Categoria: Rocklogia

  • Rocklogia – O dia menos esperado do ano

    Ontem foi dia 31 de dezembro. E ainda parecia ser mais um dia como qualquer outro. Trabalho, tarefas diárias. A família, distante. As lojas fechadas. O clima monótono. Parece bizarro ter a “pior” virada do ano num de seus melhores anos, mas quando se está só, muitas das melhores ideias e reflexões surgem.

    Andar pelas ruas num fim de tarde deste dia é um estímulo enorme. Primeiro, porque nota-se, em grande parte dos motoristas uma calma mascarada. Nas ruas, principalmente nas distribuidoras de bebidas, alguns já se reúnem. Os estabelecimentos comerciais, em grande parte fechados e prontos para um descanso de dois dias. Assaltantes se preparando para as casas nas quais almejam roubar. No ouvido eu tinha fones, relembrando algumas canções que foram importantes no ano. Músicas que lembram pessoas, que lembram situações. E de repente surge o pensamento: Onde elas estão? O que fazem? Como se sentem agora?

    A caminhada é a mesma, o ambiente é o mesmo, mas as pessoas não. Tudo está mais vazio e silencioso. Ao entrar em seus aposentos, poder notar um clima ainda mais solitário. Olhar para cada planta, a luz do sol que se põe…

    Há certeza que, por mais tola que seja, podemos usar qualquer coisa neste dia para fazer uma retrospectiva. Ao abrir os arquivos no celular, imagens, fotos, vídeos, mais músicas e até mesmo mensagens. Reler, visualizar parece um exercício masoquista para os que lamentam por este ano, no entanto é nostálgico para quem teve um de seus melhores anos, como eu.

    Penso que, apesar de cada comemoração num ano novo ser meramente simbólica, nossa postura muda a partir destes acontecimentos e ditam como serão nossos próximos dias. São as coisas que nos movem em cada momento a querermos alcançar sonhos e projetos. São pessoas que, assim como nós puderam extrair um pouco de cada um, assim como extraímos um pouco delas. E permaneci pensando: onde elas estão?

    Quando penso nelas, também penso em planos. Quando penso em planos, noto que as coisas que planejo nunca saem exatamente como quero. Algumas vezes, até mais grandiosas, outras fogem totalmente do meu controle ao passar de um ano. E essa linha do tempo, na qual é a vida nos reserva surpresas meticulosamente apresentadas pelo Criador, nos fazendo cada dia mais sonhar com o amanhã. Há muito tempo escrevi uns versos, pensando como seria o meu último dia na Terra. Pensei: por mais que os anos passem, ainda sonhamos com o amanhã, mesmo que ele não exista e nem existirá para nós. E notei que parte do sofrimento de muitos está no fato de não observar o hoje, no qual existe e está para vivenciarmos cada segundo.

    Portanto, desejo a você que, em 2015 viva cada vez mais o hoje. Esteja ao lado das pessoas que hoje podem estar com você, mas amanhã podem não estar. Traga à sua memória aquilo que é importante, e mais do que tudo, procure aprender a cada situação vivenciada.

    E assim passei uma virada monótona sozinho, mas satisfeito por tudo o que aconteceu nestes 365 dias. Olhei para trás, senti a vontade de voltar à alguns meses de 2014 e reviver tudo de novo. Certamente, esta virada foi o dia menos esperado deste meu ano que passou.

    PS: A canção abaixo não está nem perto dentre as que mais me marcaram este ano, mas possui uma reflexão imensamente compatível e inerente ao que está escrito.

  • Rocklogia – Enquanto é dia…

    Sem Janires, sem Carlinhos Felix, sem Paulo Marotta, sem ninguém. Pedro Braconnot era o único integrante restante do Rebanhão. Diferentemente de outros grupos, como a Oficina G3, em que Juninho Afram é o único integrante da formação inicial, mas conta com outros integrantes de longa data na banda, como Duca Tambasco (desde meados de 1993) e Jean Carllos (desde 1996), o caso do Rebanhão foi bastante complexo. A formação mudou drasticamente de 1990 para 1992. Do quarteto, apenas Pedro sobrou. Ou era encerrar a banda de vez, ou então recrutar novos músicos do zero. Braconnot foi pela segunda opção, e para, talvez não parecer um projeto solo, procurou por mais um cantor para dividir os vocais. Paulo Marotta, que estava saindo por questões pessoais também ajudou na reformulação. Durante este tempo como único integrante da formação inicial, o Rebanhão tocou com vários músicos convidados, como o baixista Murilo Kardia, na época ex-integrante do Complexo J, que vinha de uma fase de auge pelo lançamento do álbum 3 pela MK Music. Kardia chegou a ser integrante do grupo, mas permaneceu apenas durante um ano, e teve que sair, dando lugar à Rogério dy Castro.

    Em 1993, a formação estava completa e fixa. Pablo Chies na guitarra, Rogério dy Castro no baixo, Wagner Carvalho na bateria e Dico Parente para completar nos vocais (apenas como participação temporária). Curioso que, quase dez anos antes, Wagner participou do álbum Janires e Amigos, nos vocais de “Jesus Cristo Super Heroi”. O primeiro disco desta formação foi Enquanto é Dia…, que assim como os anteriores apostou num projeto gráfico conceitual, embora um pouco sombrio. Toda a musicalidade deste projeto é mais intimista e fechada, bem diferente do que o Rebanhão apresentava antes, embora não inferior.

    Em todas as músicas, Pedro Braconnot é compositor, algumas com parcerias. Logo percebe-se em “Me Leva pra Casa” um álbum centrado no piano e sintetizadores, e os arranjos de metais por Zé Canuto. “Como as Ondas do Mar”, já conhecida, recebeu algumas adaptações por Pedro. Sua letra, de adoração congregacional também marca um dos momentos mais intimistas do projeto. “Te louvamos Senhor porque podemos ver o Seu amor, agindo sobre toda a Terra com sabedoria e glória. Levantamos a nossa voz como as ondas do mar se levantam para exaltar-Te oh Senhor. És o rei das nações, reina pra sempre em nossos corações”.

    Marquinhos Gomes colabora na faixa-título, que instrumentalmente é próxima do estilo pop rock da banda. Dico Parente assina duas canções com Pedro, também cantando-as, “Janelas do Céu” e “Mistério”. “Comando de Cristo” tem a participação de Pablo Chies e Dico, mas Braconnot é o intérprete. Pedro é, ainda autor de “Velho Amigo” e “Luz de um Campeão”, esta última cantada por Dico. Em homenagem a Janires, a banda regrava “Baião”, que claramente é a cara do início do grupo. A canção, que não aparecia muito nos shows da banda voltou a ser executada. Enquanto Felix, Marotta e Braconnot sempre se apresentaram mais contidos, Dico mostrou-se mais extravagante e excêntrico, tanto nas apresentações ao vivo quanto nas gravações em estúdio. Por um lado, se define a identidade própria do músico, não se encaixa tão bem com os moldes já conhecidos do Rebanhão, ainda mais se tratando de um substituto.

    Mais ousado, o álbum tem muitas influências do hard rock, e sonoridades que remetem ao estilo de algumas bandas. É perceptível, por exemplo, a influência do Queen em “Luz de um Campeão”, nos sintetizadores utilizados (uma música do álbum seguinte também lembraria fortemente esta banda). Os vocais agudos de Dico lembram uma característica comum nas bandas do estilo, tanto dos anos 70 e 80.

    O álbum, que é bom, mas não se compara aos da formação clássica teve um bom alcance e encerrou a fase da banda pela gravadora Gospel Records. Durante os shows, a banda cantava canções como “Elo Perdido”, “Baião”, “Mistério”, e é claro, “Palácios”. Dico Parente saiu do grupo três meses após o lançamento, e pouco se sabe sobre o cantor após este período. Os outros permaneceram.

    Na versão em LP e na remasterização em CD, Dico Parente é citado apenas como uma participação especial, pelo fato de ter uma participação temporária na banda. Ainda, como bônus vieram quatro faixas do álbum Pé na Estrada remasterizadas.

  • Rocklogia – Cristo ou Barrabás?

    De antemão, peço desculpas aos leitores por estar publicando mais conteúdos sobre o Katsbarnea do que as demais bandas. Porém, a fase de ouro da banda é bastante curta em relação aos demais grupos. Garanto que, nos anos 2000 vocês praticamente não verão tantos textos do Kats aqui.

    No último post da Rocklogia abordamos o início da carreira solo de Brother Simion, e as parcerias que envolviam o artista. Embora Rick Bonadio e Estevam Hernandes também participem, de certa forma do processo criativo nesta fase do Katsbarnea, a verdade é que os discos do Kats são muito diferentes dos álbuns da carreira solo de Simion. E claro que isto é intencional. Sem deixar a peteca cair, Brother consegue se desdobrar excelentemente, nos apresentando dois ótimos discos em 1992.

    Em 1991, ocorre algo um pouco desagradável para a banda. Por intervenção de Estevam Hernandes, a banda é reduzida para cinco integrantes, ao contrário do alto número que havia anteriormente. Os vários motivos para isso não são comentados pelos ex-membros, que não tinham poder o suficiente para questionar a decisão do líder religioso. Assim, cada um migrou para outros caminhos.

    Por isso, Cristo ou Barrabás não sofre de sequelas do álbum anterior. De forma muito mais direta e simples, a sonoridade da banda também tornou-se mais pesada e orientada ao rock. Na saída de Tchu, Jadão foi integrado. O músico é, sem dúvida, um dos melhores baixistas da cena cristã. “Congestionamento” é um ótimo exemplo de como esse instrumentista domina o baixo. Os músicos convidados foram Fuca Gomes, Lufe, Maurício Caruso e Robson Moura. Eu, particularmente acho que esse time de bateristas contratados não era necessário, já que a banda tinha Paulinho Makuko que poderia muito bem assumir a bateria também. A apresentação do grupo no terceiro SOS da Vida em 1993 prova que seu desempenho no instrumento é positivo.

    O curioso, nesta fase é o guitarrista Tomati, conhecido por fazer parte do sexteto do Programa do Jô ter participado da banda. Embora seja creditado como instrumentista no álbum, Tomati não gravou as guitarras deste disco. Brother Simion mostra muito bem que, apesar de não ter uma grande voz, sua performance alcança o que a música pede. “Parede Branqueada” e “Terra” são ótimos exemplos disso.

    A formação, após este disco mudaria novamente, com a saída do último membro da formação inicial restante, Paulinho Makuko.

    O que realmente matou o Katsbarnea, em todos estes anos foi a troca constante de integrantes. E, analisando a história do grupo, não foi culpa dos membros. Tirando Brother Simion e Jadão, o Kats dos anos 90 trocou tanto as formações que, mais tarde, faria cada vez mais parecer um projeto solo de Simion. Talvez este tenha sido um ponto importante pelo qual o cantor escolha ir para a estrada sozinho anos depois. Pelo menos o artista não nos deixou órfãos e lançou boas músicas em carreira solo.

  • Janires e Amigos: primeiro álbum ao vivo da música cristã

    Existem acontecimentos, que por mais relevantes que sejam, são esquecidos por várias pessoas. Muito é dito a respeito do legado de Janires e sua importância para a música cristã nacional, mas a dimensão de seu impacto é pouco citada.

    Janires e Amigos, é talvez um destes exemplos. Considerado o único álbum solo do cantor e compositor capixaba, hoje creditado como parte da discografia do Rebanhão, o disco foi gravado com muita dificuldade e particularidade.

    Era 14 de dezembro de 1984, há exatos 30 anos. Há cerca de 5 anos, Janires, como frontman do Rebanhão provocava um verdadeiro reboliço na cena cristã da época. Com canções como “Baião”, “Casinha” (do álbum Mais Doce que o Mel), “Hoje sou Feliz” e “Casa no Céu” (do subsequente Luz do Mundo), Janires mostrava sua capacidade criativa. Mas seu sonho não era simplesmente se tornar um ícone da música cristã nacional. Eis, que durante este contexto, surge Janires e Amigos.

    Dez anos antes da gravação, em 1974, com cerca de 21 anos de idade, o cantor converteu-se e deixou um passado cheiro de “aventuras” para trás. Com a temática de dez anos de conversão, Janires chama vários amigos e parceiros e decide gravar um álbum ao vivo. Só que ninguém do meio cristão, aquela altura do campeonato tinha gravado um trabalho deste tipo: ele seria o primeiro.


    A equipe técnica

    Para gravar o álbum, Janires teve a ajuda de Ermínio (técnico de estúdio), Barney (seu assistente) e Silas (responsável pelo estúdio onde a obra foi mixada). Pela tecnologia da época e os recursos disponíveis, o álbum foi gravado numa mesa de oito canais.

    O grande problema era que, com oito canais era muito difícil comportar todos os músicos e vocais da gravação. Mas com muito jeito, conseguiram.


    O local de gravação

    O álbum foi gravado na cidade do Rio de Janeiro, no auditório da Rádio Boas Novas. Nesta época, a quantidade de rádios cristãs ainda não era muito grande, e certamente tais parcerias eram vitais para a banda. Com o álbum Luz do Mundo, por exemplo, o Rebanhão conseguiu ter músicas executadas em rádios fora do nicho cristão.


    As participações especiais

    Janires e Amigos é um disco cheio de participações especiais. A começar pela mãe de Janires, na qual foi homenageada na canção “Mamãe“. O cantor também era amigo do jogador goiano Baltazar, no qual chegou a atuar pela Seleção Brasileira de Futebol. A ele foi dedicada a canção “Baltazar, o artilheiro de Deus”.

    Juntamente com o Rebanhão, em alguns teatros, a atriz Helena Brandão, mais conhecida pelo seu nome artístico Darlene Glória contava seu testemunho de vida. Janires a homenageou com a canção “Helena”, na qual versa sua história e conversão.

    Nesta época, o cantor João Alexandre fundava o Grupo Pescador, bem no início de sua carreira. Na gravação, o cantor dividiu os vocais com Janires na música “Casinha”, até hoje uma das canções mais icônicas do Rebanhão.

    Além destes, Janires era amigo do atleta Alex Dias Ribeiro, no qual foi inicialmente homenageado em “Hoje Sou Feliz”, do álbum Luz do Mundo. Mas desta vez, o tributo foi mais direto com a canção “Alex, o Baixinho Voador”. Ainda, uma canção poética, para a Rede Boas Novas fecha o álbum, “À Minha Amiga R.B.N. (Lindas Canções)”.

    Dentre outras canções do disco, há um momento de oração, conduzido por Alex Dias Ribeiro, a regravação de “Baião” com a participação dos demais integrantes do Rebanhão, uma versão de “Jesus Cristo Mudou Meu Viver” e “Jesus Super Herói” com temática infantil, gravada num dueto entre Wagner Carvalho e Ed Wilson.

    O instrumental é tocado pela Banda Fé. Outras participações especiais incluem Ed Wilson, Clube Bíblico Jesus Vive e Waldenir Carvalho (pai de Cristiane Carvalho e Wagner Carvalho, este último que nos anos 90 foi baterista do Rebanhão).


    ARCA

    A Arca Musical Evangélica foi uma gravadora do Rio de Janeiro que distribuiu o álbum Luz do Mundo (enquanto Mais Doce que o Mel e Janires e Amigos foram pela Doce Harmonia). Curiosamente, a canção que mais se destaca no álbum é “Arca (Festa de Arromba Evangélica)”. Nesta música, Janires praticamente cita o nome de todos os cantores cristãos e bandas relevantes da época de forma muito bem humorada.

    Vinha andando, andando voando pelo meio da rua / Quando encontrei com a banda do exército da salvação / Tocando rock, rock, rock pra Jesus junto com o Edson e Tita / Sinal Verde, Ozéias de Paula e o Maurão / Grupo Logos, Imperiais, Victorino da Silva / Vencedores por Cristo tocando com Dani Berrios / Jovens da Verdade, Nicolete, Sonoros e o Grupo Semente / E Shirley Carvalhaes cantavam com a gente / B.J. Thomas, Don e Asaph, Feliciano Amaral / Grupo Atos, Edson e Telma e o Som Maior / S8, Andrae Crouch, Denise e os Cantores por Cristo / E o Paulo César do Música Viva, que que é isso?

    E descobri que estava sonhando, um sonho muito legal / Que um dia vai se cumprir no lar celestial.


    A capa

    A capa de Janires e Amigos foi produzida pelo cantor Marcos Góes. O projeto, em sua frente possui um desenho, contendo as participações do álbum listadas. Nota-se que o desenho da ovelha com o pastor foi o “logotipo” do Rebanhão em seus primeiros anos.

    O verso da capa mostra uma foto de Janires com músicos da gravação.


    Citações

    O Janires foi um cara único, ele saiu talvez porque nós não conseguíamos seguir no ritmo dele. Deus o usou de maneira especial e o levou. No entanto tinha outros planos para o resto de nós. Foi um desafio quando ele disse que ia sair, mas conseguimos seguir em frente com a graça e misericórdia de Deus. (Pedro Braconnot)

    Esta gravação foi muito legal e corajosa. Não esqueço: tudo engatilhado, mas deu certo, era tudo em cima de milagres. (Carlinhos Felix)

    Janires tinha o raro talento de dizer coisas profundas de forma simples! Hoje em dia complica-se tudo pra não dizer nada! (João Alexandre)


    Relançamento

    Inicialmente, Janires e Amigos foi lançado como um álbum solo de Janires, contendo a participação do Rebanhão. Porém, em 1994 o álbum foi remasterizado, e sua capa foi modificada, incluindo o nome da banda na lateral, em letras grandes. Incluso na discografia do Rebanhão, foram inclusas duas faixas bônus, nas quais são a gravação original de “Baião” e “Mel”, do álbum Mais Doce que o Mel.

    A ordem das músicas também foi alterada.


    Legado

    Mais do que o primeiro álbum cristão gravado ao vivo no Brasil, Janires e Amigos é um exemplo que a arte cristã não precisa se encapsular em padrões líricos e estéticos e que é possível sim prestar homenagens e tributos a pessoas mantendo o principal foco, no qual é Jesus.

  • Rocklogia – Brother Simion em carreira solo

    No artigo sobre o início do Katsbarnea, há muitas semanas atrás, relembramos o quão experimental era o som do grupo. Mas seu frontman, o cantor e compositor Brother Simion, de certa forma tinha outros tipos de canção, que não pareciam se encaixar muito bem no estilo da banda. Foi assim, que então, em 1992 saiu seu primeiro álbum solo, Brother.

    Com composições assinadas pelo próprio músico, com Estevam Hernandes como co-autor em nove das dez faixas, é um disco basicamente folk. Vale lembrar que o álbum foi produzido por Rick Bonadio: sim, o produtor musical que já trabalhou em clássicos nacionais, como o único disco de estúdio do Mamonas Assassinas e o álbum de estreia dos Los Hermanos começou sua carreira produzindo, mixando ou gravando discos de rock cristão em seu estúdio, ou mais especificamente, artistas da gravadora Gospel Records. Brother Simion foi o primeiro deles, e além dele, Katsbarnea, Resgate, Oficina G3 e Renascer Praise são parte da história de sucesso de Bonadio.

    O destaque do primeiro trabalho de Simion, que na opinião de muitos puristas é o seu melhor (eu particularmente não concordo) está nas regravações de músicas do primeiro trabalho do Katsbarnea, que foi praticamente um cassete demo. “Contato” ganhou uma versão mais trabalhada. Nessa música, particularmente vejo influências de Raul Seixas. A faixa ganhou versão em videoclipe.

    Outra curiosidade é que, neste primeiro álbum, o nome artístico do cantor era exclusivamente Simion. O “Brother Simion” pegou e seu nome acabou saindo assim nos álbuns solos seguintes e também no Katsbarnea. No mesmo ano sairia Cristo ou Barrabás do Kats, mas Simion lançaria mais um solo no ano seguinte.

    Em 1993 saía o segundo projeto do cantor, Esperança. Esse trabalho seguiu as tendências do anterior, trabalhando bastante com o folk. Novamente, a parceria entre Simion e Rick Bonadio prosseguiu, e Estevam Hernandes é co-autor de algumas músicas, Sônia Hernandes em uma. A faixa-título é, possivelmente o primeiro sucesso da carreira solo de Brother Simion.

    Três anos depois, em 1996, Brother Simion lançou A Promessa, que já fazia uma transição entre o cantor, nos anos anteriores e nos anos seguintes. Particularmente considero-o o mais fraco de sua carreira, e contou com a participação especial da cantora Raquel Mello, na época integrante do Kaders Singers. Depois deste trabalho, Simion mostrou transformações em sua carreira que serão abordadas em outro artigo. Até a próxima semana!

    PS: Domingo teremos um post especial, não perca!

  • Rocklogia – Músicas seculares que edificam – parte 2

    Há uns meses, aqui na Rocklogia, foi publicado um post com exemplos de músicas seculares que possuem conteúdos fortemente aproveitáveis e coerentes com o cristianismo. Se, ainda, você não leu clique aqui e confira as canções já citadas e os motivos pelos quais essa lista está sendo feita.

    Caso você tenha sugestões, faça-as nos comentários. Toda opinião é bastante útil.

    Run Devil Run – Paul McCartney

    Paul McCartney, conceituado e mítico músico mais conhecido por ser um ex-Beatle lançou “Run Devil Run” em 1999, no álbum de título homônimo. A história por trás da música é bastante curiosa. O cantor estava em Atlanta, e numa loja de artigos encontrou um óleo de sais para espantar maus espíritos de título Run Devil Run. Paul achou o nome curioso, e mais tarde escreveu a letra, que utiliza-se de muito humor.

    Esta fase na carreira do cantor é ímpar, pois ele havia acabado de perder a esposa para o câncer, Linda McCartney. Em 1999, decidiu gravar um disco, com a maior parte do repertório composto por covers de hits dos anos 50. A banda que o acompanhou foram de grandes músicos, com destaque para David Gilmour, guitarrista do Pink Floyd e Ian Paice, baterista do Deep Purple.

    Livin’ On a Prayer – Bon Jovi

    Clássico da banda, “Livin’ On a Prayer” conta a história de um casal que vive uma situação complicada no campo financeiro. Mas enquanto possuem um ao outro, já possuem o que é mais importante.

    A canção nos faz pensar e lembrar, mais uma vez que as pessoas que estão ao nosso lado são mais importantes que bens materiais ou posições de status que podemos alcançar.

    Any Road – George Harrison

    Apesar de cada beatle ter sua particularidade, George Harrison possui aspectos interessantes em sua vida e música. Mesmo não tendo uma tradição estritamente cristã, George era o integrante da banda que mais procurava e evidenciava uma busca pela espiritualidade. Várias de suas músicas apresentam essa questão.

    “Any Road”, que abre seu álbum póstumo é esse um dos exemplos. Relacionando os meios de transporte, as estradas e a incerteza dos caminhos da vida, o músico diz, em outras palavras que a melhor escolha é curvar-se ao Criador.

    How Can I Go On – Freddie Mercury e Montserrat Caballé

    Do álbum Barcelona, de 1988, com participação do baixista John Deacon no instrumental, o vocalista do Queen, Freddie Mercury faz uma espécie de desabafo sobre o HIV que tinha acabado de contrair. Nesta canção, o cantor pergunta: “como posso continuar?”, e pede o cuidado de Deus.

    A parceria entre o músico de rock e a cantora de ópera Montserrat Caballé é, até hoje um dos maiores crossovers da história da música.

    Dream On – Aerosmith

    Integrante do álbum de estreia da banda, “Dream On” é um dos maiores sucessos do Aerosmith. A banda, originada nos EUA nos brinda com essa música que, resumidamente fala sobre o curso da vida. Nascer, viver, envelhecer e falecer, o caminho da humanidade. Entretanto, mais importante do que isso é não deixar o que se faz hoje para amanhã, pois talvez, amanhã é o dia de sua morte.

    https://www.youtube.com/watch?v=92SIK4O2UD0

    I Still Haven’t Found What I’m Looking For – U2

    U2 já é uma banda mundialmente conhecida por sua influência no rock oitentista, e por ter a característica parcialmente (ou totalmente peculiar) de parte de seus integrantes serem cristãos assumidos mas não buscarem ser uma banda de “rock cristão”. Inimigos do grupo à parte, o U2 é uma banda extensamente respeitada, e The Joshua Tree é o seu álbum mais conhecido. Deste projeto,temos “I Still Haven’t Found What I’m Looking For”, com versos baseados em Iº Coríntios 13.

    Monte Castelo – Legião Urbana

    Já clichê nas listas de músicas seculares que temos por aí, “Monte Castelo” utiliza-se da mesma referência utilizada pelo U2, também tomando por referência versos de Camões. Integrante do álbum comumente mais respeitado da banda, As Quatro Estações, a canção possui uma letra e melodia simples.

    Dom Quixote – Engenheiros do Hawaii

    Dançando no Campo Minado é, geralmente um álbum do Engenheiros na “lista negra” de muitos da mídia especializada. Mas “Dom Quixote” é surpreendente. Sua lírica, certamente sarcástica brinca em como as pessoas são desacreditadas e ridicularizadas em tentar seguir com algo aparentemente impossível. Muito coerente com o contexto da fé cristã, não?

    https://www.youtube.com/watch?v=__bihwnurTI

    E você, se lembra de mais alguma música não listada aqui? Comente!

  • Rocklogia – O início do metal cristão no Brasil

    I.X.O.Y.E. Esta frase, traduzida para Jesus, Cristo, Deus, Filho, Salvador é o título do primeiro álbum de metal cristão brasileiro. A banda Calvário, de terras paulistas produziu este trabalho em 1993, época em que o rock cristão estava em seu auge, considerando a ascensão de várias bandas novas. Era hora do metal mostrar sua cara, e este disco é bem representado. Há de considerar que, à frente do seu tempo, o álbum é muito maduro. Com influências claras de Led Zeppelin e Black Sabbath (mesmo sendo bandas de hard rock) e, principalmente de Judas Priest, o heavy metal do grupo é bem construído, e além do instrumental, as letras das canções são bastante instigantes.

    Calvário surgiu em 1992, alcançou reconhecimento até no meio secular devido à qualidade do disco, mas logo se dissolveu por conta de discordâncias entre os integrantes em relação ao som da banda. O grupo se reuniu poucas vezes: uma delas foi em tributo ao Stryper. Mais recentemente, a banda voltou à ativa com uma formação diferente de vinte anos atrás, mas com alguns membros daquela época. Além da Calvário, outras bandas de heavy metal surgiram como Kletos e Martíria.

    De vertentes mais pesadas do metal surgiram muitas bandas, mas a mais conhecida, até os dias de hoje é o Antidemon. Fundada em 1994, o grupo de death metal produziu  demos e coletâneas até lançar Demonocídio em 1999, que se tornou um sucesso na carreira do grupo. Hoje, com vinte anos de carreira a banda soma vários álbuns lançados no Brasil e em vários países do exterior. Satanichaos e Apocalypsenow foram seus lançamentos subsequentes.

    A cena metal ganhou mais força ainda quando o Stauros lançou, em 1997 o álbum Sentido da Vida. Ganhando projeção, o grupo lançou ainda alguns títulos com canções em inglês, mas se dissolveu. Agora, mais recentemente o grupo voltou à ativa e em breve lançará novos trabalhos.

    É importante salientar que outras bandas da época, que não possuem ligação direta ao metal lançaram músicas do gênero. O Fruto Sagrado, certamente é o exemplo mais conhecido. O álbum O que a gente faz fala mais do que só falar, distribuído em 1995 possui influências evidentes do metal progressivo. Nos anos 2000, as influências do metal alternativo no som do grupo foram mais claras ainda. Mas isso é assunto para outro post…

  • Rocklogia – Pé na estrada para a formação clássica

    Era 1991. Nova década, novo ano, que previa fortes mudanças no Rebanhão. Completavam-se dez anos desde o lançamento do primeiro álbum. Apesar disso, todos os três integrantes ainda eram jovens, com idade próxima dos 27 aos 30 anos. Pedro Braconnot já possuía atividades fora da banda, produzindo álbuns. Atuou como tecladista em obras do Guilherme Kerr e Altos Louvores, e neste mesmo ano produziu os álbuns de estreia de João Alexandre, Sérgio Lopes e Cristina Mel – aliás, foi com a ajuda de Braconnot na produção de seus discos que Cristina se tornou uma das maiores vozes da música cristã no Brasil.

    Carlinhos Felix, aos poucos tinha o seu nome conhecido fora da banda. De um guitarrista simplório de base nos anos 80, tornou-se uma das vozes masculinas mais conhecidas da década de 90 no meio cristão. Paulo Marotta, por sua vez não fazia claramente nada fora da banda, e assim como os demais era formado em engenharia.

    Naquele mesmo ano, Felix compartilha com os demais o desejo de gravar um projeto a solo, o que foi aceito com tranquilidade. A princípio, não era uma despedida da banda, mas apenas a realização de um sonho antigo. Coisas da Vida foi gravado em março daquele ano, e Pedro Braconnot atuou como tecladista da obra. Na ficha técnica, participações de músicos consagrados, como Paulinho Guitarra. Bem pop rock, a maioria das composições são autorais, à exceção de “Pescador” (Luciano Dewey, o tecladista da Sinal Verde), “Coisas da Vida” (Ed Wilson e Hilário) e “Senhor do Universo” (Lucas Ribeiro), esta última também gravada por Fernanda Brum anos depois. O álbum foi lançado em julho pela gravadora Continental, anos depois relançado em CD pela WEA (Warner Music Brasil). É o melhor álbum de sua carreira, em minha opinião.

    Além do álbum solo de Carlinhos Felix, faziam dois anos que o último trabalho do grupo tinha lançado, Princípio. A banda, de certa forma tinha que superar o sucesso do último projeto. Fernando Augusto, o baterista havia saído do grupo em 1990. Sobravam Pedro, Paulo e Carlinhos, todos membros do Rebanhão desde o seu início. Mesmo com a formação reduzida, não havia dúvidas de que sairia um disco genuíno do grupo.

    Na primavera de 91, Pé na Estrada foi gravado, no Mega Studio, um espaço de gravação localizado no Rio de Janeiro. Era o sétimo trabalho do Rebanhão (incluindo o Janires e Amigos), e sonoramente alcança o ápice técnico da banda. Com a participação de Sérgio Batera na bateria e percussão, no qual particularmente acho o melhor baterista que já passou pela banda, o trio Marotta/Braconnot/Felix apresenta canções mais rock do que os álbuns anteriores. Pedro mostra grande êxito nos sintetizadores, enquanto a guitarra de Carlinhos definitivamente centra-se nas canções, de forma interessante. “Elo Perdido”, de Braconnot ouso dizer que é a melhor música da banda pós-Janires. A reflexão contida nesta canção, apesar de ser extremamente complexa é uma realidade presente até nos dias de hoje (leia o Para refletir sobre Elo Perdido) e seu arranjo é, sem dúvida um dos mais criativos. Paulo Marotta aparece novamente como compositor, assinando e cantando a faixa-título. Aliás, o projeto gráfico deste álbum é o mais bem feito do Rebanhão. Foi o único álbum da banda lançado pela Gospel Records que não recebeu uma versão remasterizada em CD, o que de certa forma é estranho. Mas algumas canções, posteriormente foram lançadas em uma coletânea e na versão em CD do álbum seguinte (bem que o Rebanhão podia remasterizar todos os seus álbuns e fazer um lançamento digital).

    Carlinhos Felix também é o compositor de “Existe um Lugar”, “Tempo pra Tudo” e “Pedaço do Céu”, interpreta “Salvador” (Lucas Ribeiro), e o hard rock de “Criação” (Elmar Gueiros). Pedro Braconnot também canta “Fé”, que possui uma atmosfera fortemente experimental e “Ovelha Ferida”. Contudo, “Nzile Nzulu” (autor desconhecido) fecha o álbum catastroficamente. Parece até que foi uma canção para o álbum não ficar com menos de dez faixas.

    Segundo Carlinhos Felix, com o lançamento de seu álbum solo, este foi recebendo naturalmente agendas separadas, que culminou sua saída da banda. A formação clássica encerrava-se ali. Ainda, Pedro Braconnot e Paulo Marotta continuaram juntos por mais um ano, mas Paulo sai da banda. O motivo foi exposto numa entrevista anos depois numa revista da Mocidade para Cristo (MPC).

    Saí por causa de um conflito vocacional íntimo: descobri que estava valorizando mais o trabalho que o próprio Jesus. Abri mão da fama e do prestígio que normalmente acompanham quem se torna muito conhecido porque isso estava atrapalhando meu relacionamento com Jesus. Eu trabalhava demais, e não tinha tempo para Ele, nem para minha esposa, nem para mim mesmo. A obra havia se tornado mais importante que o Senhor da obra. Assim, após 12 anos, deixei o Rebanhão, mudei-me com minha esposa para BH a fim de reestruturar nossas vidas.

    Talvez seria exagero afirmar que o Rebanhão morreu aqui. Mas, o que surgiu depois foram resquícios do que o grupo foi um dia. Braconnot apresentou boas canções, mas soa bem mais como uma carreira solo, do que uma banda.

  • Rocklogia – Livre Arbítrio

    Enquanto praticamente todas as bandas de rock cristão até aquele momento serem oriundas do eixo SP-Rio, a situação mudaria na década seguinte. E o primeiro grupo de relevância que mudaria este paradigma era o Livre Arbítrio. Da capital federal, Brasília a banda surgiria desde 1989 para se juntar aos representantes do novo movimento gospel.

    Inicialmente, o grupo chamava-se Salvo Conduto. A mudança de nome veio no fim da década. Nos anos 90, o grupo produziu seu primeiro álbum, intitulado Corsário do Rei. O título obteve alta repercussão pela distribuição da gravadora Gospel Records, e a canção “Corsário” se tornou o grande hit da banda.

    Nos anos seguintes, o grupo lançou mais álbuns, como Liberdade de Expressão, Acústico e Volta, este último em meados de 2005. Durante alguns anos permaneceu em hiato.

  • Rocklogia – Os primeiros anos do Resgate

    Dentro do grupo das 5 bandas que mais influenciaram o rock cristão nacional nos anos 90 (Katsbarnea, Oficina G3, Resgate, Fruto Sagrado e Catedral) o Resgate é a mais nova. Fundada em 1989 numa igreja batista, os membros não eram grandes músicos, mas dividiam o apreço por rock. Zé Bruno, por exemplo era muito fã de Iron Maiden, e queria fazer parte de uma banda de metal. Era amigo de outro guitarrista chamado Hamilton Gomes, mas se sentia incapaz de tocar metal. Junto ao baixista Marcelo e seu irmão Jorge Bruno, surgiu o Resgate. Para piorar a situação, a igreja na qual eram membros era contra o rock.

    Foi nesta época que ouviram falar da Renascer em Cristo. O Katsbarnea tinha lançado um demo em 1988, e em 1990 gravavam o segundo álbum. Naquele local, sentiam-se livres para evangelizar através do rock. Antes de ingressarem na Renascer, tinham lançado de forma independente o LP Jesus, Vida e Rock’n roll, lançado num show ao vivo do Rebanhão, no qual fizeram a abertura. A tensão era muito grande. O grupo ensaiou durante três meses as poucas músicas que tocariam, mas era tudo ou nada. Para a sorte deles, deu certo. Jesus, Vida e Rock’n roll foi relançado pela Gospel Records, e também algumas músicas no Novos Rumos. Os hits do álbum foram as músicas “Rock da Vovó” e “Ele Vem”. “Paralelo” tem uma ótima letra.

    Novos Rumos incluiu mais canções que logo estariam dentre os maiores hits do grupo, como “Daniel” e “Todo Som”. “Florzinha” dá indício que é do humor que o grupo vive também, mas temas sérios são abordados em “Novos Rumos” e “Consciência”, como o individualismo humano. O Resgate não era o suprassumo da competência musical, mas era um grupo promissor. Os anos provaram isso.