Se eu não fosse sincero comigo mesmo, com certeza diria que era o cristão mais santo do mundo. Mas, graças a Deus, eu sou sincero e por isso digo que sou o maior dos pecadores. Desculpa-me, sou errado! Erro todos os dias por coisas triviais. Acho que os caros leitores também disso: sabe que o tal erro que está prestes a fazer é pecado. Isso irrita Deus e mesmo assim vamos lá e erramos. Estou falando do pecado consciente mesmo, aquele que calculamos e montamos estratégias. Para não escandalizar muito os irmãos, vou citar apenas dois desses pecados que fazemos quase todos os dias: fazer fofoca e cobiçar a mulher do próximo. Se você não fosse sincero negaria isso. Tudo é muito bem (mal) calculado por nós cristãos.
Por vezes, pensamos que todos os nossos pecados são meros vacilos. A criança inocente foi lá e colocou a mão na tomada e tomou um choque. OK, a criança é inocente. Agora nós, adultos e conscientes do que é certo e errado vamos lá colocar o dedo na tomada e pegar um choque assim de graça? Não, né. E por que estou escrevendo isso? Por dois motivos: para lembrar quem somos e do que precisamos. Oro para que Deus nos guie nessa leitura em amor.
Quando nos convertemos, somos ensinados que devemos ter uma vida de devoção como orar, ler a Bíblia, ir para os cultos, batizar e pregar o Evangelho. Tudo bem, está certinho, é isso mesmo. Mas você não concorda comigo que isso é muito pouco? Não concorda que estas ações são muito rasas diante da profundidade do evangelho? Algumas doutrinas pregam que essa “devoção” é o equivalente para sermos salvos. É óbvio que como um bom calvinista irei discordar. E não só como calvinista, mas também como ministro desse evangelho.
Sempre digo aos meus irmãos, antes de irmos pregar nas ruas, que se não fosse a graça e pela graça de Deus, nós nem sairíamos de casa para falar desse amor que arde em nós. Não temos capacidade de transformar ninguém. Mudar até podemos, ainda assim superficialmente, agora transformar – que é algo sobre-humano, pois mexe com o íntimo, sentimentos e visões –, é algo que só o Eterno pode fazer. Essa “vida devocional” que aprendemos não é errada em si, mas também não é suficiente. Estes atributos que damos a um cristão é algo facilmente atribuído a qualquer pessoa que não tem religião alguma. É algo relativamente fácil cumprir e, se eu não fosse sincero, indicaria uma vida assim no aconselhamento do discipulado da minha igreja. E essa sinceridade toda não me faz melhor que você e sim, mas pecador consciente de quão pequeno é. Sou sincero ao ponto de afirmar que essa vida a qual fomos ensinados a levar, é mera representação dos fariseus na época de Jesus. Ele viviam a lei de pé a cabeça mas não tinham o essencial que era Cristo.
“Pois Cristo é o fim da lei para justificar a todo aquele que crê.” (Romanos 10:4)
Usar Jesus para ter um referencial filosófico, uma identidade para pôr na ficha do IBGE quando te perguntarem qual a sua religião e como mantra religioso é, no mínimo, constrangedor. Cristo não permite ser usado, Ele é quem usa. Não permite ser secundário, Ele é o centro. Ele nunca vai ser figurante mas sempre o artista principal. E se nós não fôssemos sinceros, iríamos veementemente negar isso, mas como somos, honramos e louvamos o nome de Jesus. Então o que há de errado com nossas vidas devocionais? Essa vida de oração, leitura bíblica diária e pregação? É justamente o que disse no começo do texto: isso não é suficiente. O evangelho nunca vai ser esse roteiro dado por nossos lideres. Nunca será uma simples apostila com três ou quatros heresias e só.
Evangelho é renúncia. Renúncia até mesmo de uma vida morna. Renúncia até de uma apologética que defende a igreja local. O que Jesus fez aqui na terra? Renunciou. Ele saiu do seu trono maior, da condição de soberano e se fez homem. Cristo renunciou e nos deixou esse exemplo. Devemos orar, não pra cumprir um mero devocional, mas para renunciar o tempo em que assistimos nossas séries; devemos ler a Bíblia, não para aprendermos mais de Deus, mas para renunciar o tempo em que passamos nas redes sociais; devemos sim pregar, não apenas para cumprir o IDE e sim para renunciar nossas idas ao shopping. Evangelho é renúncia e o nosso devocional diário deve ser consequência dessa renúncia.
Se eu não fosse sincero, diria que cumpro tudo o que falei, mas não cumpro. Se eu não fosse sincero, diria que estava prestes a me tornar um cristão exemplar, mas não estou. Se eu não fosse sincero diria que oro mais do que assisto séries, mas não oro. Se eu não fosse sincero, diria que leio mais a Bíblia do que fico nas redes sociais, no entanto não leio. Se eu não fosse sincero, diria que minha vida devocional está perfeita, mas não está. E do que vale essa sinceridade? Vale de reconhecimento próprio. Nós precisamos disso: olhar para dentro e reconhecer essas falhas que existem em nós. Assim, entender que cada gesto e atitude que tomamos devem ser para glória de Deus.
Portanto, quer comais quer bebais, ou façais, qualquer outra coisa, fazei tudo para glória de Deus. (1Coríntios 10:31)
Que sejamos sinceros irmãos, pois isso vai nos ajudar a melhorarmos como filhos de Deus. Um brinde!

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