Análise: CD Tetelestai – Diante do Trono

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Imagine o ano de 1998.

Um tempo em que para se escutar uma música era preciso apenas dar play. Diante do Trono surgiu aí. Foi tão influente no Brasil, que nós nem percebemos como foi único. Não dói nada admitir. Pessoas talentosas ancoradas em uma visão a qual puderam expressar sua voz, soterrando, questionando e excedendo níveis (seja para o bem ou para o mal). Sou do público que viu versatilidade em uma era polarizada do grupo, mais acentuada no aguado Nos Braços do Pai (2002), até o tarimbado Ainda Existe uma Cruz (2005). Mas, nos últimos três anos, o imbatível nome começou a soar como uma banda que estava constantemente tentando, agravando um leve declínio, que até o mais cínico deve reconhecer: aconteceu desde o mafuá Sol da Justiça (2011). Não temos acesso a logística do grupo, o público pode até decidir o que sentir sobre esse mapa mental, mas o grande ministério de louvor passou por visíveis apuros.

Embora minhas preferências religiosas vão para outros rincões, o Tetelestai (17º CD) pode ser considerado como um acerto – em termos. O disco, gravado em Jerusalém (2014) parte da premissa “está consumado”, do livro de João 19:30.  O projeto é elétrico (O Espírito e a Noiva, sendo regravação do impecável Águas Purificadoras) e ao mesmo tempo ponderado (À Sombra do Altíssimo, regravação do mesmo). Como abertura, o Medley Israel até equivale a uma viagem de trem: proporciona um belo passeio, um grande espetáculo visual, confortável, mas no fim você vai querer um veículo que cumpra o mesmo trajeto de uma forma mais rápida e eficiente. Já as faixas Ressuscitou e Eu Sou as quais, mesmo derrapando em reducionismos e elipses literárias, demonstraram serem partes de um projeto inteligente com certo grau de inventividade na qualidade pedestre das letras.

O momento soturno do disco fica por conta de Ó, Jerusalém. Uma deselegância anafórica que não passa de uma fachada em tons pastéis. Seu Nome, juntamente com os demais 3 (três) espontâneos se enquadram no campo de faixas anticlimáticas que, de alguma forma, tentam evocar um momento de sensibilidade, mas falham, se saindo assim, como de um truque só.

Em contrapartida, fica por conta da canção-tema, Tetelestai, o ponto elegante e palavra-chave contundente do projeto. O que acontece também em Aleluia, Maranata, que apesar de ter uma crescente idêntica a With Everything do Hillsong United (coincidência?), é de se admirar que tenha resvalado em uma linguagem clara algo que ainda tem de muito orgânico no Diante do Trono: uma melodia que te carregue.

Questionável por questionável, o disco te ganha. Um projeto cheio de hooks, com começo, meio e fim. Tudo se justifica. Mas não estamos sendo tolhidos a olhar por um viés mais crítico. Diante do Trono tem bagagem. Seja na astúcia do ‘‘não mexer em time que está ganhando’’ ou na simplicidade de ‘‘voltar ao básico para ser aplaudida por um público mais amplo”. Como por exemplo, no disco anterior, Tu Reinas (2014), em que a banda se torna uma paladina da justiça pra peixe pequeno. E convence.

Mas, infelizmente, não estamos mais em 1998. Tempos em que pra gostar das músicas você precisava apenas dar o play, e não ter um bloquinho de notas explicando palavra por palavra, música por música, ou referência por referência como se isso fosse melhorar a situação. Não melhora. Embora o Tetelestai seja audível, é limitado. Mas reitero: não é culpa do grupo mineiro.

A juventude dos tempos atuais garimpa o seu próprio conteúdo na internet, e molda aquilo que considera necessário aos seus ouvidos. Diante do Trono, que surgiu num grito lá em 1998, agora entendeu isso, e está se rendendo a uma limitação que corrobora com a teoria de que muita gente não está mais prestando atenção na música gospel ao dar play. Que não adianta dizer nada mais profundo, pois ninguém está ouvindo, ninguém está atento e ninguém vai entender. Prezo para que a situação possa ser revertida, mas nos últimos três anos, o grupo que excedia limites, se incluiu nesse grupo segregado do mercado gospel que está cada vez menor e menor, acreditando ser cada vez maior e maior.

Confira o guia discográfico do Diante do Trono

Comentários

One response to “Análise: CD Tetelestai – Diante do Trono”

  1. […] em Israel, Seu Nome é o segundo projeto audiovisual que faz parte do álbum Tetelestai, do Diante do Trono. Com uma letra cristocêntrica, o clipe contém belas imagens sobre a cidade, […]

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