Um Brinde – Lucas Silveira quer saber quem pilota os cometas

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Na semana passada, Lucas Silveira, vocalista do Fresno, tocou uma canção inédita no Estúdio Salaquar, chamada “Poeira Estelar”. Eu sou muito fã do trabalho dele e tudo que ele faz (musicalmente) me agrada. Ficou mais velho, amadureceu, vai ser pai ano que vem e, evidente que suas letras ficaram mais profundas. “Poeira Estelar” é um tipo de música que vai na alma, pois confronta com nossas limitações e problemas que passamos no dia-a-dia. A canção foi interpretada no Hangar 110, no último dia 10, juntamente com mais duas inéditas, que seguem uma vibe cósmica em sua parte lírica. Lucas já compôs algumas músicas em parceria com Rodrigo Tavares (Esteban) para a Fresno, cujas letras reforçam o ceticismo do autor. Mas essa não é uma canção ateísta e nem para xingar Deus, ou algo do tipo. Antes de tudo, eu tenho algo pra dizer aos meus três tipos de leitores:

  1. Aos cristãos que não ouvem música secular (especificamente Fresno): Se um artista cristão tivesse composto essa canção e cantasse com a mesma intensidade, ela também estaria sido escrita aqui só que de uma maneira mais superficial. Antes de qualquer conclusão, ouça a música umas trocentas vezes, leia a letra separadamente e depois ouça mais uma vez com uma cosmovisão cristã bem profunda. Garanto que será benção para você.
  2. Aos cristãos que ouvem de tudo (inclusive Fresno): Reflitam que essa música talvez seja um instrumento de Deus para te abençoar. Quando ouço algo, a primeira coisa que busco, antes de prestar atenção no arranjo, voz, bateria, efeitos, loops e se a levada é legal, é saber se consigo tirar algum princípio cristão dali. Não sejam relaxados ao ponto de só aconselharem músicas que vocês gostam porque já ouvem há muito tempo. Lembro que um dia desses indiquei umas músicas da banda Rebanhão a um amigo. Acreditem, eu nem ouço Rebanhão. Não tenho Rebanhão no meu computador e não sei nada da banda, mas algumas músicas deles são bem profundas e sabendo disso, sugeri a um amigo. E detalhe: nós não estamos analisando a qualidade da música e sim a sua mensagem.
  3. Aos fãs de Fresno (cristãos e não cristãos): Por último, mas não menos importante, falo diretamente aos fãs da banda do Lucas. Primeiro parabenizo vocês por terem um bom gosto musical e, segundo, digo que vocês tem muitas mensagens positivas em mãos. Não só no sentido romântico, que até 2009 era uma característica forte da banda, mas no sentido existencial também. Quando o Lucas brada que “nós somos a maré viva!”, ele está dizendo que vocês, nós todos juntos somos maior que qualquer coisa. “A gente pode crescer, perdendo a batalha”. É isso que o compositor diz em “Maior que as Muralhas”. Sei que há ateus dentre os fãs da Fresno, mas por favor, fiquem até o final do texto e entendam que o Piloto que comanda os cometas tem muito a dizer a vocês e ao Lucas.

“A cada filho que perde um pai
Quando o fardo é pesado demais
Quando o amigo trai
E você sente aos poucos a visão se enturvar
E a esperança evanescer
E você só queria uma chama pra queimar suas memórias”

Nessa primeira parte da música, Lucas Silveira tenta mostrar, mais ou menos, as dores que sofremos em nossas vidas. Desde o EP Eu Sou a Maré Viva, lançado ano passado, o compositor tem apresentado canções futuristas e outras até apocalípticas. No documentário de gravação do EP comentado, em uma conversa com o rapper convidado Emicida, Silveira explica a música “Manifesto” como uma ideia de “evangelho”. E, aqui, eu cito as próprias palavras do autor: “A gente faz várias coisas e se importa com tantas coisas mas na verdade um dia pode vir um asteroide e ‘baah!’ explodir tudo e, isso não vai significar nada no contexto do universo… Essa é a viagem! É evangelho né!? Tu pira no evangelho!”

Quando um amigo nos trai qual a nossa primeira reação? Ficamos tristes, com raiva, querendo matar o traidor. Mas isso não vai mudar em nada. No filme João & Maria, quando enfim os irmãos conseguem matar a grande bruxa, João olha para a cabeça da bruxa e exclama: “A vingança não muda o passado!” E é exatamente isso que acontece com a gente: queremos explodir o mundo quando as coisas não vão bem, mas isso não muda a nossa existência, dores, defeitos e guerras. O fato do seu amigo ser ateu não muda o fato de que Deus existe. Não é o ceticismo dele que vai fazer com que Deus perca o poder ou a sua soberania. Entende?

“E você só queria uma chama pra queimar suas memórias”. Nessa parte, Lucas começa a tocar mais profundamente o meu coração e nesses momentos eu agradeço a Deus por, mesmo com toda essa crise política que tem tanto decepcionado o nosso país, é possível ainda olhar pra frente e bradar que ainda não acabou. Essa chama que irá queimar nossas memórias é a própria Palavra de Deus. É nela que iramos encontrar o sacrifício de Jesus na cruz por nós e entender que Ele abriu mão de ser Deus para ser homem. A frase de Jesus para nós nesses momentos de crises existenciais foi: “No mundo tereis tribulações; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo”. Mano, Ele venceu o mundo! Nossa luta não é pra vencer o mundo. Essa luta já foi vencida e nós já não temos preocupação nenhuma com isso, mas a nossa luta é contra nós mesmos e esse orgulho que nos impede de dizer: “Deus, sou pecador, preciso do teu perdão!”

“Só pra ver, testemunhar
E nada nesse mundo há de apagar
Pois somos feitos de histórias
Se o mundo lá fora quer te apunhalar
Lembre que seu corpo é só poeira estelar
Tudo que importa é o agora e nada mais
Tudo que nós temos é apenas o que a gente faz”

Somos feitos de histórias. E nesse sentido eu me identifico muito com o Lucas e pergunto: “Quais histórias vocês tem pra contar?”. Estou em processo de escrita do meu livro e as pessoas me perguntam muito do que se trata e, eu sempre digo que é um livro de crônicas sobre minhas perspectivas e um pouco da minha história. Não quero rotulá-lo como auto-biografia, pois não é. Sou feito de passado, presente e futuro. Fomos feitos para estar dentro do tempo e, Deus nos fez para sermos humanos que entendem de horas, meses e anos. Mas Ele não: Ele não se encaixa dentro do tempo, não envelhece e nem se enfraquece. Para nós, o que fazemos tem relevância significativa para nossa realização pessoal, mas para Deus o que fazemos já estava nos planos dEle. Sem querer entrar no debate teológico “arminianismo x calvinismo” eu digo que, se nós fecharmos os olhos e ficarmos o dia todo estáveis, é porque Deus tinha um plano para que aquilo acontecesse. Se o acaso fosse tão inteligente ao ponto de comandar seres humanos, ele se renderia a Alguém que é maior do que ele e diria que Deus é Deus sobre todos e que cada ato nosso gerará consequências boas ou ruins a qual para Deus nunca serão surpresas, pois Ele sabe de tudo. Max Lucado escreve no livro “Antes de dizer amém” que

“Ele [Deus] tem autoridade sobre o mundo e… Ele tem autoridade sobre o seu mundo. Sobre o seu sono. Os seus hábitos alimentares. O seu salário. O tráfego da viagem diária. A artrite em suas juntas. Deus reina sobre tudo isso. Ele jamais fica surpreso. Ele nunca, jamais pronunciou a frase: ‘Como isso aconteceu?’” (pág. 40)

Ele sabe de seus mais íntimos desejos. Ele sabe de suas complexidades e de como o universo vai mal. E essa é a nossa segurança, pois Ele sabe de tudo e nunca vai nos dar um fardo maior do que podemos carregar. Seu fardo é leve (Mt 11:30).

“Quem é esse ser que pilota os cometas?
Por que é que desvia do nosso planeta?
Só pra ver, testemunhar, o quanto a gente pode suportar
Nos ombros
O peso das memórias”

Aqui o compositor faz o questionamento “Quem é esse ser que pilota os cometas?” E eu respondo: Deus. Como eu já disse logo acima, Ele sabe de tudo e é soberano sobre tudo e todos. E essa interpretação de que ele desvia do nosso planeta, ou seja, da Terra, é uma interpretação superficial demais pois Deus se relaciona o tempo todo conosco, nós é que não percebemos. Ele não é um deus rabujento que só quer no julgar. Ele é bom e suas misericórdias não têm fim. Ele nos ama como um pai ama seus filhos. Ele nos olha com atenção e nos abençoa com saúde, força e inteligencia todos os dias.

O nosso problema é que nós achamos que o pecado não é culpa nossa, e nós só agimos assim porque isso lá no fundo não é errado. Quando deixarmos de ver o pecado como algo tão natural ao nível de não nos incomodarmos mais em praticá-lo e enxergarmos como algo que nos distancia de Deus, conseguiremos ver que esse Ser que pilota os planetas está tão próximo de nós ao ponto de podermos senti-Lo. Eu entendo que existem momentos em que nossa fé é confrontada e achamos que Deus é só uma válvula de escape. Tenho um amigo ateu que diz que nós cristãos somos as pessoas mais carentes do mundo e, por isso criamos a figura de um deus bondoso e que vai nos tirar daqui e levar para um lugar melhor. Em resposta eu digo que nós somos sim carentes, mas não trouxas. Somos carentes pois ansiamos todos os dias um contato com o Criador, com o nosso Pai celestial e, sem Ele o vazio que existe em nós só aumenta. Eu encerro citando Max Lucado mais uma vez: “Se Deus é, ao mesmo tempo, Pai e Criador, Santo – diferente de nós – e superior a nós, então estamos, seja qual for o lugar, apenas à distância de uma oração do socorro”. Um brinde!

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