Era 1991. Nova década, novo ano, que previa fortes mudanças no Rebanhão. Completavam-se dez anos desde o lançamento do primeiro álbum. Apesar disso, todos os três integrantes ainda eram jovens, com idade próxima dos 27 aos 30 anos. Pedro Braconnot já possuía atividades fora da banda, produzindo álbuns. Atuou como tecladista em obras do Guilherme Kerr e Altos Louvores, e neste mesmo ano produziu os álbuns de estreia de João Alexandre, Sérgio Lopes e Cristina Mel – aliás, foi com a ajuda de Braconnot na produção de seus discos que Cristina se tornou uma das maiores vozes da música cristã no Brasil.
Carlinhos Felix, aos poucos tinha o seu nome conhecido fora da banda. De um guitarrista simplório de base nos anos 80, tornou-se uma das vozes masculinas mais conhecidas da década de 90 no meio cristão. Paulo Marotta, por sua vez não fazia claramente nada fora da banda, e assim como os demais era formado em engenharia.
Naquele mesmo ano, Felix compartilha com os demais o desejo de gravar um projeto a solo, o que foi aceito com tranquilidade. A princípio, não era uma despedida da banda, mas apenas a realização de um sonho antigo. Coisas da Vida foi gravado em março daquele ano, e Pedro Braconnot atuou como tecladista da obra. Na ficha técnica, participações de músicos consagrados, como Paulinho Guitarra. Bem pop rock, a maioria das composições são autorais, à exceção de “Pescador” (Luciano Dewey, o tecladista da Sinal Verde), “Coisas da Vida” (Ed Wilson e Hilário) e “Senhor do Universo” (Lucas Ribeiro), esta última também gravada por Fernanda Brum anos depois. O álbum foi lançado em julho pela gravadora Continental, anos depois relançado em CD pela WEA (Warner Music Brasil). É o melhor álbum de sua carreira, em minha opinião.
Além do álbum solo de Carlinhos Felix, faziam dois anos que o último trabalho do grupo tinha lançado, Princípio. A banda, de certa forma tinha que superar o sucesso do último projeto. Fernando Augusto, o baterista havia saído do grupo em 1990. Sobravam Pedro, Paulo e Carlinhos, todos membros do Rebanhão desde o seu início. Mesmo com a formação reduzida, não havia dúvidas de que sairia um disco genuíno do grupo.
Na primavera de 91, Pé na Estrada foi gravado, no Mega Studio, um espaço de gravação localizado no Rio de Janeiro. Era o sétimo trabalho do Rebanhão (incluindo o Janires e Amigos), e sonoramente alcança o ápice técnico da banda. Com a participação de Sérgio Batera na bateria e percussão, no qual particularmente acho o melhor baterista que já passou pela banda, o trio Marotta/Braconnot/Felix apresenta canções mais rock do que os álbuns anteriores. Pedro mostra grande êxito nos sintetizadores, enquanto a guitarra de Carlinhos definitivamente centra-se nas canções, de forma interessante. “Elo Perdido”, de Braconnot ouso dizer que é a melhor música da banda pós-Janires. A reflexão contida nesta canção, apesar de ser extremamente complexa é uma realidade presente até nos dias de hoje (leia o Para refletir sobre Elo Perdido) e seu arranjo é, sem dúvida um dos mais criativos. Paulo Marotta aparece novamente como compositor, assinando e cantando a faixa-título. Aliás, o projeto gráfico deste álbum é o mais bem feito do Rebanhão. Foi o único álbum da banda lançado pela Gospel Records que não recebeu uma versão remasterizada em CD, o que de certa forma é estranho. Mas algumas canções, posteriormente foram lançadas em uma coletânea e na versão em CD do álbum seguinte (bem que o Rebanhão podia remasterizar todos os seus álbuns e fazer um lançamento digital).
Carlinhos Felix também é o compositor de “Existe um Lugar”, “Tempo pra Tudo” e “Pedaço do Céu”, interpreta “Salvador” (Lucas Ribeiro), e o hard rock de “Criação” (Elmar Gueiros). Pedro Braconnot também canta “Fé”, que possui uma atmosfera fortemente experimental e “Ovelha Ferida”. Contudo, “Nzile Nzulu” (autor desconhecido) fecha o álbum catastroficamente. Parece até que foi uma canção para o álbum não ficar com menos de dez faixas.
Segundo Carlinhos Felix, com o lançamento de seu álbum solo, este foi recebendo naturalmente agendas separadas, que culminou sua saída da banda. A formação clássica encerrava-se ali. Ainda, Pedro Braconnot e Paulo Marotta continuaram juntos por mais um ano, mas Paulo sai da banda. O motivo foi exposto numa entrevista anos depois numa revista da Mocidade para Cristo (MPC).
Saí por causa de um conflito vocacional íntimo: descobri que estava valorizando mais o trabalho que o próprio Jesus. Abri mão da fama e do prestígio que normalmente acompanham quem se torna muito conhecido porque isso estava atrapalhando meu relacionamento com Jesus. Eu trabalhava demais, e não tinha tempo para Ele, nem para minha esposa, nem para mim mesmo. A obra havia se tornado mais importante que o Senhor da obra. Assim, após 12 anos, deixei o Rebanhão, mudei-me com minha esposa para BH a fim de reestruturar nossas vidas.
Talvez seria exagero afirmar que o Rebanhão morreu aqui. Mas, o que surgiu depois foram resquícios do que o grupo foi um dia. Braconnot apresentou boas canções, mas soa bem mais como uma carreira solo, do que uma banda.
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