes influências para bandas cristãs do mesmo gênero. Tirando a bateria, que em boa parte do álbum é bem enjoante, o álbum é técnica e regularmente muito bom.

    João: Era 2002 e eu estudava no Colégio Adventista do Arruda, quando um amigo meu, Diogo Sobral, chegou na aula de informática e nos mostrou a capa desse disco, e colocou o mesmo pra rodar no PC. Pra mim, que de heavy metal só tinha ouvido aqueles metal farofa dos anos 80 (que minha mãe era muito fã) e uma ou outra banda como Bride e Guardian, aquele som foi o apocalipse, fora a capa com um “capetão” na capa (só um tempo depois entendi – e acabei gostando da ideia – que o capeta estava todo empalado, perfurado por espadas e condenado à destruição, portanto não era um louvor ao mesmo, e sim, como o nome do disco antecipava, um “demonocídio”). Imagino a reação de muitos ao ouvir esse que provavelmente é ainda o mais aclamado disco do metal cristão, de uma banda que no início era apenas uma iniciante no meio de várias outras como Devilcrusher, Theosophy, Calvário, Kletus, Martíria, Arcanjo, The Joke? e Afterdeath, entre outras do inicinho dos anos 90. A The Joke? até então era a banda com o disco mais pesado lançado, ainda que de maneira beeeeem artesanal, e tava mais pra um thrash groove que um death metal com pegadas de grindcore, que é o que o Antidemon apresentou nesse álbum. Apesar de ao longo dos anos a banda ter lançado bons discos, inclusive o impecável Apocalipsenow, Demonocídio permanece sendo um marco, um marco tão impressionante que hoje em dia, 13 anos depois do susto inicial, acabou que me tornou um dos seus frutos, já que death metal hoje em dia é uma das minhas praias prediletas (risos). Um “Massacre” à religiosidade e um chute de coturno nas portas do inferno.

    Phil: É hora de matar os capetas! AEEEEEEEHOOOOOOO! Cara, que emoção ouvir esse álbum. Como é incrível descobrir grupos nacionais antigos de grindcore e death metal e ainda por cima com temática cristã. Esse foi o primeiro full do Antidemon – só tinham um demo em fita cassete – e já balançou a cena rapidamente. Ah, e fez esse barulho todo de forma independente, como a maioria da turma estreante da época (e como boa parte do metal ainda circula hoje). Se você não curte o gênero, OK, mas se seus ouvidos aguentam de boa, certamente é uma grande escolha!

    Thiago: Apesar de eu não conseguir gostar de grindcore e essas vozes pig scream, Antidemon tem um grande mérito: inovou no meio cristão com um estilo totalmente inconvencional, e deu a cara a tapa com uma música bem anticomercial. O que me incomoda é eu não conseguir entender as letras gritadas por Batista, algumas meio sem sentido, meio “eu adoro expulsar Satanás”, muito antidemônio, como a própria banda chama. Digo quase o mesmo para os arranjos de todas as músicas. O álbum é bem grande, tem 27 composições, mas com faixas curtas, característica comum no grindcore. Algumas são tão estranhas que chega a ser bem zoeira, como “Libertação” e “Libertação II”. É difícil ouvir este CD esperando criatividade como um todo, porém é uma produção bastante engraçada e incomum. Foi justa a banda aparecer na lista por sua inovação.

    Tiago: Eu já conhecia a banda de nome há muito tempo, mas confesso que só fui conferir de mais perto quanto eles lançaram o fortíssimo disco Apocalypsenow, e foi uma grata descoberta. Antidemon é demais por sua proposta, e Demonocídio dispensa descrições ou comentários maiores, pois já é um clássico em seu gênero. Claro, tecnicamente a banda veio a melhorar muito mais em seus três discos mais recentes, mas aqui já vemos um death de respeito e bastante avassalador. É, de longe, a maior banda do gênero no nosso cenário.

    [infobox title=’6º: O Sentido da Vida’]Artista: Stauros
    Ano de lançamento: 1997
    Número de faixas: 11[/infobox]

    O Sentido da Vida - Stauros - 1997Jhonata: O Sentido da Vida é daqueles tipos de álbuns que quando você termina de ouvir pergunta: “e o resto?” Ele é incompleto. Não sei afirmar onde de fato ele peca mais, porém, afirmo que é expansivamente indesejável. A começar pela bateria fajuta e guitarra enjoante. Mas não é de todo ruim: tem lá suas particularidades positivas a exemplo de um bom vocal para o estilo heavy metal e, algumas de suas letras são bem poéticas.

    João: Calvário pode ter sido a pioneira dos discos com I.X.O.Y.E. (1993), seguida pelo The Joke com o The Death of the Brittle Biscuit (1995), Rosa de Saron com Diante da Cruz (1994) e pela própria Stauros com Vento Forte (1995), mas foi O Sentido da Vida de 1997 que se tornou o primeiro CD de metal cristão brasileiro lançado de maneira “profissional”, com uma qualidade inquestionável, lançado pelo selo Todo Som, que nada mais era que um selo da gravadora Gospel Records (que logo passou todos os lançamentos desse selo pro seu catálogo), catapultou a banda de Itajaí, Santa Catarina (é, uma banda de rock cristão de SANTA CATARINA [risos]) nacionalmente, e até hoje é um dos marcos do chamado metal cristão brasileiro, junto com o já citado Demonocídio da Antidemon. Os vocais de Celso de Freyn são excepcionais, e foi aquilo que mais me marcou desde a primeira audição. Hoje em dia um material raríssimo, os felizes possuidores de um exemplar original desse disco se orgulhem bastante, porque é um dos lançamentos mais icônicos da história (e se caso você não se orgulha, fale comigo que eu recebo seu CD com prazer).

    Phil: Meu Deus! Essa década só fica melhor e melhor! Só rock bom, cara! UUUUHUUUUU! Esse álbum é o segundo da banda e foi reconhecido até internacionalmente de tanta qualidade, e realmente é um grande trabalho de hard rock/metal progressivo. Muito bem gravado, bastante qualidade técnica pra uma banda que tinha pouco tempo na ativa, e letras bem escritas. É sem dúvidas um clássico.

    Thiago: O Sentido da Vida é um álbum com velocidade, técnica e peso do heavy metal e metal progressivo. A voz de Celso de Freyn é bem diferente, com aqueles  interpretações melódicas e rasgadas clássicas do metal. A introdução aguda e gritada do vocalista em “A Guerra Final” me fez esperar algo na linha do Stryper no disco, mas só ficou na impressão. É um disco que desce, mas meu conhecimento da banda é fraco para analisar profundamente o álbum. Quem espera virtuosismo achará, pois é melhor, musicalmente falando que um outro disco ali em cima.

    Tiago: Como eu já disse, senti falta da banda Calvário na lista anterior. Mas pelo menos este clássico do Stauros está aqui. Talvez o primeiro disco totalmente metal que ganha um destaque maior fora do underground, O Sentido da Vida é historicamente importantíssimo: um som com pegada meio heavy/thrash, aqui vemos uma banda enérgica e procurando sair do lugar comum. É um bom trabalho.

    [infobox title=’5º: O que a Gente Faz Fala Muito Mais do que só Falar’]Artista: Fruto Sagrado
    Ano de lançamento: 1995
    Número de faixas: 11[/infobox]

    O que a Gente Faz Fala Muito Mais do que só Falar - Fruto Sagrado - 1995Jhonata: Faço do título desse álbum meu comentário sobre o mesmo.

    João: Mais uma previsão acertada a contento meu (risos). Bem, muita gente sei lá porque malha esse disco, falam coisas como “cópia de Dream Theater” e similares, mas eu não entendo: o que nesse mundo no fim das contas não é uma “imitação”? Na verdade, esse disco tem muito mais elementos do som clássico e hard rock da banda, apesar de inegavelmente possuir muitos arranjos que lembram bastante Dream Theater, mas não só ela, também lembram muito em alguns momentos Rush e Queensrÿsche. OK. Estou procurando até agora qual o problema, enfim. Esse álbum é fantástico, e a linguagem que o mesmo possui é genial, embora sem dúvidas tenha causado e muito na época, já que o “gospel” já havia terrivelmente criado padrões até do que seriam “letras aceitáveis para bandas cristãs”. Até hoje essa praga persiste no meio dos “fãs de música gospel”, pois se uma banda cristã não se rotula como tal, logo na cabeça de alguns ela está “traindo o Evangelho”. É claro que isso não significa Thallequismos, ops…

    Como o primeiro disco do FS que eu ouvi na vida, esse disco me fez viajar pacas e quebrou muitos paradigmas meus e até hoje o refrão de “Retórica”, que é o enorme título do álbum, ecoa na minha mente e seria ótimo que ecoasse na de tantos “religiosos” desse país e desse mundo.

    Phil: Entramos no TOP 5. O papo ficou sério agora. Aqui é o auge do Fruto Sagrado. Talvez não o auge da acidez (mas pra época acho que foi) ou da técnica, mas do conceito de “Fruto Sagrado” mesmo, porque depois de 2000 a banda nunca mais foi a mesma. O fato é que esse conjunto da obra, nascido em 1995, é o melhor álbum deles e isso é praticamente um axioma, uma afirmação matemática daquelas que você olha e diz “é isso mesmo” e pronto, não há como ser falsa. O álbum é bom mesmo, é digno de ser escutado mesmo, e pronto, “cabou”, vai logo atrás de ouvir que cê tá perdendo tempo!

    Thiago: O que a Gente Faz Fala Muito Mais do que Só Falar foi pautado no metal progressivo, influenciado pela gringa Dream Theather, e manteve, nas letras, as críticas religiosas e políticas que caracterizam o Fruto. Até aquele momento, as produções foram boas e medianas. Esse disco teve ótimas músicas como “A Missão”, uma letra que fez referência a JOCUM (Jovens com uma Missão), as guitarras de Internal War (versão em inglês de “Guerra Interior”), a crítica política de “Podridown”, a reflexão amorosa de “Nosso Erro”, contudo, deixou algumas canções estranhas e fracas como “Presente”, cuja combinação de peso e letra romântica ficou bastante nonsense (como misturar água e óleo), uma letra meio desconexa sobre o estilo da instrumentalização de “Música” (música pesada do Fruto Sagrado tem que ter letra ácida crítica, senão não desce) e uma produção musical que deixou a desejar. No entanto, em resumo é um bom álbum e merece a posição de quinto lugar. Destaque a capa que possui uma aparência bem brasileira.

    Tiago: Confesso que eu tenho uma relação um pouco estranha com esse disco. Por vezes gosto e acho incrível, em outros momentos sinto que é meio “forçado”. O Fruto Sagrado tem uma discografia bem lógica. Os álbuns foram crescendo em qualidade e pretensão progressivamente, exceto em O que a Gente Faz Fala Muito Mais do que só Falar, de longe o trabalho mais pretensioso do grupo fluminense. Fortemente e escancaradamente influenciado pelo Dream Theater, aqui eles tentaram um som mais pesado, letras muito complexas, mas a produção musical não soou muito legal, até mesmo inferior a Na Contramão do Sistema (1992). Mas vale ser ouvido por sua tentativa, e por conter canções fortes e polêmicas, como “Retórica” e “Podridown”. Na época em que ouvi este trabalho pela primeira vez, custei pegar a “matemática” das letras. Isso é bom.

    [infobox title=’4º: Resgate’]Artista: Resgate
    Ano de lançamento: 1997
    Número de faixas: 8[/infobox]

    Resgate  - Resgate - 1997Jhonata: De todos os trabalhos do Resgate que já ouvi, esse é o que considero mais pop da banda. “Terceiro Dia” é a minha favorita desse disco (gente, ouçam os primeiros 3 segundos dessa música e o seu dia já vai tá valendo a pena) e, é claro que, o Resgate para mim é um grupo muito fraco em letras. Não sei se é pelo meu costume de ouvir Rosa de Saron (pós-Olhando de Frente EP) que suas letras não são Ctrl C + Ctrl V da Bíblia, e sim histórias da vida e coisas que vivenciamos, mas eu dou mais crédito para bandas cristãs (o que são poucas) que tenham letras mais profundas e que vão além de colas de versículos bíblicos.

    João: Paulo Anhaia. Esse cara é o Rei Midas do rock! (risos) Exageros à parte, este disco do Resgate a princípio eu não ia tanto com a cara porque as letras pra mim eram bem confusas (mesmo caso do A Revolução da Catedral e do álbum do Fruto Sagrado), mas depois, exatamente como os já citados anteriores, este disco me conquistou. A mudança da sonoridade também meio que me morgou um pouco, APESAR QUE eu conheci o Resgate no Praise, que era bem calminho comparando-se a esse até, mas com o tempo este realmente me pegou pelo ouvido. “E Daí” que esse disco tem poucas músicas (8, sem contar com a faixa anônima escondida após “Em Todo Lugar”), a mensagem dele já antecipava o que o Resgate produziria de alguns anos pra cá, e que eles já faziam de mansinho em todos os discos, mas nesse eles chutaram o pé na porta, de um jeito que tal qual o já citado do Fruto Sagrado, na época causou uma estranheza terrível. Novamente a religiosidade boba afetando a mente até dos “antirreligiosos” do rock “gospel”.

    Phil: Aí sim, fomos surpreendidos novamente! Esse disco é muito louco. A começar pelo fato de não ter sido masterizado. Não vou explicar o que significa pra não ficar enorme (só digo que corrige/equilibra algumas coisas) e muito produtor arrancaria os cabelos só de saber disso. Além disso, tem uma cara meio vintage e experimental, comparado com os anteriores (principalmente o On the Rock), com letras complexas e profundas. Pra mim é difícil falar de Resgate sem parecer fanboy, então falando da produção, Paulo Anhaia fez um belo trabalho aqui. E a bateria, cara… a graça de fazer arte é fazê-la imperfeita e imprevisível, e o timbre da bateria é fantástico sem a master, se melhorassem ia estragar. Eles saíram da caixa do hard rock e foram passear no britpop/britrock, com os quais continuam flertando até hoje. 🙂

    Thiago: Resgate dominou o período 95-99. Buscando novas experimentações, o grupo ousou um rock britânico com guitarras fritando e vibrantes no álbum Resgate, de 97. Esbanjando criatividade e inovação, o disco integrou muitas canções boas, listo “Liberdade”, “E Daí” e “Terceiro Dia” como bons exemplos, porém é um CD que só se vale a pena ouvir por inteiro. “No One” e a segunda parte de “Em Todo Lugar” apresentam um folk rock daqueles que só se ouvem no gringo. A produção das guitarras foram bem colocadas, com a vibe britânica. Ótimo álbum, posição justa.

    TiagoResgate foi um dos melhores, e talvez o último disco realmente bom do Resgate por muito tempo. Aliás, sua turnê foi acompanhada por ótimas apresentações da banda juntamente com os caras da Oficina G3. A obra tem seu tom claramente questionador, com letras complexas e versos bem trabalhos, mas que também conta com arranjos primorosos. É um trabalho liricamente e instrumentalmente anticlichê. Neste época, a banda começa a se mostrar bastante atraída pelo rock britânico, e apresenta, aqui, a sua versão do britpop. É um som de vanguarda, pois, se você parar para pensar, só o Skank faria algo parecido no mainstream do cenário nacional, e em Cosmotron (2003). É certamente curioso como um disco que sequer foi masterizado ter uma orgânica tão agradável.

    [infobox title=’3º: Armagedom’]Artista: Katsbarnea
    Ano de lançamento: 1995
    Número de faixas: 12[/infobox]

    Armagedom - Katsbarnea - 1995Jhonata: Sem comentários (muito ruim!)

    João: Esse pódio está estranhamente perfeito na minha opinião, acho que é a primeira vez que eu curti o pódio, inclusive as posições que os discos ficaram. Bem, ESSE álbum do Katsbarnea, que pra mim é O MELHOR da discografia inteira da banda e um dos melhores discos de rock cristão ever, foi um dos mais vendidos da cena lá na década de 90 (muito pelo sucesso gigantesco de “Gênesis”, possivelmente, mas o disco é muito bom no todo). Daí você puxa a ficha de quem produziu o disco e… Paulo Anhaia. De novo. Citar ele agora vai até parecer um fanatismo sem dúvidas (risos).

    Um dos discos mais autênticos da década de 90, Armagedom finalmente deu uma identidade sonora à banda que andava meio “perdida” no anterior Cristo ou Barrabás (apesar de eu achar o disco muito bom, mas é inegável a evolução incrível apresentada no seguinte). Além da balada arrasa quarteirão chamada “Gênesis”, o disco possuí ótimas faixas como a meio progressiva “Invasão”, o heavy metal orquestral de “Armagedom”, o punk rock de “Crack”, o reggae-rock de “Pra Onde Você Vai, Brother?”, o forrock de “Alegria” e o surf rock de “Do Céu”. Fora a piadinha crítica habitual do Brother na faixa “Fariseu”, com um experimentalismo a lá Pink Floyd e até Duca Tambasco fazendo ponta cantando erudito ([risos] essa faixa é muito zoeira); o mais notável é que esses elementos já constavam no Cristo ou Barrabás, mas nesse disco realmente saiu muito melhor. Imperdível, esse disco foi o primeiro do Kats que eu ouvi na vida, e sem dúvidas o que mais me marcou, com uma das melhores (senão a melhor) formações da banda.

    Phil: Não querendo ser malvado mas já sendo: obrigado, Paulinho Makuko, por ter ido passear fora da banda por um tempo. Ao meu ver, a ausência daquelas percussões todas em álbuns anteriores fez um bem danado pra banda! Brother Simion pareceu mais loucão agora que temos um rock “de verdade” nas faixas que são rock, e pra mim as letras subiram uns degraus na qualidade. Deixaram pra trás a parte mais pop oitentista e amadureceram um bocado. Paulo Anhaia também assina a produção aqui. Déio Tambasco (guitarra) e Jadão (baixo) deram um grande up no trabalho, embora Brother Simion continue sendo a cara da banda.

    Thiago: Resumo do Katsbarnea até o Armagedom: superações e deslizes juntos em vários álbuns, o som terrivelmente chato do Makuko tocando percussão, uma voz não muito legal do Brother Simion, letras interessantes, músicas ora legais, ora fracas. Resumo do Armagedom: progresso enorme da banda, na qualidade musical e na produção. É um discão de prog rock/metal, heavy metal, com experimentações excêntricas do hardcore punk. A influência do reggae no álbum foi bem perceptível em algumas faixas do álbum, mas as melhores são as mais progressivas. Brother Simion arriscou gritos guturais que eu achei demais. Deixou Jean Carlos no chinelo. Apesar de algumas músicas do disco serem meio indefiníveis, ele contém canções dignas de muito elogio, musicões mitantes. As progs “Invasão” , “Armagedom” , “Fariseu” e o southern rock “Get Out of Babylon” são E-X-T-R-A-O-R-D-I-N-Á-R-I-A-S. E todo esse mérito que a obra tem, Déio Tambasco teve uma fundamental participação. As gravações de guitarras do álbum ficaram excelentes. Disco bom, vale a pena conferir.

    Tiago: Esse TOP 3 está lindo de se ver! Após o forçado enxugamento da formação, que matou a estabilidade da formação do Kats (não me canso de falar disso), a banda tinha que encontrar o seu caminho. Embora Cristo ou Barrabás tenha seus pontos fortes, é um disco meio aborrecido, mas ao ouvir Armagedom você percebe que eles encontraram um rumo. O rock experimental, então, era a vertente perfeita para o Katsbarnea. Brother Simion, então, parece carregar a banda em suas costas. Isso, de fato, não é uma ofensa para os demais da banda, pois o disco reserva grandes performances de Déio Tambasco e Jadão, mas o que o nosso vocal faz neste disco não é brincadeira: vocais, piano, harmônica, teclado, guitarra e, claro, assina todas as músicas. Paulo Anhaia (você lerá muito ainda este nome) chega pra somar e enriquece a produção do disco, que conta com “Invasão”, “Do Céu” (que música!), “Crack – Atos 4:11” e “Fariseu”, sem falar nas ótimas camadas de teclado de Giovani Bon, que dão um ar sombrio a algumas canções.

    [infobox title=’2º: Indiferença’]Artista: Oficina G3
    Ano de lançamento: 1996
    Número de faixas: 15[/infobox]

    Oficina G3 - Indiferença - 1996Jhonata: Eu gosto muito desse álbum do Oficina e acho merecida a sua colocação. A versatilidade de vozes nesse disco é muito melhor que Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante (e olha que eu amo Los Hermanos). O peso nas guitarras e bateria foram muito bem encaixados, nada de exageros. Destaco a faixa-título, “Espelhos Mágicos”, “Davi” e “Fé”.

    João: O melhor disco do Kats, seguido pelo melhor do Oficina, é lógico. E, advinha, Paulo Anhaia de novo… (muitos risos). Um festival de hard rock de melhor qualidade, é isso que esse disco injeta nos ouvidos de todos, e não a toa pra muitos é o melhor disco do rock cristão brasileiro supremo (apesar que o disco seguinte nessa lista supera muito a esse). O talento nato de Juninho Afram, Duca Tambasco e Jean Carllos (que até hoje são a formação base do Oficina desde então), juntamente à bateria precisa de Walter Lopes e dos vocais soberbos e inacreditavelmente perfeitos pro hard rock de Luciano Manga, que nesse disco se despedia da banda e chega a ser irônico que com sua partida a sonoridade básica que tanto encantou no Oficina foi embora com ele.

    OK, eu conheci Oficina G3 no primeiro Acústico, o de estúdio, lá em 1998 (um amigo meu me mostrou e eu viajei como poderia haver rock cristão, e desse disco, junto com o Asas do Brother, me introduziram nesse mundo, mal eu tinha virado “crente” [risos]). Mas quando se compara com cuidado e atenção a fase original com o que viria a seguir, você acaba tendo meio que a minha atitude quanto a isso: vira fã incondicional do Oficina com Manga e um cara que até tem um certo apreço pelo quesito saudosismo da fase “popcina G3”, mas nada mais além disso. Indiferença foi o primeiro disco que o Oficina mostrou letras mais “urgentes” pro mundo ao seu redor e também uma sonoridade profissional, que não deixa a desejar nenhuma banda de glam metal/hard rock cristã dos anos 80 lá dos “isteitis”.

    Phil: Clássico é pouco pra falar desse álbum. Agora vou chutar o pau da barraca: sou fanboy de Oficina mesmo! (risos). Podemos considerar esse álbum como sendo o grande marco da era Luciano Manga, com tantas canções lembradas até hoje. Aposto que você conhece aquele irmão mais antigo que canta “Indiferença” ou “Espelhos Mágicos”. Tudo bem que o álbum Acústico que veio depois contribuiu pra amaciar a sonoridade e espalhar a fanbase, mas o que dizer do clássico (e difícil!) solo introdutório de “Glória”? Eu só acho que ainda faltou um “quê” nas letras, algo que se foi com Túlio Régis, mas é sem dúvidas mais amadurecido que o álbum anterior, e lançou a banda a lugares bem mais altos, consolidando seu espaço na música cristã como um todo.

    Thiago: Indiferença é outro clássico da lista. Considerado pelos fãs mais oldschool como o melhor álbum do Oficina G3, mostrou a evolução da banda e demonstrou o que o G3 é capaz de fazer. Afram e seus dedos virtuosos e sentimentais exibiu técnica e musicalidade do início ao fim, Duca Tambasco mitou no baixo, Jean Carlos deu sua contribuição e o saudoso Walter Lopes mostrou quem era na bateria. Esse quinteto pode não ser reconhecido como a formação clássica, mas foi o que mais fez história na banda. O brilhante solo de Juninho na faixa “Glória Ist.” foi o melhor de todos, brilhantismo que foi mantido na interpretação da música cantada. “Davi” abriu muito bem, com a faixa-título sendo a segunda melhor. Duca contribuiu bastante também no seu curto – mas valioso – instrumental, “Duca’s Jam”, e em “Contra Cultura”, música que teve a melhor performance de Jean Carlos em seus teclados. Manga fez sua parte como vocalista. Ainda rendeu a progressiva “Your Eyes” e “Your Eyes II”, a cantada e seu instrumental subsequente. Hard rock, heavy metal, blues rock e rock progressivo direto do forno pode-se apreciar nesse projeto que exala muita técnica. “Rei de Salém”, com sua vibe açucarada demais, e “Magia Alguma” não me agradaram.

    Tiago: Eu gosto muito de Indiferença e sou daqueles sujeitos que o defendem como melhor disco da banda. Não é questão de saudosismo, mas a evolução lírica, técnica e instrumental deste trabalho, para a época, é notável. Se Jean Carllos estreava, Duca Tambasco e Waltão arrebentavam e Luciano Manga brilhava como vocalista, o que dizer de Juninho Afram? De coadjuvante, se tornou protagonista, escrevendo sozinho a maioria das músicas, tornando-se o principal compositor da Oficina e até intérprete em várias faixas. “Glória Inst.” é a coisa mais brilhante deste grande álbum, que ainda nos surpreende pelas belas baladas “Magia Alguma” e “Novos Céus”, sem falar nos hards “Davi”, “Indiferença”, “Espelhos Mágicos” e “Não Temas”. Outra beleza que vejo no disco é “Your Eyes”, para mim, uma das melhores e mais subestimadas músicas do G3.

    [infobox title=’1º: On the Rock’]Artista: Resgate
    Ano de lançamento: 1995
    Número de faixas: 14[/infobox]

    Resgate - On the Rock - 1995Jhonata: Certa vez me disseram pra ouvir 5:50 AM do Resgate como se tivesse ouvindo “Sem Você” do Rosa de Saron, ou seja, é o clássico mais conhecido da banda. Confesso que gostei da música e, como já disse em postagens anteriores, gosto da banda. O que mais me agrada neste disco são as guitarras. Finalmente um disco dessa lista com guitarras agradáveis de começo ao fim.

    João: ON THE MARVELOUS ROCK!!! Praticamente escrevi essa review dos 10 discos da lista com esse disco rolando no meu PC. O disco que eu mais ouço do rock cristão, hoje e sempre. Como já falei no disco Resgate de 1997, o meu primeiro contato com a banda do Zé Bruno, Jorge Bruno, Hamilton e Marcelo foi com o Praise de 2000, que é sem dúvidas um dos melhores discos da banda. Mas um certo dia, em 2002, 2003, não lembro ao certo, pedi emprestado ao pastor Carlos Alberto (Carlão) da minha velha Renascer Beberibe que eu fazia parte na época, esse disco. Eu queria muito ouvir devido ao fato de ter visto os caras do Resgate tudo cabeludão, igual à matéria da Revista Gospel Nº 2 (dezembro/2001) que mostrava várias fotos de shows antigos da banda. Fiquei imaginando o som que eles faziam, já que na época o que rolava era o Acústico da banda (por sinal também muito bom, e foi o primeiro disco de rock cristão que eu comprei na vida). Quando ouvi esse petardo, foi um momento meio “decisivo” pra mim. Eu já na época queria ouvir e tocar uns sons mais “pesados”, embora ainda não fosse uma coisa bem determinativa (acho que só em 2005, há 10 anos atrás, que eu realmente comecei a “entrar de cabeça” nesse som). E assim, On the Rock se tornou meu disco predileto.

    Mais uma produção de Paulo Anhaia, provavelmente a primeira dele com bandas “cristãs”, e ele já chegou destroçando tudo, porque esse é sem dúvidas o melhor disco que ele produziu, com letras precisas, hard rock bem medido, falando de solidão, problemas sociais, hipocrisia religiosa e até humor (temática que começou no disco anterior Novos Rumos com o cover de “Florzinha”, e que seguiu adiante em vários discos da banda até hoje). Acho que não tenho mais o que falar desse disco, senão vai ser repetitivo, o que posso dizer é: QUE DISCO!

    Phil: Abram alas pro campeão. Cara, se for pra fazer um apanhado do rock cristão nacional de todos os tempos esse álbum fica no TOP 5 fácil. O mito Paulo Anhaia ataca novamente e fez um grande trabalho, aparando as arestas dos caras e os direcionando no hard rock de uma forma mais expressiva que os álbuns anteriores. Ficou muito redondinho. Bem feito demais. Os caras soavam muito melhor. Aqui, os temas das letras variam mas carregam diferentes temáticas de uma forma meio satirizada, que se tornaria a marca do Resgate ao longo dos anos. Parece que as canções conversam com a gente, digo, pelo linguajar mesmo. E do On the Rock saiu o que (dizem) é o maior sucesso da banda: “5:50 AM”. É um CD pra ninguém botar defeito, e não digo isso pelo jargão!

    Thiago: On the Rock foi descrito como um clássico da banda Resgate, mas apesar de eu preferir Ainda não É o Último, é um ótimo trabalho musical. O disco reuniu músicas com sonoridade hard rock com flertes ao heavy metal, mais pesado que os álbuns anteriores e muito melhor, tanto musicalmente, quanto conceitualmente. A obra teve a música de maior sucesso da banda e uma das melhores deles, a fera 5:50 AM, uma bela canção sobre solidão. As humorísticas “Papo de Lóki” e “Fogo” são hilárias, mas o sarcasmo de “Fogo” é bem neopentecostal. “Doutores da Lei” incorpora uma crítica aos fariseus, apimentada pelo hard rock. Os riffs magnéticos de guitarra eletrizam e atrai do início ao fim. “He’ll Come Again” é a única mediana do álbum. On the Rock, Indiferença e Armagedom ocuparam com muita justiça o pódio da lista de 95-99.

    Tiago: Primeiro lugar merecido, embora sei que alguns dos meus colegas vão discordar. Nos discos anteriores, o Resgate ainda tentava se encontrar, e com Paulo Anhaia chegaram onde queriam. On the Rock é o registro de uma banda vibrante, alegre, deslumbrada pela possibilidade musical que encontraram. Há algo muito particular no quarteto, já observado nos dois anteriores, que não encontramos em nenhuma banda ou cantor cristão da época: o humor cínico. Este álbum é repleto dele. A banda trata de temáticas seríssimas de forma despojada, como o isolamento social (“Solidão”), morte (“Vida”) e até o diabo (“Fogo”). Mais pesado, o disco foi gravado ao vivo, e é pancada. Vale destacar, também, as fortes críticas em “Doutores da Lei” e a balada mais repetidamente regravada da banda, “5:50 AM”. Os riffs de Zé Bruno e Hamilton estão afiados, a cozinha pega fogo e nas catorze faixas não perde o fôlego. Para um ano em que o Brasil começou a vibrar com os Mamonas Assassinas, o Resgate já evoluía o seu humor desde 1991, curiosamente ao lado do Creuzebeck. De longe, o seu melhor trabalho e um dos melhores álbuns da década.


    A lista foi compilada através de votos dos participantes. Confira, nesta página, a quantidade de votos e os discos que ficaram de fora.

  • Um Brinde – Lucas Silveira quer saber quem pilota os cometas

    Um Brinde – Lucas Silveira quer saber quem pilota os cometas

    Na semana passada, Lucas Silveira, vocalista do Fresno, tocou uma canção inédita no Estúdio Salaquar, chamada “Poeira Estelar”. Eu sou muito fã do trabalho dele e tudo que ele faz (musicalmente) me agrada. Ficou mais velho, amadureceu, vai ser pai ano que vem e, evidente que suas letras ficaram mais profundas. “Poeira Estelar” é um tipo de música que vai na alma, pois confronta com nossas limitações e problemas que passamos no dia-a-dia. A canção foi interpretada no Hangar 110, no último dia 10, juntamente com mais duas inéditas, que seguem uma vibe cósmica em sua parte lírica. Lucas já compôs algumas músicas em parceria com Rodrigo Tavares (Esteban) para a Fresno, cujas letras reforçam o ceticismo do autor. Mas essa não é uma canção ateísta e nem para xingar Deus, ou algo do tipo. Antes de tudo, eu tenho algo pra dizer aos meus três tipos de leitores:

    1. Aos cristãos que não ouvem música secular (especificamente Fresno): Se um artista cristão tivesse composto essa canção e cantasse com a mesma intensidade, ela também estaria sido escrita aqui só que de uma maneira mais superficial. Antes de qualquer conclusão, ouça a música umas trocentas vezes, leia a letra separadamente e depois ouça mais uma vez com uma cosmovisão cristã bem profunda. Garanto que será benção para você.
    2. Aos cristãos que ouvem de tudo (inclusive Fresno): Reflitam que essa música talvez seja um instrumento de Deus para te abençoar. Quando ouço algo, a primeira coisa que busco, antes de prestar atenção no arranjo, voz, bateria, efeitos, loops e se a levada é legal, é saber se consigo tirar algum princípio cristão dali. Não sejam relaxados ao ponto de só aconselharem músicas que vocês gostam porque já ouvem há muito tempo. Lembro que um dia desses indiquei umas músicas da banda Rebanhão a um amigo. Acreditem, eu nem ouço Rebanhão. Não tenho Rebanhão no meu computador e não sei nada da banda, mas algumas músicas deles são bem profundas e sabendo disso, sugeri a um amigo. E detalhe: nós não estamos analisando a qualidade da música e sim a sua mensagem.
    3. Aos fãs de Fresno (cristãos e não cristãos): Por último, mas não menos importante, falo diretamente aos fãs da banda do Lucas. Primeiro parabenizo vocês por terem um bom gosto musical e, segundo, digo que vocês tem muitas mensagens positivas em mãos. Não só no sentido romântico, que até 2009 era uma característica forte da banda, mas no sentido existencial também. Quando o Lucas brada que “nós somos a maré viva!”, ele está dizendo que vocês, nós todos juntos somos maior que qualquer coisa. “A gente pode crescer, perdendo a batalha”. É isso que o compositor diz em “Maior que as Muralhas”. Sei que há ateus dentre os fãs da Fresno, mas por favor, fiquem até o final do texto e entendam que o Piloto que comanda os cometas tem muito a dizer a vocês e ao Lucas.

    “A cada filho que perde um pai
    Quando o fardo é pesado demais
    Quando o amigo trai
    E você sente aos poucos a visão se enturvar
    E a esperança evanescer
    E você só queria uma chama pra queimar suas memórias”

    Nessa primeira parte da música, Lucas Silveira tenta mostrar, mais ou menos, as dores que sofremos em nossas vidas. Desde o EP Eu Sou a Maré Viva, lançado ano passado, o compositor tem apresentado canções futuristas e outras até apocalípticas. No documentário de gravação do EP comentado, em uma conversa com o rapper convidado Emicida, Silveira explica a música “Manifesto” como uma ideia de “evangelho”. E, aqui, eu cito as próprias palavras do autor: “A gente faz várias coisas e se importa com tantas coisas mas na verdade um dia pode vir um asteroide e ‘baah!’ explodir tudo e, isso não vai significar nada no contexto do universo… Essa é a viagem! É evangelho né!? Tu pira no evangelho!”

    Quando um amigo nos trai qual a nossa primeira reação? Ficamos tristes, com raiva, querendo matar o traidor. Mas isso não vai mudar em nada. No filme João & Maria, quando enfim os irmãos conseguem matar a grande bruxa, João olha para a cabeça da bruxa e exclama: “A vingança não muda o passado!” E é exatamente isso que acontece com a gente: queremos explodir o mundo quando as coisas não vão bem, mas isso não muda a nossa existência, dores, defeitos e guerras. O fato do seu amigo ser ateu não muda o fato de que Deus existe. Não é o ceticismo dele que vai fazer com que Deus perca o poder ou a sua soberania. Entende?

    “E você só queria uma chama pra queimar suas memórias”. Nessa parte, Lucas começa a tocar mais profundamente o meu coração e nesses momentos eu agradeço a Deus por, mesmo com toda essa crise política que tem tanto decepcionado o nosso país, é possível ainda olhar pra frente e bradar que ainda não acabou. Essa chama que irá queimar nossas memórias é a própria Palavra de Deus. É nela que iramos encontrar o sacrifício de Jesus na cruz por nós e entender que Ele abriu mão de ser Deus para ser homem. A frase de Jesus para nós nesses momentos de crises existenciais foi: “No mundo tereis tribulações; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo”. Mano, Ele venceu o mundo! Nossa luta não é pra vencer o mundo. Essa luta já foi vencida e nós já não temos preocupação nenhuma com isso, mas a nossa luta é contra nós mesmos e esse orgulho que nos impede de dizer: “Deus, sou pecador, preciso do teu perdão!”

    “Só pra ver, testemunhar
    E nada nesse mundo há de apagar
    Pois somos feitos de histórias
    Se o mundo lá fora quer te apunhalar
    Lembre que seu corpo é só poeira estelar
    Tudo que importa é o agora e nada mais
    Tudo que nós temos é apenas o que a gente faz”

    Somos feitos de histórias. E nesse sentido eu me identifico muito com o Lucas e pergunto: “Quais histórias vocês tem pra contar?”. Estou em processo de escrita do meu livro e as pessoas me perguntam muito do que se trata e, eu sempre digo que é um livro de crônicas sobre minhas perspectivas e um pouco da minha história. Não quero rotulá-lo como auto-biografia, pois não é. Sou feito de passado, presente e futuro. Fomos feitos para estar dentro do tempo e, Deus nos fez para sermos humanos que entendem de horas, meses e anos. Mas Ele não: Ele não se encaixa dentro do tempo, não envelhece e nem se enfraquece. Para nós, o que fazemos tem relevância significativa para nossa realização pessoal, mas para Deus o que fazemos já estava nos planos dEle. Sem querer entrar no debate teológico “arminianismo x calvinismo” eu digo que, se nós fecharmos os olhos e ficarmos o dia todo estáveis, é porque Deus tinha um plano para que aquilo acontecesse. Se o acaso fosse tão inteligente ao ponto de comandar seres humanos, ele se renderia a Alguém que é maior do que ele e diria que Deus é Deus sobre todos e que cada ato nosso gerará consequências boas ou ruins a qual para Deus nunca serão surpresas, pois Ele sabe de tudo. Max Lucado escreve no livro “Antes de dizer amém” que

    “Ele [Deus] tem autoridade sobre o mundo e… Ele tem autoridade sobre o seu mundo. Sobre o seu sono. Os seus hábitos alimentares. O seu salário. O tráfego da viagem diária. A artrite em suas juntas. Deus reina sobre tudo isso. Ele jamais fica surpreso. Ele nunca, jamais pronunciou a frase: ‘Como isso aconteceu?’” (pág. 40)

    Ele sabe de seus mais íntimos desejos. Ele sabe de suas complexidades e de como o universo vai mal. E essa é a nossa segurança, pois Ele sabe de tudo e nunca vai nos dar um fardo maior do que podemos carregar. Seu fardo é leve (Mt 11:30).

    “Quem é esse ser que pilota os cometas?
    Por que é que desvia do nosso planeta?
    Só pra ver, testemunhar, o quanto a gente pode suportar
    Nos ombros
    O peso das memórias”

    Aqui o compositor faz o questionamento “Quem é esse ser que pilota os cometas?” E eu respondo: Deus. Como eu já disse logo acima, Ele sabe de tudo e é soberano sobre tudo e todos. E essa interpretação de que ele desvia do nosso planeta, ou seja, da Terra, é uma interpretação superficial demais pois Deus se relaciona o tempo todo conosco, nós é que não percebemos. Ele não é um deus rabujento que só quer no julgar. Ele é bom e suas misericórdias não têm fim. Ele nos ama como um pai ama seus filhos. Ele nos olha com atenção e nos abençoa com saúde, força e inteligencia todos os dias.

    O nosso problema é que nós achamos que o pecado não é culpa nossa, e nós só agimos assim porque isso lá no fundo não é errado. Quando deixarmos de ver o pecado como algo tão natural ao nível de não nos incomodarmos mais em praticá-lo e enxergarmos como algo que nos distancia de Deus, conseguiremos ver que esse Ser que pilota os planetas está tão próximo de nós ao ponto de podermos senti-Lo. Eu entendo que existem momentos em que nossa fé é confrontada e achamos que Deus é só uma válvula de escape. Tenho um amigo ateu que diz que nós cristãos somos as pessoas mais carentes do mundo e, por isso criamos a figura de um deus bondoso e que vai nos tirar daqui e levar para um lugar melhor. Em resposta eu digo que nós somos sim carentes, mas não trouxas. Somos carentes pois ansiamos todos os dias um contato com o Criador, com o nosso Pai celestial e, sem Ele o vazio que existe em nós só aumenta. Eu encerro citando Max Lucado mais uma vez: “Se Deus é, ao mesmo tempo, Pai e Criador, Santo – diferente de nós – e superior a nós, então estamos, seja qual for o lugar, apenas à distância de uma oração do socorro”. Um brinde!

  • Entrevista: Murilo Braga

    Ele fez parte de várias bandas de rock nos anos 80 e 90. Fez parte do Complexo J, e também do Rebanhão. Participando de vários projetos no meio protestante e no meio não-religioso, Murilo Braga é um nome experiente quando se trata de música feita por cristãos. Leia nossa entrevista com o músico, que falou sobre os projetos com a volta do Complexo J, o movimento gospel e seus trabalhos paralelos.


    O PROPAGADOR – Antes de tudo, quais sempre foram as suas principais referências musicais? O que você mais gosta de ouvir?

    A primeira vez que a música me pegou de jeito eu tinha 11 anos. Um amigo, um pouco mais velho, colocou o disco Help dos Beatles. Aquilo me fez tão bem que não sosseguei até meu pai comprar pra mim… (risos). Ele me deu numa noite de sexta e acordei às 6h pra ouvir sem parar até às 9h. Virei um “beatlemaníaco” e com 12 anos sabia tudo deles, tinha tudo. Depois fui crescendo e descobrindo o som dos anos 60 e 70, décadas onde se criou toda a base do pop e rock. Ouvia Kiss, Led Zeppelin, Peter Frampton, Pink Floyd, Deep Purple, Elton John, Rush. Hoje ainda ouço muito, mas estou mais eclético. Ouço de tudo, menos funk de baile e pagode pop.


    O PROPAGADOR – Como se deu a sua entrada no meio musical?

    Foi no susto em 1981! (risos) O Rebanhão estava nos primeiros passos e eu fazia parte de uma igreja americana, a Maranatha Ministries (não existe mais). Os pastores trouxeram a cultura do rock cristão e formaram uma banda na igreja, o Novo Começo. Tentei a vaga para o violão, já que o baixo estava ocupado. Fiquei de fora. Marcaram uma apresentação da banda na Concha Acústica da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), e o guitarrista não ia aparecer. Ligaram pra mim às presas pedindo que o substituísse. Fui pra lá cheio de medo. Timidez era meu sobrenome (risos). Dispensaram o guitarrista pela falta e assumi o posto. Como era baixista e não sabia solar na guitarra, sugeri o Helio Zagaglia, que depois veio a ser fundador e toca no Complexo J, pra fazer outra guitarra. Dali veio muita história.


    O PROPAGADOR – Quando o Complexo J começou nos anos 80, o mercado musical no meio evangélico ainda era incipiente, mas algumas bandas já existiam, como o Rebanhão e Sinal de Alerta. Como foi esta fase de início de sua banda?

    Aqui eu peço licença pra responder em duas partes. Pessoalmente, fiz parte da fase inicial do movimento de música cristã pra jovem, pra rapaziada, pra tocar nas praças, praias, points, e ser ouvido. Isso se deu comigo no Novo Começo em 1981 e a maior dificuldade não estava na sociedade. A galera curtia e ouvia música com letras mais livres, falando de Jesus com ritmo pesado, roupas modernas, visual legal e nos aceitava. O problema se dava nas igrejas, especialmente as pentecostais e de linha mais legalista. Qualquer balada eles diziam que era heavy metal. Foi a época em que se pregou demais sobre o rock ser do diabo. Quanta infantilidade… Rolava perseguição. Mas o que nos importava era ver gente saindo das drogas, do vício, sendo feliz com Jesus. Quando entrei no Complexo J em 1989, o rock cristão vivia seu melhor momento, especialmente no número de grupos com oportunidade de mostrar um bom trabalho, especialmente porque nossas referências de composição estavam na chamada “música secular”. Até os 80 eram raríssimos os trabalhos cristãos de qualidade. Destaco o grupo S8 e os Vencedores, ambos vindos da década anterior.


    O PROPAGADOR – Na mesma época em que o rock cristão nacional ganhava força com o surgimento de bandas, o meio nacional fervilhava com notáveis e novas bandas, como Titãs, Paralamas do Sucesso, RPM e a Legião Urbana, enquanto ocorria, aqui, o Rock in Rio em 85. Você, como vivenciador desta época, acha que os músicos cristãos que gostavam de rock foram influenciados por este “boom”?

    Acredito que sim. O Rock in Rio de 1985 foi disparado o melhor de todos. Foi um ROCK in Rio. Assim como começaram a surgir bandas nacionais que ganharam a mídia, fazendo a festa de uma geração com o bom e velho rock and roll, no meio cristão o Rebanhão foi fundamental pra inspirar outros a montarem trabalhos semelhantes. Aqui vale ressaltar o nome do falecido Janires, o fundador do Rebanhão, que saiu do grupo em 1984, ano que “trocou seus jeans pelas vestes brancas do Senhor” conforme cantou… (risos). Ele era o “Raul Seixas de Jesus”. Um revolucionário na música cristã. Seu carisma era impressionante e levou o grupo a ser conhecido no Brasil todo.


    O PROPAGADOR – O Complexo J teve muitas particularidades em relação a maioria das bandas da época, como um vocal feminino (Liza) e por letras bastante atípicas. Essas narrativas e propostas já eram muito claras no início, ou foram se desenvolvendo com o passar dos anos?

    Eram naturais. Nada foi programado. A Liza também entrou na música no Novo Começo, também por indicação minha, depois que me efetivaram. Nós estávamos num treinamento de liderança da igreja nos Estados Unidos, e eu a ouvi cantarolando. Falei que ela deveria ser da banda. O pastor concordou que ela somaria no vocal e acabou entrando com o Hélio. O tipo de letras e de sonoridade estão relacionados ao que ouvíamos. O primeiro disco – Solidão, tem canções com elementos de rock progressivo, o que se percebe até o terceiro – Complexo J 3. No entanto, tem um pouco das influências de cada um.


    O PROPAGADOR – Alguns músicos cristãos deste período se queixam acerca de desonestidade por produtores de eventos e adjacências. Em algum momento, no Complexo J, aconteceu com a banda?

    Eu estou de volta à banda desde o final de 2014, depois de 22 anos. Estive entre 1989 e 1992. Gravei o segundo e terceiro trabalhos (Arte Final – 1990 e Complexo J 3 – 1992). Dá pra responder de forma geral à sua pergunta porque a banda nunca fez exigências financeiras pra tocar. Então, no aspecto desonesto de não pagar o combinado, nada a declarar, porque a gente espera a consciência de quem nos chama e entenda que temos despesas, e consciência tem-se ou não. Mas quando foi preciso viajar, transporte, hospedagens e refeições nunca faltaram.


    O PROPAGADOR – Após dois discos lançados, vocês participaram do Programa do Jô. Como se deu esta entrevista e, na época, qual o impacto na carreira da banda?

    Complexo J e Jô SoaresA banda estava prestes a lançar o que considero (e parece que dizem ser) o mais marcante trabalho do grupo: o Complexo J 3. Tínhamos um amigo que quis ser nossos relações públicas, e foi ao SBT e deixou o Solidão e o Arte Final na mão do Jô. Alguns dias depois, a produção fez contato dizendo que o “gordo” queria fazer uma entrevista com a gente. Ficamos surpresos e felizes! Na época, o Jô fechava seus programas entrevistando alguém da música, que se apresentava no encerramento. Tudo transcorreu bem, mas rolou um pequeno mal entendido, contornado, mas que nos fez suar de tensão. A produção falou que o tema da entrevista seria “Deus é Real”, nome de uma canção do disco Solidão. Como foi-nos dito que a música era uma sugestão e nós nem tocávamos nos shows, pegamos uma do disco novo, demos “um gás” na passagem de som, e depois que só teríamos como tocar pra valer diante das câmeras, soubemos que não tínhamos escolha: a música não poderia ser outra! Tivemos que “ensaiar de boca” no camarim! “Martinho, a batera faz tum-ta-tchun-ta”…”e Helio, entra o solo depois que o Zé Carlos mandar aquela parte pirauã…pidauê”…”Murilo, marca o baixo pedal”…”Vamos lá, lembra o vocal Liza?…É…Não…Isso!” Foi por aí! rsrs. No final deu tudo certo pela graça de Jesus! Tá no YouTube. O público não entende porque rimos quando o Jô diz: “é Deus é Real que vocês vão tocar, né???!” Hahahaha. Foi importante pra abrir o leque de oportunidades pra tocar. Nós queríamos falar melhor de Jesus no programa, mas estávamos muito tensos com a parte da música no final. O que pode ter atrapalhado um pouco o nível da oportunidade foi que 1992 foi um ano de mudanças intensas.


    O PROPAGADOR – Depois, vocês assinaram com a MK Music e lançaram a obra-prima da banda, o disco 3. Inclusive, recentemente, o álbum entrou em nossa lista dos 100 maiores álbuns da música cristã brasileira. Este disco certamente se destaca por ter letras com temáticas mais ousadas e polêmicas e pelos hits que teve. Como se deu a produção deste disco? Alguma composição deste projeto lhe é especial?

    É preciso esclarecer um pouco melhor sobre o Complexo J 3. Primeiramente ele foi gravado pela Anno Domini, um selo novo aberto pelo baterista da época, Martinho Luthero. Depois de lançado, ele encontrou problemas com distribuições e divulgação. Nossos melhores divulgadores foram, e ainda são, o público. As pessoas compravam e falavam “uau, que trabalho maneiro!” e assim o disco chegou a ter sua crítica positiva publicada em O Globo pelo jornalista Mauro Ferreira, que tinha nos entrevistado e ao Rebanhão para uma matéria de capa do Segundo Caderno em 1990. Sinto uma grande alegria de ter feito esse trabalho com o grupo. Chegamos a vender 250 discos em 2 noites numa igreja em Santos (SP). Nós éramos os distribuidores… (risos). Em 1993, a formação já havia mudado quando a MK comprou a matriz. Prensou uma quantidade, distribuiu, mas não divulgou. Decidiu gravar um novo trabalho. Com todas essas dificuldades, sem apoio da mídia, praticamente no “ouvi dizer”, o disco é falado até hoje. É comovente vê-lo em 13º lugar dentre todos os trabalhos lançados na música cristã em todos os tempos. Infelizmente, eles nunca se interessaram em lançar em CD.

    Sobre composição especial, existe uma composição minha – “Abra Seus Olhos”, composta com outra letra aos 16 anos. Aos 19, no Novo Começo, mudei para a letra gravada e criei uma encenação enquanto cantava. Colocava um roupão preto com uma interrogação na frente e rasgava na estrofe final. Tinha muito impacto no público, e eu poderia contar várias situações diferentes e impressionantes. A mais marcante foi no festival de bandas de rock da antiga “rádio rock”, a Fluminense FM. A gente se meteu no meio de bandas de todo tipo e mandamos rock falando de Jesus. Os malucos ficaram mais malucos me vendo rolar no chão e rasgar o roupão (detalhe: tinha roupa por baixo… rs). O Evangelho é loucura para os que creem. Mas isso é um detalhe. Esse disco soa como um todo. Gosto dele inteiro.


    O PROPAGADOR – Após o disco 3, você deixou o Complexo J. Quais foram os motivos da sua saída da banda?

    Eu tinha um convite para assumir um culto de domingo à noite na igreja que frequentava. A ideia era que meu visual de cabeludo aproximasse os jovens. O louvor seria mais “barulhento” e eu pregaria. Chamava-se “Giro 180”. Ao mesmo tempo, é preciso lembrar que banda é parecido com casamento, só que mais complicado: não são duas pessoas na busca de entendimento pra andarem juntas, mas 4..5..6..8 pessoas. Nós dialogávamos bastante. Não tivemos nenhuma briga, desentendimento, mas chega um momento em que todos tem razão, só fica complicado equacionar prioridades. Percebi que em alguns pontos eu iria violentar minhas convicções, então conversamos, fiz meu show de despedida, choramos juntos no final, e agora voltamos.


    O PROPAGADOR – Quando o Rebanhão passava por profundas mudanças de integrantes, você permaneceu como baixista, com eles, por cerca de um ano. Como se deu a sua entrada no grupo?

    A banda estava com Paulinho Marotta no baixo e Pedro Braconnot como integrantes originais do primeiro disco. Paulinho teve um convite de trabalho na área dele (engenharia) fora do Rio de Janeiro e meu nome surgiu em consenso com Pedrinho, que me ligou. Eu havia acabado de pedir pra sair da liderança do Giro 180, porque percebia que meu lugar era na música. Fiquei muito feliz e honrado com o convite. Pedro me falou que o afto de conhecer a banda desde o início, ser amigo da turma, ter as condições técnicas e entender a missão, eu seria o mais indicado. Foi muito bom. Tocar com Pablo Chies, Serginho Batera (depois Wagner Carvalho), Pedrinho, Dico Parente (que cantor de rock!) e Zé Canuto foi um presente. Praticamente um ano depois, a banda teve convite para excursionar pelo nordeste. Eu tinha emprego fixo. Aí foi final da linha.


    O PROPAGADOR – Você se lembra, mais ou menos, dos músicos que passaram nesta época na banda ou alguma situação em especial no tempo em que ficou com eles?

    Lembro de todos! No Complexo J não houve mudança de membros. Era Martinho Luthero (bateria), eu (baixo, gaita e voz), Marco Salomão (Voz e guitarra), Helio Zagaglia (Guitarra), Zé Carlos Salgado (teclados) e Liza Zagaglia (Voz). Histórias marcantes? Vou acabar com o seu espaço (risos). Pra falar por alto: entrevistas para O Globo e Jô Soares. Tocar no Festival de Bandas de Rock e ser premiada com uma das melhores bandas dentre 100 competidoras (o prêmio era ter uma faixa gravada num disco produzido pela rádio). Tocar na Catedral Metropolitana do Rio, num festival católico, a música “Ressuscitou”, debaixo de um crucifixo de uns 10 metros com Cristo pendurado na cruz foi muito legal (apesar de saber que católicos creem que Jesus ressuscitou também). Ah… e tem coisa que eu não gosto de contar, do tipo “orei pelo cego e ele enxergou” (não rolou isso). Motivo: não sou nem somos NADA. Quem fez e faz qualquer coisa é Jesus. Só contei fatos legais e marcantes pra gente.


    O PROPAGADOR – Os anos 90, no rock feito por cristãos, foi muito marcado pelo “movimento” das bandas da Renascer, mas no Rio de Janeiro, além de Rebanhão e Complexo J, tinham outras bandas como o Catedral. Como era a relação de vocês com tudo aquilo que ocorria na capital paulista e com as bandas do Rio?

    Era ótimo no princípio de tudo. Com o Complexo J fiz shows grandes junto com o Resgate. Ficamos amigos da formação original do Katsbarnea. Tocamos junto com Oficina G3. Era um tempo ainda “pré-gospel”. Ainda se podia ver amor falando mais alto que o mercado, que a grana, a fama, o glamour.


    O PROPAGADOR – O movimento gospel, ocorrido nos anos 90, causou uma intensa mudança no meio musical protestante em geral. Você acha que essas mudanças foram benéficas?

    Benefícios só no aspecto de investimentos maiores na infraestrutura de mercado. Passou-se a gravar melhor, se tornou mais profissional o resultado da sonoridade. O rótulo “gospel” para a música de conteúdo cristão foi uma imposição mercadológica. A Renascer de Estevam Hernandes, homem de marketing, junto com Toninho Abbud, dono da Gospel Records e publicitário, conseguiu colocar todo mundo que canta música cristã como “gospel”. Gospel Music é um estilo de música americano, logo não pode haver “rock gospel”, “samba gospel”. O que passou a acontecer desde então foi uma mercantilização cada vez maior da música cristã, chegando ao que temos hoje. Minha resposta? Maléficas! Não confundam com malignas! Mudou pra pior. Hoje vemos gente que sonha em ser cantor(a) gospel “pra honra e glória de Jesus” mas eu pergunto se esse sonho se mantém de pé se for pra cantar por amor, ou aceitando ofertas voluntárias. Há igrejas que investem grana nos músicos pra ver se gravam “os levitas” e fazem um CD e um DVD, e “se Deus nos abençoar”, na MK (porque se for no Rio, dá pra garantir que vai tocar na rádio e vai chover convite). Junto com essa onda de fazer sucesso, tem a máquina de “compor sucesso”. Lixo! Letras sem conteúdo, ou mesmo sem sentido ou base no Evangelho! Outro dia ouvi cantarem numa igreja uma letra que dizia “Espírito Santo, ore por mim”. Provavelmente porque diz que o Espirito intercede por nós. Deve ser de algum cantor gospel desses que cobram 10 mil pra cantar 3 “louvores” em playback! Tiago, se eu for falar o que eu sei de malefícios vindos desse gospel que está aí, não paro de falar e de ficar chateado.


    O PROPAGADOR – Depois do Rebanhão, quais projetos musicais você tem participado desde então?

    Depois do Rebanhão eu fui chamado para uma banda que fez sucesso nos anos 80 junto com Radio Taxi, Blitz, Herva Doce, etc, chamada Grafite. Explodiu em 84 com a música Mamma Maria. O líder fundador havia se convertido e era pastor. Remontou o Grafite cristão. Fui fazer a voz e guitarra-base, mas logo assumi o baixo. Um ano depois, todos cristãos na banda, pensamos que o lugar de ser luz era fora, e que o Grafite deveria lutar pro espaço na mídia secular. Fiquei no grupo até 98. Tim Maia ouviu nosso CD e elogiou. Chegamos a meio passo de estourar, mas a mídia decidiu lançar o axé do Tchan. Fiz um único show solo cristão em 2000, e não prossegui. Voltei para bandas. Ajudei a montar algumas, mas só em 2004 comecei a tocar novamente profissionalmente. Montei bandas-tributo e covers, todas seculares: Vid Versus, The Kalks e desde 2008 toco nos Rockólatras que faz flash back do rock dos anos 60 aos 90. Fiz gravações ao longo do tempo, e no final do ano passado retornei ao Complexo J na proposta de retomar a pegada do Complexo J 3. Também tenho um projeto de power trio pra 2016 com um guitarrista que já tocou no Rebanhão e hoje toca na noite, Chello Freitas, e um batera que gravou com Bruce Dickinson do Iron Maiden.


    O PROPAGADOR – Como você vê a música dita gospel atualmente? Em que, talvez, é preciso melhorar?

    Eu não vejo nem ouço… e pra ser honesto, nunca fui de ouvir rádio evangélica. O que eu gostava, eu comprava. Nunca curti rádio. Por isso sempre tive muitos discos e tenho CDs, DVDs e mp3s aos montes. Mas pra melhorar a dita “gospel” tem que começar pelo espírito da coisa. Não estou generalizando, porque tenho certeza de que tem gente boa e honesta, mas que vive cercada de corrupção. É preciso OUVIR música de qualidade pra COMPOR melhor. Ler e prestar a atenção em grandes letristas, na poesia, e sair do mantra. Parar de compor música como se fosse ração pra gado: aprende algumas sequências de acordes que mexem na emoção das pessoas, e só alteram a melodia. Encaixam umas letras colocando as palavras-chavão fora de ordem, e está pronto o novo sucesso gospel. É incrível, como dá pra identificar quando é gospel às vezes por um trechinho de 10 segundos!


    O PROPAGADOR – Nos últimos anos, tem-se visto a volta de bandas que outrora encerraram as atividades, como o Stauros, a Banda Azul, mais recentemente o Rebanhão, e agora o Complexo J. Como se deu esta reunião de vocês?

    Complexo J 2015A banda nunca parou, mas fala-se que depois do Complexo J 3, os novos integrantes deram uma nova roupagem ao grupo, e os fãs da banda gostavam mais da fase anterior. Um fato: os músicos que entraram eram (e são) tecnicamente excelentes. O que eu notei também foi isso: o estilo mudou. Aí o público também muda. Recentemente, a banda estava apenas com os dois membros da formação original, Marco Salomão e Helio Zagaglia, ainda sem novos rumos. Sem saber de nada, comentei com o Helio, que voltaria a tocar na banda com prazer. Pouco depois ele e Marco me chamaram pra conversar e me falaram da gente resgatar a pegada roqueira. Topei e aqui estamos.

    Sobre o retorno de bandas antigas, que podemos de chamar do rock cristão brasileiro de base, a explicação é simples. Cresce o número de pessoas com saudade do som que fazíamos, das letras, do bom clima, da ausência de competição pelas luzes, fama. A gente toca coisa de 30 anos atrás e pensam que é coisa nova e gostam! O povão se acostumou com o “gospel” e quando alguém mostra algo mais consistente, acham que “a revolução está começando” (risos). Não. Ela estava ganhando raízes quando o mercantilismo tomou conta.


    O PROPAGADOR – O que o público pode esperar desta volta do Complexo J? Terá algum registro de inéditas, ou vocês pretendem apenas se apresentar com o material já lançado?

    Por enquanto, estamos apresentando o material já gravado, resgatando o dos 3 primeiros trabalhos que deram a marca mais forte ao grupo, e pra 2016 os planos são inserir novas composições e músicas seculares que são Evangelho puro. Muita gente pelas igrejas não consegue ouvir porque se fecha, mas Deus está falando através de Beto Guedes, Teatro Mágico, Rod Stewart…


    O PROPAGADOR – Deixe uma mensagem/recado para os nossos leitores.

    Antes de tudo: AMEM!! Jesus disse aos apóstolos: “Vocês serão conhecidos como meus DISCÍPULOS pelo AMOR que tiverem uns pelos outros”. Deus escolheu ser amado no seu próximo. Alguém tem sede? Água pra ele. Fome? Rango! Tá doente, preso? Visita. Tá fazendo tudo pra Jesus. É isso que vai fazer a diferença quando chegar diante dEle.

    Pra quem quer ser músico cristão: seja músico. Cristão você já é. Não pense em luzes. Já vi as luzes e a fama. Ilusão. Grana corrompe. Cuidado. Pense no Evangelho e no amor pelas pessoas.

    Curtam a página do Complexo J no Facebook, e quem quiser ser meu amigo(a) por lá, Murilo Kardia Braga, só mandar uma mensagem dizendo: “li sua entrevista e quero ter você entre os amigos” e o pedido. Será um prazer.

  • Complexo J – discografia e obra

    Um dos grupos mais importantes do rock cristão, surgido nos anos 80, o Complexo J é uma banda do Rio de Janeiro.


    Guia discográfico

    Solidão (Independente/1988): Com influências do rock progressivo e do hard rock, o primeiro disco do Complexo J contém bons momentos e é uma estreia razoável. (Nota: [usr 3])

    Arte Final (Gospel Records/1990): Um dos melhores discos do grupo, contém uma evolução musical considerável, com faixas instrumentais e letras instigantes. (Nota: [usr 4])

    (MK Music/1992): Um literal ‘tapa na cara’ da sociedade, o terceiro trabalho do Complexo J é um dos discos mais fortes dos anos 90, em tempo de extenuantes crises econômicas e expansão do meio evangélico. Apresentando Cristo como solução revigorante, é o ápice da capacidade criativa do grupo, com grandes canções, como “Abra Seus Olhos”, “Choro da Natureza” e, especialmente, “Sábado Quente”.  (Nota: [usr 5])

    Riqueza de Sons (MK Music/1994): Aproximando-se da tropicália, e com mais influências extra-rock, mantém o discurso relativamente forte do disco anterior, mas é muito mais aberto a outros tipos de som, realmente justificando o título. (Nota: [usr 3.5])

    (Gospel Records/1995): Menos forte do que o disco anterior, o disco é repleto de algumas boas canções, como “Sempre te Vejo” e “25 anos”, mas elas são a minoria do projeto. (Nota: [usr 2.5])

    10 Anos (Independente/2001): Aparentemente uma coletânea, mas na verdade um registro que mais soa como uma colcha de retalhos, o disco não faz muito sentido.  (Nota: [usr 2])

    Consciência Limpa (Independente/2008): Voltando-se ao som mais antigo da banda, o disco funciona muito bem como um registro à moda antiga da banda, trazendo, até, regravações. (Nota: [usr 4])


    Notícias e matérias sobre o Complexo J

    Para ver todo o conteúdo sobre ou relacionado ao Complexo J no O Propagador, clique aqui.

  • TOP 10 – músicas sobre a imperfeição humana

    Somos pecadores, com Cristo morrendo por nós, nos sustentando por Sua graça. E é por ela que continuamos a caminhar e viver. No entanto, continuamos imperfeitos, lutando diariamente para a perfeição, até o dia da eternidade. Por isso, trouxemos dez canções cristãs sobre a imperfeição humana.

    [tabs]

    [tab title=”10º”]

    Pai, eu não Confio em Mim – Thalles

    Single do álbum Sejam Cheios do Espírito Santo, “Pai eu não Confio em Mim” é um tema recorrente na carreira do cantor: as tentações e desejos do mundo que, muitas das vezes, tentam cegar os cristãos. Por nossa fraqueza, não podemos colocar nossas expectativas sobre nossas forças, mas confiar no Pai. (2013)

    [/tab]

    [tab title=”9º”]

    Entrega – Daniela Araújo e Lito Atalaia

    Daniela Araújo e Lito Atalaia duetam, nesta que é uma das canções mais fortes do álbum Criador do Mundo. Refletindo que, mesmo convertidos ainda podemos nos perder, caindo na hipocrisia e farisaísmo, por nossa imperfeição, devemos nos entregar por completo a Deus. (2014)

    https://www.youtube.com/watch?v=ylX-Zi3xLXw

    [/tab]

    [tab title=”8º”]

    Imperfeito – Anderson Freire

    O oitavo lugar vai para Anderson Freire, com “Imperfeito”. A canção fala acerca do nosso olhar julgador, que muita das vezes não se apercebe dos erros que existem em nosso coração e em nossas ações. Assim, o eu lírico pede que Deus o ajude a melhorar. (2010)

    [/tab]

    [tab title=”7º”]

    Assim Caminha a Humanidade? – Resgate

    A única faixa inédita da coletânea Pretérito Imperfeito, mais que Perfeito, é uma reflexão autobiográfica do vocalista do Resgate, Zé Bruno, concluindo que o mundo constantemente vive em desespero, incapaz de viver em harmonia, buscando soluções para inúmeros problemas, enquanto Deus observa nossa loucura com Sua singular perfeição. (2011)

    [/tab]

    [tab title=”6º”]

    O Sangue de Abel – Fruto Sagrado e João Alexandre

    Uma das canções mais fortes do Fruto Sagrado e que também aborda a imperfeição humana. Nela, com a participação de João Alexandre, é pedido perdão a Deus por todas as atrocidades e criações humanas que derramaram sangue, provocaram dissensões, ódio e terror. “Perdoa-nos oh Deus / pois o mal que semeamos / tem se virado implacavelmente contra nós“. (2003)

    https://www.youtube.com/watch?v=LbpFg5O9Si0

    [/tab]

    [tab title=”5º”]

    Seis da Tarde – Heloisa Rosa

    O quinto lugar vai para Heloisa Rosa, com “Seis da Tarde”. Uma de suas canções mais introspectivas, é focada na queda do homem no jardim do Éden, com letra bastante poética. O refrão é forte e direto: “estou aqui / no Teu jardim, oh Deus / estou aqui / não quero mais me esconder de Ti”. Contém a participação dos integrantes do Palavrantiga na execução instrumental. (2006)

    https://www.youtube.com/watch?v=xs5qhkqKAjA

    [/tab]

    [tab title=”4º”]

    Deus me Ama – Mariana Valadão

    Escrita por Thalles, esse sucesso de Mariana Valadão é simples, básico, mas profundo. Mesmo com nossos erros e pecados, Deus continua sendo Deus e nos amará. Foi por isso que Ele entregou seu único filho para morrer por nós, um amor, sem dúvida, incondicional. (2009)

    https://www.youtube.com/watch?v=pctmGAmGBNM

    [/tab]

    [tab title=”3º”]

    Até Quando? (Humanos) – Oficina G3

    Um dos principais hits da Oficina G3, “Até Quando”, geralmente apelidada de humanos, é direta no ponto da imperfeição humana, citando exemplos de pessoas que ainda possuem a dificuldade de viver o amor de Deus, seja por atos de religiosidade, ódio ou simplesmente ignorância. Assim, questionam “quando vamos viver a vontade do Deus Pai? / De viver seu amor, de vivermos em paz?” (2002)

    [/tab]

    [tab title=”2º”]

    O Espelho – Voz da Verdade

    A medalha de prata vai para o Voz da Verdade, com o clássico “O Espelho”, o qual intitula um de seus álbuns. A canção é direta na nossa dificuldade em praticar o bem, muitas vezes tendendo ao mal. Por isso, o eu lírico pede a Deus que permita-o servir mesmo em sua imperfeição. (1999)

    [/tab]

    [tab title=”1º Lugar” icon=”trophy”]

    Sou Humano – Bruna Karla

    Sucesso de Bruna Karla, “Sou Humano” venceu como a melhor música no Troféu Promessas de 2011, e não foi por tanto. A canção foi hit em grande parte das igrejas evangélicas de cunho pentecostal. Sua letra é direta na temática da imperfeição humana, pedindo a Deus força para continuar. Um dos vídeos dessa canção no YouTube possui, até o momento em que este post é escrito, quase 70 milhões de visualizações, um número absolutamente incrível. (2009)

    [/tab]

    [/tabs]

    O que achou deste nosso TOP 10? Conhece mais canções acerca deste tema? Comente e compartilhe com todos, sua opinião é importante!

  • Fronteira – Um remédio, um anestésico ou uma LSD?: As pílulas da farmácia

    As igrejas de hoje são realmente farmácias espirituais, ou tem se tornado um centro de tráfico de drogas e anestésicos mentais e espirituais? Podem ser bastante fortes essas analogias, mas ao se deparar com o evangelho de Jesus, o que deveríamos encontrar: a simplicidade ou fantasias de egos levantados?

    A lei da liberdade em Cristo é quebrada pelo legalismo e anestesiada pela religião, e os extremismos da libertinagem, que na verdade é escravidão da carne, é ingerida em doses de drogas de falso cristianismo. Quando as igrejas deixarão de servir a um sistema para viver pelo Reino de Deus?

    Você encontra remédio, anestésico ou LSD na igreja?

    As Pílulas da Farmácia

    Anestésico,
    LSD,
    Remédio,
    A farmácia da vida
    Passa uma só via,
    Mas ninguém mostra a comida.

    A receita leva,
    Fora dos extremos,
    A cura da lepra
    Do nosso interior.

    Mas quem pode explicá-la?
    Quem pode explicá-la?

    Anestésico para os dias,
    Compramos anestésicos
    Na farmácia dali nessa via,
    A via da visão de império.

    Império de visões,
    De sensações,
    De criações,
    Não somos nós,
    Somos um império as sós.

    Há três vias:
    O anestésico, o LSD e o remédio.

    O anestésico do homem
    Vem anestesiando
    Nossas sensações,
    Padronizando
    Nossas identidades,
    Escravizando
    Nossos pensamentos.
    Fogem da liberdade
    Para a falsa verdade,
    Iludem as cidades,
    Cantam boas maldades.

    Você está anestesiado?

    Mas se não injetou
    Os anestésicos,
    A LSD pegou
    E nós céus se jogou.

    Você cria verdades?
    Vive outro deus
    De sua individualidade?
    Você fuma os seus
    E do sistema inverdades?

    O fogo desce
    Queimando você,
    Um cigarro
    De fumaça e ser.

    E nessa busca do sobrenatural,
    Toma a LSD espiritual,
    Cria fantasias e mistérios,
    Onde requer o simples, o sério.

    Você fuma prosperidade
    E atrocidades,
    Fuma busca por anjos,
    Fuma fantasias espirituais
    Com fundos carnais,
    Você fuma você.

    Você tem LSD no bolso?

    Mas você sabe quem é
    Por detrás dessa face
    De iludida fé?

    É um mendigo espiritual
    Atrás de comida imaterial,
    Doente, o inimaginável
    Pecado fatal.

    Morrendo aos poucos
    Na agonia sem paz,
    Deixe-se ser louco
    Longe do que lhe apraz.

    A receita do médico
    Tem o seu remédio,
    Isso é o evangelho
    Sem grandes mistérios.

    Você deseja ver
    O seu eu e seu remédio?

  • Rocklogia – Ainda não é o Último

    O Resgate é uma banda incrível. Não é somente porque sua formação é bem sólida, devido ao sentimento de amizade que seus membros alimentam entre si, mas também porque, apesar de suas limitações, a banda sempre se esforçou para melhorar o seu som e se tornar relevante. Muitas bandas de alta qualidade, e de músicos com egos altíssimos ficaram pelo caminho, e o Resgate, na sua limitada capacidade, seguiu ativo e surpreendendo.

    A melhor coisa que aconteceu para o grupo, então, foi a entrada de Dudu Borges. Quem imaginaria que um dos produtores, senão o produtor musical mais requisitado dos últimos anos, seria integrante de uma banda de rock cristão cujos integrantes afirmam não serem grandes músicos? Dudu foi uma peça muito importante para a renovação que sua música sofreu nos últimos anos.

    Após Até eu Envelhecer, muitas coisas mudariam em volta da banda. A gravadora Gospel Records, que distribuiu discos do grupo desde os primeiros anos, encerraria as atividades. Os escândalos em relação à Igreja Renascer em Cristo balançaram (e muito) a confiança de muitos membros. Zé Bruno também chegou a ser deputado, foi investigado por um suposto envolvimento de sonegação de impostos e lavagem de dinheiro através de igrejas laranjas. Zé foi inocentado, mas, em 2010 deixaria a igreja, ação que também foi tomada pelos demais integrantes.

    Em 2009, o executivo Maurício Soares pretendia lançar uma gravadora própria, e o Resgate era sua primeira parceria. Quando foi convidado para estar à frente do selo gospel da Sony Music Brasil, o Resgate acabou se tornando a primeira contratação. Mais um fato inusitado para uma banda que já não estava dentre os “gigantes” há muito tempo.

    Enquanto isso, o grupo preparava Ainda não É o Último. A obra foi gravada no estúdio VIP, de Dudu Borges. Por ter sido gravado no estúdio do músico, a banda teve liberdade e tempo total para se dedicar ao disco. O hammond, rhodes e experimentações de Borges estão lá, em todas as músicas. Não foram utilizados teclados no álbum. Sem sintetizadores, o som é bem orgânico, vintage, mas ao mesmo tempo tem um som muito dentro do nosso tempo.

    Zé Bruno se superou como vocalista, e cantou muito bem as faixas deste álbum. Evitando exageros dos discos antigos, o intérprete se destacou, principalmente no single “Depois de Tudo” e “Neófito”. O vocalista ainda foi o compositor majoritário, mas as composições foram mais coletivas que nos últimos discos. Uma destas canções individuais foi “Jack, Joe and Nancy in the Mall”, uma brincadeira do músico, que mais tarde tornou-se uma ideia bastante original. O clipe da canção foi dirigido por Kako Alves, baterista do Militantes (banda que falaremos daqui a algumas semanas).

    Mas claro, os demais músicos também são dignos de nota. Hamilton Gomes está lá, na vanguarda, um pouco diminuído, enquanto você puder ouví-lo. O baterista Jorge Bruno e o baixista Marcelo Bassa cumprem o que as músicas pedem e não exageram. No fim, o que se ouve é uma banda experiente, coesa, mas vívida como nunca. Ainda não É o Último mostrou que é possível fazer um disco “pop e comercial”, mas, ao mesmo tempo, de qualidade. A obra foi lançada no dia 30 de abril de 2010.

    Segundo a banda, desde Praise, foi o primeiro projeto em que realmente terminaram as gravações e viram que o resultado tinha sido muito positivo. Foi o primeiro lançamento do selo gospel da Sony Music e, na minha particular visão, continua sendo, cinco anos depois, um dos três melhores álbuns que a música cristã viu nestes últimos anos.

    Convenhamos que, teologicamente falando, a banda saiu-se bem, de uma forma não vista desde o disco Resgate (1997). Mais, recentemente, foi incluso na lista dos 100 maiores álbuns da música cristã nacional.

    Com a saída da Renascer, o que gerou muitas críticas, e ao mesmo tempo elogios, Zé Bruno acabou fundando uma igreja, a Casa da Rocha. Desde então, o Resgate aumentou sua agenda. Dudu Borges, por sua vez, tornava-se mais conhecido como produtor musical, o que tiraria muito de seu tempo, como veremos em breve. Mas isso é assunto para outro post

    E antes de tudo: Dudu, volta para o Resgate! (risos)

  • Crítica: Você não Precisa de um Chamado Missionário – Yago Martins

    Assim que eu soube que o Yago Martins havia publicado um livro, eu rapidamente quis comprar. E, após descobrir que era sobre missões, minha vontade de ter o livro só aumentou. Pessoas como Augustus Nicodemus Lopes, Norma Braga, Renato Vargens e Solano Portela comentaram o livro, e quando você ver essas feras falando bem de uma obra, pode comprar, pois é garantia boa na certa.

    Quando estou desejando muito algo, costumo pregar numa folha A4 no meu quarto o que devo comprar em determinado mês. Meu amigo Marcos não pôde me dar nada de presente no meu aniversário (que foi em maio) e então no mês de junho ele perguntou: “Naquele dia fomos no shopping e vi que você se interessou pela camisa dos Beatles, mas também sei que você quer muito o livro do Yago. Então, o que você quer ganhar de aniversário?”. Eu fiquei na dúvida, porque para mim a pergunta soou como: “você quer beber água ou comer pelo resto da vida?”. Fui pego em vícios que não consigo me libertar: MÚSICA e BEATLES de um lado e LIVROS e TEOLOGIA do outro. Mas optei pelo livro do Yago. Confesso que foi uma das melhores decisões que tomei nesse ano. Entendi o título já de cara, exatamente por entender que o IDE é uma ordem e não um pedido ou um mero chamado.

    O livro me ajudou bastante principalmente no quesito motivação:

    “A obra missionária é um meio para a glória de Deus – e isso é o que nos motiva […] Precisamos de motivações cristocêntricas, e é sobre isso que fala o texto de Mateus 28:18,19. Se isto é verdade, então encontramos uma ótima indicação bíblica sobre como nos tornamos pessoas cada vez mais motivdas a pregar o evangelho às nações.” (pág. 34)

    Como missionário urbano, dedico-me a cumprir o IDE e a agenda do ministério o qual faço parte. Mas, foi lendo o livro que eu parei para refletir sobre minhas reais motivações para pregar o Evangelho. Yago expressa isso biblicamente também: “O motivo pelo qual precisamos falar sobre motivações é que a bíblia fala sobre motivações. Ela é repleta de mandamentos sobre isso. O famoso Sermão do Monte mostra Jesus interpretando os Dez Mandamentos e outros preceitos da Lei judaica de um modo que não se prende apenas à ordenança em si, pois vai ao âmago da motivação por detrás de cada ensino” (Mt 5:21-48) (pág. 23). Eu não costumo fazer resenha de livros justamente por considerar uma publicação algo complexo e particular, mas este em especial, apresenta uma série de ensinamentos muito importantes principalmente para quem está pensando se deve ou não evangelizar mais do que evangeliza. O legal de Você não Precisa de um Chamado Missionário é defender algo que sempre digo quando estou pregando sobre missões: “Convidar pessoas para ir à igreja não é evangelizar!” Por fim, eu digo, nessa curta resenha, que o livro é muito bom. Vale a pena comprar e usá-lo até em pequenos grupos para ministrações e palestras sobre missões. É necessário que possamos entender que o IDE já nos foi dado. Precisamos obedecer a Grande Comissão. Um brinde!