Rocklogia – Desmistificando o novo movimento ou crossover no meio cristão

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Atenção: A opinião do autor mudou. Após ler o texto, leia Desafios para o novo movimento.

Eu me nego a usar a palavra crossover neste contexto. Vamos apenas de novo movimento.

Com a popularidade de bandas e artistas como Tanlan e Palavrantiga, tem crescido a discussão de vários assuntos nos meios virtuais, como portais de notícias e redes sociais. Um destes, sendo o principal é: até onde vai a interação da “música religiosa” em espaço “não-religioso”? A própria pergunta possui um raciocínio errado. Mas vamos com calma, e entender o que é, com quem começou e disseminou esta ideologia. Eu, particularmente abordaria esse assunto apenas daqui a uns meses, para não atropelar a linha do tempo que vou apresentar sobre a história do rock cristão no Brasil aqui na Rocklogia. Mas, como o tema tem gerado confusão, é de certa urgência apresentar a minha visão particular e do que tenho lido sobre o assunto vindo de quem mais entende: os próprios criadores dessa música.

Antes de tudo: Janires, Catedral e João Alexandre não são nomes do novo movimento. Se você observar isso escrito em qualquer lugar, não acredite. No caso de Janires, era um músico comum que se converteu ao cristianismo e decidiu colocar a sua visão de mundo nas músicas para evangelização. O cantor não tinha um propósito filosófico e extremamente conceitual em sua obra. Fazia o que sua criatividade permitia e o público que identificasse o abraçaria. Óbvio que ele é um dos nossos melhores referenciais de como olhar fora da caixa, mas não é o mesmo que temos atualmente. No caso do Catedral, surgiu como uma banda de rock cristão como qualquer outra, que mais tarde construiu uma ideia de fazer uma música para todos os públicos. Ou seja, o grupo nasceu segmentado e depois tentou subverter esta situação. A Catedral conseguiu atingir o mercado secular? Sim, e com êxito! Mas não pode ser chamada como integrante do novo movimento porque não nasceu com essa ideia. João Alexandre nunca negou ser um cantor do mercado evangélico, ou colocar um cristianismo claro e direto em suas canções. Possui seu lado poético e artístico, mas continua sendo um músico com rótulo cristão. Quando o cantor afirmou não querer mais fazer parte do chamado “movimento gospel”, não negou sua veia cristã, mas referindo-se ao movimento ocorrido no final dos anos 80, no qual a Renascer em Cristo foi a principal instituição colaboradora.

Esclarecido um ponto importante, surge uma pergunta: o que é novo movimento? Novo movimento é, como seu título define um movimento musical (não um estilo) em que a arte produzida não é segmentada por barreiras religiosas, ou até mesmo antirreligiosas. Um movimento em que a fé do indivíduo não é mais importante que o conteúdo no qual é apresentado. Não é um movimento nascido no “gospel” para atingir o “secular”. Até porque, em concepção o novo movimento não nasce dentro da música religiosa, mas desde o início desconsidera os muros existentes para invadir todos os ambientes e não ser contaminado pela perspectiva atual. É, claro, que por consequência, o fato de atingir um “público cristão” fará com que muitos, até de forma inocente o rotule como um artista/banda gospel. Uma das consequências que o novo movimento pretende trazer é uma transformação de todos os mercados “segmentados” que o envolvem para que seus efeitos perdurem com o passar do tempo.

E por que se chama “novo movimento”? O nome “novo movimento” foi utilizado pela primeira vez pelo músico Arvid Auras, um baterista que foi integrante e o principal compositor da banda Aeroilis, conhecida como a precursora do movimento. Neste texto, produzido pelo instrumentista, ele conceitua a expressão. Infelizmente, não posso transcrevê-lo, porque o site da banda encontra-se inativo. No início do texto, eu disse que não gosto de utilizar a palavra “crossover”, porque o significado desta expressão, em sentido original e principal se refere ao fato de misturar dois ou mais gêneros musicais, o que tem pouco, ou definitivamente nada a ver com o que o novo movimento propõe em sua concepção. Entretanto, ainda assim o termo ainda é utilizado no exterior para designar cristãos que romperam as barreiras do mercado cristão e expandiram seu trabalho para um público maior e mais heterogêneo.

O novo movimento também coincide com um momento de descontentamento de uma parcela de cristãos (ainda pequena), tanto com teologias nas quais mantém contato, seja pelas igrejas/instituições que frequentam e músicas produzidas por artistas do mainstream gospel. A busca por um conteúdo relevante, sincero, profundo e que não é uma mera propaganda de uma crença ou placa de denominação pode explicar o êxito que artistas do underground estão alcançando atualmente, principalmente com o advento da internet. Incluindo o contexto pós-moderno, em que muitas pessoas procuram algo etéreo, mas fora dos padrões religiosos que temos, a música apresentada pelo novo movimento cai como uma luva para esses indivíduos.

E por que o “novo movimento” causa tanta confusão? Para começar, há pouco material disponível sobre o assunto, e a conceituação por jornalistas e blogueiros é confusa e superficial. A inclusão de nomes que não fazem parte do movimento, ou até mesmo a linha de pensamento em que ele é restrito as bandas de rock, o que não é. Segundo, porque a própria “música gospel” brasileira, mesmo com suas limitações líricas está chegando numa mídia que não pertence ao nicho evangélico. Estes artistas que estão em destaque, por alcançarem novos públicos (embora não fidelizem) são denominados, de forma incorreta como algo semelhante ao novo movimento. Terceiro, porque achamos que, para ser integrante do novo movimento, o público deve de alguma forma falar pelo conteúdo do artista. Se o artista, com seu conteúdo ainda possui um público muito homogêneo, somos levados a pensar que a tentativa é falha. Quarto e mais importante: a nossa mentalidade dualista de dividir a música “profana” da “sagrada” é algo tão enraizado na nossa cultura (principalmente aqui no Brasil) que é, de certa forma muito complexo definirmos com clara exatidão o que esses desbravadores de novas linguagens e abordagens estão fazendo. Isso me lembra do desconforto que temos em pensar no pós-modernismo com nossa perspectiva modernista. Talvez, a minha metáfora seja absurda, mas é a visão que tenho.

A Aeroilis foi a primeira banda que nasceu com essa ideologia no Brasil (lembremo-nos que no exterior temos várias outras) e lançou seu primeiro álbum em 2004, tal qual é considerado o primeiro trabalho desse movimento. No ano seguinte, a Tanlan lançou seu primeiro EP, e ambos os grupos são os precursores. De certa forma, influenciaram tanto que a maioria das bandas de rock que compartilham dessa visão são da região sul do Brasil. E, por minha suposição, creio que Palavrantiga alcançou mais sucesso por três motivos: tem sua origem na região sudeste, sua aparição foi mais tardia e a imagem/discurso de Marcos Almeida, que de certa forma se destacou de uma forma diferente e tomou novas abordagens, principalmente com seu portal Nossa Brasilidade.

O vocalista e frontman da Tanlan, Fábio Sampaio citou artistas e bandas que crê serem do novo movimento, que são: Aeroilis, Hibernia, Marcela Taís, Crombie, Lorena Chaves, Danni Distler, Eduardo Mano, Banda Salt, Grato!, Hélvio Sodré, Adriel Nephesh, Primerandar, Os Oitavos, Quarto Fechado, Palavrantiga e Tanlan. Eu, particularmente também incluiria Bruno Branco, Memora e Matina. Aeroilis e Fábio Sampaio já tocaram juntos, Tanlan já gravou com Marcos Almeida. Várias outras parcerias entre esses nomes poderiam ser mencionadas aqui.

Para finalizar, creio que é importante citar a obra de um filósofo que influenciou a proposta de algumas, senão todas essas bandas e artistas. O livro “A arte não precisa de justificativa”, de Hans Rookmaaker provavelmente seja a leitura mais indispensável para quem deseja entender a fundo as ideias do novo movimento. Convido você, assim como eu a entender mais profundamente esse movimento dentro da música nacional, e não sermos levados por uma visão de patamar comum sobre o assunto.

Comentários

11 respostas a “Rocklogia – Desmistificando o novo movimento ou crossover no meio cristão”

  1. […] música – muito boa por sinal – da banda católica Beatrix . Eles, assim como muitos do novo movimento da música cristã, tentam fugir da linha música católica e fazem um som bem bacana para todos os […]

  2. […] Os Arrais, Bruno Branco e a Marcela Taís. Nos últimos anos, se vê um crescimento grandioso do novo movimento no Brasil, revelando músicos com grande capacidade letrística e […]

  3. […] também comentou o fato, afirmando que a atitude de Thalles não tem nada a ver com o chamado novo movimento, que a divisão entre o gospel e secular é uma construção cultural e a ação de Thalles, em sua […]

  4. […] Almeida, um dos maiores nomes do novo movimento, vem trabalhando nesse debate, e durante esses tempos de polêmicas, futilidades e mais rixas […]

  5. […] que conseguem carregar o feeling de suas letras. Desse gênero musical que tem surgido na cena do novo movimento, Bruno é indubitavelmente o melhor […]

  6. […] a deixado em 2014, o músico tem sido um dos nomes, se não o maior em popularização do chamado novo movimento. Seu discurso para o fim dos rótulos, e uma música que derrube muros neste mesmo chão tem sido […]

  7. […] do rock alternativo e do novo movimento – o tal crossover – estar em alta, a Aeroilis já chegava com um disco, com guitarras limpas, […]

  8. […] do rock alternativo e do novo movimento – o tal crossover – estar em alta, a Aeroilis já chegava com um disco, com guitarras […]

  9. […] assim podemos dizer (o que é bom, pois fogem a regra maçante do britrock). Com a influência do novo movimento, o grupo divulgou, em 2013, um EP de seis faixas pela rede e estão prestes a lançar o primeiro […]

  10. […] a ideia foi inteligente e hoje em dia virou até “modinha”, espero que as bandas do Novo Movimento tenham cuidado pra não fazer tal cosmovisão de qualquer jeito, ou as coisas podem ficar com muita […]

  11. […] Aeroilis, como já dito aqui no site, foi o primeiro nome do chamado novo movimento. Em nossa última postagem, o grupo, em 2006, tinha um repertório para um próximo disco, mas uma […]

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