Categoria: Análises

  • Análise: CD Tente um Pouco Mais – Rose Nascimento

    Rose Nascimento é um dos maiores nomes da música cristã contemporânea, principalmente na vertente pentecostal. Dona de uma voz inconfundível, é reconhecida por onde passa, principalmente, pelo sucesso que fez no passado. Após lançar o disco O Menor da Casa, em 2013, de forma independente, a artista assinou um contrato com a gravadora Som Livre – que por sua vez, vem agregando diversos cantores conhecidos do público para seu casting.

    Tente um Pouco Mais foi o título escolhido para o primeiro projeto da cantora em parceria com sua nova gravadora. Distribuído nos formatos CD e DVD, foi gravado em setembro de 2014 durante a realização do Glorifica Litoral, em São Sebastião, interior de São Paulo. Com participações especiais de Robinson Monteiro e Marcelo Nascimento, o álbum traz canções de seu último disco inédito, além de outras regravações.

    Os maiores destaque do álbum são as canções Escolhido (George de Paula), Nas Mãos de Deus (Anderson Peres e Mara Peres; uma das melhores), Deus Vai Me Capacitar (Rodney Santos e Davi Vianna), além das regravações que tiveram a participação de Robinson Monteiro e Marcelo Nascimento, o irmão caçula da cantora.

    Em contrapartida, o maior erro de Tente um Pouco Mais foi seu repertório – com canções de seu último CD, pouco conhecidas de grande parte do público. Já o ponto alto do projeto ficou com as regravações, como Jerusalém, Mil Razões e a inédita na sua voz, Tente um Pouco Mais.

  • Análise: CD Novo Templo – Shirley Kaiser

    Shirley Kaiser é um dos novos nomes da música pentecostal e a primeira aposta da Universal Music Christian Group neste segmento. Com produção musical de Stefano de Moraes, produtor dos discos de Anderson Freire, Novo Templo é o sétimo álbum de sua carreira. Contém 13 faixas escritas por grandes nomes da música cristã, além de regravações das canções “Jesus e Eu” e “Silêncio de Deus”, com participação especial de Sanderson de Moraes.

    Desde a infância, a cantora está envolvida com a música. Shirley começou cantando nas igrejas pentecostais músicas de Lauriete, Cassiane, Rose Nascimento, Shirley Carvalhaes e Eliane Silva. Seus últimos projetos, como Deus Forte e Santidade, fizeram muito sucesso entre o público deste nicho. Contudo, Kaiser ficou durante quatro anos sem lançar nenhum projeto inédito. Segundo ela, este hiato foi essencial para o seu crescimento profissional e pessoal, deixando-a com maturidade suficiente para trabalhar futuramente. Enquanto estava produzindo, recebeu um convite para fazer parte do casting da Universal e aceitou logo de início. Após um tempo, o CD foi lançado, com projeto gráfico desenvolvido pela agência Quartel Design.

    Novo Templo, de Anderson Freire é a melhor canção para representar o disco. A faixa-título comunica uma verdade recente. Lembra o fato dos cristãos serem o templo do Espírito Santo e o sacrifício de Cristo acima de qualquer preceito religioso. Com arranjos empolgantes, a canção evoluiu em seu andamento. Acompanhada do início ao fim pelo teclado certeiro de Stefano, a música alcança o ápice na ponte. Tua História, de André Freire foi escolhida como o primeiro single do álbum. Destaque para a interpretação vocal cheia de feeling por Shirley, em cada estrofe. A canção Silêncio de Deus é um contraponto aos discursos enganosos. Além disso, também é uma regravação de Jonatas Ribeiro. Os versos salientam que os sábios falam pouco e tolos estão sempre achando que são possuidores de respostas pra tudo. Na versão de Shirley e Sanderson de Moraes, o arranjo original sofreu poucas alterações, porém não deixou nada a desejar.

    Deixa o Céu Vir, de Luciana Silva, lembra algumas canções notáveis na carreira de Shirley. Destaque para os arranjos de cordas de Stefano e Tadeu Chuff, além da bateria de Valmir Bessa e o baixo de Charles Martins. Querite, de Anderson Freire é uma canção motivacional e cumpre a exigência o público. Em Jesus e Eu, regravação do disco Tempo de Vencer, é percebível a maturidade alcançada pela cantora. Tudo que Sou, de Marquinhos Gomes, tem uma letra vertical, e a participação do mesmo em um belo dueto com Shirley.

    Ao final, o saldo é positivo. A obra mostra que Kaiser ainda tem fôlego para muito mais.

  • Análise: CD Acústico 10 Anos – Rede Ativa

    Acústico 10 Anos é o novo lançamento da Rede Ativa, dois anos depois de lançar o álbum Caixa Preta. A produção musical ficou a cargo de Victor Pradella, guitarrista e vocal da banda O Muro de Pedra, que toca atualmente com o cantor Rodolfo Abrantes. Foi gravado no estúdio DSN em São Paulo e o resultado foi positivo. A banda trabalhou com as músicas de mais sucesso e as inéditas deram boas pistas sobre o futuro do grupo.

    A primeira faixa, Barato Muito Louco, conhecida pelo grupo jovem das igrejas G12 por ser bem animada, aparece aqui intimista. Em seguida, Deixa Eles Pensarem soa mais reggae que a versão original. Inegociável é a primeira inédita. Balada, acompanha a evolução contida no último projeto.

    Regue a Semente começa com um beat box e é a melhor versão neste trabalho. O arranjo dos violões foi um diferencial. O Mundo a Meu Favor é introduzida por palmas e tem, dentre sua instrumentação, ukelele e violão. As palmas continuam e aos poucos novos sons vão surgindo. Os Mortos não Ouvem, segunda inédita, tem sua dose e estética flashback.

    Amigo combinou gaita, o violão e boa interpretação de Daniel Passamani. Lado a Lado é outra regravação de Caixa Preta. Bora Pedro é mais uma inédita e o single do disco. Minha Balada também recebeu um novo arranjo diferente e de destaque. Rede ao Mar, maior sucesso do Rede Ativa, fecha bem o disco juntamente a 10 Anos R.A. e seu tom autobiográfico.

  • Análise: CD Casa de Deus – Eli Soares

    Eli Soares é um dos novos nomes da música cristã contemporânea, com uma trajetória musical recente, porém já reconhecida pelo êxito. Em 2010, o músico lançou o seu disco de estreia, Casa de Deus, de maneira independente. No entanto, foi a partir de 2013, quando assinou um contrato com a gravadora Universal Music Christian Group que ganhou notoriedade.

    Em 2014, o intérprete relançou seu álbum de estreia pela nova gravadora. A grande novidade para este trabalho foi o projeto gráfico, produzido pela Quartel Design. Casa de Deus possui 12 faixas influenciadas pela black music e temperos pop. O disco foi produzido pelo próprio cantor, que também é engenheiro de som, juntamente com Celson Ramos e Thiago Marinho. Além disso, Viviane Donner e Eli ficaram responsáveis pelo backing vocal.

    Deus Está Aqui, é uma regravação já conhecida por boa parte dos ouvintes, pois é um dos corinhos mais cantados nas igrejas evangélicas, e foi escolhida para abrir o álbum, todavia temos aqui uma versão pop, destaque para as guitarras bem colocadas de Cicinho e Adson Sodré. Com uma letra que versa sobre o arrependimento, Me Ajude a Melhorar é o primeiro single do disco e foi uma das canções mais tocadas do cantor. A música se sobressai através da bateria de Adriano Pezão e o violão de Fernando Martins Lilico na introdução. Tudo Que Eu Sou, Quero Louvar e Graça são as músicas que melhor representam as baladas do álbum. Minha Oração e Morada são canções intimistas. A primeira tem uma letra que fala sobre a renúncia ao nosso eu e os teclados de Marcus Abjaud fizeram toda a diferença. Na segunda, a simplicidade foi essencial para o bom andamento. Com um tom introspectivo, Eli e Celson souberam conduzir com excelência os arranjos destas músicas que são os grandes destaques do projeto.

    Neste CD, podemos ver o bom desempenho de Eli interpretando as suas canções com certa facilidade, destaque para seus agudos e melismas – sua marca registrada. É de se admirar a agilidade vocal do cantor, não à toa já considerado um dos maiores nomes da música cristã da atualidade. Portanto, deve-se afirmar que Casa de Deus comprova a versatilidade musical do artista, que mesclou diversos estilos que conquistaram o público.

  • Análise: CD Aroma da Adoração – Eliane Silva

    Eliane Silva é uma das muitas cantoras pentecostais que assinaram contrato com a gravadora Som Livre nesses últimos tempos, apostando em novos rostos no segmento gospel. Após o bem sucedido, Senhor do Tempo pela Sony Music Brasil, o próximo lançamento da cantora era muito aguardado por seu público. Aroma da Adoração é um disco mais pop do que pentecostal, produzido por Melk Carvalhedo, Paulo César Baruk e Wesley Ross.

    É importante destacar que o disco seguiu bem a temática proposta, com um repertório eclético composto por nomes de peso, como Moisés Cleyton e Tony Ricardo. De cara, nos deparamos com Meu Alvo, a primeira canção do disco com um arranjo de cordas consistente, além de um vocal maduro da intérprete, mostrando o que vem por aí. Destaque para a guitarra e o piano de Henrique Garcia e Rafael Fagundes, respectivamente. Canções como Vai Ser Melhor, Meu Milagre e O Imutável deixam suas marcas no álbum, todas essas tem em sua essência uma pegada pop.

    Na sequência, Eu O Verei é uma boa surpresa: arranjos fortes que lembram a essência pentecostal da cantora, acompanhado por um backing vocal de respeito composto por Paloma Possi, Jessica Augusto, Dyani Primo, Rodrigo Mozart, Gustavo Mariano e Paulo César dos Santos Rosa. Infelizmente, acerca de As Sete Cartas não podemos dizer o mesmo. É uma canção equivocada que não deveria fazer parte do repertório, mas não pela letra – pois é totalmente bíblica – e sim pela produção, que deixou a desejar e tornou-a cansativa. Na mesma situação, se encaixa Só Quero Adorar e a faixa-título, Aroma da Adoração.

    Ainda, é fundamental pontuar as canções que melhor representam o pop no álbum, Eu Sou Teu Deus e Aceito o Desafio. Destaque para a bateria bem colocada de Cleverson da Silva, além do contrabaixo de Lau Gomes. Em influências pentecostais, Rainha Esther, Notícia Nacional e O Som do Vento se sobressaem – entretanto, não são canções de grande novidade. Produzida por Baruk, Volte a Sonhar é intimista e passa uma mensagem de incentivo ao ouvinte, daquelas que causam comoção ao público. O arranjo de cordas por Ronaldo de Oliveira e o naipe de cordas – Cello: Renato de Sá/Viola: Edmur Mello/Violinos: Rodrigo Moreira, Marcelo Soares e Matthew Thorpe enriquece a musicalidade.

    Dessa forma, apesar das falhas perceptíveis em várias canções ao longo do disco – que mesmo assim não tiram o mérito da intérprete e dos produtores –, é possível perceber que Eliane Silva se esforçou para entregar um bom trabalho. Contudo, os três produtores não foram o suficiente e a obra causa cansaço em quem o escuta. Logo, o álbum veio para provar de uma vez por todas que o pop virou uma das principais vertentes da cantora, para decepção dos mais tradicionais que, provavelmente, passarão longe deste disco.

  • Análise: CD Acústico e ao Vivo 2/3 – Rosa de Saron

    Em Acústico e ao Vivo 2/3, Rosa de Saron relembrou músicas de álbuns gravados após o primeiro acústico e com a seguinte divisão: Horizonte Distante (5 músicas), O Agora e O Eterno (4 músicas), Latitude, Longitude (2 músicas), Cartas ao Remetente (6 músicas) e inéditas (2 músicas). Mesmo assim, esperava que outras músicas estivessem presente no DVD e CD, como “As Horas”, “Até o Fim”, “Acenda a Luz” e “Vinte e Seis”, mas as inéditas, com certeza, preencheram todas as lacunas que poderia incomodar o ouvinte quanto ao repertório.

    Mesmo sendo um disco composto, em grande parte, por regravações, a banda conseguiu imprimir um conceito, tanto em termos de musicalidade, no teor gótico e trovadoresco dos arranjos. A orquestra que acompanhou os músicos e os backing vocals soaram totalmente conexos com a proposta do álbum.

    Se aparece pela segunda vez em um álbum da banda e novamente ao vivo. As mais conhecidas e queridas pelo público apareceram em uma roupagem diferente, como se fossem inéditas: Mais que um mero poema e Menos de Um Segundo. O disco também reserva participações especiais que enriquecem o produto final. Em Casino Boulevard, o padre Fábio de Melo dividiu os vocais com Guilherme. A inédita Incompletude teve a participação ilustre do violinista Lucas Lima. E em Dias Assim, o convidado foi Jonathan Correa, vocalista da banda Reação em Cadeia. Em mais de vinte e cinco anos de carreira, os músicos do Rosa de Saron estão em total forma.

  • Análise: CD 24 Horas Fiel – Coral Resgate para a Vida

    Falar de Coral Resgate para a Vida já não é fácil, falar sobre 24 Horas Fiel menos ainda. Apesar de acompanhar o grupo há certo tempo, confesso que não tinha expectativa alguma neste projeto. Depois do ótimo trabalho realizado em Santifica-me e Prontos para a Batalha, achava que seria praticamente impossível o Coral da Igreja de Deus em Cristo me surpreender novamente. Quebrei a cara. Estamos diante de um trabalho fantástico!

    Atualmente, o coral é formado por 14 coristas e cinco instrumentistas, na sua maioria na faixa dos 20/30 anos, que interpretam as canções de forma moderna e vigorosa. É importante pontuar, de início, que o novo trabalho marca a estreia do grupo na gravadora Universal Music Christian Group, sendo o quarto álbum da sua discografia. Composto por 12 faixas inéditas e produzido por William Augusto e Jeziel Assunção, o álbum contém o melhor do R&B e pop que já vinham sendo explorados pelo Coral nos trabalhos anteriores. Todo o repertório foi escolhido em cima do tema fidelidade, pois a partir dela a graça e a misericórdia de Deus nos envolve com o seu amor.

    Invisível traz uma bela introdução, com uns arranjos de cordas, mostrando o caminho que a canção vai seguir. A letra versa sobre acreditar naquilo que ainda não tem existência, ou seja, ver com os olhos da fé. Me lembrei da passagem que se encontra em II Coríntios 5:7.

    Composta por Anderson Lima, Tua Graça é o devocional de muitas pessoas. Diante das circunstâncias da vida, existem momentos em que temos vontade de abandonar tudo a nossa volta e muitos de nós se questionam: por que prosseguir, se nada está dando certo pra mim? Porém, nesse mesmo instante lembramos do favor imerecido concedido por Deus: a graça. É impossível não se emocionar com essa canção! Que arranjos vocais, que harmonias, que composição…

    Na sequência, Te Seguirei é mais uma surpresa entre tantas nesse CD. Mais uma letra fidelidade a Deus e aos princípios cristãos. Destaque para a introdução de um trecho do hino da harpa cristã, “A Mensagem da Cruz”, já no final da canção.

    A música-tema do disco, 24 Horas Fiel, fala que a fidelidade pertence a Deus e a inconstância caracteriza o homem pecador. Pra cima, a canção representa bem o estilo do Coral. Me senti em uma dessas igrejas dos EUA com corais monstruosos que vemos em filmes. Destaque para a ministração final do regente, Gustavo Mariano.

    Uma das canções mais esperadas de todo o álbum, Envolve-me (Closer) / Wrap In Your Arms traz logo de cara uma calmaria, nos envolvendo literalmente no desenvolvimento da música. Pra quem achava que iria ficar só nisso: você está redondamente enganado, meu caro! Os intérpretes e o Coral só melhoram a cada subida de tom. Com certeza, essa canção irá ser entoada em diversos cultos de todo o país.

    Ao Seu Tempo é aquela canção congregacional que não pode faltar no álbum do Coral. Assim como falamos em nossas orações, esta canção começa pedindo para Deus que seja feita a vontade dEle vontade em nossas vidas. Essa música é uma conversa entre nós e o Espírito Santo. Chegou no momento certo.

    Tudo Dele, de William Augusto, vem quebrando tudo com um ritmo eletrizante, logo, não tem como ficar parado ouvindo. Interpretada por Gabriel Augusto, essa música foi escolhida como single, ganhou um clipe e já está sendo tocada nas melhores rádios do território verde e amarelo.

    Hosana, de Anderson Lima, é mais uma canção que enquadra o tema fidelidade, o solo foi realizado pela nova integrante do coral, Mille Quésia. Assim que soube que a cantora faria parte do Coral, fui atrás de algum vídeo seu nas redes sociais e me deparei com ela cantando “Dependo de Ti” do Baruk, desde então ela me ganhou. Destaque para o Coral em um final inesperado!

    Fiel, de Marcos Rodrigues, assim como a canção anterior, continua dentro do tema central do disco. A letra nos fala sobre entregarmos nossos caminhos ao Senhor e a lealdade de Deus para com as nossas vidas. Assim como Ele foi fiel para iniciar a boa obra, é fiel pra terminar!

    A língua é uma força poderosa, pode ser usada tanto para o bem, abençoando, como para o mal, amaldiçoando. Deus falou e tudo o que existe foi criado por suas palavras. Morte e Vida, de William Augusto, faz uma crítica a todos aqueles que não sabem utilizá-la, deixando nítido que é necessário controle de todo. Como é dito na canção, é preciso lembrar que tudo se resume a Jesus, portanto, devemos deixar de lado os julgamentos. Jessica Augusto ficou responsável pelo solo e tomou a canção para si, com seus agudos e melismas.

    Quando ouvi Foi a Cruz pela primeira vez não dei a mínima importância para essa canção, mas como todos estavam comentando sobre ela e resolvi dar mais uma chance. Desse modo, fui ouvir novamente a música e fiquei atordoado com essa letra, aliada a uma interpretação marcante. Sérgio Saas é um grande intérprete e soube o que fazer exatamente em cada parte da canção. Já sobre o Coral, souberam aproveitar bem cada momento em que apareceram e se destacaram.

    Com uma piano marcante, Filho de Davi é uma canção essencialmente bíblica, estruturada na palavra. Usando de passagens bem conhecidas dos leitores da bíblia, como o cego de Jericó e a mulher do fluxo de sangue, o Coral nos lembra que assim como milagres ocorreram no passado, podem acontecer também nos dias de hoje, para isso, é só clamar.

  • Análise: CD As Paisagens Conhecidas – Os Arrais

    Quando ouvi a primeira faixa, perguntei: “Deus, que coisa linda é essa?” E óbvio que viciei na música já de cara. Antes de tudo, As Paisagens Conhecidas é uma continuação clara de Mais, trabalho anterior da dupla. A proposta dos irmãos Arrais com essa sequência de EP’s que prometeram ainda não é muito clara. Montréal é linda e traz consigo esse experimentalismo indie folk da dupla de forma sensacional. Uma coisa interessante sobre Os Arrais é que eles conseguem soar confessionais mesmo sem aquela pretensão de ser colocado numa categoria clichê como “louvor & adoração”. Não é possível rotulá-los como “gospel”. O mais coerente a dizer é que se trata de um folk com letras cristãs. Isso é singular neles, dentro do nicho o qual pertencem.

    O Bilhete e o Trovão segue a mesma vibe da faixa anterior, só que com alguns instrumentos mais audíveis. Se em Mais a aposta foi em um som acústico voz e violão, em As Paisagens Conhecidas conseguimos ouvir pianos, guitarras e percussão bem presentes, sem descaracterizar o som da dupla. Outono e Caneta e Papel me lembraram algumas canções do Gungor. São faixas aparentemente autobiográficas, versando o lado do compositor e a influência gigante do Espírito Santo na hora de escrever. Nessa última, o romantismo das palavras “meu bem” soam poeticamente amoroso na voz do Tiago que, mostra mais uma vez que não é apenas um bom músico, mas também um bom intérprete.

    Fogo é o single do trabalho e tem alguns lampejos de country. O engraçado nesse EP é que se você fechar os olhos e ouvi-lo, você consegue criar uma imagem de um lugar bonito de acordo com a canção. Não sei se foi intencional, mas dar esse título ao projeto deu realmente certo. A faixa que o encerra tem guitarras bem presentes e metais marcando presença.

    As Paisagens Conhecidas é um trabalho muito bom, mas que deixa um ponto de interrogação gigante a quem o ouve, especialmente de seus fãs que, dois anos depois, esperavam um trabalho melhor que Mais. No fim das contas, soa como uma versão estendida (ou deluxe) do álbum anterior. Desta forma, é necessário ser ouvido antes de conclusões precipitadas.

  • Análise: CD Eternamente – Cassiane

    Depois de quatro anos sem lançar um projeto inédito, Cassiane lança o álbum Eternamente, que marca sua volta à gravadora MK depois de oito anos. Com o início das gravações em 2014, o disco foi produzido por seu esposo, Jairinho Manhães, e gravado no estúdio do casal, o Reuel Estúdios. Provisoriamente chamado de Minha Essência, seria distribuído pela Onimusic, contudo, após a intérprete voltar para MK Music teve seu título alterado.

    Cassiane surpreendeu a todos no ano de 2007 com a notícia que, praticamente, ninguém esperava: sua saída da gravadora MK Music. A cantora afirmou que para Deus tudo tinha um tempo e Ele vinha direcionando-a para essa decisão. No final de novembro do mesmo ano, Cassiane lançou o disco Faça Diferença de forma independente e o resultado foi um sucesso – 100 mil cópias em apenas 15 dias de lançamento – mas a história não parou por aqui.

    Logo após, a gravadora mostrou que não aceitou muito bem a decisão de Cassiane e entrou com um processo contra a cantora que foi acusada por formação de quadrilha e teve que retirar todos os discos do mercado, caso contrário pagaria multa por cada CD que fosse encontrado nas lojas. Depois de toda essa confusão, ficou decidido que a intérprete voltaria para entregar um último projeto dando fim, de uma vez por todas, no contrato.

    No ano de 2010, Cassiane entregou o álbum Tempo de Excelência como forma de encerrar o contrato com a MK. No entanto, o disco nunca foi lançado no formato físico, somente em formato digital, três anos depois. É nítido que o engavetamento do projeto mostrou-se um desperdício tanto para a artista, quanto para a gravadora. A cantora assinou contrato com a Sony Music Brasil, pela qual lançou dois álbuns inéditos, um projeto de músicas da Harpa, DVD de bastidores, além de um CD e DVD ao vivo composto de canções dos álbuns Viva (2010) e Ao Som dos Louvores (2011), fora o romântico O Amor Está no Ar e três faixas inéditas: “Não vou me calar”, “Avivamento” e “Na orla do teu manto”. Viva, por exemplo, recebeu a melhor certificação de Cassiane desde o álbum 25 Anos de Muito Louvor (2006), disco de platina duplo pela Associação Brasileira dos Produtores de Disco (ABPD).

    Em 2015, sem nenhum vínculo com outra gravadora, – após sair da Sony Music depois de lançar o CD e DVD Um Espetáculo de Adoração (2013) – a cantora assinou contrato com a sua antiga gravadora, MK Music, para alegria de muitos e descontentamento de outros. Se comercialmente a cantora vive tempos bons, musicalmente não alcança tanto consenso. Com a entrada na antiga gravadora, fãs mais saudosistas acreditam numa “volta por cima” de Cassiane e seu produtor Jairinho, que surpreenderam o público pela última vez com A Cura (2003). Contudo, ainda é muito cedo para tirar conclusões precipitadas.

    Minha Essência, de Tony Ricardo, foi a canção escolhida como single e enviada para as rádios de todo o Brasil. A música fala sobre fidelidade a Deus e em não se deixar ser influenciado pelo mundo. A escolha, certamente, foi equivocada: o CD tem canções muito melhores para serem trabalhadas. Assim como ocorreu em Ao Som dos Louvores certamente acontecerá também aqui, em que a música de trabalho foi “Gritai”, mas o maior sucesso e hit moral daquele álbum foi outro, “Amigo Espírito Santo”, tocada até hoje em diversas rádios e igrejas. Sonoramente, a canção é pop rock, com destaque para a bateria e o baixo, executado por Marcos Natto.

    Eternamente, de Marcos Brunet, tem uma letra curta e vertical, tratando sobre o poder de Deus. Destaque para o trecho em que Cassiane canta “Hosana nas alturas e glória em toda terra”, juntamente com um arranjo de cordas e os vocais de apoio, formados por Lilian Azevedo, Josy Bonfim, Hedy Barbosa, Paulo Zuckini e Roby Olicar. Jairinho soube conduzir muito bem seus arranjos nesta canção, fazendo uma música simples ‘roubar a cena’.

    Na sequência vem Submisso, escrita por Jonathas Santos e Bruna Dezid. Sem a menor dúvida, é um hit em potencial. O arranjo foi preciso. Destaque para a bateria de Sidão Pires, que se entrelaça bem com a cozinha instrumental, especialmente no trecho “Eu me submeto ao teu querer, a resposta vem da oração, minha vitória tem data marcada, é o tempo de Deus, a vontade de Deus”. Embora seja um tema clichê, a interpretação da cantora agregou valor.

    A Oferta Sou Eu, de Tony Ricardo, tem um dos discursos mais importantes do álbum. Contrariando todos os chavões neopentecostais, a canção transgride o antropocentrismo no meio evangélico e reforça a soberania de Deus, ao som de um arranjo suave, com destaque para as cordas e violão.

    Composição de Anderson Freire, A Carta traz os elementos que tornaram o músico conhecido pelo país. A letra versa, de forma emocional, acerca do que muitos cristãos passam atualmente. Anderson fez uma boa referência ao falar sobre o Calvário nessa faixa. Cassiane soube dar o tom certo para a música e o resultado final é belíssimo. Merece destaque a frase “Tua vida é uma carta que Deus está lendo para o mundo ouvir”. Essa é, sem dúvidas, uma das melhores faixas do disco.

    Compositor dos maiores sucessos de Cassiane nas igrejas, como “Abraço do Noivo” e “Tremendo e Santo”, Rogério Junior é quem assina a próxima canção, Pra Casa Eu Vou. Após dez anos sem uma composição sua nos discos da cantora, a parceria foi retomada em grande estilo, pois é a melhor música do álbum. A faixa fala sobre o arrebatamento e o que a igreja faz enquanto espera a volta de Cristo, “oh, aleluia, ninguém vai roubar minha coroa, eu sei que estou chorando as últimas lágrimas”. Esta canção tem tudo para ser uma das melhores do ano, com ótimos arranjos e uma interpretação marcante da artista.

    A Muralha, de Tony Ricardo, lembra aquelas músicas com temática acerca do exército de Deus. Musicalmente, traz todos os elementos clássicos das produções de Jairinho: vocais de peso, arranjo de metais e andamento acelerado. A letra fala que a estratégia dada por Deus para vencer a guerra é a fidelidade à adoração. Em contrapartida, apesar de ter uma letra interessante, se assemelha muito a “Gritai”, single de Ao Som dos Louvores.

    Mais uma composição de Anderson Freire, Tempo e Sacrifício conta a história de Jesus, falando sobre sua vida aqui na Terra. Os versos enfatizam que não foi na cruz que o Senhor se entregou, mas foi no Calvário quando a glória deixou, Ele consumou, pensando em nós em todo instante. Se fôssemos fazer um resumo da mensagem dessa faixa, poderíamos dizer que Jesus se sujeitou ao tempo de Deus. E se até Jesus soube esperar o tempo de Deus, por que nós queremos fazer as coisas diferentes? Fica a reflexão. Em seguida, Gigantes, de Jonathas Santos e Bruna Dezid deixa sua marca no álbum.

    Meu Ar, de Tony Ricardo, lembra outra composição do cantor, “Amigo Espírito Santo”. Com uma letra congregacional, mostra que nesse CD, Cassiane veio com mais canções neste estilo. Talvez por estar pastoreando uma igreja em São Paulo, a Adalpha – Assembleia de Deus Madureira em Alphaville –, a intérprete e seu marido tenham se influenciado por outros tipos de canções para o louvor das igrejas. A canção ganha brilho ao ser conduzida com piano e um naipe de cordas.

    De forma animada, chega a próxima faixa, Vai Dando Glória, de Douglas Alves. Com elementos de forró, recai no gênero que não pode faltar nos discos da artista. Em seguida, Sangue do Cordeiro, de Junior Maciel e Josias Teixeira é uma canção pop rock que chega a lembrar a vibe dos grandes sucessos da cantora. Cassiane soube impostar a autoridade em sua voz para cantar essa música de refrão forte.

    Mostra-me Tua Glória, de Vânia Santos é uma canção que vai emocionar muita gente, principalmente, pela letra, que acompanha as modulações instrumentais. O piano, por sua vez, dá espaço aos demais instrumentos. A musicalidade cresce, até atingir seu ápice. Os versos demonstram intimidade, em primeira pessoa: “eu sou contigo, tu és meu filho! Sou teu Deus, sou teu Deus!”. É a mensagem que falta nos discos de muitos cantores evangélicos do cenário atual.

    A última faixa é Tome Posse, composta por Tony Ricardo. Seus versos tratam da importância de se receber o milagre de Deus. Embora o título, talvez, sugira que se trate de um forró, a sonoridade é pop. Destaque para a ponte no final, principalmente, na frase “Deus comprou tua causa e não vai recuar”.

    Eternamente é um bom disco. O repertório e os arranjos foram bem construídos. É perceptível a significativa melhora da produção musical em relação aos projetos anteriores. Em contrapartida, a influência pop continua, e o álbum retoma, com timidez, a poucos elementos sonoros contidos nos projetos mais antigos de Cassiane.

  • Análise: CD O Olhar de Deus – Rayssa e Ravel

    Em comemoração aos 25 anos de carreira, Rayssa e Ravel lançaram o álbum O Olhar de Deus, sendo o 15º disco dos irmãos pela MK Music. Desta vez, com produção de Silvinho Santos, os irmãos tentam se renovar e fugir do temido desgaste. Nos dias atuais, muitos intérpretes estão surgindo, mas são poucos os que se destacam ao ponto de se estabelecer no meio gospel. Ponto positivo para a dupla por isso.

    Rayssa tem uma interpretação forte e imponente, uma das melhores vozes do ramo, já Ravel vem com uma voz mais harmoniosa e doce. Neste disco, a qualidade vocal dos dois está ótima, aliás, como sempre. Sem um gênero e estilo totalmente exclusivo no repertório, a dupla vai do sertanejo ao pentecostal. O trabalho contém dez faixas assinadas por nomes como Ronaldo Santos, Cláudio Louvor, Anderson Peres, Jesus Afrânio, Rodney Santos, Willian Santana, Washington Gama e duas canções assinadas pelos intérpretes, Rayssa e Ravel.

    A primeira faixa, Dupla Honra, tem uma letra polêmica que fala sobre exaltação humana. Nela, é dito que “vai chegar no ouvido de quem te humilhou que Deus te colocou de pé”. Lembra um pouco uma música que ficou muito conhecida um tempo atrás por ser, digamos, vingativa. Em minha opinião, não é necessário desmoralizar alguém para mostrar que Deus está conosco. É só se lembrar de que tudo o que é plantado, é colhido.

    O single do disco, Levanta, de Claudio Louvor, agrada tanto pela letra como também pelo estilo ‘pra cima’. Ótima escolha para a música de trabalho, com destaque para o acordeom! Lá Vai Ela conta a história da mulher que tinha sido abandonada por todos com apenas um odre de água, um pão e um menino no deserto. Depois dela comer o pão e beber a água, o menino acorda com sede e ela fica sem saber o que fazer, mas no mesmo instante Deus escuta o choro do menino e faz jorrar a água no deserto para ele beber. Essa canção fala sobre encorajamento e esperança, mostrando que não importa o tamanho do problema, pois Deus é maior que qualquer um deles. Mais uma composição de Claúdio Louvor.

    O título do disco foi escrito por Anderson Pontes. O Olhar de Deus traz uma mensagem de conforto, dizendo que mesmo que o mundo não te enxergue, o olhar de Deus vê em você um campeão. Em seguida, temos Pedrada, uma moda de viola bem sertaneja, nos remetendo aos álbuns antigos da dupla. Aqui eles voltaram as suas raízes, cantando sobre superação e vencer as adversidades com Deus.

    Na faixa Filho de Davi, Rayssa e Ravel dividem os vocais com Wilian Nascimento e Gisele Nascimento. Participações especiais sempre trazem um diferencial para um disco, às vezes é até essencial para tirar o enfado. A escolha dos colegas de gravadora para esta canção foi bem pensada e o produtor foi muito feliz nos arranjos.

    Em contrapartida, quem esperava um álbum totalmente pentecostal ou sertanejo irá ficar desiludido. Silvinho Santos foi ousado até demais na escolha dos arranjos para o repertório, passeando por diversos gêneros musicais e perdendo o foco da musicalidade que caracteriza melhor a dupla Rayssa e Ravel. Por isso, O Olhar de Deus não se assemelha e não pode ser comparado com os clássicos dos irmãos como, Inesquecível ou Além do Nosso Olhar.