Categoria: Rocklogia

  • Rocklogia – O rock vintage do Resgate

    O Resgate tinha alcançado um posto respeitável no rock cristão nacional através de On The Rock, e graças à Paulo Anhaia o som da banda evoluiu muito. Dois anos daquele lançamento se passaram, e o quarteto propôs fazer um disco mais ousado que o anterior, principalmente nas letras. Daí surgiria um de seus trabalhos mais incompreendidos, Resgate.

    Nesta época, a banda gostaria de obter um som diferente do disco anterior. Ao invés de estar fortemente pautado no hard rock e no heavy metal, o Resgate gostaria de produzir uma musicalidade vintage e crua. Anhaia abraçou a ideia que, como produtor mais experiente do que em On The Rock, realizou experimentações junto ao grupo que culminou na sonoridade encontrada no álbum.

    O disco, como um todo tem timbres de guitarra mais característicos, mas o destaque vai para a bateria de Jorge Bruno. Sem reverbs e poucos overdubs, o som é bastante orgânico. As letras, em maioria extremamente complexas, talvez as mais bem construídas no repertório da banda. Um dos grandes exemplos é a canção de abertura, “Liberdade” e “E Daí?”. Eu particularmente gosto muito de “No One” e sua simplicidade, embora a pegada da intro de “Antes” seja memorável.

    Na prática, o álbum não foi masterizado. Paulo Anhaia, juntamente com o vocalista Zé Bruno apenas checaram os níveis de áudio no computador do produtor, que estava na cozinha da casa de sua mãe. Apesar da intensa seriedade do disco, não faltou humor nos créditos do encarte, com a seguinte citação: “Masterização: Mother’s Kitchen”.

    No geral, Resgate transmite uma sonoridade envolvente, simples e letras que abordam a questões internas do ser humano e pontos fundamentais do cristianismo (como a transformação de vida do indivíduo). É de certo que sua posição na discografia da banda é ingrata, afinal está dentre dois divisores de águas do Resgate (On The Rock e Praise), o que de certa forma sempre o ofuscou dos demais álbuns.

  • Rocklogia – Catedral na MK Music

    Com certeza, muitos dos leitores já devem ter sentido a impressão de que o rock cristão nacional sempre esteve uns dez anos atrasado dos acontecimentos do rock nacional do ciclo não-religioso. Pode notar. Os Mutantes, no final dos anos 60 faria uma revolução estética. A revolução estética no Brock cristão ocorreu no final dos anos 70/início dos anos 80 com Janires, juntamente com o Rebanhão. No início dos anos 8o surgiriam várias bandas de rock icônicas, como os Titãs, Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, Ira! e outros. No rock cristão as bandas mais longevas começaram a surgir no final deste mesmo período.

    Os anos 90 foram tempos difíceis, ao contrário do auge ocorrido anteriormente. A música sertaneja começava a se destacar no mainstream, e os grupos de rock mais conhecidos passaram por situações que ameaçaram sua existência. O cantor Cazuza, ex-Barão Vermelho morreria vítima de AIDS, mesma doença que matou Renato Russo em 1996. Uma suposta guerra de egos faria Arnaldo Antunes sair dos Titãs em 92. Em contrapartida, o rock cristão tupiniquim estava a todo o vapor. Com grandes eventos abertos para conjuntos do gênero, como o destacado SOS da Vida, muitos artistas de rock figuravam espaço nas grandes gravadoras (o que não se vê muito atualmente, mas isso é assunto para outro post…).

    A MK Music, em seus primeiros anos, investiu num cast bastante diversificado. Isso implicou em contratações de cantores e bandas de rock. Em 1992, a banda Complexo J foi provavelmente a primeira, lançando dois discos, no qual o primeiro é excelente. Em 1993, Carlinhos Felix, agora em carreira solo lançava o sucesso Basta Querer, com uma proposta bem mais pop do que o rock do Rebanhão. Outros grupos, como o Semeando e o Contato Vital também lançariam obras pela MK.

    No mesmo ano em que o Complexo J trocava a MK pela Gospel Records, o Catedral adentrava à gravadora com o lançamento Contra Todo Mal, que definitivamente demonstrou muitas mudanças na música da banda. Podem até negar, mas ao passar dos anos investiram bem mais em canções mais simples, com propostas mais comerciais. As associações com o Legião Urbana tornaram-se cada vez mais frequentes. Até hoje, todas as ligações são desencorajadas pelo grupo, mas são inquestionavelmente pertinentes. Talvez o ápice disso foi alcançado no álbum A Revolução, cuja faixa-título pode muito bem ser comparada à textura de algumas faixas de O Descobrimento do Brasil. Coincidência ou influência? Prefiro deixar na visão dos leitores.

    O sucesso do Catedral no mercado evangélico é inquestionável. Quando a MK Music, no fim dos anos 90 consolidou-se como a principal gravadora do mercado evangélico, a Catedral gozava o título de artista recordista de vendas do selo. Neste momento, gravadora e banda entrelaçavam-se muito bem em seus alvos, uma parceria de êxito. Mas como nem tudo são flores, sabemos que o fim disso não foi positivo, e é o que veremos nas próximas semanas…

    https://www.youtube.com/watch?v=lez4Hpnoo3M

  • Rocklogia – O pulso ainda pulsa

    A Rocklogia dá uma pausa essa semana para relembrar uma situação um pouco fora da história do rock cristão brasileiro.

    Em 1989, os Titãs lançavam um de seus melhores trabalhos, o álbum Õ Blésq Blom, que contém o clássico “O Pulso”, época em que Arnaldo Antunes ainda integrava a banda. Sua letra dispensa comentários e merece ser relembrada aqui.

    https://www.youtube.com/watch?v=Ehmqn4OhJXc

    O que ninguém esperava era em que 2012 o vocalista do Resgate, Zé Bruno, escrevesse um texto analisando a situação da música cristã nacional, parodiando a canção de Arnaldo. O texto, intitulado de “Troféu II – O pulso”, é a continuação do texto em que ironizou o processo de votação do Troféu Promessas. Relembre:

    Falando um pouco sobre música.

    Neste final de semana pude conhecer dois trabalhos que me agradaram muito. Tive a grata surpresa ao ouvir os CDs do Hélvio Sodré e do Tanlan que estão dentro de um universo rock-pop no qual tenho navegado com o Resgate, há algum tempo. Acredito que deva ter mais gente fazendo coisa boa por aí a fora, cito dois casos porque pude ouví-los.

    Começamos com o Resgate em 1989, estamos perto de completar 24 anos, mas não me acho uma referência no sentido crítico, até porque meu universo musical roqueiro implica em muitas limitações harmônicas…sabe como é, são só três acordes… (risos) it’s only rock’n’roll but I like it!

    Mas confesso que quando me apresentam algo novo me sinto como se estivesse lendo o jornal de ontem, sabe como é? Aquela sensação de já ter lido aquela matéria e visto aquelas fotos? Imediatamente coloco de lado o periódico e sigo a vida à procura de uma notícia nova, infelizmente o Ctrl + C seguido de Ctrl + V insiste em subsistir em nosso meio.

    Graças a Deus não é o caso destes dois CDs que pude ouvir, eles saem do lugar comum, isso é bom.

    Não estou fazendo o papel de crítico, apenas refletindo sobre o que estamos fazendo com a nossa arte. A música e a poesia andam juntas e são a expressão da nossa razão e sentimento. Na verdade não sei se vivo em busca de uma música do céu, acho que vivo procurando uma maneira cada vez melhor de expressar o que Deus coloca dentro de mim aqui mesmo na Terra. O que eu preciso do céu acho que já tenho na forma revista e atualizada e na linguagem de hoje.

    Acredito que este é o grande problema… Nossa arte musical e poética precisa vir à luz pela reflexão nas sagradas letras, acho que é disso que sinto falta.

    Meu amigo e mestre Ariovaldo Ramos me disse que sem Bíblia não há heresia. Acho que é por isso que me sinto melhor às vezes ouvindo uma música em uma rádio qualquer do que ouvindo o melhor dos iguais no meio evangélico. Onde não há Bíblia não há heresia, na música “secular” (sei lá quem inventou esse título) consigo enxergar apenas o sentimento que o poeta demonstra e sua reflexão sobre a vida, e isso me soa coerente, e muitas vezes até se alinha com a lógica de Renato Pereira de Carvalhos em sua palavra. Por um outro lado músicas evangélicas sem reflexão e teologia se tornam avessas aos meus ouvidos, pois a poesia não contém o ingrediente que eu esperava que deveria conter.

    Teve dias que cheguei a pensar que não teria mais jeito, mas ouvindo meus novos amigos, valei-me Arnaldo Antunes, senti que o pulso ainda pulsa.

    Poderia citar Palavrantiga, O Trigo, Daniela Araújo…e outros tantos que me perecem que nadam livremente contra a correnteza. A mim me parece que não se importam com o fluxo natural, que legal isso! Fazem sua arte, cantam sua música e pronto. Eu gosto de ser assim, e admiro quem o é. Espero não me equivocar com essa galera, acho que não vou não…

    Depois de um tour de alguns anos no universo neopentecostal, sou grato por estar de volta e encontrar gente que sempre foi herói na resistência, pessoas que mantiveram vivo o mundo onde hoje encontro vida outra vez, obrigado a todos!

    Além disso, esses heróis servem de útero para que Hélvios e Tanlans possam nascer. Espero poder contribuir de algum jeito com esse mundo.

    Parabéns aos novos diferentes que mantém a alegria sentir de que o vinho pode ser novo todo dia em todos os sentidos. A cada dia vem um novo tsunami, mais um sucesso gospel, mais um meteoro da paixão, mas esse pessoal me faz ver que o pulso ainda pulsa…

    Vai minha paródia…

    Auto-ajuda, profecia, esquizofrenia
    Só vitória, dando glória, e histeria
    Conquistando, avançando, valentia
    Submundo do gerúndio, alquimia

    E o pulso ainda pulsa (graças a Deus)

    O pulso ainda pulsa

    Atos proféticos, símbolos, judaísmo
    Artimanha, barganha, fanatismo
    Fronha, lenço, arca, candelabro
    Meia, sabonete ungido, abracadabra!

    E o pulso ainda pulsa
    O pulso ainda pulsa

    Cópia, versão, fé, enlatado
    Revelação, mais unção, pré-fabricado
    Mexas, barbies, clipes, relógios dourados
    Tiques, Sarzedas e Disney, auditório animado

    Mas o pulso ainda pulsa
    O pulso ainda pulsa

  • Rocklogia – Acústicos, acústicos e mais acústicos

    A moda dos acústicos chegou no rock cristão nacional, e de 1998 até 2003 teve alguns trabalhos do tipo que até hoje são marcados como projetos marcantes na carreira de algumas bandas. Apesar de serem álbuns que pouco agradam aos fãs de rock, ajudam na vinda de novos públicos que não apreciam tanto ‘peso’.

    A primeira banda a apostar em gravar um disco do tipo foi a Oficina G3, com o Acústico de 1998. Um álbum de estúdio, como se fosse um cartão de apresentação do novo vocalista, PG que substituía Luciano Manga. É um álbum mediano, que agrada bem mais pelas duas inéditas (Quem? e Autor da Vida) do que pelas novas versões. No ano seguinte, foi gravada a versão ao vivo deste álbum, com mais músicas acústicas, e o resultado foi bem melhor que o anterior, lembrando uma boa época da Oficina G3.

    Foi no mesmo ano de 1999 que o Fruto Sagrado também gravou um acústico comemorando dez anos de carreira. Diferentemente da Oficina G3, a banda explorou novos arranjos, como em “Investimento”, numa execução bem melhor que a original.

    Mas o melhor acústico, sem dúvida foi o do Katsbarnea, de 2000. É claro que o vocal de Paulinho Makuko está longe de ser um dos melhores, mas em nenhum dos outros discos citados neste texto possui tanta participação do público como este do Kats. É audível por todo o projeto o público vibrando a cada canção. Até se fosse um mudo cantando, este disco seria muito bom.

    Em 2001, foi a vez do Resgate. A própria banda não gostou do resultado final, mas particularmente acho um bom álbum, além da inclusão da inédita “Água Viva”. Mas, se a banda desejar gravar outro acústico melhor que este, creio que todos aguardarão bem satisfeitos.

    https://www.youtube.com/watch?v=GGNmSZyxO7M

    Numa atitude um tanto quanto insana, Paulinho Makuko resolveu fazer outro álbum acústico no Katsbarnea em 2002. Profecia une o acústico com a música clássica, e embora não seja completamente acústico, foi um disco na hora errada, ainda mais por trazer músicas da carreira solo do ex-vocalista Brother Simion.

    O Catedral, mesmo não se intitulando cristão ou gospel, lançou pela Line Records o Acima do Nível do Mar, em 2003, que faz uma boa fusão do rock com a MPB, com músicas inéditas e regravações. É considerado por muitos como o melhor trabalho do grupo carioca.

  • Rocklogia – Os últimos anos do Rebanhão

    Muito se fala no contrato do Catedral com a Warner Music Brasil em 1999, mas bem antes disso vários músicos cristãos assinaram com a ‘gravadora secular’. O Rebanhão foi uma delas.

    Aquela altura do campeonato, a nova formação estava estável há três anos. Sem mais vocalistas, creio que o álbum seguinte, Por Cima dos Montes pode ser tranquilamente considerado um álbum solo de Pedro Braconnot, e mostra um afastamento mediano à proposta inicial e musical do grupo. Lançado em janeiro de 1996, musicalmente, é um bom álbum, com arranjos muito interessantes e criativos e produção musical polida. A maturidade instrumental alcançada aqui é admirável. Mas, em letras é uma maré extremamente baixa. Pedro é compositor da maioria delas, a exceção de “Louvor” (Jorge Guedes) e “Eu Voltarei” (Tutuca Borges e Sobreira Batell). “Ligado na Videira”, que é a canção um pouco mais próxima do Rebanhão antigo tem a contribuição de Pablo Chies na autoria.

    Por Cima dos Montes também é um álbum marcado por regravações. Um pot-pourri de “Salas de Jantar” (Janires) e “Contemplar” (Pedro Braconnot), “Razão” do álbum Novo Dia e “Flor do Campo”, do Semeador. Quando pensamos em regravações, há a firme certeza que a nova versão deve superar a original, e ainda bem que neste ponto o álbum não falhou. A exceção de “Razão”, todas as demais regravações ficaram muito boas, principalmente “Flor do Campo”, gravada exclusivamente em piano e voz.

    https://www.youtube.com/watch?v=oZ-Cza9xlCo

    Capa do relançamento do álbum, lançado em 2002.
    Capa do relançamento do álbum, lançado em 2002.

    “Sempre Estar Contigo”, “Noiva” e “Salmo 147”, como dito antes aproximam-se um pouco mais de um estilo mais devocional. A faixa-título, “Por Cima dos Montes” de início lembra um pouco um vocal sertanejo, mas não é. O refrão é bom, e garante um dos momentos interessantes do projeto. “Crazy of Jesus” é a música mais forçada do CD, e consequentemente o pior ponto. Basicamente, Por Cima dos Montes é um disco de art rock, e possui muitas influências da época. Particularmente, a textura do álbum me lembra muito o CD Made in Heaven do Queen, lançado em dezembro de 1995, um mês antes do projeto do Rebanhão.

    A formação deixou de ser estável logo depois. Rogério dy Castro e Wagner Carvalho, em 1997 saíram para fundar uma banda. Com Wagner Derek e Davi Fernandes surgiu a Primeira Essência. Os últimos anos do Rebanhão seguiram-se com Pablo Chies tocando com Pedro por mais um tempo, até em gravações de outros artistas, como Marina de Oliveira e Cristina Mel. Braconnot participou do segundo álbum da coletânea Amo Você da MK Music, juntamente com sua esposa Ayna, época que a gravadora ainda tinha abertura a cantores de fora do cast.

    Pablo Chies acabou saindo também, e mais uma vez Pedro ficou sozinho. Recrutou vários outros músicos, e de forma independente foi lançado, pelo nome Rebanhão o projeto Vamos Viver o Amor, que é uma maré ainda mais baixa que Por Cima dos Montes. Absolutamente nada no álbum lembra o Rebanhão, embora tenha a regravação de “Fronteiras”, do Princípio. Em 2000, o Rebanhão fez seus últimos shows. Pedro Braconnot foi entrevistado por uma revista sobre música, e na mesma época decidiu ‘dar um tempo’ na banda. Porém, o hiato tornou-se permanente. O grupo recebeu convites para voltar, mas Pedro recusou, afirmando que não pretende viver apenas da banda e tem em vista outras coisas a fazer. Carlinhos Felix prestou homenagens ao grupo, regravando várias de suas músicas em carreira solo. Paulo Marotta participou de seu álbum Nada a Perder, lançado pela MK em 1995 na música “Muro de Pedra”.

    Em janeiro de 2013, na Igreja Congregacional de Bento Ribeiro, Pablo Chies, Carlinhos Felix e Pedro Braconnot cantaram várias canções do Rebanhão, e em 2014 a surpresa da volta da banda (um assunto para um post futuro). Acima de tudo, em vinte anos, provou ser uma das bandas mais criativas do rock cristão nacional, e merece todo o crédito pelo legado que construíram.

  • Rocklogia – Indiferença

    Aos fãs mais recentes da Oficina G3, mil desculpas, mas existem álbuns na discografia da banda que sejam melhores que o tão comentado, bajulado e superestimado D.D.G. O que parece controverso para alguns é óbvio para outros. Assim, Indiferença é, talvez o grande exemplo disso.

    Lançado em meados de 1996, este disco foi, sem dúvida, o primeiro divisor de águas na carreira da banda Oficina G3. Duca Tambasco já tinha participado em poucas faixas de Nada é Tão Novo, Nada é Tão Velho, mas é neste momento em que o baixista faz realmente sua estreia. No entanto, ele não era o único. Um tecladista brasiliense, chamado Jean Carllos era recém-chegado, para somar a formação que tinha Juninho Afram, Luciano Manga e Walter Lopes como veteranos.

    Outro destaque no disco é a produção musical de Paulo Anhaia, que tinha, recentemente trabalhado com o Resgate e Katsbarnea. Com o ótimo resultado de On The Rock e Armagedon, o óbvio era que o futuro trabalho da Oficina G3 ampliasse a visão do grupo. E foi o que aconteceu.

    As canções do álbum são escritas por quase todos os integrantes, embora a maioria sejam resultado do trabalho individual de Juninho. Com mais faixas instrumentais como “Glória” e “Duca’s Jam”, os pequenos espaços no álbum são preenchidos por performances proficientes dos músicos. Nos vocais, Manga comanda com maestria, embora haja participação de Afram e Lopes em outras. Os sintetizadores de Jean são perfeitamente adequados ao que cada música pede.

    Embora o repertório não seja completamente inédito, as regravações do primeiro álbum da banda foram competentemente produzidas, com novos arranjos e interpretações. Um grande exemplo é “Magia Alguma”, uma das melhores baladas do Oficina G3. Vale lembrar que o maior sucesso do grupo está no disco, a clássica “Espelhos Mágicos”.

    Algumas performances do Oficina G3, nesta época podem ser encontradas na internet. No ano seguinte, Luciano Manga saiu do grupo. Na verdade, a banda já estava preparada para isso, já que Manga era pastor, e em algum momento precisaria se ausentar. Mas, para não atrapalhar a Oficina G3, Manga ajudou-os na escolha de outro vocalista, e encontraram num rapaz chamado Pedro Geraldo (mais tarde, conhecido como PG) a personalidade perfeita para substituí-lo. PG era vocalista e baixista de uma banda de metal cristão da época, e aceitou entrar no grupo.

    Luciano Manga é amigo dos integrantes do Oficina G3 até hoje, e ajudou o grupo em outros momentos, como na indicação de Celso Machado para guitarrista base convidado. Manga fez participação especial em dois álbuns posteriores do grupo, na canção “Pirou”.

  • Rocklogia – Armagedon

    Era 1995. Nem o próprio Simion sabia, mas era seu último trabalho como vocalista do Katsbarnea. A banda estava muito bem após Cristo ou Barrabás?, mesmo com as constantes trocas de formação. Dos músicos de longa data só restou, com ele, Jadão. Com a participação de Paulo Anhaia na produção musical (o que sem dúvida foi fundamental para o resultado final), o Katsbarnea (ou, naquela época Simion e banda) lançou o tão elogiado Armagedon que, de longe é o melhor trabalho de sua discografia.

    O Kats já tinha flertado com muita coisa. Já foram simpatizantes do glam, fizeram músicas hard rock, pop rock, rock experimental e até mesmo umas faixas com folk. Desta vez, resolveram unir muitos destes elementos e fazer o álbum que definitivamente teria a cara da banda.

    Mais sombrio que os anteriores, Armagedon por pouco não é um álbum conceitual. Muitas das músicas versam sobre questões relativas à ação maligna e a libertação por Cristo. É um tema relativamente comum nas canções anteriores divulgadas pela banda, mas de forma bem mais complexa e polida. Dos sintetizadores que duram mais de dois minutos antecedendo à agressividade de “Invasão”, a interpretação de Brother Simion em “Armagedon” e a letra forte de “Crack (Atos 11)”, o disco tem suas partes mais pesadas, mas une-se à baladas e canções pop. “Gênesis” foi o seu maior sucesso, mas particularmente, creio que “Do Céu” é a melhor faixa, com um belo solo de guitarra de Déio Tambasco, que na época estava como guitarrista da banda.

    Há várias participações especiais no disco. Uma delas é Duca Tambasco, baixista da Oficina G3 e Esdras Gallo, do Renascer Praise. Mas é Jimena que rouba a cena nos vocais em “Get out of Babylon” juntamente com Simion. Brother, neste álbum também ficou a cargo dos teclados, partilhando com o músico Giovani Bon.

    Após Armagedon, a banda continuou se apresentando, só que, mais tarde Simion migraria para a carreira solo. Mas este é um assunto para outro post. Até mais!

  • Rocklogia – On The Rock

    Anteriormente, aqui na Rocklogia, citamos a fundamental participação de Rick Bonadio nas produções do Resgate, Katsbarnea e Brother Simion. Mas, foi com Paulo Anhaia que o quarteto formado por Zé Bruno, Hamilton Gomes, Marcelo Amorim e Jorge Bruno ampliou sua visão e alcançou maior maturidade.

    Antes de trabalharem com Anhaia, Zé e Hamilton já o conhecia nos tempos escolares. Em meados de 1995, souberam que Paulo estava trabalhando como produtor. O guitarrista estava no Estúdio 43 após ter trabalhado num álbum do Velhas Virgens, lançado em janeiro daquele ano. A banda decidiu gravar com ele, que passou a acompanhar os ensaios do Resgate. Seus membros contam, no encarte da coletânea Pretérito Imperfeito, mais que Perfeito que Paulo ajudou muito a banda a evoluir, dando dicas de composições, trabalhando em arranjos, melodias, estruturas e experimentações. As sessões foram feitas ao vivo entre junho e outubro daquele ano.

    On The Rock foi gravado num sistema digital composto por fitas ADAT (algo bastante comum na época), com Hamilton e Zé dividindo as guitarras e violões, enquanto Marcelo e Jorge, ficaram a cargo do baixo e da bateria, respectivamente. Entretanto, também há utilização de sintetizadores, executados por Zé Bruno juntamente com o próprio Paulo Anhaia, que colaborou nos backing vocais.

    A capa e design do álbum foram feitas por Wagner García, mais conhecido como o Maradona. Wagner foi o baixista da formação inicial da Oficina G3. Como dito em um post anterior, o instrumentista saiu do grupo, dando lugar à Duca Tambasco em meados de 1993. Maradona produziu a arte gráfica de muitos discos deste período, mas segundo relatos, hoje o baixista está afastado do cristianismo.

    Apesar de ser uma banda que predominantemente permeia o hard rock e o pop rock, os membros do Resgate sempre tiveram uma queda pelo heavy metal. Algumas canções do primeiro álbum até tentavam puxar para as vertentes mais pesadas do rock, mas a exigência técnica para os músicos é grande, e o quarteto não se sentia, de certa forma completamente capaz de seguir este rumo.

    No entanto, a ousadia falou mais alto, e On The Rock é um registro que levou o Resgate para outro nível, embora com um pé bem fincado no hard – as canções estão bem mais articuladas, os riffs das guitarras de Zé Bruno e Hamilton são marcantes, produzindo um trabalho ótimo de se ouvir do início ao fim. Desde a crítica religiosa feita em “Doutores da Lei”, a pegada pulsante de “Acusador”, o humor de “Papo de Loki”, “Fogo” e até mesmo baladas memoráveis como “Palavras”, o álbum, como um todo consegue manter uma consistência sem soar morno ou monótono.

    O êxito maior do projeto, é sem dúvida “5:50 AM”. Não que seja a melhor faixa, mas é, até hoje o maior sucesso do quarteto, sendo executada em todos os seus shows. A instrumentação possui muitas influências do rock sessentista e setentista, com seu compasso incomum dentre o repertório do Resgate.

    On The Rock é talvez o melhor álbum do Resgate. Talvez porque, quando se fala no grupo paulista, as opiniões são muito variáveis. Existem pessoas que preferem o álbum Resgate (1997) ou até mesmo o Praise (2000). Ainda, há os que possuem preferência a títulos mais recentes, como Até eu Envelhecer (2006) e Ainda não é o Último (2010). Mas independência de gostos pessoais, é indiscutível de que On The Rock, de 1995 é um divisor de águas na história do quarteto.

    Paulo Anhaia continuaria a trabalhar com a banda por muitos anos. Atualmente, o instrumentista segue trabalhando com o quarteto, tendo participado, inclusive da gravação de 25 anos do Resgate. Mas isso é assunto para outro texto…

  • Rocklogia – O que a gente faz fala muito mais do que só falar

    1995 foi um dos, se não o mais produtivo na história do rock cristão no Brasil. Um disco, que se tornaria clássico na discografia do Fruto Sagrado é O que a Gente Faz Fala Muito Mais do que só Falar. Mas por que este trabalho é tão especial?

    Anos antes, a banda tinha produzido Na Contramão do Sistema, que continha boas canções do trio Marcão/Bênlio/Flávio. Mas, neste ínterim, muita coisa mudou na banda. A começar, por sua formação. O guitarrista Bene Maldonado ingressou, e consigo várias influências. No entanto, ninguém foi mais incisivo no repertório do que Marcão. O cantor, fortemente empolgado com os trabalhos da banda Dream Theater (que curiosamente o Oficina G3 teria referências no fim dos anos 2000) decidiu fazer um álbum do Fruto Sagrado na mesma proposta. Parecia loucura, afinal, segundo o próprio, o grupo tinha uma matemática louca nas canções. O resultado, obviamente seria um álbum anticomercial. Mas, foi além disso.

    A gravação do álbum gerou uma série de problemas técnicos com equipamentos. Segundo o cantor, em uma entrevista recente, as sessões foram ruins, e o material foi registrado em fitas ADAT. A respeito das canções, nota-se bastante empolgação por conta dos músicos, mas as influências ficaram acima da identidade que o Fruto Sagrado tinha apresentado anteriormente. Apesar da famosa “Amor de Deus”, O que a Gente Faz Fala Muito Mais do que só Falar não teve uma recepção tão boa quanto o seu anterior, fazendo com que o quarteto buscasse fazer músicas mais simples nos projetos futuros.

    Para o álbum foi gravado o clipe de “Podridown”, com sua crítica ferrenha à corrupção na política, com uma performance explosiva dos integrantes da banda.

    O Fruto Sagrado somente lançaria outro trabalho de inéditas em 2000, com uma formação um pouco diferente desta época.

  • Rocklogia – SOS da Vida e as bandas de rock

    O SOS da Vida é uma peça importante na história do rock cristão brasileiro. Este evento, no qual também conta uma parte positiva do legado da Igreja Renascer em Cristo apresentou várias bandas que hoje são de “estudo” obrigatório aqui na Rocklogia. Ainda, somos apresentados às formações de cada grupo, o quanto cada música apresentada se insere no contexto daquela juventude, com seus impactos.

    A primeira edição do evento ocorreu em 1991, no Ginásio do Ibirapuera. Há de se destacar que, considerando a gravadora Gospel Records, o evento acabou, de certa forma dando suporte às bandas novas que estavam surgindo. Talvez a mais beneficiada tenha sido Katsbarnea. Na internet, é possível encontrar apresentações do conjunto em várias de suas edições. Gosto bastante de “Cristo ou Barrabás” no terceiro evento. Com o guitarrista Tomati, Paulinho Makuko e Jadão fornecendo uma base pulsante, é talvez a melhor performance ao vivo desta música. Na sexta edição, “Get out of Babylon” também ficou bem legal.

    Outras bandas também estiveram presentes no festival. Do Resgate, por exemplo, é possível encontrar “Quem é Ele?”, do primeiro álbum, com sua pegada fortemente hard rock. O Rebanhão participou de várias edições. Em 1992, ainda com Pedro Braconnot e Paulo Marotta na formação, em 1993 com a participação da nova formação (incluindo Dico Parente) e em 1994, com Braconnot novamente sozinho.

    O Fruto Sagrado também participou várias vezes do evento, tanto na época do álbum Na Contramão do Sistema e O que a gente faz fala muito mais do que só falar, ambos lançados pela Gospel Records. Neste último, Bênlio está definitivamente nos teclados, quando ocorre a entrada do guitarrista Bene Maldonado na formação. O Oficina G3 destaca-se pela presença de palco do vocalista Luciano Manga. É claro, Juninho Afram também colabora nos vocais e os registros são de uma das melhores fases deste grupo.

    Na edição de 1993, a grande atração foi a banda norte-americana Bride, que recentemente encerrou as atividades. O grupo simplesmente gravou um registro áudio-visual completo no Brasil, em seu auge, numa performance memorável.

    https://www.youtube.com/watch?v=yOJZe66W92o

    Infelizmente, o evento foi perdendo sua força com os anos. Um dos motivos consiste no “fechamento” da visão evangelística da Renascer, que mais tarde daria espaço aos seus escândalos no fim dos anos 2000. Mas isso é outro assunto…

    Continuem acompanhando a Rocklogia que em breve teremos textos incríveis e com material atualizado. Abraços!