Categoria: Análises

  • Análise: CD Tetelestai – Diante do Trono

    Imagine o ano de 1998.

    Um tempo em que para se escutar uma música era preciso apenas dar play. Diante do Trono surgiu aí. Foi tão influente no Brasil, que nós nem percebemos como foi único. Não dói nada admitir. Pessoas talentosas ancoradas em uma visão a qual puderam expressar sua voz, soterrando, questionando e excedendo níveis (seja para o bem ou para o mal). Sou do público que viu versatilidade em uma era polarizada do grupo, mais acentuada no aguado Nos Braços do Pai (2002), até o tarimbado Ainda Existe uma Cruz (2005). Mas, nos últimos três anos, o imbatível nome começou a soar como uma banda que estava constantemente tentando, agravando um leve declínio, que até o mais cínico deve reconhecer: aconteceu desde o mafuá Sol da Justiça (2011). Não temos acesso a logística do grupo, o público pode até decidir o que sentir sobre esse mapa mental, mas o grande ministério de louvor passou por visíveis apuros.

    Embora minhas preferências religiosas vão para outros rincões, o Tetelestai (17º CD) pode ser considerado como um acerto – em termos. O disco, gravado em Jerusalém (2014) parte da premissa “está consumado”, do livro de João 19:30.  O projeto é elétrico (O Espírito e a Noiva, sendo regravação do impecável Águas Purificadoras) e ao mesmo tempo ponderado (À Sombra do Altíssimo, regravação do mesmo). Como abertura, o Medley Israel até equivale a uma viagem de trem: proporciona um belo passeio, um grande espetáculo visual, confortável, mas no fim você vai querer um veículo que cumpra o mesmo trajeto de uma forma mais rápida e eficiente. Já as faixas Ressuscitou e Eu Sou as quais, mesmo derrapando em reducionismos e elipses literárias, demonstraram serem partes de um projeto inteligente com certo grau de inventividade na qualidade pedestre das letras.

    O momento soturno do disco fica por conta de Ó, Jerusalém. Uma deselegância anafórica que não passa de uma fachada em tons pastéis. Seu Nome, juntamente com os demais 3 (três) espontâneos se enquadram no campo de faixas anticlimáticas que, de alguma forma, tentam evocar um momento de sensibilidade, mas falham, se saindo assim, como de um truque só.

    Em contrapartida, fica por conta da canção-tema, Tetelestai, o ponto elegante e palavra-chave contundente do projeto. O que acontece também em Aleluia, Maranata, que apesar de ter uma crescente idêntica a With Everything do Hillsong United (coincidência?), é de se admirar que tenha resvalado em uma linguagem clara algo que ainda tem de muito orgânico no Diante do Trono: uma melodia que te carregue.

    Questionável por questionável, o disco te ganha. Um projeto cheio de hooks, com começo, meio e fim. Tudo se justifica. Mas não estamos sendo tolhidos a olhar por um viés mais crítico. Diante do Trono tem bagagem. Seja na astúcia do ‘‘não mexer em time que está ganhando’’ ou na simplicidade de ‘‘voltar ao básico para ser aplaudida por um público mais amplo”. Como por exemplo, no disco anterior, Tu Reinas (2014), em que a banda se torna uma paladina da justiça pra peixe pequeno. E convence.

    Mas, infelizmente, não estamos mais em 1998. Tempos em que pra gostar das músicas você precisava apenas dar o play, e não ter um bloquinho de notas explicando palavra por palavra, música por música, ou referência por referência como se isso fosse melhorar a situação. Não melhora. Embora o Tetelestai seja audível, é limitado. Mas reitero: não é culpa do grupo mineiro.

    A juventude dos tempos atuais garimpa o seu próprio conteúdo na internet, e molda aquilo que considera necessário aos seus ouvidos. Diante do Trono, que surgiu num grito lá em 1998, agora entendeu isso, e está se rendendo a uma limitação que corrobora com a teoria de que muita gente não está mais prestando atenção na música gospel ao dar play. Que não adianta dizer nada mais profundo, pois ninguém está ouvindo, ninguém está atento e ninguém vai entender. Prezo para que a situação possa ser revertida, mas nos últimos três anos, o grupo que excedia limites, se incluiu nesse grupo segregado do mercado gospel que está cada vez menor e menor, acreditando ser cada vez maior e maior.

    Confira o guia discográfico do Diante do Trono

  • Análise: CD Tribo do Leão – Alex & Alex

    Após um longo tempo na MK Music, a dupla Alex e Alex migra para a Som Livre e lança um projeto que deve falar muito mais que os anteriores, para o bem, e, principalmente, para o mal. Tribo do Leão foi lançado em 2015 e pode ser definido como um disco pseudovariado.

    Note que ecletismo é uma característica que não se força, e não se constrói sem que o artista realmente tenha uma bagagem e saiba canalizá-la para algo claro e sólido. Um dos grandes males de artistas cristãos, por vezes, é assumir uma imagem que não possuem, ou pior, sequer saberem qual identidade vão assumir.

    Alex e Alex é uma dupla veterana. São músicos que deveriam saber para onde querem chegar. Mas este recente trabalho, Tribo do Leão, prova justamente o contrário: os anos passam, e os cantores não mostram se, realmente, querem assumir o posto de vanguarda, com seriedade, ou se entregam a músicas radiofônicas e pouco convincentes.

    Grande parte do álbum apresenta elementos que remontam a canções de relativa notoriedade na carreira da dupla, como “Muda Minha Vida”, hit do disco Até o Céu Te Ouvir. A busca por um som que consiga fundir o soul pop com o congregacional (ou um pentecostal disfarçado), no entanto, mostra apenas que a sonoridade não consegue verbalizar a alma da dupla. Aleluia, por exemplo, segue todos os modismos do gênero, com um piano introdutório, aquele arranjo de cordas leve e suave, a subida de tom e o “peso” gradativo próximo ao refrão, acompanhando uma letra indefinida, que mescla versos de exaltação e, ao mesmo tempo, se modula em chavões pentecostais. E isso se repete na maior parte do repertório. Alex e Alex continuam, assim, a dar tiros no escuro, ao invés de procurarem fazer música que realmente definam seu estilo, que, até os dias de hoje, soa como uma incógnita.

    Em Ouve Senhor e Governa-me, o diagnóstico é claro: versos pentecostais escancarados, enquanto a sonoridade continua a alcançar o lugar-comum. Os cantores, em suas interpretações estão, evidentemente, com a cabeça fincada em outro gênero. As letras falam de milagres, curas, fazem metáforas de gosto duvidoso, enquanto sintetizadores desconexos e um coral sem feeling forma o pano de fundo. Mas calma, o pior ainda não chegou.

    Outra parte de Tribo do Leão é evidentemente ofensiva e chega a soar como um deboche no ouvido do ouvinte. A faixa-título, Tribo do Leão, com alguns trechos do funk, não consegue ser nem um pouco divertida. Mas não para por aí: Topo do Mundo tenta surpreender com frases como “Tudo o que tem fôlego louve ao Senhor / Te dou a minha vida e o meu amor”. A coisa chega a piorar quando a dupla entra em um clima de rave gospel e sua música continua fria e forçada, assim como Aperta o Play, que arrisca em frases pouco inspiradas como “Aperte o play / DJ / Hoje a festa é para Deus”. É, certamente, a dupla deveria pensar muito bem antes de dar, ao seu ouvinte, o qual compra discos originais em pleno tempo de crise econômica, canções de troça.

    Na melhor oportunidade que tiveram para mostrar a que vieram, a dupla Alex e Alex continua a provar que seguem perdidos musicalmente falando. É um disco sem fórmulas, propostas, ou discursos. É um disco que não cai, com total gosto, em clichês da chamada teologia da prosperidade, mas consegue ser tão vazio quanto os rumos do nosso mercado gospel, torturante para os órfãos de boa música. Do que se chama de gospel nacional, é completamente esperado, para o que se convenciona de música negra, a boa herança que temos do chamado ‘gospel’ norte-americano, revela a alienação da dupla. Portanto, Tribo do Leão é um registro decepcionante.

  • Análise: CD Moderno à Moda Antiga – Marcela Taís

    A influência da música folk e da poesia trouxe ótimos cantores ao meio cristão, como Os Arrais, Bruno Branco e a Marcela Taís. Nos últimos anos, se vê um crescimento grandioso do novo movimento no Brasil, revelando músicos com grande capacidade letrística e musical.

    Neste contexto surge o novo álbum de Marcela, Moderno à Moda Antiga. O disco foi lançado em 2 de junho pela Sony Music, produzido por Michael Sullivan, músico com uma longa trajetória no ramo. As fotos para a capa e encarte foram produzidas por Bruno Fioravanti, e o design gráfico foi criado pela própria Marcela Taís, em parceria com seu irmão, Max Munhoz. Combinando com a temática do título do CD, o projeto gráfico da obra traz um ambiente country com traços antigos, igualmente o conjunto das músicas, tanto conceitualmente como musicalmente. O resultado foi o primeiro lugar no iTunes.

    A primeira canção já revela o propósito fonográfico do disco inteiro. Ame Mais, Julgue Menos é um country tratando sobre o nosso julgamento parcial, sem conhecer a realidade de quem levantamos como réu. A interpretação de Marcela Taís é a mais adulta em comparação a todo o álbum anterior que já conhecemos, e essa mudança não sugere um avanço, mas uma perca do melhor valor de Taís, que é sua leveza, simplicidade e jovialidade tanto nas composições como nas interpretações. Vale ressaltar o banjo que durou o arranjo inteiro, identificando-a.

    Moderno à Moda Antiga, a faixa-título, é um folk que traz toques de acordeon para equilibrar-se com a concepção da letra, que se trata justamente de costumes antigos os quais estão se perdendo na sociedade.

    Muita Calma Nessa Alma é uma obra notavelmente feminina conceitualmente falando. Tem um belo arranjo, superando as duas primeiras canções neste quesito, porém a feminilidade desta chega a ser quase um clichê.

    Risco é uma combinação de poesia e reggae, se destacando acima de todas as anteriores. Com a participação especial de Salomão do Reggae, Marcela Taís conseguiu combinar perfeitamente uma boa letra e um bom arranjo na mesma faixa, resgatando a leveza e a simplicidade que marcava seu estilo, assim, trazendo traços de Cabelo Solto, seu primeiro CD.

    A quinta música é a mais contrastante do álbum, e talvez a melhor. Quando É Amor é um folk romântico à lá retrô, dando ênfase na interpretação vocal de Marcela Tais, que soube usar dos agudos de uma forma doce, e relembrando sons das décadas de 60 a 90.

    Sou Diferente conteve participação especial de Paulo César Baruk, e já se mostra a música mais agitada do álbum, com influências do rock dentro do estilo próprio de Marcela. Relata sobre ser diferente nesse mundo, e que isso às vezes é visto como piada, brega, porém é a única coisa diferente neste mundo igual.

    A sétima do conjunto, Voar é embalada por um piano. É uma composição lenta, para refletir sobre a eternidade, e a seguir, outra bela poesia como a contida em “Risco”. O arranjo é perfeito para o assunto tratado nesta faixa, e a combinação lhe torna, também, uma das melhores do disco.

    Partir é outra balada do álbum, tratando sobre deixar passar algumas coisas na vida em virtude de coisas melhores.

    Naufrágio peregrina pelo blues, e novamente conta com belos desempenhos vocais de Marcela Taís, e inspiradores riffs e solos de guitarra. A faixa trata-se de um clamor para que Deus venha salvar o eu lírico.

    A canção Homem de Verdade é um pop rock que fala sobre os valores masculinos, uma composição que se localiza como uma peça diferente no meio de uma obra tão feminina. Apesar de versar sobre a masculinidade, não deixa de ter o próprio toque feminino, pois se refere justamente a gostos de uma mulher.

    A décima primeira música do álbum, Conselho de Amiga, apresenta uma lição de autoajuda para sofrimentos amorosos de garotas. O próprio título demonstra essa ideia, mas assim como “Muita Calma Nessa Alma”, soou um pouco clichê, com mais intensidade do que a terceira canção. Conta com a participações de  Anayle Sullivan, esposa de Michael.

    Espera por Mim é uma balada romântica, um assunto a qual Marcela já andou bastante. A última canção, Pequena Alegria, é um retorno como “Risco” ao estilo simples e leve da vocalista cantar. Acompanhada por ukulele, é uma espécie de “Naquela Rua” 2, exibindo uma bela letra que versa sobre a simplicidade das pequenas alegrias que temos na vida, e que com essas curtas dádivas seríamos felizes para sempre. Outra esplêndida canção.

    Em suma, o álbum conta com arranjos levados pelo country, reggae, folk, blues e rock, uma combinação de influências antigas com o que pode ser chamado de moderno. Canções como “Moderno à Moda Antiga” e “Pequenas Alegrias” expuseram perfeitamente o conceito do registro, da mesma maneira que outras produções que, não plenamente, girou em torno deste assunto. Porém, a temática mais abordada neste álbum seguiu-se em direção à questões relativas ao público feminino. Músicas como “Muita Calma Nessa Alma” e “Conselho de Amiga”, foram as que declaradamente andaram sobre essa linha, mas outras composições do álbum se encaixam no eixo, mesmo que indiretamente.

    Apesar de Marcela Taís soar jovial em suas interpretações vocais, suas canções mais belas sempre foram as que tratavam a leveza e a simplicidade da vida, em torno de tanta competição e materialismo da sociedade moderna, como “Naquela Rua”, sua melhor criação. E justamente nesta fase de construção de pensamentos em que os adolescentes se encontram, estas ideias de Marcela Tais são ótimos temas para se tratar. No entanto, o lançamento da intérprete soou também juvenil conceitualmente falando. Tratar desilusões, problemas de garotas sem parecer clichê, imaturo, ou com o “complexo de princesa”, pode ser uma tarefa nem um pouco tão fácil, e é neste tópico que a artista pecou, assim como errou um pouco no primeiro álbum com a canção “Menina, Não Vá Desanimar”. Este disco soou demasiadamente teen, principalmente com composições como “Muita Calma Nessa Hora”, “Conselho de Amiga”, mas, contudo, Marcela com sua voz doce e que se encaixa perfeitamente em produções alegres, soltas e desapegadas, também trabalhou com ótimas músicas como “Risco”, “Pequenas Alegrias”, dentre outras. A compositora poderia aprofundar mais nesses tipos de melodias.

    O CD buscou ter uma face mais retrô, inclusive nos temas, porém, Marcela abriu mão de letras mais poéticas, para mais diretas, e isso decaiu também o seu valor. A cantora poderia ter sido mais metafórica com os assuntos abordados, e menos presa a conceitos, assim soaria mais poética e, logo, trataria melhor os assuntos, como no Cabelo Solto.

    As melhores da obra em um todo, tanto na ideia como no arranjo, são as “Quando É Amor”, “Risco”, “Pequenas Alegrias” e “Voar”. Faixas como “Muita Calma Nessa Alma”, “Naufrágio” tiveram arranjos espetaculares, no entanto, são letras que não nivelam com a qualidade das demais. “Sou Diferente”, “Homem de Verdade”, “Conselho de Amiga”, “Ame Mais, Julgue Menos”, “Moderno à Moda Antiga” foram bem produzidas, e apenas “Partir” e “Espera por Mim” soaram medianas. Portanto, Marcela fez uma boa participação vocal, a banda de apoio cumpriu sua parte, teve uma ótima produção gráfica, e cumpriu a proposta que pretendia, embora poderia ter dado outra face, outro conceito às canções.

  • Análise: CD Além do que os Olhos Podem Ver – Oficina G3

    Após a espinhosa saída de PG, o qual ingressou, posteriormente, em uma carreira solo de relativo sucesso, o trio Juninho Afram, Duca Tambasco e Jean Carllos encontrou, na situação, inspiração para compor um disco sólido, pesado, e ao mesmo tempo sensível e agradável. Lançado em fevereiro de 2005 pela MK Music, Além do que os Olhos Podem Ver é justamente o que os fãs e a Oficina G3 aguardavam após tantos álbuns que, musicalmente, não iam longe.

    Ao som dos cães silenciados na Intro, Mais Alto é uma resposta à altura às especulações dos futuros do trio, embalada pelos riffs e contratempos de Réu ou Juiz, numa das performances, até hoje mais complexas de toda a carreira da banda. Ao longo do projeto, as canções não perdem o fôlego, e até mesmo as baladas, como Lugar Melhor e Queria Te Dizer, fogem muito do padrão açucarado de Humanos, o CD anterior.

    O guitarrista Déio Tambasco faz papel fundamental em O Fim é só o Começo, com suas viagens bluezísticas, e o baterista Lufe despede-se das baquetas da banda com respeito, como em Através da Porta. Mas Duca Tambasco nunca esteve tão em evidência, com suas linhas de baixo evidentes por todas as canções, o que não ofusca, obviamente, Jean Carllos, e principalmente Juninho Afram, com interpretações vocais que, sem dúvida, não devem em nada ao ex-integrante PG.

    A mensagem por trás do álbum é forte, e ao mesmo tempo, muito bem construída. Além do que os Olhos Podem Ver não é um amontoado de faixas, mas um disco que, a cada faixa, constrói uma narrativa totalmente pertinente. É um registro que questiona e toca profundamente nas ocultas e sólidas hipocrisias carregadas inconscientemente pelos cristãos, e propõe o nosso despertar para vivermos a vontade de Cristo. Ao ouvir este trabalho, fica nítido que os integrantes da Oficina G3 aprenderam a lição trazida após tantas situações desagradáveis e difíceis, sendo assim, juntamente com o posterior Elektracustika (2007) o disco mais progressivo de sua carreira.

    Confira o nosso guia discográfico sobre a banda Oficina G3 e a nossa lista dos melhores álbuns de 2005.

  • Análise: CD Horizonte Distante – Rosa de Saron

    Dando continuidade as análises da discografia do Rosa de Saron, hoje, resenho um dos melhores trabalhos da banda, o disco Horizonte Distante. Lançado em 2009, é o primeiro trabalho da banda pela Som Livre, uma das maiores gravadoras do Brasil. Após dois anos dedicados ao acústico de comemoração de seus 20 anos, o Rosa apresenta seu quinto álbum de estúdio. As 13 faixas conceituais e bem estruturadas fez com que o disco atingisse a marca de 100 mil cópias vendidas. Muitos fãs da banda consideram este, o seu melhor trabalho de estúdio. Dividi minha análise em três critérios importantes dentro do disco que são composições, arranjos e interpretação.


    Composições

    Guilherme de Sá (vocalista)

    O disco inicia com O Sol da Meia Noite, letra de Guilherme de Sá e que traz um lado poético e profético muito bacana. A música é esperançosa, assim como todo o disco. O compositor carrega uma frase consigo que diz “o Horizonte pode estar distante, mas Ele existe”. Facetas poéticas pra lá de intrigantes, Menos de um Segundo vem em seguida, agora com a temática morte/eternidade, contando, de forma simples, a dura realidade do sofrimento de quem perdeu um ente querido. O que mais me atrai na banda, além do instrumental, é a forma de composição do Guilherme feita sempre na primeira pessoa. O compositor volta a escrever sozinho na quinta faixa chamada Mais que um Mero Poema que é um protesto contra a hipocrisia do país e de como a juventude vai se perdendo em seus vícios. Na sétima faixa, a minha favorita do disco, Sobre Marés & Angra que, segundo o autor, foi inspirada em uma história real na praia. É uma canção bem particular e conflituosa com as escolhas que tomamos. Um trecho bem marcante é a pequena parte do refrão que diz “eu me perdi num abismo infinito”. Quantas vezes não nos perdemos em infinidades de razões? Entre Aspas é uma música autobiográfica de vida com banda que viaja quase todos os dias para fazer shows. Os integrantes disseram no DVD Rosa na Estrada – Especial Rede Século XXI que o Rosa de Saron é um instrumento de missão. Então, eles não só fazem música, mas passam a mensagem da cruz por elas. Meu Lugar é outra bela canção que quase todas as vezes que dou play, sinto uma imensa vontade de chorar. Primeiro: pois diz muito do que sou – um jovem que tem poucos amigos e a maior parte do tempo fica no quarto escrevendo, lendo e ouvindo música. Segundo: expressa um sentimento de liberdade bem profundo. E a última composição do Guilherme sozinho é Velhos Outonos, a qual, na verdade é uma poesia musicada. O refrão embala bem e arrepia: “vai ficar ou vai correr? Vai salvar ou esquecer? Eu só quero que me ame até o por do sol”.

    Considerações: eu sou muito suspeito para falar das composições do Guilherme. Sou muito fã do cara em todos os quesitos musicais. Ele de fato é uma grande referência para mim. Mas tentando deixar o lado fã de lado o elogio pelo sua espontaneidade de pôr o que ele vive de forma que se confunda com quem as ouve. É difícil fazer isso. Eu raramente consigo colocar meus conceitos de fé que creio sem que aquilo soe religioso e padronizado “gospel”. O Guilherme consegue e faz isso com uma naturalidade. Percebemos que ele não foge do cristianismo. Ele não tenta esconder que a banda é cristã e nem que ele não seja, pois isso é notório. Basta ouvir bem e ver o que se trata.


    Eduardo Faro (guitarrista)

    O Dudu tem uma forma de escrever muito única. O compositor é alguém único no meio artístico, isso é inquestionável. Neste disco ele não assina nenhuma música sozinho e para ser sincero, nem sei se a parte letrista tem uma pitada dele. Mas vamos lá: Folhas do Chão (parceria com o Guilherme de Sá) mostra o mesmo lado de escolhas que o “Sobre Marés & Angra”, a diferença é que aqui, é perceptível o lado de peregrino. Ou melhor, o lado de que o homem precisa rever seus conceitos, policiar-se e encontrar-se em Deus. Na Chuva ao Fim da Tarde é um rock bem empolgante e não tem como vibrar com o refrão “não tenho tempo pra fingir, não tenho tempo pra ficar aqui pois sei que nessa noite vai me iluminar”. Mesma Brisa, outra parceria com Guilherme, é uma canção que expressa o sentimento de adorador. A entrega, o desafio, o desejo de servir e pagar qualquer preço pelo evangelho.

    Considerações: o Eduardo é um bom letrista e a maioria de suas composições ficarão eternizadas na vida dos Rosarianos. Neste disco ele pôs a dosagem certa que o trabalho pediu. Acredito que essa era a vibe da banda.


    Rogério Feltrin (baixista)

    O Lerão, apelido carinhoso dado ao Rogério, assim como o Eduardo, não compôs nenhuma canção do disco sozinho, mas rendeu muitas canções boas, o melhor, as melhores desse álbum tem uma pitada dele. A forma como o Feltrin compõe também é bem devocional. Começando por Um Novo Adeus, música que ele começou e o Guilherme terminou, fala do sentimento de saudade que os músicos sentem de suas famílias e do pouco tempo que passam com elas e logo tem que dizer adeus outra vez. Considero esta uma das melhores do disco. Me marcou muito no último ano do ensino médio. Apresentei ela a uma amiga e ela viciou também. Invisível é outra parceria com o vocalista, e reflete a realidade daqueles que não tem voz ou ao menos de nós cristãos, os quais, muitas das vezes queremos pregar o evangelho e as pessoas não param para ouvir. A freneticidade em que as coisas andam fazem com que tenhamos uma certa tristeza, mas lembramos da Luz maior. Esta é a Luz que nos possibilitou ser luz e assim somos incentivados a “crer que alguém pode escutar”. Por isso, é uma música muito, muito, muito boa mesmo! Ela ficou muito melhor ao vivo no DVD Horizonte Vivo Distante. Minha Triste Imperfeição foi uma das faixas de trabalho do disco e parceria do Rogério com Alex Alva. A parte devocional/poética do Rogério é muito agradável. Acredito que como líder da banda ele se propõe em colocar toda a sua verdade na letra, e dá muita certo. Além do mais, é uma letra que o Guilherme de Sá soube interpretar muito bem!

    Considerações: as três músicas que o Rogério Feltrin assinou são muito bem estruturadas em termo de letra. São canções que refletem o lado humano em relação a Deus. Sem dúvidas, todas elas merecem destaques e a banda também por ter três bons compositores.


    Arranjos

    Esse álbum é digno de elogios pela versatilidade dos instrumentos a cada faixa. O som lembra muito o rock britânico, e o conjunto da obra foi bem pensado.


    Interpretação

    O Guilherme, como sempre, mostrou todo o seu talento e técnica vocal nesse disco. Assim como os outros integrantes, o vocalista fez sua parte e conduziu muito bem o disco a ser o que ele é: um dos melhores de 2009. Assim encerro a analise dizendo que este disco já ficou na história não só da música cristã mas do Brasil por ser um disco sólido, temático e contagiante!

  • Análise: DVD IDE – Thalles

    ID3, de Thalles, foi considerado pela equipe do O Propagador como um dos melhores álbuns de 2014. Registrado em CD e DVD, foi gravado ao vivo em 30 de maio, na Igreja Bola de Neve de São Paulo-SP. Sua versão audiovisual contém 21 faixas, estando 14 delas presentes no CD homônimo.

    O registro em vídeo contém 21 faixas, estando 14 delas presentes no CD homônimo. O projeto ID3 conta com a direção artística de Daniel Silveira, direção de áudio do próprio Thalles Roberto e Eduardo Levy e Marcelo Paiva como diretores de vídeo.

    O trabalho é aberto com Hoje sou pai e entendo, uma música inusitada para se iniciar um álbum, mas que acabou tendo um resultado bacana com a apresentação da família do cantor no palco e uma dramatização com atores do grande grupo cristão de teatro, o Jeová Nissi, encenando a via crucis e fazendo um belo link com a faixa seguinte, Como Agradecer. A canção é bastante simples, mas combinada com uma fotografia de tirar o fôlego e uma interpretação cativante, que levou a boas doses de emoção, se torna um dos pontos altos do DVD.

    E era assim que tava eu inicia a fase #Pressão de Thalles no projeto. Com uma letra de mudança de vida, característica do cantor, a música tem bela participação do back vocal e cumpre bem o seu papel de levantar o público.

    Deus vai cuidar de Mim, presente apenas no DVD, faz dupla com a regravação de Deus sabe o que é melhor pra mim, compartilhando a mesma temática. Essa última, conta com a bela participação do Coral Soul Livre, mas em se tratando de uma canção já gravada anteriormente e sucesso na voz de Mariana Valadão, a música poderia estar apenas no DVD, abrindo espaço para uma faixa inédita no CD principal.

    Se liga no Groove é a boa faixa com temática política e social. Como 2014 foi ano de Eleições e Copa do Mundo de Futebol, o assunto estava em alta. A música tem merecido destaque no DVD, tanto pela interpretação no mínimo empolgada do cantor quanto pelas belas imagens que gerou em vídeo.

    Quem é você?, música que o cantor tem trabalhado como single é um espetáculo a parte. Com os painéis de LED mostrando o frenesi urbano, bailarinos mascarados no palco e trajando figurinos que retratam a oposição entre o bem e o mal dentro de cada pessoa, coreografia marcante e uma interpretação vigorosa do cantor, a música tem merecido destaque. Vale também informar a participação de Paulinho da banda Jota Quest na bateria.

    Prazer, eu to feliz é a 8ª faixa do DVD, mas é a música de encerramento do CD, posição que, pela pegada, combina mais com ela. É uma boa música, mas sem grande apelo visual no trabalho de vídeo.

    É a Presença é mais um dos grandes momentos do projeto. Iniciando com um pequeno testemunho sobre a relação do cantor e sua família com a Igreja Assembléia de Deus, a canção é uma homenagem à denominação centenária e berço do pentecostalismo no Brasil. Sendo uma das músicas de maior apelo popular do trabalho, a faixa poderia (deveria, eu digo) ser trabalhada como single. É um hit em potencial. É aquela música de igreja, em que Thalles novamente divide o protagonismo com o Coral Soul Livre e coloca seu swing em flerte com a música pentecostal das décadas passadas.

    A partir daí, o show entra em um momento mais calmo e intimista, além de um tanto longo para os padrões dos trabalhos anteriores de Thalles Roberto.

    Uma das músicas mais esperadas da gravação, Quero sua vida em mim já tinha ganhado um lyric vídeo e contava com a participação especial do cantor de funk Naldo Benny, cuja história de conversão era um dos assuntos preferidos da imprensa especializada em celebridades. No DVD, a faixa não apresenta nada de novo, mas vale destaque pela interação entre os cantores.

    Seguindo a linha dos testemunhos, a música Dá-me um coração segundo o seu coração do mineiro Edvaldo Santos é introduzida por um vídeo com testemunho dramatizado do jovem compositor que faz dueto com Thalles na faixa. É uma música bastante simples, mas cumpre seu papel e ganha maior significado quando associada às condições em que foi composta.

    Finalizando as participações especiais no solo, temos Que amor é esse? que conta com a participação de Delino Marçal. Bela música e que, dado o tema e a vibe, teria feito uma bela dupla com “Como Agradecer”. Para deixar a música mais atraente, uma editada teria sido uma ótima opção, deixado-a um pouco mais curta na casa dos 4 minutos. Aliás, esse é um problema meio recorrente no projeto: boas músicas, mas que ficam meio longas e um tanto arrastadas, como Tempestade e Espírito Santo. Essa última é uma bela música intimista e que ainda merece elogios pela bela participação dos violinos.

    O que será que Deus está fazendo agora, Faz Chover e Avenida do Arrependimento, caminho da cruz, com sua iluminação vermelha, estão apenas no DVD. São boas canções, mesmo que aparentemente sem maiores pretensões. Valem destaque mesmo graças às belíssimas imagens que renderam no vídeo.

    Zion, possivelmente, seria uma boa opção para estar no CD principal. Com uma letra que é a cara do Thalles, a música pareceu agradar em cheio o público presente na gravação.

    Sem o Seu amor é indicada como a 19ª faixa no encarte e contracapa do DVD, mas quem vem é Pai, eu quero te obedecer, música que tem boa letra, mas não acrescenta muito ao trabalho musicalmente.

    Tempos bons é uma homenagem àqueles entes queridos falecidos. Enquanto canta sobre boas lembranças, os painéis de LED mostram fotos de pessoas que partiram. É um momento bonito, mas que fica meio deslocado do restante do trabalho. Poderia estar nos extras.

    Encerrando o DVD, os anos 1970 e a veia Motown, que aparecem sutilmente em alguns momentos, chegam com tudo e cheios de fumaça em Cê quer saber?, que também conta com a participação de Paulinho na bateria. Os looks, o globo espelhado, o breakdance e toda a áurea disco rendem belas imagens. Embora “Prazer, eu to feliz” pareça ser uma melhor opção musical, foi um bom encerramento visual para um projeto primoroso nesse sentido.

    ID3 é uma SUPER PRODUÇÃO, assim em caps lock mesmo. Um belo local de gravação, um palco espaçoso que se estende no meio da platéia em um grande número “3” por onde o cantor interage com os presentes, 12 figurinos diferentes do cantor principal, 1 grupo de teatro, 1 coral, 3 cantores convidados e alguns dos melhores músicos da atualidade juntos. A Iluminação e cenográfica são soberbamente impecáveis. É um trabalho que faz bem aos olhos. Cada imagem do DVD parece ter sido cuidadosamente selecionada. Nada está fora do lugar. No que diz respeito à questão visual, é um dos melhores trabalhos lançados na música gospel nacional.

    O principal defeito do projeto é a falta de músicas com força de hit. O que sobrou em álbuns como o Na Sala do Pai e Uma História Escrita pelo Dedo de Deus, que foi a grande concentração de hits por “minuto quadrado”, o “ID3” é cheio de músicas boas e medianas, mas faltam aquelas com cara de sucesso. As que melhor se qualificam para esse papel é “Quem é você” e “É a Presença”, sendo essa ainda pouco explorada.

    Vale citar ainda alguns erros gráficos. No encarte e contracapa do DVD as músicas “Se Liga no Groove” e “Deus sabe o que é melhor pra mim” estão invertidas, ocupando a 5ª e a 6ª faixas, respectivamente. A 19ª faixa indicada se chama “Sem o Seu Amor”, mas essa música não se encontra no DVD. São erros Pequenos, mas que não passam desapercebidos.

    Concluindo, ID3 é um projeto muito bom tecnicamente, mas meio morno em vários momentos. Thalles aparece mais maduro e faz um trabalho milimetricamente planejado, mas que não empolga de todo.

    Para quem está no grupo que acha o cantor exagerado, o ID3 pode ser uma boa opção de ver um Thalles mais comedido. Por outro lado, os fãs da #Pressão e das músicas dançantes podem se desapontar um pouco.

  • Análise: CD Abençoado – Sérgio Marques e Marquinhos

    Lançado em meados de 2014, o mais recente projeto da dupla mineira Sérgio Marques e Marquinhos pela MK Music, Abençoado, está entre os 10 melhores álbuns de 2014 eleitos pela equipe do O Propagador e não por acaso. O CD possui todas as características que se busca em um álbum pentecostal e tudo isso apresentado em apenas dez canções.

    Vale enfatizar que quando digo “apenas”, não quero dizer que sejam poucas, mas que segue uma tendência diferenciada, já que antes, boa parte dos CDs lançados tinham no mínimo doze faixas. No caso em questão do novo trabalho da dupla Sérgio Marques e Marquinhos, o número reduzido de 10 faixas se deve principalmente à nova política adotada pela gravadora MK Music de limitar a esse número a quantidade de faixas dos álbuns da maioria dos artistas de seu cast, com pouquíssimas exceções. Tal medida considerada radical e temerária por alguns, vem provando estar dando certo, pelo menos é o que nos dá a entender ao ouvir Abençoado. Basta ouvir o projeto anterior da dupla, Boas notícias, e comparar com o novo. A evolução é notável. Claro que o número de faixas não é o fator decisivo na avaliação da qualidade de um CD, mas o que se percebe é que com menos faixas disponíveis, maior é a preocupação em selecionar as composições certas. E isso é ótimo!

    Outro ponto a ser mencionado ainda em comparação ao disco anterior da dupla é em relação à sonoridade. Sérgio Marques e Marquinhos vem de uma longeva carreira trilhada dentro do sertanejo, passeando pelo raiz ao universitário. O álbum Boas Notícias representa uma transição entre o sertanejo de raiz, mais tradicional com o pentecostal, com uma mescla notável do até então popular sertanejo universitário. Abençoado no entanto, representa um grande amadurecimento da dupla que embarca de vez na música pentecostal e em grande estilo.

    A canção de abertura e também single do projeto, Olaria de Deus vem mostrar essa nova fase da dupla. Canção forte, com uma batida que mexe com o ouvinte, aliada ao refrão de peso e arranjos bem elaborados a tornam uma das melhores canções do álbum e vem chamando a atenção do público tanto nas rádios quanto no YouTube. A composição de George de Paula versa sobre a visão de Jeremias, que compara Deus ao oleiro e nós o barro que precisa ser moldado por Ele.

    Em seguida temos a tão boa quanto Deus Incrível, composição de Douglas Alves. Como bom assembleiano, posso dizer que consigo identificar apenas de ouvir uma vez uma música que tem tudo pra cair na boca dos grupos de jovens e essa com certeza é uma. União de letra, arranjos, backing vocals e claro uma interpretação arrojada da dupla a coloca facilmente na disputa pelo título de melhor do disco e até melhor música pentecostal do ano.

    Vai Ficar Tudo Bem, composição de Anderson Freire, vem com uma pegada mais leve que as anteriores, mas não deixa de ter seu brilho. Vale salientar que a canção foi gravada anteriormente pela cantora Célia Sakamoto em 2012 inclusive dando título ao álbum e coincidentemente, a produção musical também foi assinada pelo maestro Melk Carvalhedo. No trabalho de Sérgio Marques e Marquinhos a canção ganhou nova roupagem, tanto nos arranjos, quanto à interpretação.

    Abençoado, tema do álbum, é a primeira composição da dupla no CD e aqui Sérgio Marques e Marquinhos traz a essência do sertanejo, coma pegada forte do forró. Resumindo, uma das canções mais animadas do disco e não apenas no ritmo, mas também na letra que tem esse objetivo mesmo, animar aquele que por algum motivo começou o dia “com o pé esquerdo”.

    Sistema de Comunicação, composição de Dill (Os Nazireus) faz uso da metáfora para cantar sobre a oração na vida do crente. Destaque para a ponte da faixa, principalmente pelo peso trazido pelo backing vocal. Apesar de no conjunto da obra o resultado ser mediano, merece destaque pela letra que traz uma forma criativa de falar sobre a importância de se comunicar com Deus através da oração.

    A faixa seguinte é Resposta de Deus, de autoria da dupla. Uma bela canção reflexiva com uma introdução leve com poucas cordas e ganha um brilho extra pela forte presença do violino. Com participação de Léa Mendonça, versa sobre a divergência entre os nossos planos e os planos de Deus e como às vezes queremos ditar pra Deus o que Ele deve fazer quando na verdade temos que confiar que os planos dEle são melhores que os nossos.

    Provavelmente a faixa seguinte, Pode Sonhar seja a que mais se aproxima dos trabalhos anteriores da dupla. Um sertanejo moderno, é composição de Mineirinho Adimilson e de certa forma, complementa a mensagem trazida pela faixa anterior, afirmando que não há problema em sonhar, mas tudo tem um tempo para acontecer, apesar de o presente parecer difícil, Deus está preparando o terreno para a vitória que irá entregar.

    Em seguida temos Já era, uma canção à lá grandes nomes do sertanejo secular em termos de sonoridade. A letra, no entanto é bastante cristã e funciona como um testemunho cantado. De autoria da dupla, tem seu ápice no refrão: “Sempre que eu quiser falar com Deus / contar a Ele os sofrimentos meus / Ele estará disponível, é incrível o meu Deus / Ele ouve a minha oração / responde com exata precisão / Ele apaga o meu passado e põe um fim na solidão“. Sem dúvida a melhor canção de autoria da dupla no álbum.

    Chegando ao fim do disco, temos a penúltima faixa, Entregue pra Deus, de autoria de Nilton Cezar. Apesar da letra ser bem comum neste tipo de música, a produção consegue fazer um bom trabalho com arranjos diferentes para as repetições e mesmo com trechos mais repetitivos a música não deixa a desejar.

    Por fim, pra fechar o álbum, temos A Virada, assinada pela dupla. Uma canção bem versátil com direito a riffs de guitarra, passeando pelo country. Letra pra cima, a dupla trata de forma divertida sobre os problemas do cotidiano, declarando que a vida vai ter uma virada, o encerrando assim em grande estilo.

    Ao fim desta análise, concluo que Sérgio Marques e Marquinhos conseguiram fazer um projeto de alto nível. Canções escolhidas a dedo e que trouxeram uma nova direção para a dupla e espero que sigam neste caminho predominantemente pentecostal, fazendo um diálogo com o sertanejo, já que temos uma certa carência de vozes masculinas neste estilo, por muito tempo dominado pelas grandes cantoras pentecostais.

    Apesar de ter sido lançado ano passado, Abençoado ainda tem muita lenha pra queimar e tem tudo pra fazer sucesso nas igrejas pentecostais em todo o Brasil como já vem acontecendo. Não posso deixar de creditar ao maestro Melk Carvalhêdo o mérito de produzir um CD como este em que Sérgio Marques e Marquinhos nos entregou. Se você ainda não conferiu este projeto, está na hora de adquirir. Você pode ouvir online gratuitamente através do Spotify, ou para adquirir no iTunes, clique aqui. Eu já garanti o meu e claro, o playback também! #Abençoado

  • Análise: CD Ainda Existe Uma Cruz – Diante do Trono

    Quando o ouvimos o oitavo CD do Diante do Trono, Ainda Existe uma Cruz de forma rasa e bem superficial, atentamos a poesia das composições, e nos deixamos ser embalados por melodias atrativas e coesas. O CD que o antecede, é o Esperança. Um disco que se canta sobre o ser humano colocado na sua forma mais indefesa. Mas a fragilidade não podia ser o único fator exposto.

    O trabalho tem dois pólos. Ambíguo. É algo que vai da criação, vida benevolência até o pecado, erro, mortalidade. A variação é enorme até mesmo numa mesma religião. Mas o seu princípio é a afronta direta a Teologia da Prosperidade (assunto que a Ana só veio falar abertamente no X Congresso de Louvor e Adoração, e, claramente se pôs contra).

    As referências bíblicas são diversas. Isaías 40, Salmos 40, Salmos 24, Romanos 11, 2 Samuel 7, Lucas 9… e demais. O disco começa nos ensinando a partir daí: O fato dela não querer fincar suas músicas em detrimento de outras que ela não compôs já mostra que pra ela, o que importa é o resultado final, não o nome na descrição. No fim, o importante são exemplos como esse: é uma pedrinha jogada no lago, mas pode ter certeza que as ondas produzidas vão chamar atenção numa margem distante. O trabalho como um todo serviu para despertar a igreja, ainda que aos poucos.

    O que torna tudo mais visível é o teor de regresso das composições. As músicas “cospem” e cobram aquilo o que a igreja não está(va) vivendo. Em razão disso, sem pudores, chamaram-na de louca. Mas o precedente foi ABERTO.

    Indo mais o fundo, o ministério nos elaborou uma grande metáfora a respeito do quebrantamento. O grande segredo do Ainda Existe uma Cruz, é que, de uma forma bem minuciosa, nos mostra que o cristianismo, atualmente, NÃO aprende e NÃO evolui. E sinto uma pena que a religião que se baseia na fé em algo tão perfeito, pode ser tão, mas TÃO limitada aos próprios dogmas, e tal falta de entendimento de algo que, se compreendido, poderia dar uma força maior a sua instituição.

    Digo que não aprende, pois foi preciso ela ser tachado de louca, por criar um disco com nuances de uma estrutura tão simples quanto efetiva. O cru do evangelho. Aquilo que muitos tinham se esquecido. Porque a complexidade do disco está nos arcos de histórias – subjetivo até. Mesmo que o público (tanto os que estiveram na gravação, e os que compraram o CD) não tenha consciência disso tudo, o disco continua sendo um excelente thriller, justamente por ser óbvio demais.

    Com tanto conteúdo e interação artística, o DT8 acaba sendo uma pia ENORME e com MUITA LOUÇA SUJA que muitos até hoje não tiveram a disposição de lavar. Talvez se deslumbrem facilmente com a Ana no palco, e se satisfazem com o superficial do disco. Aquilo que está fácil de mastigar, ainda que bonito. Estamos longe de atingir o conhecimento sobre luas, divagações, saraus, compilações, expedições, trocas entre outras coisas que só conheçamos de nome. Mas a mensagem do disco é clara, e ainda é válida nos dias de hoje, até mesmo em seu próprio título. O CD é um amontoado de fatos, e quanto mais rápido a pessoa lidar, melhor.

    Veja também: Guia discográfico do Diante do Trono

  • Análise: CD Vai Tudo Bem – Lydia Moisés

    Lydia Moisés ficou conhecida nacionalmente através do seu trabalho no conjunto Voz da Verdade, atualmente, segue em carreira solo. Desde o primeiro CD solo até este, é perceptível uma mudança no estilo de Lydia, conhecida por seus whisles (registro de apito), para o pentecostal, e isso se deve a frequência da mesma nas Assembleias de Deus, onde realiza suas agendas, logo, ela teve que se adaptar ao “novo” público.

    O novo álbum Vai Tudo Bem, foi lançado em 2014 com produção musical de Ronny Barboza, responsável por CD’s de sucessos como o álbum Na Tua Vontade da cantora Vanilda Bordieri, tendo uma boa aceitação pelo meio evangélico. O disco conta com 11 faixas e uma com a participação de Paulo Zuckini (Coral Kemuel) na faixa “A Beira do Tanque”.

    Fortalezas de Adoração é uma boa canção para abrir o CD! Temos aqui um bom pentecostal, a letra fala sobre a história de Neemias que reconstruiu os muros de Jerusalém e que nos dias de hoje devemos estar prontos para reconstruir a fé, a santidade e a adoração ao verdadeiro Deus. Esta música foi composta pelo autor, especialmente a pedido da Lydia. A faixa conta com bons arranjos e o back vocal fez toda a diferença, principalmente, por ser composto só por homens. Uma das melhores do álbum. Além disso, é uma ótima escolha para conjuntos de jovens – fica a dica, regentes.

    A faixa Vai Tudo Bem, que leva o título do CD, foi composta pela mãe da Lydia, a pastora Rita de Cassia Moisés, apesar de fugir do estilo pentecostal, esta canção tem tudo para se tornar a oração de muitos cristãos, a letra fala sobre aquele momento cheio de dificuldades, onde nada dá certo e quando somos questionados se está tudo bem, dizemos justamente o contrário, falando que vai tudo bem.

    Instrumento de Deus foi uma ótima escolha de single! Cantada em primeira pessoa, a música de trabalho nos lembra que em todo o tempo a Glória é de Deus e nós somos apenas os instrumentos. A letra totalmente cristocêntrica, destaca que toda honra que existir e toda glória que houver, é somente do Senhor. Com uma boa desenvoltura, podemos até ouvir um dos famosos “whisles” da cantora no final da canção. Mais uma canção indicada para conjuntos!

    Assim como “Instrumento de Deus”, A Beira do Tanque faixa também é assinada pela dupla de compositores do momento, responsável por sucessos como “Eu não Abro Mão”, de Bruna Karla”, “Não Vou me Calar”, de Cassiane e “A Volta por Cima”, de Flordelis. A canção é um dueto entre Lydia e Paulo Zuckini. Segundo Lydia, essa música ficou nas mãos dele, ela somente pediu o tom. A música tem uma pegada mais eletrônica e a voz de Zuckini só abrilhantou a faixa. Tenho certeza que fará sucesso entre os mais jovens.

    Creio que Deus de Elias entre direto para a lista das melhores do álbum, porque ela tem os elementos principais para ser hit nas igrejas. Com uma boa letra, seguida de uma melodia que fica na cabeça e um back vocal que ganha força de acordo com os arranjos de Ronny, essa merece destaque. É mais uma boa canção para conjuntos, seja para o grupo de senhoras ou dos jovens. Ela conta a história de Elias que desafiou os profetas de Baal, eram quatrocentos e cinquenta contra um e eles clamaram ao deus de Baal, porém não foram ouvidos, pois o deus de barro não faz sobrenatural, mas quando chegou a vez de Elias adorar o céu se abriu e diante de todos os profetas, Deus mandou fogo do céu, e o holocausto foi consumido.

    Além de cantoras, a dupla composta pelas irmãs, Gislaine e Mylena, são compositoras, donas de sucessos como “Santificação”, de Elaine Martins” e “Eternamente Adorador”, de Lauriete, a dupla também assina esta canção. Injeção de Fé é bem reflexiva e destaca que mesmo quando chegamos no nosso limite e não suportamos mais as situações que nos cercam, Deus é o doutor que vai nos aplicar uma injeção para nos fortalecer e levantar mesmo nos momentos mais difíceis. Destaque para a ponte no final, ficou top esse “Receba a cura, receba a cura, receba agora”.

    Em Nunca Pare de Lutar Lydia nos apresenta uma nova versão desta canção bem conhecida na voz da pastora Ludmila Ferber. O arranjo e melodia sofreram alterações, mas nada disso comprometeu a desenvoltura de Lydia na música. Ela pediu autorização para a própria pastora para poder gravar a canção em seu disco, pois ela marcou muito a vida de Lydia, principalmente, quando sofreu um acidente. Ela contou sua história e Ludmila liberou a música. A letra é cheia de perguntas e no refrão vem a resposta para todas elas, com muita autoridade, Lydia nos passa a mensagem de que em tempos de guerra nunca devemos de parar de lutar e adorar.

    Com uma letra linda, Adorado És destaca que Deus é santo, exaltado, magnificado, maravilhoso, príncipe da paz, conselheiro, rei dos reis e que para sempre será adorado. A letra ressalta em todo momento a grandeza de Deus e do seu poder. Belíssima faixa.

    A voz de Deus é a terceira faixa composta pela dupla, isso que é sucesso! A letra fala sobre como é bom se prostrar diante de Deus para ouvir a sua voz que nos capacita e ensina a cada dia ver além do que vemos. O refrão é “grudento” e se você escutar, de repente vai se ver cantarolando. Lydia soube tomar a canção para si e deixou a mensagem bem nítida em sua voz, mostrando que somos dependentes da voz de Deus.

    Gostei da canção, mas não acho que Agora é minha vez seja uma das melhores do disco. A letra é boa, começa versando sobre os nossos irmãos perseguidos, presos em cavernas e jogados em arenas, mostrando que mesmo perdendo a vida, eles garantiram a salvação e conquistaram o céu, depois a letra fala que o tempo passou e o evangelho continuou se expandindo e a igreja sobrevive firmada em Deus, e que a obra não pode parar, pois levar o evangelho é nossa missão. A introdução do trecho ‘Mensagem da cruz’ da Harpa Cristã levantou o hino. Porém, os arranjos poderiam ter sido mais explorados e a canção poderia ter ido para um outro lado, numa vibe pentecostal.

    Me ensina encerra o álbum com maestria, poderia ter sido mais um clichê, mas Lydia soube dar um brilho que só ela tem para a canção. A letra é uma verdadeira oração e tem que ter muita coragem para cantar, me lembrou do tempo da Lydia no Voz da Verdade.

    Com esse disco, Lydia mostrou que conseguiu seu espaço no meio gospel em pouco tempo de carreira e que achou o seu estilo, para quem estava saudoso de bons pentecostais com uma vibe congregacional, vale a pena escutar!

  • Análise: DVD Tu Reinas – Diante do Trono

    2013 foi um ano crucial para o grupo mineiro Diante do Trono. Tu Reinas, seu 16º trabalho, encontrou grandes dificuldades não somente para entrar no mercado, como também em ser um resgate à boa forma da banda. Ser contundente.

    A direção do DVD é assinada por Alex Passos, e conta com um documentário mesclado em culto de 70 minutos, que é dividido em atos. Entrevistas e pequenos relatos com os moradores de cada comunidade visitada. O áudio 5.1 nos coloca no epicentro da ação em todos os minutos, desde o silêncio de uma faixa a outra, ao caos do ápice de algumas ministrações. Há um ligeiro desapontamento na seção dos extras que acabam formando a parte menos nobre do projeto, não pela qualidade ou interesse dos mesmos, mas porque nos deixam sedentos de mais – em um teaser do Tetelestai, próximo projeto da banda, já gravado em Israel.

    O DVD Tu Reinas tem alguns grandes destaques que valem a pena discorrer. Em uma decoração rústica, o medley de duas músicas – “Vestes de Louvor/Isaías 40” – foi uma grande sacada para ser usado como abertura. Diante de um vocal reduzido, a banda explora divisões simples a três vozes, nada muito complexo. Após a interlude sobre a chegada à Comunidade Quilombola da Fonseca, na cidade de Manaíra em Paraíba, criou-se um clima semiacústico para a música tema do CD. O espontâneo é intimista e curto, dando corte para “Santo” em que a presença do cantor Juliano Son, fazendo dueto com a Ana Paula, reforçou a ideia de que o Diante do Trono não estava sozinho nessa missão. Quase no final da faixa “Exaltado” temos o backing fazendo a cama harmônica para a melodia principal, terminando com um diminuendo e sem conclusão, dando um gostinho de “quero mais”. O maior destaque do DVD Tu Reinas, no entanto, está no caminho para Petrolina (PE) em que já é perceptível uma coesão brilhante no contraste: água. O palco para o momento foram as águas do Rio São Francisco, e nesse ato as temáticas da música não poderiam ser diferentes. Ainda que os novos arranjos tenham ficado muito longe de ser o ideal para cada música, deixando o texto sem peso, caindo num padrão quaternário, não tirou o brilho das respostas inseridas. O destaque fica com “Manancial”. É uma daquelas interpretações one in a lifetime onde a Ana Paula acabou fazendo toda a afetação da música trabalhar a favor da mensagem com uma interpretação comedida, pontual, acertada e genuína. Em “Águas Purificadoras”, mesmo com seu novo arranjo se assemelhando em estilo, intenção e dinâmica dentro as outras faixas, ganhou uma extensão para um espontâneo avivado e incisivo. No último ato do DVD, em Juazeiro do Norte, reunindo 30 mil pessoas, a banda subiu num palco stepback com direito a uma casa de taipa, cortinas, um poço artesiano e uma janela bem convidativa. Com uma dancinha tímida, Ana Paula entrou no palco cantando a festiva “Só o Senhor é Deus”. Em um arranjo mais reto, a música “Brasil”, com a participação de André Valadão e Mariana Valadão, teve a divisão vocal feita com intervalos de segunda causou uma excelente dissonância e a dinâmica do instrumental ficou impagável, finalizando com “Deus do Recomeço”.

    No âmbito sonoro, visando em gravar canções mais acessíveis para as igrejas, eles abdicaram de uma sensibilidade musical por uma objetividade rasa. A banda não quis peitar o ostracismo, não se inseriu de forma autônoma. O ponto positivo do Tu Reinas, entretanto, que acaba se tornando a moeda de duas coroas, está no local da gravação. A intenção do projeto em ser gravado no Sertão Nordestino, fazendo com que os olhos se voltem para esta região é louvável. Nós, consumistas do produto, confortáveis com tudo ao dispor não vamos conseguir mensurar a importância das gravações, pois não nos afeta de uma forma direta. Nós não sabemos o que é NÃO ter as nossas necessidades atendidas. É um projeto de contestação, lamúrias, de quebra e de vazio, com mensagens contra alianças espúrias, algo puramente pragmático e até bem intencionado.

    Deslizes aconteceram. Como se a Ana Paula Valadão quisesse puxar a corda do conceito oposto ao de sutileza até ver onde rompia e acabou rompendo. Acontece. Alegando sinceridade, alguns dirão que a banda fez em busca do emocionalismo. Mas essa é uma falácia que joga com uma pesada de fatores e retira o contexto do produto. Estamos nos referindo a um trabalho técnico com uma ação afirmativa de mão-de-obra talentosa, que alçou um voo muito maior do que em músicas. Um exemplo coeso da sinergia visual. Começa e termina com faixas que falham miseravelmente em agradar os saudosistas da orquestra que não apenas não se adequam, como fazem questão de lutar contra mudanças que vão ocorrer quer eles queiram, quer não. O Diante do Trono, com o seu novo DVD, ainda quer ser cáustico e mordaz, ainda quer tocar e ferir, porém despido de excessos. Assista de novo.