Categoria: Análises

  • Análise: CD Caixa Preta – Rede Ativa

    2013 foi um ano que me marcou demais no aspecto musical e houve três álbuns que mais ouvi e com certeza estarão em minha playlist por muitos e muitos anos. Eles são O agora e O Eterno do Rosa de Saron (gravado em 2012 e que pretendo falar dele em breve), Histórias e Bicicletas do Oficina G3 (que eu adoraria fazer uma resenha dele mas o nosso amigo Tiago já fez aqui) e Caixa Preta do Rede Ativa.  Hoje irei fazer uma análise do último álbum citado e particularmente é o melhor do Rede Ativa até agora.

    Como toda mudança é perigosa, a de estilo também não difere das demais, pois assim como o Oficina, o RA também resolveu mudar um pouco o estilo e destaco as letras que estão louváveis neste disco. Nunca me simpatizei muito com o Rede que vivia querendo justificar que os jovens cristãos também podiam se divertir, fazer baladas e etc. (não que isso seja um defeito, é apenas uma questão pessoal) sem contar a errônea comparação com o grupo Charlie Brown. O “Caixa…” é o 4° trabalho da banda que já tem em seu currículo 2 DVD’s e está em sua 7° turnê pelos Estados Unidos. O novo projeto tem produção, mixagem e masterização de Lampadinha, antigo “braço direito” de Rick Bonadio com quem produziu bandas renomadas, como por exemplo: Raimundos, Titãs, Rita Lee, Ultraje a Rigor, Sandy Lea, Los Hermanos, CPM 22, NX Zero, Fresno, Charlie Brown Jr., Planta & Raiz, entre outros. O CD contém 10 faixas inéditas, gravadas totalmente em estúdio, nos meses de novembro e dezembro de 2012. O nome escolhido, Caixa Preta, foi baseado na seguinte oração: “Deus, proteja nossos corações como a caixa preta de um avião, onde tudo ao meu redor pode se arruinar/abalar, mas o meu coração e tudo que há dentro dele [fé, amor e esperança] permaneçam inabaláveis”. Vale ressaltar também que a produção visual dos encartes foram criada pela empresa Corações Produções e Estevão Passamani.

    O single do disco chama-se “Amigo” que teve vídeo-clipe divulgado antes do lançamento do mesmo. Aqui já observamos um RA maduro e poético, digamos assim. A letra carrega um grande peso por alguém que deixou os caminhos de Deus e perdeu as boas amizades. Percebemos também uma pequena mudança no timbre do Daniel Passamani, líder e vocalista da banda. Destaque por riffs bem encaixados e som nostálgico bem harmônico. Seguindo, já vemos o grupo resgatando o peso de suas origens e uma mensagem evangelística mais direta, mas não perdendo a vibe “poética” que prometeu com a primeira faixa. “Próximos do Fim” é uma faixa auto-explicativa e fala com um dialeto bem jovial e suave com a galera que ainda não conheceu á Cristo. Á frente, a guitarra de Bruno Quadros continua em alta com belos riffs e alguns solos básicos que enriquece a faixa. Na faixa “Lado a Lado” a banda faz um pequeno protesto á divisão que as igrejas fazem e a hipocrisia dos falsos cristãos. Seguindo a linha de protesto, nos encontramos com “Marionete” (minha favorita do disco), que manda uma “pedrada” ao ilusionismo ditado pela mídia sobre o que devemos fazer, como devemos falar, e há uma pequena ministração no meio da faixa que dá á faixa um peso maior. Destaco nas duas faixas anteriores o baixo e teclado muito bem posicionados. “Tarde de verão” e “Aqui Estou” são músicas com a vibe bem parecidas e remete o calor da praia, a pista de skate, enfim, o divertimento dos jovens cristãos no mundo pop. Na segunda citada, destaco a suave sonoridade do violão e percebemos uma declaração de amor á Deus de forma bem amigável. E considero que devemos ter uma intimidade com Deus á esse nível de termos liberdade de nos abrirmos com Ele como se tivéssemos falando com o nosso melhor amigo.

    Á frente, seguindo a ordem de música de viagem e verão temos “Normalmente Louco“. Confesso que quando ouvi pela primeira vez o trecho “Acordo cedo pego a prancha, ponho no carro e vou pro mar, o rádio no último volume, curtindo o som do RA, se Ele tivesse aqui comigo iria me acompanhar, pois seu esporte favorito era andar sobre as águas…” me arrepiei e senti vontade de falar línguas estranhas e pular de alegria. Outra das minhas favoritas do álbum. “Mar de Rosas” é uma das faixas mais evangelísticas, pois faz um convite ao ouvinte a conhecer á Cristo, mas deixando claro que nada será fácil, conscientemente sabendo que temos um refúgio para as horas difíceis e que Ele nos ajudará. “Por Enquanto” remete uma nostalgia imensa em sua sonoridade, assim como a primeira música “Amigo” e sinceramente é uma das mais lindas do novo trabalho do grupo. O refrão é gritado com o sentimento de que somos estrangeiros aqui e que em breve estaremos com o Pai na eternidade. Uma faixa bem poética e destaco a metáfora feita com a bíblia substituindo pelo termo ‘livro”. Fechando o disco voltemos a vibe de protesto e temos uma faixa que mistura samba e rock com um arranjo bem suave e empolgante. Na letra vemos uma revolta sobre as condições de famílias pobres das periferias e que são enganadas pelos políticos que são bons para pedir votos, mas somem quando assumem o poder. “Sobe o Morro” fecha louvavelmente o disco que muito me marcou no ano de 2013.

    Considero que assim como o Histórias e Bicicletas do Oficina desagradou muitos fãs, o Caixa Preta também deve ter decepcionado alguns apreciadores que estavam acostumados com a pegada mais jovial do Rede Ativa e com letras mais “explicadinhas”. Porém, não temo nenhum pouco ao afirmar que este foi o melhor trabalho de estúdio da banda. Gosto muito também do álbum O mundo ao meu favor e há pessoas que admira mais o grupo com suas músicas ao vivo. Enfim, Caixa Preta é um disco pra ser comprado, baixado e ouvido várias vezes. Como seremos a próxima geração do meio evangélico, que este disco toque muito para as ovelhas que serão ganhas para Cristo!

  • Análise: CD Devo Seguí-lo – Verônica Sacer

    Verônica Sacer é ex-integrante dos grupos Toque no Altar e Trazendo a Arca, e junto com seu marido Davi Sacer tem trabalhado desde então. São quase quinze anos de carreira, mas pode-se afirmar que seu papel como intérprete passou a ser mais importante a partir dos álbuns Olha pra Mim (2006) e Marca da Promessa (2007), das bandas Toque no Altar e Trazendo a Arca, respectivamente. O auge se deu em “Ouve oh! Deus”, de Salmos e Cânticos Espirituais (2009), que foi o primeiro solo de Verônica em sua carreira.

    Ao passo que sua participação nos álbuns solos de Sacer tornou-se cada vez mais fundamental, o óbvio era que, em algum momento a cantora lançaria algum projeto solo. E aconteceu. Devo Seguí-lo é este resultado, gravado durante o ano de 2013 em estúdios do exterior tendo a produção musical de Kleyton Martins, tecladista da banda de Davi e também produtor de seus álbuns solos desde Confio em Ti.

    Entretanto, se o álbum de estreia de Verônica tinha a proposta de causar um impacto, infelizmente foi bastante falho. Em termos técnicos, o disco é inteligentemente refinado, correto, minucioso, mas não parece acrescentar nada na obra de Verônica, dando a certeza de que a cantora não conseguiu desvencilhar com sucesso da imagem de “vocal de apoio” ou “vocalista dos duetos com Davi/Luiz” construída ao longo dos anos.

    Devo Seguí-lo é um disco essencialmente pop. Mesmo sem grandes novidades, “Oxigênio” aposta em um gradativo peso. “Blindado” tem um groove interessante, que tenta mudar o clima arrastado do trabalho. Mas a melhor música do álbum é a faixa-título, “Devo Seguí-lo“, com sua profunda letra versando sobre renúncia. “Descanso” fecha o ponto alto do álbum com seu arranjo de cordas. A mesma aposta de cordas vem em canções seguintes, principalmente “Vou Te Adorar“. “Majestoso Criador” fecha o disco de forma envolvente, diferentemente do clima frio que se estende por quase todo o disco.

    As letras do disco são intimistas, e os arranjos colaboram para este clima. Porém, a interpretação íntima de Verônica Sacer não surge. A artista parece se esconder, enquanto sua dominação necessária é pedida pelo ouvinte. Até mesmo no dueto com Davi, a cantora parece retornar ao posto de apoio vocal. Mas, num disco solo, é necessário o controle total, o poder sobre as canções. Esta é a maior falha de Devo Seguí-lo.

    Mesmo não causando o efeito esperado, o álbum de estreia de Verônica Sacer não é de todo negativo e possui boas canções, mas nada próximo do patamar que idealmente deveria alcançar. Claramente faltou mais ousadia e energia nas interpretações de Verônica, mesmo para um disco de textura claramente dramática. Este começo pode ser redimido, e tomara que num futuro breve. Capacidade é o que não falta para Sacer.

  • Análise: CD Graça – Paulo César Baruk

    Paulo César Baruk, que chega a seu segundo projeto pela Sony Music e comemorando quase vinte anos de carreira aos poucos vai tomando passos mais ousados e soberbos em seus trabalhos. Se em Multiforme o destaque foi para a versatilidade musical, Graça vai mais longe e incorpora um conceito amplo e fundamental no cristianismo.

    2014 não é um bom ano de lançamentos no meio cristão nacional, e mesmo afirmando que o trabalho de Baruk é uma das exceções que temos, a sensação que se há hoje sobre as novas obras do mercado não são lá tão positivas. Graça talvez tenta desconstruir isso muito bem, sem criar uma sensação falsa de impacto, ou com aquele hit que gruda na mente. É um disco meticulosamente pensado, cuidado e suas surpresas não são tão óbvias.

    A graça de Deus proporciona-nos uma ciência de nossa condição e do amor de Cristo. Consequentemente somos levados a pensar sobre nossas motivações e os relacionamentos com as demais pessoas, que compartilham também esta mesma vida passageira. “Perdão”, provavelmente é uma das melhores canções do tema que ouvi no meio cristão e faz a ponte necessária para discorrer a respeito da amplitude na qual a graça alcança, embora o álbum fique bem mais interessante a partir de “Assim eu Sou”. E se a graça de Deus nos proporciona o dever de perdoar nossos semelhantes, temos em mente de que as pessoas que interagimos nesta Terra são “Nossa Riqueza”. De repente, o flerte com o pop ganha força na regravação de “Nele Você Pode Confiar”, sucesso do Rebanhão de 1987 escrito por um integrante da Comunidade S8. A versão ficou bastante distinta da original, num tom mais intimista, no final com uma participação de Lito Atalaia.

    O ponto alto do álbum está em “Ele Continua Sendo Bom”, um dueto com Marcela Taís. É uma balada que mostra o melhor que Baruk pode oferecer, com nuances instrumentais, uma letra fácil, porém profunda. Creio que este deveria ser o single do projeto. Mais tarde, “A Mídia” tem uma pegada bem Janires e conta como ponto positivo por se tratar de algo autoral. Em seguida, o outro interlúdio “Seven Days” ajuda o álbum a manter fôlego.

    As canções que fecham o álbum são excelentes, mas como se trata de um projeto com 19 faixas, é praticamente impossível não causar cansaço ao ouvinte. Talvez seja este o maior erro de Graça, ou seja, a dificuldade de sintetizar um tema tão amplo em poucas músicas. Por outro lado, a capa do disco é simples, direta, inteligente e foge do padrão comum, também não pecando em exageros.

    Em Graça, resta a certeza de que Baruk segue um caminho difícil, mas diferente do que a maioria dos músicos cristãos da cena estão fazendo. O que, entretanto soa como necessário é um poder maior de síntese.

  • Análise: CD Cartas ao Remetente – Rosa de Saron

    Pode até ser exagero, ou o fato de eu ser fã da banda, justifique, mas “Cartas ao Remetente” foi o melhor álbum de rock nacional lançado neste ano. Já ouvi o Amianto do Supercombo e o EP Eu Sou a Maré Viva da Fresno lançados este ano, mas nenhum é tão bom como o CAR.

    Cartas ao Remetente é o 13° álbum da banda católica Rosa de Saron. Para muitos, é o melhor disco de inéditas do grupo, porém, ainda acho O Agora e O Eterno melhor.

    A faixa que abre o disco chama-se Reis & Princesas, que tem uma temática bem parecida com a música Autor Desconhecido, também foi composta pelo vocalista Guilherme de Sá, e a mesma abre o último álbum gravado em 2012. O projeto inicia com um “teor” de suspense , e um eco eletrônico do início da canção sendo reproduzida antes dos primeiros riffs de guitarra. A poesia perdura e prende o ouvinte já na primeira estrofe quando é cantado “Eu não sei, se eu sigo a ver navios ou se ponho neles os animais”. O refrão é empolgante e chamativo pelo grito de manifesto de uma pessoa que já fez de tudo por uma boa relação com um inimigo – ou outra pessoa qualquer – e nada adiantou. Destaque para o solo com um arranjo melódico que muito lembra alguns clássicos do Creed.

    O disco segue com uma pegada eletrônica em algumas partes, típico da banda que sempre gostou dessa sonoridade desde a entrada do Guilherme, assumindo os vocais. Solte-me! é outra canção que remete o manifesto pessoal. Isso é caracterizado pela frase “Solte-me! Solte-me! Por favor liberte-me, solte-me!“. Também é uma faixa viciante pela versatilidade das palavras e traduz o sentimento de quem tenta, tenta, tenta mas não consegue realizar-se. Deixando claro que as músicas do Rosa as vezes – ou quase sempre – é muito difícil de se definir, e o grupo sabe tão bem disso, que deixa que os próprios fãs tirem suas conclusões.

    A terceira música é a faixa-título. A partir daí o ritmo agitado dá lugar a uma canção semi-acústica (digamos assim). A letra passa a mensagem de que se só tivéssemos o amanhã, será que iríamos buscar à Deus? Qual seria nossa última oração? “Se de fato fosse mesmo o último adeus“, “viva como quem soube que vai morrer” e “uma verdadeira causa pela qual morrer” são umas das várias frases de efeito que leva o ouvinte a refletir sobre seus atos. Destaques para os violões e riffs bem detalhados.

    O disco segue com sua sonoridade muito boa e atraente, agora com uma canção acústica, e uma forte candidata a melhor música do CD. Após ouvir, tente imaginar um clipe da mesma e a ouça outra vez! Quando tiver sessenta é um exemplo nato de música folk tocada por uma banda de rock. O instrumental me lembra o acústico do Scorpions, mas podem discordar de mim. A canção tem um lado futurista/saudosista, vida/morte, certezas/incertezas bem reflexivas. Costumo dizer que essa não é uma música pra todas as horas, pelo fato de ser reflexiva e pessoal. Essa foi uma fase complexa na vida do autor pois sofreu muitos ataques por membros de sua própria fé, e chegou até pensar em aposentadoria. Junto com a faixa 3 (Cartas ao Remetente) e 14 (Fleur De Ma Vie), chorou compondo e gravou-as chorando. Segundo a banda, a letra é um combate ao imediatismo que vivemos e que dos 86.400 segundos que recebemos de Deus durante o dia, gastamos apenas 2 segundos para dizer: “Senhor, obrigado por este dia”.

    Adiante temos Nada entre o valor e a vergonha. A música tem requisitos de balada no instrumental e um protesto à balada na letra. A sonoridade faz-me lembrar algumas canções do Snow Patrol e substituiu bem a faixa Jamais Será Tarde Demais do seu último de inéditas. Seguindo a base mais pesada do disco temos Algoritmo que traz a temática das misericórdias de Deus em nossas vidas, e que Ele sempre nos perdoa, mas insistimos continuar no erro. A poesia traduz esse sentimento nos versos “Setecentas e setenta e sete luzes não puderam iluminar, a sombra que escondeu-se do seu lar“. Destaque com louvor para os riffs e acordes definidos de guitarra e do peso sonoro bem encaixado da bateria. Uma das melhores do disco.

    Continuando no peso “rock rosariano”, temos Neumas D’arezzo. Guido d’Arezzo foi um monge italiano, teórico musical que criou a notação moderna com a criação do tetragrama, encerrando com o uso de neumas na História da Música, e batizou as notas musicais com os nomes que conhecemos hoje: dó, ré, mi, fá, sol, lá e si (que antes eram ut, re, mi, fa, sol, la e san). Essa é mais uma das variáveis canções de protesto pessoal da banda com um grito que traduzido a fala ante a música, seria: “DEIXA-NOS FAZER NOSSO TRABALHO EM PAZ!“. Instrumental perfeito com linhas de baixo bem posicionadas com a simplicidade dos solos de bateria dando um ar de hardcore. E essa mesma bateria perdura durante os 3:42min. de Verdade/Mentira. Destaque sem igual pela boa harmonia de guitarra, contra-baixo e bateria e o encerramento marcante com “Afinal o Pinocchio era apenas um cara de pau“.

    A seguir, temos duas composições do guitarrista Eduardo Faro com Dias Assim e Meus Medos. Ambas expressam o sentimento de dependência do amor de Deus. Pra quem conhece o lado devocional do autor, sabe que suas letras são sempre muito profundas. Destaque para solos sutis e voz marcante do Guilherme. Seguindo, encontramos uma faixa que é bem explícita quanto a fase de Invernia que o vocalista e autor da canção passou. Inicia-se com um questionamento profundo: “Deus, o que há comigo?”. Marcada com um arranjo “trovadorístico” de violinos, arranjados com delicadeza e devoção de Aramis Rocha e Robson Rocha. Destaque pela letra e voz quando é cantado o alívio de “Vai passar, eu sei, vai passar“. Seguindo o pique de canções reflexivas , ouvimos a belíssima O Mestre dos Ventos que também traz os violinos e fala metaforicamente de um mendigo. Há um sentimento de abandono explícito na letra. Outra forte candidata a melhor música do álbum.

    Prestes ao término, nos encontramos com a irreverente Seis Nações. Com solos e bem norte-americanizados, a música fala da imperfeição e desejo pelo melhor. Frases como “Na medida da perfeição, eu sou um imperfeito” e “Quem sempre teve Deus como o centro das atenções, jamais precisou secar as lágrimas quando o amor se ausentou” dão um toque doce na melodia e desejo de ouvir mais vezes. E encerrando o ótimo disco, somos agraciados com a ingênua Fleur De Ma Vie, que traduzido significa Flor da minha vida. Introduzida com sinos e juntado com acordes dedilhados de violão, a canção é uma declaração de amor do autor à sua filha recém-nascida, Lívia Gallo de Sá. E o que mais marca – pelo menos pra mim – é o francês fluente do cantor no final do disco.

    Cartas ao Remetente é um disco bem atual, mas com quesitos futuristas. Mais uma obra totalmente produzida pela banda e divulgado pela Som Livre. A produção musical é do vocalista Guilherme de Sá e o produtor Ricardo Domingues, que também assinou o último disco. Enfim, recomendo. Fiz questão de comprar o disco e baixar pelo iTunes! Abraços!

  • Análise: CD Venha o Teu Reino – Davi Sacer

    Davi Sacer se tornou um dos grandes expoentes da música congregacional no Brasil ao liderar ao lado de Luiz Arcanjo os ministérios de Louvor Toque no Altar e Trazendo a Arca, fazendo sua voz ser conhecida em todo o país através dos grandes sucessos do Toque no Altar e Trazendo a Arca.

    Em carreira solo desde 2010, Davi renovou contrato com a Som Livre e em 2014 lançou seu segundo trabalho pela gravadora, o álbum “Venha o Teu Reino”.

    Recém-lançado pela Som Livre, o novo álbum solo do cantor Davi Sacer tem projeto gráfico assinado pela Agência Excellence, do David Cerqueira, este que também assina algumas canções, inclusive “Venha o Teu Reino”. A produção musical e arranjos ficou por conta de Kleyton Martins.

    Diferente do disco anterior “Às margens do teu rio”, o cantor apostou numa capa temática, simbolizando o Reino dos Céus, em direção à terra. O tema do disco não é a toa, pois reflete bem a proposta do álbum de ser um disco bem mais “vertical”, teocêntrico do que o que normalmente o cantor costuma apresentar, desde o Toque no Altar e Trazendo a Arca e seguindo carreira solo, recebendo inclusive algumas críticas a respeito disso.

    Davi Sacer diversificou o repertório gravando menos canções autorais, o que certamente contribui para um disco menos repetitivo principalmente quanto às temáticas das canções.

    A música de abertura “Quanto mais Te conheço” de autoria de Marcos da Costa Brunet funciona como uma declaração de amor ao Senhor. Seu refrão reflete bem isso: “E quanto mais te conheço| Muito mais eu te amo | Meu amado preferido”. Aqui Davi Sacer declara que não importa o que vier, jamais deixará de seguir e adorar ao Senhor.

    A segunda canção é a faixa que dá nome ao álbum. “Venha o Teu Reino” é baseada na oração ensinada por Jesus, o “Pai nosso”. Sem dúvida é uma das melhores canções do álbum. Apesar de “letristicamente” simples, a sonoridade alcançada pela canção a torna singular. A ponte da música declara a mudança na postura musical de Sacer: “Porque o reino, poder e a glória | São Teus para sempre | Amém”.

    Declarando Jesus como o centro de tudo, Davi traz para o público brasileiro uma bela versão da canção “Jesus At The Center” de Israel Houghton, Micah Massey e Adam Ranney. “Jesus é o Centro” é o que pode ser chamado de canção vertical, onde o centro da temática enfoca não bênçãos, milagres ou as relações humanas, mas a adoração ao Senhor, sua grandiosidade e a necessidade dEle ser o centro de tudo, inclusive em nossos corações. “Que em meu coração | Cristo seja o centro | E todo o meu ser | Mostre quem tu és”, declara o refrão. Ministérios de louvor, cantem essa música!

    “Eu entrego tudo” é a primeira canção do disco assinada por Sacer em parceria com Luiz Moreira e Kleyton Martins. Esta bela canção de renúncia, traz pontualmente alguns conceitos usados por Davi em outras canções. Essa dramaticidade às vezes assusta. É preciso ouvir bem o que se canta pra não incorrer em mentira. De qualquer forma, quem conhece a fundo a história do Davi Sacer ao ouvir essa canção vai perceber que cantá-la faz todo o sentido ‘para ele’, refletindo um novo momento em sua vida. “Eu entrego tudo | Pra seguir-te até o fim | Nunca mais o mundo | Vai mudar meu rumo | Estou indo para a cruz | Deixo o que for preciso | Pra não me perder de Ti”.

    A faixa cinco, “Graça que me faz vencer” está entre as mais belas do disco. Composição de Jeff Arantes, versa sobre a perseverança de seguir em frente mesmo contra tudo e todos. Apesar de lindo louvar algo assim, só quando passamos por momentos que nos exigem essa postura que sabemos o quanto é difícil. “Eu não desisto, eu não paro de lutar| Eu não me canso de recomeçar | O inimigo não entende o porquê | É a graça que me fortalece | E me faz vencer”.

    Mais uma composição de David Cerqueira chama atenção no álbum. “Vem rasgando o céu” é a faixa sete do disco e traz um som forte com arranjos mais pesados pro disco.  É dele também a faixa nove “Salmo 40” como se pode supor, baseada neste Salmo. Seu refrão reflete a essência de todo o álbum “Glória, poder e majestade | Sejam dadas a ti | Honra, domínio e governo | Devolvemos a ti”.

    Ao ouvir todo o projeto é possível ver a coerência entre todo o repertório e o tema do disco. “Venha o teu reino” é essencialmente um disco que enaltece e revencia a Deus, o ser supremo. Do início ao fim, Davi Sacer procura passar a mensagem da necessidade de que Deus esteja em evidência. Que ele cresça e nós diminuamos.

    Se antes criticado por músicas de tom antropocêntrico, Davi Sacer dedicou todo um trabalho para declarar que o centro de tudo é o Senhor. Um disco coeso, agradável de ouvir e cheio de canções com forte apelo aos grupos de louvor. Para quem sente saudades da época de Sacer no Toque no Altar, vale a pena conferir este disco que, não substitui os clássicos “Sacer/Arcanjo”, mas prova que Davi está buscando fazer o melhor também em carreira solo. O disco não foge ao que Davi Sacer sempre apresentou, e nem teria sentido. É um álbum congregacional mesclando pop rock em algumas faixas. A mudança notável está mesmo por conta das letras.

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  • Análise: CD The Legend of Chin – Switchfoot

    Para um primeiro lançamento de uma banda, Switchfoot demonstrou uma grande criatividade tanto nas letras como nos arranjos. Nesse primeiro trabalho, o grupo esbanjou na complexidade e reflexão em suas abordagens, como o vazio humano, sentimentos e assuntos do cotidiano. A gravação é creditada ao power trio formado por Jon Foreman, Tim Foreman e Chad Butler, o que faz de uma obra tão criativa tornar-se notória por ser executada por apenas três pessoas. As músicas foram compostas pela genialidade de Jon Foreman, com exceção do “Underwater”, que foi escrita por Jon em parceria com Casey Gee. A capa e o título do projeto faz referência a um amigo dos integrantes da banda chamado Chin.

    A primeira canção, “Bomb”, começa com uma bela introdução de baixo e de acordo com o andamento da música ganha peso até terminar com a mesma leveza da introdução. Música com dissonantes, dedilhados e riffs de guitarra, a segunda melhor melodia. O mais notável e legal nessa canção foi o baixo. Ótima música de introdução. A letra faz referência a um vazio do eu lírico clamando a Deus para que possa preencher esse espaço. O vazio é a bomba que ele vive. Uma letra criativa e legal.

     “Chem 6A” é a melhor música do álbum, o primeiro single da banda, com direito a um videoclipe. Começando com falas no início, a música segue uma linha que me lembra um grunge. Nessa, Jon Foreman caprichou nos riffs de guitarra, mostrando alegria. O guitarrista a compôs se referindo a um curso acadêmico de Química que ele fez na Universidade de San Diego. Os versos se referem à preguiça de estudar, tentar resolver seus problemas e mudar o mundo. Esse problema se reflete na sociedade como uma falta de esforço do homem para resolver suas dificuldades. Uma ótima letra e complexa.

     Outra ótima música, “Underwater” segue a linha alegre e alternativa das primeiras canções. Riffs interessantes de guitarra e mais ou menos no final da música, ela ganha um estilo meio blues novamente até aumentar o peso e voltar para o rock alternativo. Sua letra é bastante complexa. Ao que parece, uma moça vive sua vida correndo contra o tempo tentando saber qual o sentido de tudo e assim vive seu tempo. Mas ela não consegue e sempre falha. Numa parte mais complexa ainda, usando de metáforas, a letra parece passar uma ideia sobre a morte dessa moça, que perde todos seus objetivos. O que se pode tirar dessa canção é sobre a busca cega do homem sobre o sentido da vida, mas não consegue encontrar. Algo que deveria ser buscado em Deus.

     “Edge Of My Seat” também é ótima, e começa lentamente com piano e voz, até ficar mais rápida como as músicas anteriores com a entrada da guitarra, do baixo e da bateria. Ótimos riffs de guitarra. Como sempre, outra letra complexa e poética. O que poderia tirar dela, é sobre uma articulada declaração de amor. Ele está dizendo que não sabe o que tem no futuro, nem o que espera por ele, mas quer que uma garota ande com ele na vida, uma menina que conheceu e que não pode esquecer. Deseja que ela ande com ele na montanha-russa fazendo alegoria a uma vida vivendo do lado do seu amor.

     Diferente das primeiras músicas, “Home” já segue um estilo mais calmo. Primeira balada do álbum, segue com belos dedilhados e acordes de violão. Uma bela canção e um ponto forte do Switchfoot de fazer canções desta categoria. Nessa, entram violinos que executam belas notas, o ponto forte da melodia. Agora, o mais notável dessa canção e o ponto mais forte do Switchfoot é a letra, bastante poética, que fala da longa caminhada até a eternidade. Em partes dessa letra como “Parar para pensar em todo/ O tempo que eu tenho perdido/ Começar a pensar em todas as/ Pontes que eu tenho consumido/ Que devem serem cruzadas” confessam sobre o tempo perdido em coisas passageiras e sobre caminhos que deveriam ter seguidos. Fala sobre tudo está no controle de Deus e que não devemos parar nessa longa caminhada, a longa caminhada para nossa “Home”. Essa é a melhor letra do disco.

     “Might Have Ben Hur” segue alternando riffs calmos e dedilhados entre riffs rápidos. A interpretação de Jon Foreman com agudos em algumas partes é interessante e até cômica. A letra, outra confissão de amor, fala sobre o eu lírico pensando que poderia ter sido aquela garota que amava que ele compartilharia seus sonhos e fracassos, que ele poderia ter confiado, mas que pelo “Poderia ter sido ela” não estava com ele e assim o deixou triste.

     “Concrete Girl” é uma boa música, segue também alternando entre longos dedilhados calmos e curtos riffs potentes. A letra fala sobre problemas que acercam uma garota, que balançam seu mundo, mas como uma palavra de conforto do eu lírico, ele fala para ela sobreviver a isso tudo e continuar vivendo. Uma ótima letra que descreve sem feminismo o verdadeiro valor de uma garota.

     “Life And Love And Why” começa com um dedilhado suave de guitarra. E assim, como algumas canções dessa obra, ganha peso com o tempo. Segue alternando entre peso e suavidade. Contém uma ótima letra, reflexiva e poética, falando sobre a busca fútil de coisas que possam preencher o vazio humano, lhe dar alegria, e o há um questionamento sobre isso tudo. A alegria ansiada só poderia ser encontrada em Deus, que descrita na canção como uma súplica pela resposta para o vazio humano.

    Outra balada, “You” seguindo a linha de “Home”, é um belo registro. Contém toques de violinos, não tão atraentes como o do “Home”. A canção tem uma linda e poética letra que descreve sobre a esperança não ser encontrada em nós, nos homens, mas em Deus. Uma esperança encontrada em Deus mesmo nas decepções humanas, em suas fraquezas. E assim, o eu lírico espera perder-se de si mesmo e se encontrar em Deus.

    “Ode To Chin” é mais alegre e animada como as primeiras faixas. A letra tem um tom reflexivo e bem poética, e como sempre ótima. Questiona sobre nossas visões, nossas escolhas, e que Deus é maior que isso, maior que palavras. Então num convite do eu lírico, ele nos pede para firmar nossa vida em Deus, nossa visão Nele.

    Uma música acústica do disco, “Don’t Be There” segue numa linha suave com violão e a entrada de toques de violinos. Boa canção, que lembra canções que podem ser tocadas em bar. Jon Foreman a compôs porque estava passando por um período difícil na vida pela perca de uma amizade. A letra se baseia na melancolia da separação e a preocupação do cantor com o seu amigo em que havia se separado. Como sempre, letra poética e complexa.

    Ótimo álbum, letras complexas, poéticas e belas, arranjos criativos mesclando alegria e suavidade. A capa é interessante, mas não muito chamativa, lembrando algo mais clássico e antigo. Pela letra “Ode To Chin”, essa capa poderia se referir a um projeto de reflexão a vários “chins” no mundo. Jon Foreman interpreta bem as músicas nesse álbum, sem exageros e firulas. Switchfoot demonstrou que viria a ser a melhor banda de rock alternativo.

  • Análise: CD Eclipse – Brother Simion

    Após dois álbuns despretensiosos e medianos pela MK Music, Brother Simion retornou com a força pela qual ficou conhecido. Eclipse é o seu décimo quarto álbum, considerando o período em que foi vocalista e líder conceitual do Katsbarnea. O CD foi lançado no final de 2004, após oito meses de produção, e distribuído de forma independente.

    Enquanto Redenção e A Volta de Johnny remetem a sonoridades mais cruas, Eclipse é um registro do controverso new metal, abusando de sintetizadores, distorções e efeitos eletrônicos. E, mais controversas ainda são algumas letras, como a profética “Semi-deus“, que é dedicada a todos aqueles que transformaram igrejas, o corpo de Cristo em empresas, e se acham proprietários daquilo que a Deus somente pertence, conforme descrito no “Prelúdio“. Apesar de questionador, o registro não é nada altivo, e une-se a “10 Real“, que de forma mais aprofundada aborda um tema já comum na discografia do cantor: as drogas. Em seguida, somos presenteados com “Despertar dos Loucos“, que cai muito bem como uma continuação da anterior, com a vida de Deus abundando nos corações mais obscuros.

    As canções em inglês também agradam, principalmente “All Right“, que brinca com registros vocais. Por outro lado, “Hotel Paradiso” tinha tudo para ser uma das melhores, mas perde-se no arranjo, que se contrapõe a pegada espontânea da letra. Me arrisco a dizer que a versão acústica no álbum Testemunho é bem melhor. “Ei, Amigo” apresenta, além de temas novos e contextualizados o clássico acordeom, que não foi ofuscado em obras anteriores e também aparece em “Onde Deus me Levar“.

    O desenrolar do álbum é muito bom, a exceção das faixas finais. Eclipse poderia terminar muito bem em “Noite de Johnny“, pois “Perdoar” e a faixa-título dão um ar vago a um projeto tão coeso. Muitas são as críticas a performance vocal de Simion, porém apenas cantar bem é algo muito limitado para um intérprete de rock quase completo, que assina todas as letras, músicas, alguns instrumentos e as vezes até a própria produção musical como Brother faz em seu álbum (e diga-se de passagem, com muita modéstia), na preocupação de soar moderno, ao mesmo tempo clássico e não meramente uma cópia de si.

    A capa do disco traz uma foto de seu filho Dylan com um óculos 3D, fazendo alusão ao título da obra, que certamente não podia ser outro. A realidade do verdadeiro evangelho de Cristo transcende e ofusca a limitação física e visual deste mundo, independente do observador e sua visão de mundo. É, sem dúvida o melhor álbum de metal de 2004 no meio cristão.

  • Análise: CD Respire Fundo – Ao Cubo

    Durante o ano de 2014, aqui, no O Propagador decidimos relembrar alguns bons discos que fazem aniversário. A começar, Respire Fundo do grupo de rap Ao Cubo, lançado em 2004 de forma independente.

    Se o êxito do “novo movimento” é tão sonhado para as bandas de rock, creio que os conjuntos de rap estão bem à frente. O Ao Cubo é um de seus melhores exemplos. A partir de seu álbum de estreia fez grande sucesso, e seu público muito diversificado, de várias classes sociais e credos. Embora com os anos a banda tenha se fechado dentro do gospel (e infelizmente também se esquecendo de suas críticas sociais), seu público no ‘secular’ era enorme.

    É interessante o desenvolvimento do álbum, que inicia orientando o ouvinte a parar diante do mundo frenético que vivemos para que ele receba as mensagens complexas contidas nas próximas faixas. “Respire Fundo” é um cartão de visita do Ao Cubo, lembrando que na época a banda ainda era um trio (Dona Kelly só entraria após o lançamento). F-jay também possui participação fundamental, e cria as texturas nos quais os versos de Cleber e Feijão são ditos.

    O álbum mostra sua verdadeira identidade a partir de “Fora quem USA”, que critica a pouca ação na melhora do Brasil, mas também a supervalorização dos países desenvolvidos pelos mesmos que nada fazem. Os jogos vocais dos rappers envolvem o ouvinte, embora há alguns detalhes na letra que a deixam datada, como a referência ao programa Fome Zero, do primeiro governo do presidente Luís Inácio Lula da Silva.

    Naquela Sala” é o maior sucesso do Ao Cubo, e foi através dela que o grupo recebeu várias indicações ao Prêmio Hutúz. Com seus traços poéticos com elementos do gangsta rap, também há a participação de David Pereira, e de Nega Elis no clássico refrão: “Sabe o quanto eu lutei / para fazer você feliz? / Eu te eduquei / não tinha dinheiro, mas te ensinei / a minha parte eu sei que fiz”.

    Por outro lado, “Edvaldo Silva” ganha o posto de melhor canção. A história de um morador de rua, em suas memórias trágicas da família, e mais tarde o convite para conhecer a Cristo. Geralmente, batidas de rap não geram um feeling muito evidente, e a função vai para as letras e a interpretação. Neste aspecto, a música não falha, exalando o clima de desilusão, e ao mesmo tempo de desespero. Também, destaque para o acordeom no final.

    Uma juventude hedonista e acomodada, ou uma juventude que age para o Reino de Deus? O tema é discutido em “Ira dos 20”, apontando para a corrupção dos jovens e a alienação existente em muitos. Mais uma vez, há detalhes datados, como a citação do Caso Richthofen, de 2002 e o filme Clube da Luta, de 1999.

    As próximas canções, “Se Renda” e “1980” são outros pontos altos do álbum. A primeira, de Feijão questiona detalhadamente a declaração “se arrependimento matasse…”, versando o quão é importante se arrepender a luz da Bíblia. Por outro lado, Cleber assina a segunda, que na verdade é o seu próprio testemunho de vida. É um dos maiores sucessos do grupo.

    Plano de Aborto” foi a primeira música da banda, e mesmo sendo um tema tão polêmico, são poucas as canções cristãs que abordam o tema. Como ‘homicídio planejado’, o Ao Cubo tece suas críticas, enquanto F-jay apresenta uma sonoridade sombria. Após, um instrumental com scratchs e batidas do DJ com o rapper Cleber.

    Incline os Seus Ouvidos” traz a participação de Pregador Luo, e mostra a versatilidade do grupo com as temáticas e rimas. “Novo Dia”, com Templo Soul fecha o álbum de forma bem modesta, mas com uma pegada soul interessante.

    O que dizer de Respire Fundo? É um álbum com tantas abordagens, mas devidamente organizadas que não foi possível fazer uma resenha que não fosse faixa-a-faixa. Possui elementos que todo bom álbum de rap deve ter, como a coesão entre as músicas, um bom DJ e bons rappers. É por essas e outras que este é um dos clássicos do rap cristão nacional e dificilmente o Ao Cubo o superará.

  • Análise: CD Canto de Sião – Renascer Praise

    No dia 15 de outubro de 2013, em Amnon Beach Kineret, às margens do mar da Galiléia, em Israel, foi gravado o Canto de Sião, décimo oitavo trabalho do Renascer Praise, um dos maiores ministérios de Louvor do Brasil, e da América Latina, durante a Caravana Apostólica, que anualmente é realizada, pela Igreja Apostólica Renascer em Cristo, à Terra Santa.

    Não é a primeira vez que o grupo grava em Israel. Seu sétimo trabalho, Ressurreição, foi o primeiro CD gospel brasileiro gravado na Terra Santa, e o primeiro do mundo gravado em um teatro a céu aberto, em Israel, na cidade de Beht-Shean.

    E não poderia ser de outra maneira; mais uma vez o louvor e a adoração marcaram o trabalho do ministério, que é referencia no meio gospel.

    Diferente das grandes aberturas de projetos anteriores, como o Restauração, Apostólico e Reinando em Vida, Canto de Sião, que abre o projeto, e o intitula também, inicia-se ao som das cordas, com um solo de violino, e de vozes, e com uma pequena palavra da Bispa Sonia Hernandes, sobre Isaías 9, e segue falando sobre a promessa contida em Joel 2:24. Neste mesmo calor, 1000 graus, composta por Clóvis Pinho, assume seu lugar entre os destaques do louvor, e nos mostra o que acontece quando o povo de Deus louva Seu nome, e O adora, a temperatura sobe, pois o fogo cai, e o inimigo vai ao chão. E se o inimigo vai ao chão, a vitória é do Seu povo, como está escrito nos versos de Poderoso nas Batalhas, que engloba um Hino “tradicional”, Se O Espírito De Deus Se Move Em Mim.

    Dom da Fé, composta por Elyas Vianna e Oseas Silva, que também sola a canção, traz uma das mais fortes mensagens de todo o trabalho, uma fé que confia absolutamente em Deus, ao ponto de se lançar nos Seus caminhos, sem duvidar ou desistir. O destaque do arranjo vocal está na rampa (Nada e ninguém pode me parar ou me deter), com uma singela divisão de vozes, que resulta num uníssono no refrão. Esta é uma das canções mais agudas do projeto, alcançando o G3 (Sol3). E por falar em fé e confiança, temos uma Pessoa que nos ajuda a superar cada momento difícil de nossas vidas, quando estes sentimentos falham. É o Espírito Santo, ou como Ele é chamado, Consolador, adjetivo que não apenas representa uma de suas maiores atribuições, mas que também nomeou uma das faixas, de autoria da Bispa Sonia, que explicou que ela mesma tinha uma dor no coração, mas que o Senhor mostrara um caminho. “Ele sempre me deu um louvor!” O que você pode fazer com a saudade, com a dor, com a angústia que sente, com as tristezas, ou com a perda de algo ou alguém? Os versos de Consolador trazem uma resposta:

    “Tem dor que a gente sente que o jeito é sentir.

    Só tem Um que nos entende e o Seu nome é Jesus.

    Ele sabe como fala, como cura o coração.

    Ele supre toda falta, derrama o Espírito e traz consolação.”

    Eu Vou Viver Milagres assume a cena como a sexta faixa. E em vez de priorizar o milagre como tema de uma composição, Bispa Sonia e Clóvis Pinhos, que são os autores, vão além. Afinal não basta apenas cantar, compor ou falar de curas, bênçãos, e favores de Deus. É preciso se santificar, buscar mais unção, conhecê-lo mais do que pelo véu, e ser transformado a imagem dEle. É preciso ter uma atitude, colocar-se numa posição. E se milagres são coisas “de outro mundo”, para muitos ou algo impossível; para Deus, são apenas elementos de Seu currículo, afinal Ele pode todas as coisas. É o que diz Deus Pode, em sua letra, que por si só, engloba vários aspectos pertinentes aos nossos dias. Segundo a Bispa, a composição surgira após o recebimento de um resultado não muito bom. E ela diz: “Como posso não crer ou duvidar, se o Teu amor insiste em me chamar?”. Certamente esta pergunta percorre a mente de muitos de nós, cotidianamente. Por que Deus ainda insiste? Por que quando desistimos e até entregamos os pontos, “algo” faz com que às nossas mãos volte aquilo que entregamos, como cargos, ministérios, trabalhos que desempenhamos? Por que quando não queremos cantar, ou nos sentimos fracos, sem inspiração, somos fortemente usados, levantados e encorajados? Certamente é porque há um amor além. Um Deus que pode fazer muito mais. E como o profeta Isaías declara que sobre os desertos fluiriam rios, somos convidados a cantar: “Somente crer, e o deserto vai florescer”. Pois Deus enxerga bem além do que vemos. Pois Seus caminhos são mais altos que os nossos.

    A oitava faixa do álbum é uma das mais aclamadas: Restitui. E sobre os vários conceitos e visões de restituição, é válido ressaltar que continuamente associamos tal palavra ao que é material, como a perda de um carro, de uma casa, de um emprego, de um relacionamento e de tantas coisas desta terra. Mas a maior restituição é a espiritual. Há pessoas que antes eram frutíferas na Casa do Senhor, e hoje estão “estéreis”. Há pessoas que tinham sonhos, e eram engajadas na obra, que cruzaram os braços. E se falarmos em dons do Espírito, não é difícil encontrar aquele irmão ou aquela irmã que antes eram “fogo puro” e que hoje estão “apagados”. Alegria sobre a depressão e sobre a tristeza; cura sobre anos de doença e resultados desenganadores; ressurreição, prosperidade sobre a fome e sobre a seca. E sobre a seca a chuva e a fartura. Pois Ele é o Poderoso Deus, que conquistou na cruz para nós, através de Jesus, a vida abundante e plena. Homem de dores, que sabe o que é sofrer. E tal história é relembrada por uma palavra do Apóstolo Estevam Hernandes, como de praxe, que fala sobre a passagem de Isaías 53.

    Após a pregação, temos Cria em mim, palavras de Davi, que deve ser uma oração constante no coração de um servo de Deus. Inicia-se com as palavras da Bispa, que remetem a uma antiga composição do grupo, Edifica (Renascer Praise 3). Em um mundo mal, somos constantemente abalados, e se nos permitirmos, moldados à fôrma do mundo. Fôrma do ressentimento, da dor, da raiva e da falta de perdão. E em um coração sujo, contaminado por sentimentos tão podres, o Espírito de Deus não pode habitar. É como uma casa que agregou tanta mobília ao ponto de impedir o próprio dono de entrar. Cria em mim tem um instrumental, que leva à ponte, que nos lembra de My Heart Sings Worthy (CFNI), ou como no Brasil ficou conhecida, Eu canto (Ministério de Louvor Diante do Trono).

    Plano Perfeito é talvez a música que, de todo o projeto, mais chamou a atenção dos fãs. Sua letra associa-se rapidamente a Cruz (Trazendo a Arca), em duas cenas: o palco do amor e o silencio no céu. É a música mais aguda do projeto, chegando ao A3 (Lá3). E encerrando Canto de Sião, vem Santo é o Cordeiro, não aquela gravada há 11 anos, no Estádio do Pacaembú, em São Paulo, com participação do Shekinah Glory Choir. A nova canção foi composta por Elyas Vianna, e tem na ponte seu maior destaque quando duas coisas acontecem: uma mudança na fórmula de compasso (De 4/4, quaternário, para 6/8, binário composto) e o arranjo vocal, com um jogo de respostas à melodia.

    Sobre outros aspectos, este é o cd com músicas mais agudas do Ministério, e cuja Harmonia foi menos “trabalhada”, diante de outros projetos, deixando-o mais simples. Também não conta com um solo da cantora Eliane, que se destacou nos últimos projetos, como uma das principais líderes de louvor. Ainda teve a participação do grupo de dançarinos da Igreja Renascer, e foi assistido não apenas pela Caravana Apostólica, mas também por moradores da área, e turistas, segundo o site do próprio grupo.

    O sucesso do cd é notório, sendo disco de Ouro, por 40 mil cópias vendidas. Então junte-se também aos mais de 40 mil adoradores que já adquiriram o cd, e cante o Canto De Sião, cante os Seus louvores, até os confins da Terra.

     

  • Análise: CD Revealing Jesus – Darlene Zschech

    Revealing Jesus (Revelando Jesus) é o mais novo trabalho da cantora e pastora australiana, Darlene Zschech, que atualmente segue em carreira solo, após anos liderando o Hillsong, demonstrando total amadurecimento, em relação a seus trabalhos solos anteriores. Esta gravação jamais aconteceria, dependendo da vontade da própria ministra, que explica, que conversando bastante com Deus e com amigos, decidiu então, gravar ao vivo outra vez.

    O palco para esta noite de adoração foi a The Church of the Highlands, em Birmingham (EUA), presidida pelos pastoresChris e Tammy Hodges, nos dias 28 e 29 de Setembro de 2012, durante uma conferência, em um final de semana. E contou com a participação de grandes nomes do cenário gospel internacional, como Michael W. SmithIsrael Houghton eKari Jobe, que entre outros, assinam juntos com Darlene, várias canções deste álbum, que não cantam a história de Jesus, como se presume pelo título, mas lembram importantes momentos da vida do Senhor, como sua crucificação, e sua vinda, e declaram sua fidelidade, e o amor por ele.

    Da primeira canção a última, percebe-se facilmente o jeito Darlene de cantar, e conduzir a congregação. Do mais pop ao mais piano, os arranjos carregam uma mistura entre o atual e o simples, fazendo uma bela transição musical, que pode facilmente tocar o público. Começando em God Is Here (Deus Está Aqui), com arranjos de guitarra que remetem, rapidamente, as músicas celtas; seguimos por Best For Me (O Melhor Por Mim), que tem na bateria sua marca mais forte, e destaca o sacrifício de Jesus como maior razão para se viver uma vida de adoração. All That We Are (Tudo Que Somos), conta com um elemento incomum: os assobios dos próprios cantores, timbrando com a flauta. In Jesus’ name (No Nome De Jesus) configura-se como uma música peculiar, na qual Darlenemostra, além do seu lado cantora, o seu lado pastora, ministrando sobre a vida de mulheres com câncer naquela noite, entoando os versos: ‘‘Não morrerei, mas viverei. O poder da ressurreição está dentro de mim. E eu sou livre em nome de Jesus’’.

    Your Presence Is Heaven To Me (Tua Presença é o Céu), é uma canção comum, não apresentando uma letra marcante ou inovadora. Não ultrapassou em beleza sua versão original, e nem a maioria das versões cantadas por Israel, em várias igrejas, pelo mundo. Mas firma-se como uma oração, um desejo, um clamor pela presença de Deus, nem que seja pelo transbordar de um cálice. Como diz em seus versos: ‘‘Oh Jesus, Tua presença é o céu para mim’’, nos faz lembrar que não precisamos de grandes versos para estarmos diante dele, ou para cantarmos, para Ele.

    Victor’s Crown (A Coroa Do Vencedor) é o carro-chefe de todo o trabalho, e apesar de levar o público ao delírio, e ter tocado facilmente os fãs, mostra-se mais como uma nova It’s Your Love. Tanto em questões melódicas, como harmônicas. Não sendo, nem de longe, uma das melhores e mais surpreendentes composições de ZschechYours Forever (Teu Para Sempre), do último CD da cantora, ganha um novo arranjo, bem como a interpretação de Kari Jobe, que mais uma vez abusa de seu jeito ‘‘meloso e arrastado’’ de cantar, que soa, no entanto, mais confortável e natural, que a própriaZschech.

    Quem conhece a versão original de Magnificent (Magnífico) do Álbum Blessed, reconhece nesta, uma das canções mais fortes do disco, que não se perde ou se enfraquece, na nova versão, levada pelas cordas e pela Harpa, se aproximando mais do angelical, que apenas do grandioso e épico. My Jesus, I Love Thee (Meu Jesus, Eu Te Amo), com letra de William Ralf Featherstone e melodia de Adoniram Gordon, composta no século XIX, agrega ao CD a grandeza de entoar Hinos, algo esquecido nesta geração do Gospel, e cede o lugar para Your name (Teu Nome), que obtém na ponte, exatamente composta pelos versos de Cry Of The Broken (Clamor Do Quebrantado), seu clímax. I Am Yours (Eu Sou Teu), é uma das mais fortes e mais envolventes canções do álbum, despontando na ponte, que canta Apocalipse 5:11-14, também declamados pela ministra, como um dos maiores momentos da noite. Pode-se ouvir os brados da igreja. Jesus At The Center (Jesus No Centro) figura, talvez, como o que há de mais simples em termos de composição, porém, não menos digno de atenção. Seus versos declaram que Jesus deve ser o centro de nossa vida, de tudo o que fazemos, de Sua igreja, do começo até o fim. E do nosso coração até o céu, o centro de tudo, não nos importando mais nada, além dele. Em DVD, ainda pode-se conferir um medley de dois dos maiores hits gospel do mundo: Shout To The Lord e Agnus Dei.

    Musicalmente falando, Revealing Jesus carrega uma sonoridade peculiar, fazendo uso de instrumentos como Harpa, flauta irlandesa, já mencionados anteriormente, e contando com a participação das Cordas da Escola de Belas Artes do Alabama. Do ponto de vista vocal, Darleneexibe sua voz, do G3 (Sol3 – EUA) ao D5 (Ré5 – EUA), quando nos últimos anos apresentou certa dificuldade para emitir confortavelmente tal nota aguda.

    Sem dúvidas, este álbum não pode ser considerado de antemão, o melhor trabalho da música gospel internacional do ano, mas também não fica atrás. Sendo um ótimo disco, não apenas de cabeceira, mas também de coração.