Categoria: Rocklogia

  • Rocklogia – Sinal de Alerta

    Pensar no rock cristão nacional na década de 80, como provavelmente muitos dos leitores já perceberam é mais fácil do que teremos dez anos depois. Entretanto, a partir de mais ou menos 1984, além do Rebanhão, começa a surgir outras bandas. De conhecimento quase que geral, a primeira delas foi a Sinal de Alerta.

    Sinal de Alerta surgiu na cidade carioca, em meados de 1984. Segundo o próprio grupo, surgiram por influência do Rebanhão, na mesma época em que, vale lembrar ocorreu a primeira edição do Rock in Rio. Cada integrante pertencia a uma certa igreja, e os ensaios aconteciam em uma marcenaria localizada em Jacarepaguá, bairro do Rio de Janeiro. A formação inicial era: Milton Jorge, Samuel Ribeiro, Luiz Fernando e Joacir Knust. O primeiro álbum, foi lançado em 1985, e simplesmente veio com título homônimo, que foi distribuído pela gravadora California, que usou o grupo como uma espécie de “concorrente” do Rebanhão. Foi o disco mais vendido da banda.

    Ao ouvir as canções, percebem-se, além da sonoridade algumas referências que lembrem composições de Janires, principalmente em “Creio”. Pode ser mera coincidência, mas ler versos como: “Mais pura do que uma taça de cristal / É doce como o mel” nos remete diretamente as músicas “Taças de Cristais” e “Mel”, dos álbuns Luz do Mundo e Mais Doce que o Mel, respectivamente. O guitarrista Samuel Ribeiro ficou conhecido através de seu solo de guitarra contido nesta canção, que se tornou um clássico do Sinal de Alerta. Apesar de seu jeito reservado, atua até hoje em gravação de vários discos independentes, e também já produziu a cantora Lauriete. O primeiro álbum do Sinal de Alerta também possui efeitos de acústica interessantes para a época e para o contexto cristão, como o efeito binaural contido, por exemplo, em “Peregrino”.

    No ano seguinte, o Sinal de Alerta lançou o seu segundo projeto, intitulado de Sinal de Alerta – Volume 2. Curiosamente, este é o disco mais raro da banda e poucas informações existem sobre este projeto pela rede. Porém, a canção “Paraíso”, deste álbum mais tarde seria regravada numa versão bem mais popular no álbum Tendência. Após este projeto, Marcos Chocolate ingressou no Sinal de Alerta. Marcos foi o vocalista mais conhecido do grupo, e permaneceu nele durante muitos anos.

    A grande evolução da banda foi em Manhãs de Outono, de 1987 que, na opinião de muitos é o clássico da banda. Com Chocolate nos vocais, variando entre o rock progressivo e pop oitentista. Pelo título e conteúdo de algumas letras, é percebível a evolução na abordagem de temas, como “Tempos Modernos”, um dos maiores destaques do projeto instrumentalmente.

    No ano seguinte, mais um álbum, e soa curioso como a banda não perdia o pique. Frágil e Pequenina conteve mais uma mudança na formação, com a saída do baixista Joacir. Com isso, o Sinal de Alerta integrou Lico Ribeiro. Tal disco se destacou pelo criativo projeto gráfico e foi distribuído pela Manancial Discos.

    Na época em que a banda Catedral começou, o grupo de Kim abriu vários shows do Sinal de Alerta. A união entre as duas bandas gerou uma participação do Sinal num DVD do Catedral em meados de 2008.

    Com um intervalo maior de tempo nos lançamentos, em 1990 saiu Tendência pela gravadora BomPastor, que, na época mostra mais amadurecimento do grupo, principalmente em relação as letras. É bom lembrar que a efervescência do movimento gospel sem dúvida influenciou o Sinal de Alerta. Na sonoridade, o grupo voltou-se mais ao pop, incluindo mais teclados, ficando a cargo de Pedro Braconnot como músico convidado (nesta época, pelo fato de Pedro ser produtor musical, a relação do músico com a banda era próxima).

    Aumentando ainda mais o intervalo de lançamentos, o próximo disco saiu apenas em 1994, pela gravadora Som e Louvores. Foi a vez de Garotos e Garotas, produzido por Dick Tunney, e seguiu as tendências do projeto anterior. Mais pop do que nunca, Levante seus Olhos saiu em 1999, no final do último século, cinco anos depois do anterior.

    Durante o início dos anos 2000, a banda sofreu algumas alterações em sua estrutura. Em 2002, Lico e Marcos Chocolate saíram, dando espaço a Gabriel Nascimento atuar nos vocais da banda. Música no Ar foi lançado em 2005 de forma independente como um método de trazer para a geração pós-movimento gospel o som da banda, contendo o característico estilo do Sinal de Alerta.

    Mais recentemente, encontram-se gravações acústicas do Sinal de Alerta pela internet. Não se sabe se o grupo exatamente gravará um álbum acústico, mas de qualquer forma, é uma ideia interessante e sem dúvida será muito bem recebida pelo público.

    [youtube https://www.youtube.com/watch?v=55Ti8RtQBxg]

    Acesse também: Entrevista do Sinal de Alerta no portal Arquivo Gospel

  • Rocklogia – Luz do Mundo

    Após o grande sucesso de Mais Doce que o Mel, o Rebanhão apresenta um trabalho superior em quase todos os aspectos. Embora com um repertório de nível semelhante, a gravação se deu no estúdio Transamérica, na época um dos melhores do Brasil. A banda segue na proposta de unir o rock progressivo as influências da música brasileira, desta vez com Janires assinando a maioria das músicas (enquanto em Mais Doce que o Mel, a predominância foi de Carlinhos). Zé Alberto sai do Rebanhão, e a banda não colocou nenhum percussionista no lugar, mas tendo a participação de Edinho como músico convidado nas gravações. Paulo Marotta estreia nos vocais com Janires em “Hoje sou Feliz”, canção que é destaque pela crítica do cantor aos sonhos de criança frustrados pelo mau estado do mundo.

    Pedro Braconnot, mais uma vez compõe uma música no álbum, “Com Cristo em Mim”, enquanto a faixa-título, “Luz do Mundo” é de Carlinhos. O cantor também apresenta “De que Adianta”, “Jesus, meu refúgio” e “Sinal Verde”, também canções que pouco se destacaram se comparadas as composições de Janires.

    Janires traz duas músicas de seu cassete para o álbum, mas com novos arranjos e títulos modificados. É o caso de “Casa no Céu” e “Taças de Cristais”, sendo algumas de suas composições de maior sucesso. Ainda, temos “Ano 2000”, fazendo crítica as guerras no mundo e “U. A. I.” (unidos no arrebatamento da igreja).

    Na ficha técnica do álbum, Janires e Carlinhos dividem o ovation que abrilhanta várias músicas do projeto. Felix também fica a cargo das guitarras e da craviola. Pedro Braconnot trabalha com um piano de cauda Yamaha (piano que, aliás, Tom Jobim admirava). Foi o penúltimo trabalho do grupo com a participação de Kandell.

    Luz do Mundo também é um dos trabalhos da banda que foi remasterizado no formato CD na década seguinte, entretanto tal versão é raríssima, portanto difícil de encontrar. A capa do projeto, de certa forma remete ao cassete de Janires gravado em São Paulo, trazendo o desenho da ovelha e o pastor no centro, enquanto o nome do álbum é destacado em tons marrons.

    Se, em Mais Doce que o Mel o destaque foram as vendas, em Luz do Mundo o Rebanhão conseguiu o feito de ter suas músicas executadas em rádios não cristãs do Rio de Janeiro, alcançando territórios fora do nicho cristão. Entretanto, mesmo com tudo indo cada vez melhor, Janires não era de se acomodar. Crendo que poderia trabalhar em outros projetos, deixou o Rebanhão em 1985 na busca de realizar um sonho.

    Antes de deixar o Rebanhão, gravou “Janires e Amigos”, um disco considerado por muitos como solo, e por outros como parte da discografia do Rebanhão. Mais detalhes sobre esta obra falaremos no final do ano, com uma matéria especial a respeito dos 30 anos desde o dia da gravação.

    [youtube https://www.youtube.com/watch?v=NV4611_o_m0]

    Carlinhos Felix cantando “Hoje sou Feliz”, a melhor música do álbum, em carreira solo, nos anos 90.

  • Rocklogia – Mais Doce que o Mel

    A década de 80 chegou!

    Depois que Pedro Braconnot e Janires passaram a andar juntos (leia o post sobre a conversão de Janires), compartilhar da fé e fundarem o Rebanhão, era momento de encontrar mais músicos que abraçassem a causa. Os dois assistiram um ensaio de três músicos, nos quais foram convidados a entrar no grupo. Dois deles entraram: Paulo Marotta, filho de um presbítero da igreja e baixista, e o baterista Kandell. Um percussionista chamado Zé Alberto também integrou a primeira formação. Faltava um guitarrista, e Janires encontrou-o dentro da Sinal Verde, que como possuía dois baixistas, teve Carlinhos Felix disponível para atuar nas guitarras do Rebanhão. Entretanto, apesar de Carlinhos ter disponibilidade para a banda, não possuía muita experiência com solos, mas com bases. Janires sentiu em necessidade em chamar mais um guitarrista, convidando Elmar Gueiros. Elmar trabalhava na época, e mesmo pela pouca disponibilidade aceitou, mas não ficou muito tempo com o grupo.

    Acabou que a formação ficou assim mesmo, e em meados de 1980 na preparação de um álbum. Janires, como anteriormente tinha um vasto repertório. Além das músicas de seu cassete, tinha outras composições ainda não gravadas, nas quais optou para o futuro álbum. Carlinhos Felix também tinha outras composições, e Pedro Braconnot uma, escrita após sua conversão. A união deste repertório gerou “Mais Doce que o Mel”, um álbum predominantemente de rock progressivo, com influências do tropicalismo.

    Rebanhão - Janires - Fita Cassete - 1979

    Cassete “Rebanhão”, projeto de Janires em 1979 antes de se mudar para o Rio de Janeiro. (Fonte: Rebanhão)

    Apesar da Comunidade S8, Cantores de Cristo e da Sinal Verde, além de outros músicos e bandas menos reconhecidos já terem lançado algum material de rock anteriormente, nenhum projeto é tão divisor de águas quanto o álbum de estreia do Rebanhão. Além de ser revolucionário pela sonoridade, Mais Doce que o Mel inova nas letras e na estética. A capa da obra foi escandalosamente polêmica, pela foto de Janires de camisa aberta, tendo que ser ‘censurada’ e relançada com modificações na parte gráfica. Dez canções, maior parte de rock, mas curiosamente um baião torna-se a canção que melhor representaria a veia do grupo: misturar cristianismo com crítica social. Vaias em apresentações, boicotes, nada disso adiantou para que o grupo parasse – muito pelo contrário – fez que o álbum, lançado por uma pequena gravadora e sem expectativas batesse o recorde de vender mais de cento e cinquenta mil cópias, fato mencionado até por revistas de fora do nicho cristão, como a Veja. O conjunto fazia um enorme sucesso dentre a juventude, fato que impulsionou os boatos de satanismo contidos nas letras. A canção “Baião” foi regravada várias vezes, sendo a versão mais recente de Paulo César Baruk.

    “Casinha”, também de Janires foi outra canção de destaque no projeto. Um choro, a abordagem é descritiva de uma cidade, que em seus primeiros versos transmite uma imagem de beleza. Entretanto, a realidade daquele lugar é tratada na segunda estrofe, dando ar a mensagem de uma nova humanidade que Jesus deu como exemplo em sua caminhada pela Terra, até sua morte e ressurreição dada na terceira parte. O cantor disse, numa gravação em bootleg de 1987 que a música surgiu num dos piores momentos de sua vida, em que faltavam recursos para tudo, e decidiu escrever sobre todas as realidades que conhecia, incluindo a principal de todas elas, a vida eterna. “Salas de Jantar”, uma das canções do pot-pourri do álbum faz parte do momento mais ‘pesado’ do álbum, com o músico criticando o extenso pessimismo divulgado pela mídia, e o individualismo das pessoas. A canção teria alguma referência à “Panis Et Circenses”, do Mutantes?

    As composições de Carlinhos são o ponto de menor destaque do repertório, mas nem por isso deixam de serem canções que fogem do patamar comum. “Tudo Passa”, sobre a soberania de Deus sob o tempo e as ilusões do mundo. “Passageiro” a respeito da nossa peregrinação sobre a Terra, “Monte” para a onipresença dEle em nossas vidas. “Refúgio”, de Pedro Braconnot é uma das melhores baladas do Rebanhão, e possui também um de seus solos de guitarra mais brilhantes.

    Álbuns posteriores mostraram grande amadurecimento musical do Rebanhão, mas nenhum foi tão ‘chocante’ e revolucionário quanto Mais Doce que o Mel.

    [youtube https://www.youtube.com/watch?v=kUzI9VbuZdI]

    O baixista do Rebanhão, Paulo Marotta, juntamente com o músico Erlon Lemos interpretam Casinha.

  • Rocklogia – Sinal Verde

    Já tratamos a respeito desta banda no antigo Gospel Músikas (leia o Trazendo a memória), mas é sempre importante abordar alguns outros pontos. Como dito no segundo post desta série (leia As igrejas da década de 70), a Igreja Presbiteriana de Copacabana realizou uma atividade diretamente importante na música cristã nacional, principalmente no rock.

    A juventude desta igreja, mais tarde influenciada pelo culto Jovem, que já acontecia há anos decidiu montar uma banda, chamada Sinal Verde. O projeto, iniciado em 1979 era um tanto quanto complexo. Com vários instrumentistas e vocais, o grupo tinha um repertório definido, na autoria de Lucas Ribeiro, guitarrista da banda, Luciano Dewey, tecladista e irmão de Lucas e Carlinhos Felix, um dos baixistas. Entretanto, o recurso financeiro necessário para uma gravação não era muito, além de que, com o passar do tempo se tornaria difícil aliar família e trabalho com as atividades musicais, ainda mais para tantos membros.

    Foi no mesmo ano em que Janires chega à igreja em que a banda estava tendo seu início. O genial pai da música cristã tinha fortes intenções de fundar o Rebanhão com o apoio da igreja, porém ainda não tinha encontrado membros, e certamente não queria tirar ninguém do grupo já existente. Enquanto isso participava no louvor juntamente com a Sinal Verde.

    O restante da história já é conhecido: a gravação do compacto, a saída do Carlinhos para permanecer no Rebanhão (ele era integrante de ambos os grupos) e a desestruturação da Sinal Verde, levando ao seu fim em 1983.

    Tal compacto, lançado em 1981, foi um dos primeiros registros de rock cristão nacional (juntamente com as músicas da Comunidade S8), embora as duas músicas apresentadas na obra tenham forte influência da Tropicália. “Pra Você”, a carro chefe possui uma letra direta ao ouvinte, versando sobre solidão e frustração na vida moderna. Nos vocais de Lulu Milazzo, a sonoridade lembra bastante o estilo do Vencedores por Cristo. Moog no instrumental, e várias características de uma balada progressiva. “Assim diz o Senhor”, assim como a anterior de autoria de Lucas Ribeiro possui uma pegada mais acelerada, mas também com o uso de vários vocais, característica marcante do conjunto.

    Pena que o trabalho da Sinal Verde, com forte potencial não foi a frente. O compacto é pouco conhecido, porém ao menos é encontrado disponível na internet para audição e download, para a alegria dos mais saudosistas.

    [youtube https://www.youtube.com/watch?v=5xdsxuOFxsI]

  • Rocklogia – Músicas “seculares” que edificam

    Interrompendo um pouco a linha do tempo da história do rock cristão no Brasil, quero fazer, ao menos uma vez a cada dois meses listas com cinco a dez canções que são músicas “seculares” que edificam (ou seja, músicas comuns que trazem alguma reflexão que de alguma forma lembre conceitos cristãos). Óbvio, que o objetivo da lista não é de levar ao ouvinte a ouvir irracionalmente tudo o que há por aí, mas de levar ao bom senso que existem conteúdos bons e ruins, e que devemos aprender a selecionar com base no que aprendemos e sabemos através de nossas convicções cristãs.

    O nosso dualismo, de sempre dividir o sagrado do profano, o cristão do secular traz certo problema: a fé interfere na amplitude do conhecimento. Atrapalha com que pessoas cristãs conheçam conteúdos sinceros e profundos, assim como pessoas que não compartilham da fé cristã perdem ao se deixarem levar apenas pelo rótulo.

    Como a arte é assimilada e interpretada conforme nossas experiências e vivências neste mundo, eu quero evitar buscar uma intenção original do compositor na escrita de cada canção e muito menos supor intenções cristãs na elaboração dos versos, mas apresentar uma visão particular do que tenho ao ouvir certas canções. Acredito que essa possibilidade seja uma característica belíssima da arte.

    Thiago Junio, da coluna Conectados no Amor, ajudou na escolha de algumas músicas citadas no texto, que também possui uma parte 2.

    “Word on a Wing” – David Bowie

    O camaleão do rock em sua carreira, sempre apresentou, além de versatilidade musical uma visão complexa e ampla do mundo em suas letras. Em meados de 1976, durante a produção do clássico álbum Station to Statio”, Bowie estava vivendo um dos momentos mais críticos de sua vida. Em um vício de drogas, o cantor, mesmo trabalhando fortemente no projeto chegou a um estado tão grande de colapso que não se lembra das sessões de gravação. As composições do disco refletem as sensações ruins de David nesta época, e durante as filmagens do filme The Man Who Fell To Earth, o qual foi protagonista compôs “Word on a Wing”, na qual o próprio artista confirma que se trata de um pedido de ajuda a Deus. “Havia dias de terror psicológico enquanto eu fazia o filme de Roeg que eu quase comecei a abordar meu renascimento, nascer de novo. Foi a primeira vez que eu pensei seriamente a respeito de Cristo e de Deus em sentido profundo, e ‘Word on a Wing’ foi uma proteção. A canção veio como uma completa revolta contra os elementos que eu fazia no filme. A paixão da música era genuína… algo que eu precisava criar dentro de mim mesmo para reagir contra as situações que eu sentia que estavam ocorrendo no set de filmagem”.

    Algo interessante que vejo na letra desta canção é a visão de Bowie que Deus, através da salvação trazida por Cristo nos oferece um novo horizonte fora de nossas ilusões (Nesta era de grandes ilusões você veio para minha vida fora dos meus sonhos).

    [youtube https://www.youtube.com/watch?v=JKMCzzSQWmk]

    “Under Pressure” – Queen e David Bowie

    Bowie foi citado acima, e participou com o Queen na elaboração da canção “Under Pressure”, que foi lançada como parte do álbum Hot Space da banda inglesa. O Queen não é uma das bandas mais demonizadas pelos religiosos de plantão, mas nunca foi muito bem vista por conta do comportamento excêntrico de seu lendário e talentoso vocalista, Freddie Mercury. A canção em si surgiu a partir de um riff de baixo de John Deacon (meu integrante preferido da banda) e a maior parte da letra vem de Bowie. A letra, interpreto como um discurso direto de que infelizmente temos trocado a dificuldade de viver o amor plenamente para que, em nossa preguiça acostumemo-nos a viver sob a pressão do mundo moderno, e o pior, trazendo em proporções exponenciais o mesmo as outras pessoas.

    No B-side do single, temos a canção “Soul Brother”, na qual, escrita e cantada apenas pelo quarteto que caracteriza o Queen e em seus versos remetem a outras músicas da banda. Num estilo de coro gospel, ela está se referindo a Cristo?

    [youtube https://www.youtube.com/watch?v=a01QQZyl-_I]

    “Hey You” – Pink Floyd

    Roger Waters, apesar de odiado por uma parcela dos fãs do Pink Floyd por ter desestruturado a banda é o seu grande compositor. Me arriscaria dizer que ele está dentre os cinco melhores compositores da história do rock, no terceiro, ou no quarto lugar. “Hey You” faz parte de The Wall, uma ópera rock que aborda vários temas, sendo um deles especificamente o isolamento. Considerando nossa contemporaneidade, na qual a solidão tem sido a principal companhia de muitos, a canção encaixa-se perfeitamente em nosso contexto. Mas não é fácil ajudar alguém a sair desta situação, e ao contrário do que reflexões superficiais podem trazer, pessoas ao lado não indicam necessariamente companhia. Precisamos de pessoas ao nosso lado, mas que não nos juntamos por interesses e causas comuns. Assim, continuaremos em frente ao mesmo muro pessoal.

    [youtube https://www.youtube.com/watch?v=TFjmvfRvjTc]

    “After Forever” – Black Sabbath

    O principal letrista do Black Sabbath é seu baixista Geezer Butler que, apesar de suas poucas certezas acerca da fé veio de uma família e influências cristãs. Na década de 70, o Black Sabbath em formação clássica alcançava alto sucesso, principalmente por conta do álbum Paranoid. A medida que o som da banda foi ficando mais experimental, o grupo foi mostrando seu ecletismo. No álbum Master of Reality, Geezer escreve “After Forever”, que praticamente é uma resposta indireta as acusações sem sentido de que o Black Sabbath era uma banda satânica. O conteúdo da letra, que se refere à questões cristãs, é sem dúvida mais coerente biblicamente que muitas coisas intituladamente “gospel” que temos por aí…

    [youtube https://www.youtube.com/watch?v=X9ldb4r7vP0]

    “Ouro de Tolo” – Raul Seixas

    Trazer Raul numa dessas listas não é algo fácil, porque além dos vários olhares pejorativos que sua obra ficou presa para alguns, suas canções são complexas e, no geral sempre fugiram do patamar comum. Um de seus primeiros sucessos, “Ouro de Tolo” é uma crítica direta ao “milagre econômico” vivenciado no início da década de 70, durante os difíceis anos de ditadura militar. Apesar disso, sua letra continua muito atual. O consumismo desenfreado humano, que cada vez mais dá mais valor as coisas do que pessoas leva a um pensar utópico e fútil de se levar a vida. E o que isso tem a ver com cristianismo? Tudo. As palavras e ações de Cristo refletiam uma preocupação acima de tudo com as pessoas. Quais são os nossos valores e de nossas vidas?

    [youtube https://www.youtube.com/watch?v=2kRMdzfFf8M]

    “O Vencedor” – Los Hermanos

    Amada e odiada por muitos, a banda Los Hermanos foi uma importante representante do rock brasileiro nos últimos anos. “O Vencedor” é um de seus hits pós-Ana Júlia, e reflete, nos versos de Marcelo Camelo a busca desenfreada em ser um vencedor, acrescida muitas vezes pela competição. O eu lírico, ao invés de, irracionalmente correr atrás exclusivamente por conquistas positivas, afirma que chorar é uma glória, e quem tenta o caminho comum não terá todas as experiências de quem decide experimentar também os lados frustrantes da existência humana. Devagar, sem pressão (lembrei-me de “Under Pressure”) damos amor e valorizamos mais as pessoas do que as coisas.

    [youtube https://www.youtube.com/watch?v=2b4mkBM2A-k]

    “O Amor existe, mas não querem que você acredite” – Selvagens à Procura de Lei

    Está aí uma banda que tem atraído a atenção do público e da mídia especializada e que daqui a uns anos pode-se tornar um dos grandes nomes do rock nacional nesta década. De Fortaleza, Ceará, os Selvagens à Procura de Lei lançaram “O Amor existe, mas não querem que você acredite”, no segundo álbum do grupo, em 2013. Quando ouço esta música, fico pensando principalmente nos perigos escondidos no mercado do trabalho e nas relações sociais atuais, como a competição, a falsa demonstração de afeto e a interação com outras pessoas na busca de benefícios (como o tão famoso e divulgado networking). Em nosso mundo ocidental, parece que fomos rendidos pelo individualismo. Quem gosta da música de John Lennon deve perceber alguma influência sonora nesta canção.

    [youtube https://www.youtube.com/watch?v=E0l3r8QEhr4]

  • Rocklogia – Os Cantores de Cristo

    Além das bandas já comentadas aqui na Rocklogia, tive a oportunidade de conhecer alguns títulos do grupo Os Cantores de Cristo. Na proposta jovem dos anos 70, Os Cantores de Cristo é talvez a primeira banda de rock cristão do Brasil (surgiu praticamente na mesma época que o Êxodos ou até mesmo antes). Surgiu no Rio de Janeiro.

    Segundo entrevista ao portal Arquivo Gospel (leia aqui), a banda afirma que surgiu como um conjunto vocal em 1968, adicionando elementos instrumentais anos depois. Dos anos em que esteve ativo, saíram quatro álbuns, nos quais são: Olhando o Infinito, de 1973, Bonança, de 1975, Pra Você, de 1979 e Manso e Suave, de 1982. Lançado pela gravadora Favoritos Evangélicos, “Bonança” provavelmente foi o lançamento mais relevante do grupo. Sonoramente temos uma banda pop rock, com elementos tímidos do progressivo influenciados pelo grande Pink Floyd, formando uma sonoridade já ousada para a época, mas com letras ainda bem diretas sobre o cristianismo. O destaque maior vai para os arranjos vocais.

    Após o fim do grupo, alguns integrantes tentaram seguir como um grupo vocal, mas o projeto se dissolveu antes dos anos 2000. Com o fim da gravadora Favoritos Evangélicos, o material da banda tornou-se uma raridade.

    A antológica música “Arca” de Janires, gravada no álbum Janires e Amigos, mais tarde creditado como álbum do Rebanhão cita Os Cantores de Cristo, mostrando a relevância do grupo na época.

  • Rocklogia – A conversão de Janires

    É extremamente difícil fazer uma linha do tempo quando os fatos entrelaçam-se. A conversão de Janires ocorre na mesma época de fatos já mencionados em outras postagens (leia a reflexão sobre as igrejas da década de 70 e a história da banda Êxodos).

    Pouco se sabe da vida pessoal do músico durante a época de conversão e início da vida cristã, e mais ainda a respeito da infância. Janires era capixaba, não conheceu o pai (que abandonou a mãe ainda pequeno) e, por motivos ainda não muito bem esclarecidos envolveu-se na criminalidade e uso de drogas (creio que por uma moda da época). Nenhum destes problemas, entretanto afetou negativamente a clara proficiência do músico em compor, e sua visão de mundo. Talvez, apenas enriqueceu.

    Tendo contato com realidades as quais a maioria dos cristãos não possuem, Janires tinha liberdade e cacique para falar das coisas da vida, suas frustrações, alegrias e tristezas. Por conta de um milagre, ao invés de ser condenado por um crime que cometeu, foi confundido com outro detento e parou numa casa de recuperação duas vezes. Foi ali que ele e sua mãe conheceram a Cristo. Mas, como a realidade é nua e crua, Janires ainda não conseguiu manter-se completamente limpo após a conversão. Teve recaídas, todavia se levantou. Frequentou a Igreja Cristo Salva, em São Paulo e realizou algumas atividades musicais, dentre elas um cassete amador chamado “Rebanhão”, com dez músicas autorais. Rebanhão, mais tarde se tornaria o nome da banda que fundaria. Muitos consideram o Rebanhão como este grupo que Janires gravara na igreja do tio Cássio, entretanto o curso da história evidencia que o grupo propriamente dito começaria no Rio de Janeiro.

    E a ida para o Rio de Janeiro, segundo Janires era uma direção de Deus. Ele queria que aquele projeto começasse lá. Passou a frequentar a igreja Presbiteriana de Copacabana, e sua aparência surpreendia a todos: era extremamente simples. Não ajuntava riquezas, não tinha vaidades, mas possuía palavras e visão de mundo que poucos apresentavam. Eis aí, um gênio, a frente de seu tempo.

    Após ser ajudado por irmãos na fé, era tempo de Janires fazer o mesmo por neófitos. O primeiro foi Pedro Braconnot. Tecladista e compositor, vindo de família católica, era desinteressado pelo cristianismo. Acreditava que Deus não existia, e se existisse estava bem alheio de sua vida, e não compreendia os protestantes. Pedro participou de um acampamento em Juiz de Fora, e se converteu. Tentou largar as drogas e bebidas, mas teve dificuldade. Foi Janires, que teve experiências semelhantes a Pedro que o ajudou a se levantar, num processo de altos e baixos. Juntos, foram os primeiros integrantes do que se tornaria o Rebanhão (mesmo que em São Paulo Janires tenha feito algo semelhante). E, curiosamente ambos compuseram a maioria das melhores músicas já gravadas pelo grupo. Diante disto, será que podemos afirmar que as múltiplas experiências (incluindo as negativas) nos dão ampla visão de nossos objetivos como cristãos, também enriquecendo a criatividade?

    [youtube https://www.youtube.com/watch?v=KUb4s_L24fs]

    “Etc e tal”, uma das canções do cassete do Janires. A crítica de Janires, no final da década de 70, soa atual por conta da popularidade da teologia da prosperidade.

  • Rocklogia – As igrejas da década de 70

    Prosseguiremos nossa linha do tempo a respeito da história do rock cristão no Brasil, na qual anteriormente abordamos a história da banda Êxodos (se não leu, clique aqui).

    Durante a década de 70, além dos múltiplos movimentos culturais no Brasil e no mundo, grande parte deles consequências do movimento hippie nos anos 60, começavam a se formar algumas propostas diferenciadas de culto e evangelismo pelo país. Destas ideias, destacam-se o nome de quatro igrejas.

    Uma destas instituições é a Igreja Presbiteriana de Copacabana, que como o nome afirma, localiza-se na cidade do Rio de Janeiro. Em 1972, iniciou-se o Culto Jovem, no qual era realizado as 18hs, um pouco antes do culto principal de domingo, com o objetivo de alcançar a juventude que não frequentava, e dificilmente se adaptaria a liturgia do outro horário. O músico Elmar Gueiros foi um dos principais participantes destes cultos, e o resultado foi positivo, pois a igreja ficava lotada de jovens, muitos destes não cristãos. Durante o culto, eram utilizados vários instrumentos até então demonizados na maioria das igrejas, como a bateria, guitarra, baixo e teclado/sintetizadores. O culto jovem durou muito tempo, graças ao apoio dos pastores Benjamin Morais, Jonas Rezende e Nehemias Marien (este último conhecido por sua personalidade polêmica). Destes frutos, destaque para a banda Sinal Verde (na liderança do conceituado compositor Lucas Ribeiro), o surgimento do Rebanhão (com Janires, Carlinhos Felix, Paulo Marotta e outros), e várias conversões de pessoas que tinham aversão ao cristianismo, como o tecladista Pedro Braconnot.

    Entretanto, a mais conhecida desta época é, sem dúvida a Igreja Cristo Salva, também conhecida como igreja do Tio Cássio, localizada em São Paulo. A igreja surgiu através do casal Noeli Colombo e Cássio, no qual eram empresários. Entretanto, com o surgimento de problemas, provavelmente financeiros, procuravam ajuda em vários locais, porém não encontraram. Conhecer a Cristo foi a solução para os dois, que passaram a evangelizar por onde iam. Com a crescente quantidade de jovens que abraçaram a causa, e participavam de ‘reuniões’ na casa de Cassio, surgiu a Cristo Salva, em meados de 1975. Foi nesta igreja em que Janires, futuro líder e vocalista do Rebanhão iniciou sua vida cristã, também sendo o local onde surgiu a banda Oficina G3, na época com sua formação inicial, na qual, atualmente apenas Juninho Afram está. O casal Estevam e Sônia Hernandes, antes das corrupções nos anos 2000 frequentaram cultos desta igreja e desempenharam grande função evangelística nos anos 90 através dos eventos públicos da Renascer, tema que trataremos em posts futuros. O conhecido piloto Alex Dias Ribeiro também esteve por lá.

    No Rio de Janeiro, também temos a Igreja de Nova Vida no bairro da Tijuca, que gerou a Banda Fé (futura Banda & Voz). Esta, fundada em 1982 (embora o movimento tenha ganhado força na década anterior) seguiu a linha dos demais templos existentes com seu teor mais pentecostal, ou seja, não tão tradicionalista quanto as outras igrejas de sua época, investindo também na mídia, como rádio, e consequentemente atraindo a juventude.

    A última destas é a Comunidade S8, que, apesar de não ser uma igreja com todas as letras, desempenhou um papel importante na música cristã. É uma associação civil, com fins não lucrativos, fundada em 1971. Seu grande trabalho é de atuar na recuperação de dependentes químicos. Com a chegada de vários jovens, a comunidade também gravou álbuns, com forte característica do rock progressivo. Foi da S8 em que alguns membros do Fruto Sagrado vieram. Um de seus influenciados foi o guitarrista e produtor musical Toney Fontes, que é responsável pela masterização de grande parte dos lançamentos do gospel nacional há vários anos. Seu pai, Geremias Fontes é o fundador da instituição.

    [youtube http://www.youtube.com/watch?v=zLhYM3DJ_3g?feature=player_detailpage&w=640&h=360]

    Uma das canções da Comunidade S8

  • Rocklogia – Êxodos: o início do rock cristão no Brasil

    Passaram-se muitas décadas desde o início do movimento do rock, tanto em suas bases musicais quanto filosóficas. No rock de vertente cristã (se é assim que podemos chamar), também é assim. No Brasil, colhemos vários frutos através da coragem e ousadia de muitos antecessores que, se antes estavam na flor da juventude, hoje são idosos cheios de lembranças. A verdade é que os anos nos moldam, mas sempre temos a oportunidade de relembrar.

    Aqui no Brasil, nunca se sabe ao certo, e com registros muito claros dos primeiros trabalhos de rock cristão. O escritor Salvador de Souza, no qual possui uma coleção invejável de discos nacionais cristãos diz que, durante os anos 70, a proposta musical jovem cresceu em um nível maior em relação as décadas anteriores, mas que o rock propriamente dito ainda não predominava nas obras lançadas. Em um contexto de alta religiosidade, ditadura militar, é de certo afirmar que o terreno não estava assim tão propício para esta vertente do rock e não temos nenhum álbum que tenha influência direta e clara do gênero.

    É neste ambiente que, em 1970 surgiu a banda Êxodos, de uma igreja batista humilde de São Paulo. Se os recursos financeiros eram poucos, a vontade compensava. Com um repertório claro, a banda trazia composições próprias, e como uma tolerância ao clima intolerante, os músicos não exageravam em sua liberdade durante os cultos.

    Os anos se passaram e os jovens (Edson, Eli, Nelson, Osny e Osvair) decidiram ousar mais, causando a irritação de grupos conservadores e até mesmo da vizinhança. Ao mesmo passo, sua atitude impressionava a muitos. Na estrada, viam que era a única banda de rock brasileira com integrantes cristãos. Um ano antes do seu fim, em 1976 a Veja produziu uma matéria sobre o Êxodos.

    A pressão foi tanta e os jovens foram expulsos da igreja. Sem apoio da religião, do mercado musical decidiram deixar de lado o repertório cristão e tocar na noite. Entretanto, logo o grupo se desfez, decepcionados com tudo o que tinha acontecido.

    A composição “Galhos Secos”, maior sucesso do grupo foi lançada pela banda Som Maior, e quase dez anos depois pelo Catedral. Provavelmente os integrantes do Êxodos não imaginariam que uma canção tão séria tornar-se-ia um meme da internet.

    Em 2006, como forma de registrar o passado, a banda lançou de forma independente, e em edição limitada para colecionadores um disco chamado “1970-1977”, com várias canções que fizeram parte do repertório autoral do grupo. As canções, basicamente mesclam rock progressivo e country rock.

    [youtube https://www.youtube.com/watch?v=uW_zwhXZFrc]

  • Rocklogia – Desmistificando o novo movimento ou crossover no meio cristão

    Atenção: A opinião do autor mudou. Após ler o texto, leia Desafios para o novo movimento.

    Eu me nego a usar a palavra crossover neste contexto. Vamos apenas de novo movimento.

    Com a popularidade de bandas e artistas como Tanlan e Palavrantiga, tem crescido a discussão de vários assuntos nos meios virtuais, como portais de notícias e redes sociais. Um destes, sendo o principal é: até onde vai a interação da “música religiosa” em espaço “não-religioso”? A própria pergunta possui um raciocínio errado. Mas vamos com calma, e entender o que é, com quem começou e disseminou esta ideologia. Eu, particularmente abordaria esse assunto apenas daqui a uns meses, para não atropelar a linha do tempo que vou apresentar sobre a história do rock cristão no Brasil aqui na Rocklogia. Mas, como o tema tem gerado confusão, é de certa urgência apresentar a minha visão particular e do que tenho lido sobre o assunto vindo de quem mais entende: os próprios criadores dessa música.

    Antes de tudo: Janires, Catedral e João Alexandre não são nomes do novo movimento. Se você observar isso escrito em qualquer lugar, não acredite. No caso de Janires, era um músico comum que se converteu ao cristianismo e decidiu colocar a sua visão de mundo nas músicas para evangelização. O cantor não tinha um propósito filosófico e extremamente conceitual em sua obra. Fazia o que sua criatividade permitia e o público que identificasse o abraçaria. Óbvio que ele é um dos nossos melhores referenciais de como olhar fora da caixa, mas não é o mesmo que temos atualmente. No caso do Catedral, surgiu como uma banda de rock cristão como qualquer outra, que mais tarde construiu uma ideia de fazer uma música para todos os públicos. Ou seja, o grupo nasceu segmentado e depois tentou subverter esta situação. A Catedral conseguiu atingir o mercado secular? Sim, e com êxito! Mas não pode ser chamada como integrante do novo movimento porque não nasceu com essa ideia. João Alexandre nunca negou ser um cantor do mercado evangélico, ou colocar um cristianismo claro e direto em suas canções. Possui seu lado poético e artístico, mas continua sendo um músico com rótulo cristão. Quando o cantor afirmou não querer mais fazer parte do chamado “movimento gospel”, não negou sua veia cristã, mas referindo-se ao movimento ocorrido no final dos anos 80, no qual a Renascer em Cristo foi a principal instituição colaboradora.

    Esclarecido um ponto importante, surge uma pergunta: o que é novo movimento? Novo movimento é, como seu título define um movimento musical (não um estilo) em que a arte produzida não é segmentada por barreiras religiosas, ou até mesmo antirreligiosas. Um movimento em que a fé do indivíduo não é mais importante que o conteúdo no qual é apresentado. Não é um movimento nascido no “gospel” para atingir o “secular”. Até porque, em concepção o novo movimento não nasce dentro da música religiosa, mas desde o início desconsidera os muros existentes para invadir todos os ambientes e não ser contaminado pela perspectiva atual. É, claro, que por consequência, o fato de atingir um “público cristão” fará com que muitos, até de forma inocente o rotule como um artista/banda gospel. Uma das consequências que o novo movimento pretende trazer é uma transformação de todos os mercados “segmentados” que o envolvem para que seus efeitos perdurem com o passar do tempo.

    E por que se chama “novo movimento”? O nome “novo movimento” foi utilizado pela primeira vez pelo músico Arvid Auras, um baterista que foi integrante e o principal compositor da banda Aeroilis, conhecida como a precursora do movimento. Neste texto, produzido pelo instrumentista, ele conceitua a expressão. Infelizmente, não posso transcrevê-lo, porque o site da banda encontra-se inativo. No início do texto, eu disse que não gosto de utilizar a palavra “crossover”, porque o significado desta expressão, em sentido original e principal se refere ao fato de misturar dois ou mais gêneros musicais, o que tem pouco, ou definitivamente nada a ver com o que o novo movimento propõe em sua concepção. Entretanto, ainda assim o termo ainda é utilizado no exterior para designar cristãos que romperam as barreiras do mercado cristão e expandiram seu trabalho para um público maior e mais heterogêneo.

    O novo movimento também coincide com um momento de descontentamento de uma parcela de cristãos (ainda pequena), tanto com teologias nas quais mantém contato, seja pelas igrejas/instituições que frequentam e músicas produzidas por artistas do mainstream gospel. A busca por um conteúdo relevante, sincero, profundo e que não é uma mera propaganda de uma crença ou placa de denominação pode explicar o êxito que artistas do underground estão alcançando atualmente, principalmente com o advento da internet. Incluindo o contexto pós-moderno, em que muitas pessoas procuram algo etéreo, mas fora dos padrões religiosos que temos, a música apresentada pelo novo movimento cai como uma luva para esses indivíduos.

    E por que o “novo movimento” causa tanta confusão? Para começar, há pouco material disponível sobre o assunto, e a conceituação por jornalistas e blogueiros é confusa e superficial. A inclusão de nomes que não fazem parte do movimento, ou até mesmo a linha de pensamento em que ele é restrito as bandas de rock, o que não é. Segundo, porque a própria “música gospel” brasileira, mesmo com suas limitações líricas está chegando numa mídia que não pertence ao nicho evangélico. Estes artistas que estão em destaque, por alcançarem novos públicos (embora não fidelizem) são denominados, de forma incorreta como algo semelhante ao novo movimento. Terceiro, porque achamos que, para ser integrante do novo movimento, o público deve de alguma forma falar pelo conteúdo do artista. Se o artista, com seu conteúdo ainda possui um público muito homogêneo, somos levados a pensar que a tentativa é falha. Quarto e mais importante: a nossa mentalidade dualista de dividir a música “profana” da “sagrada” é algo tão enraizado na nossa cultura (principalmente aqui no Brasil) que é, de certa forma muito complexo definirmos com clara exatidão o que esses desbravadores de novas linguagens e abordagens estão fazendo. Isso me lembra do desconforto que temos em pensar no pós-modernismo com nossa perspectiva modernista. Talvez, a minha metáfora seja absurda, mas é a visão que tenho.

    A Aeroilis foi a primeira banda que nasceu com essa ideologia no Brasil (lembremo-nos que no exterior temos várias outras) e lançou seu primeiro álbum em 2004, tal qual é considerado o primeiro trabalho desse movimento. No ano seguinte, a Tanlan lançou seu primeiro EP, e ambos os grupos são os precursores. De certa forma, influenciaram tanto que a maioria das bandas de rock que compartilham dessa visão são da região sul do Brasil. E, por minha suposição, creio que Palavrantiga alcançou mais sucesso por três motivos: tem sua origem na região sudeste, sua aparição foi mais tardia e a imagem/discurso de Marcos Almeida, que de certa forma se destacou de uma forma diferente e tomou novas abordagens, principalmente com seu portal Nossa Brasilidade.

    O vocalista e frontman da Tanlan, Fábio Sampaio citou artistas e bandas que crê serem do novo movimento, que são: Aeroilis, Hibernia, Marcela Taís, Crombie, Lorena Chaves, Danni Distler, Eduardo Mano, Banda Salt, Grato!, Hélvio Sodré, Adriel Nephesh, Primerandar, Os Oitavos, Quarto Fechado, Palavrantiga e Tanlan. Eu, particularmente também incluiria Bruno Branco, Memora e Matina. Aeroilis e Fábio Sampaio já tocaram juntos, Tanlan já gravou com Marcos Almeida. Várias outras parcerias entre esses nomes poderiam ser mencionadas aqui.

    Para finalizar, creio que é importante citar a obra de um filósofo que influenciou a proposta de algumas, senão todas essas bandas e artistas. O livro “A arte não precisa de justificativa”, de Hans Rookmaaker provavelmente seja a leitura mais indispensável para quem deseja entender a fundo as ideias do novo movimento. Convido você, assim como eu a entender mais profundamente esse movimento dentro da música nacional, e não sermos levados por uma visão de patamar comum sobre o assunto.