Este ano, há alguns meses, fiquei fascinado pelo Musical Maps, uma ferramenta extremamente útil do Spotify, que lista as músicas mais ouvidas em várias cidades do mundo. Para quem sempre está a procura de algo diferente ou novo, é muito interessante conhecer grupos e músicos que estão ‘estourando’ em outros lugares e talvez, daqui a muitos anos, serão citados na imprensa local.
Pois bem, pelas minhas andanças, fui com sede nas cidades britânicas, porque, pelo menos por gosto pessoal, tenho um apreço muito maior pela música feita no Reino Unido do que nos EUA. Ao passear pelos hits em Londres, Cambridge e Leicester, conheci uma banda de art rock chamada Everything Everything, que estava lançando o seu terceiro trabalho, Get it Heaven que, somente o clipe de “Distant Past” traz um milhão e meio de visualizações para o grupo no YouTube. Também conferi alguns nomes novatos no rap e uma banda de punk e hardcore chamada Slaves. E, curiosamente, não vi nenhum “dinossauro” na lista.
Quando se está no Brasil, a realidade, ao menos em termos de rock, é muito diferente. Para começar, além do sertanejo universitário dominar as paradas de praticamente todas as cidades com 90% das listas, cantores de outros gêneros tomam espaço com várias músicas. Wesley Safadão, por exemplo, é praticamente um ícone brasileiro desde a última vez que olhei. A surpresa veio com Marcela Taís, do meio evangélico, se infiltrando em várias cidades do país com o disco Moderno à Moda Antiga. Em Goiânia, cidade que moro há alguns anos, pensei que o sertanejo fecharia a listagem, mas tive a grata surpresa de que há materiais interessantes, como a banda psicodélica Boogarins e alguns grupos de rap. Aliás, grupos locais são uma tendência observada nas cidades (obviamente). Você vê Selvagens à Procura de Lei em “queda de braço” com bandas de forró em Fortaleza, Palavrantiga em Vitória, o veterano Skank em Belo Horizonte… e por aí vai.
A cidade realmente diferente é Porto Alegre. Aliás, sem qualquer bairrismo, o Rio Grande do Sul é um ponto fora da curva em relação aos outros estados do país. Com uma lista muito diferente de praticamente todas as demais capitais brasileiras, o setlist foi equilibrado, eclético e recheado de bandas de rock nacionais, tanto alternativas, emocore e indie. A lista também contemplava músicos já longevos e muito conhecidos, como Júpiter Maçã, sem faltar, claro, os sertanejos e as músicas de massa vistas nas outras capitais. Inclusive, a quem se interessar, escrevi uma notícia sobre isso para um site de rock.
Agora, em setembro, ocorreu o Rock in Rio. A primeira surpresa, diretamente, é que não há nenhum grupo ou músico, dentre as atrações principais, que não tenha participado em alguma edição do festival. Dentre as atrações mais “conhecidas”, a que eu achei, de fato, mais curiosa, foi o supergrupo Queen + Adam Lambert, ainda mais depois dos comentários pós-apresentação que ocorreram pela rede. Do nada, observei vários novos “fãs” da banda e até mesmo uma aclamação que, em minha visão particular, é completamente exagerada. No entanto, eu já imaginava que esta apresentação “daria o que falar” e que a imprensa brasileira escreveria muitas bobagens sobre o assunto.
Para quem não conhece bem o trabalho do Queen, vou contextualizar: a banda acabou em 1991, com a morte do pianista e vocalista Freddie Mercury. Dentre 1991 e 1997, os três membros ainda vivos, Brian May, Roger Taylor e John Deacon, fizeram poucas apresentações, lançaram uma música inédita, um disco póstumo e só. De 1997 pra frente, a única coisa feita com o nome “Queen” foi a coletânea Queen Forever de 2014, cujo repertório ainda incluiu três músicas “inéditas” – na verdade, versões novas de músicas já lançadas anteriormente por outros artistas, mas gravadas pelo Queen.
Em meados de 2004, a dupla Brian e Roger se reuniu com um dos melhores cantores de rock de todos os tempos, o experiente Paul Rodgers. Dessa união, surgiu o supergrupo Queen + Paul Rodgers, que excursionou mundialmente (incluindo o Brasil, em 2008) e lançou um disco inédito, bem fraco, inclusive, chamado The Cosmos Rocks. A parceria, insatisfatória, acabou em 2009. Anos depois, o mesmo tipo de colaboração seria formado com o cantor pop Adam Lambert. Aí, as associações e afirmações grosseiras de “continuação do grupo original” seguiram-se de forma bem mais intensa. Os fãs mais conservadores torceram o nariz: afinal, para um grupo que trouxe alguém do nível de Rodgers, apresentar um cantor jovem e pouco aclamado foi algo arriscado. Mas os senhores Brian e Roger gostaram do garoto, e seguem felizes com ele.
E o que John Deacon sempre pensou disso? Ele não quer estar envolvido em gravações e shows ao vivo e em 2001 até teceu críticas a uma gravação de seus ex-colegas com Robbie Williams, através do The Sun. Dentro do que certamente uma parte de pessoas acham, o músico prefere manter preservada a memória da banda. Enfim, não adiantou Mercury e Deacon estarem de fora e o Queen, de fato, não existir mais, a imprensa dirigiu para meio mundo que se tratava de um “retorno” e que Adam era o “novo vocalista”. Reportagens superficiais e mal apuradas brotaram aos montes no UOL, G1 (e pasmem, até na Superinteressante!), confirmando outro dado lamentável: de todos os textos que eu li, apenas um publicado na Folha de S. Paulo, cujo artigo é uma crítica negativa da apresentação, citou o ex-baixista como músico da formação clássica.
Isso vem a revelar, além da má apuração de muitos jornalistas (não é o foco deste texto), é que as pessoas, no geral, parecem ter perdido completamente o discernimento entre um grupo original em ótima forma, um grupo original cansado e nas últimas, um músico substituto, ou até mesmo um tributo. Chamar de “Queen” um grupo com metade da formação clássica e um músico convidado é brincar e zombar com a inteligência do leitor. Esta superficialidade nas matérias seguiu-se diretamente para os comentários na rede. Usando as notícias como base, pessoas passaram a sustentar teses e opiniões acerca da apresentação, partindo de pressupostos equivocados.
OK. Sobre a apresentação, assisti, e como alguém que gosta bastante do trabalho e do legado do Queen, sofri muito, especialmente nas primeiras músicas. Ver Roger Taylor, sempre o mais enérgico dos quatro, em uma performance evidentemente menos acelerada e com a ajuda do filho, é o atestado de que a idade, infelizmente, hora ou hora alcança a todos. Adam Lambert cantando, sem qualquer tipo de alma, a lindíssima “In the Lap of the Gods…Revisited”, foi o ápice da minha agonia. Brian May é o alívio da apresentação. Um músico visivelmente honesto, estava ali, com sua Red Special. Depois disso, o show até melhorou. Não que a performance da dupla e de Adam tenha ajudado, mas o repertório, juntamente com o público que em uníssono cantava as músicas, deixou a experiência menos amarga e mais nostálgica. Definitivamente, lá no fundo, você vê o quanto o rock de arena da banda é eficiente mesmo em uma performance tão plastificada. E, no fim, dentro de uma zona de conforto extrema, a apresentação, aparentemente, funcionou. Mas para falar a verdade, nos dias de hoje, outras bandas, como o Muse, conseguem mostrar mais a “alma” do Queen do que os próprios May e Taylor (já ouviram o disco The Resistance? Aquilo seria o Queen do século XXI).
https://www.youtube.com/watch?v=L6StSABIa4k
É ouvir e comparar (não simplesmente os vocalistas, mas toda a química de banda em torno)…
https://www.youtube.com/watch?v=kO_w7GHMAUw
Os dilemas do Queen, em diferentes contextos, se aplicam a várias bandas clássicas e com nomes já escritos na história. Afinal, como esquecer o The Who, ainda na ativa com apenas dois integrantes vivos? O que dizer das mudanças no AC/DC do ano passado para cá? Os desgastes cruéis no Yes e as inúmeras formações no Nazareth? E os inúmeros contratempos que atingem o Black Sabbath? Por fim, Motörhead e a lamentável situação do vocalista Lemmy? Esses são apenas alguns exemplos dos limites extremos que estes grupos, de longa trajetória, tem alcançado. Os motivos? Obviamente, são vários, e dependem de cada situação. Mas, no geral, podemos afirmar que estes caras viveram a vida inteira nos palcos, e se dissociar desta rotina não é fácil. E, claro, a indústria da música explora nomes estabelecidos o máximo que pode, pois há um público consumidor muito forte desta música. A internet, por outro lado, até hoje deixa as gravadoras, que antes monopolizavam tudo, confusas.
Considerando isso, o Rock in Rio, em 2015, pode ser facilmente considerado como uma edição abarrotada de comodismo. Muitos, em contrapartida, afirmam que este ano é uma exceção, pois comemora-se os trinta anos, desde a primeira edição. Mas, analisando todas as atrações, existem alguns nomes que não serão atrações principais, mas que poderiam, tranquilamente, debutar e nos oferecer uma visão de “novidade”: Mastodon, Lamb of God, Queens of Stone Age e Deftones.
Minha preocupação com isso também se reserva a bandas novas e que tentam seu lugar ao sol. Todo mundo está careca de saber que grupos autorais não tem espaço frente aos conjuntos que tocam covers. Todo mundo sabe que ser músico independente é difícil, e muitas pessoas, de certa forma, querem culpar o chamado “rock clássico” nisso. A minha impressão, por incrível que pareça, é que músicos destas bandas, na verdade, são vítimas e reféns de seu próprio trabalho. No fim das contas, a situação é muito mais complexa e envolve a indústria, gravadoras e, principalmente, público. O baixista do Deep Purple, Roger Glover, utilizando uma abordagem interessantíssima, diria em 2011 que o lance de “classic rock” atrapalha. Interessante, né?
Por fim, nesta abertura de Rock in Rio, todos estiveram satisfeitos. O público que, em algum momento, alimentou a fantasia de que aquilo foi uma grande, maravilhosa e legítima apresentação, a organização do festival, que lucrou e, em momento algum, se arriscou, além de Brian e Roger, que descansam sob os louros e o legado que construíram. Quando se olha com os olhares da indústria, infelizmente sujeitos como John Deacon parecem loucos.
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