Categoria: Análises

  • Análise: CD Acelera e Pisa – André e Felipe

    Gravado no festival Jesus Vida Verão na praia de Itapoã em Vila Velha, Espírito Santo, Acelera e Pisa é o sétimo álbum da dupla André e Felipe e o segundo CD gravado ao vivo.

    Lançado pela Sony Music, o álbum contém 17 faixas, sendo que a dupla conseguiu mesclar seus grandes sucessos com 7 faixas inéditas. Talvez, o maior ponto negativo deste trabalho seja o excesso de regravações, já que os irmãos também são compositores talentosos, logo isso poderia ter sido evitado. No entanto, para abrilhantar as participações, o disco contou com grandes nomes da música cristã contemporânea, como Anderson Freire, Damares, Daniela Araújo, DJ PV, Paulo César Baruk e Raquel Santoro, irmã dos cantores.

    A produção musical ficou a cargo de Jimmy Oliveira, que soube conduzir muito bem este trabalho dentro da proposta de estilo da dupla. Desde o álbum anterior, podemos perceber que André e Felipe estavam completamente dentro do gênero sertanejo universitário. Embora muitos admiradores do ministério dos irmãos acreditavam que ainda poderia vir algo com influências pentecostais nos trabalhos sucessos, infelizmente não ocorreu.

    A faixa-título, Acelera e Pisa, começa com uma pequena introdução lembrando o famigerado funk, logo depois entra a sanfona e a bateria acompanhadas dos outros instrumentos, e a canção segue outro caminho, indo de vez para o sertanejo. Em Fim do Deserto e É Milagre, as participações especiais de Anderson Freire e Damares, respectivamente, foram essenciais para o desenvolvimento do repertório que, até então, apresentava-se arrastado.

    O grande hit do quinto disco da dupla, Chuva de Poder, não ficou de fora do projeto, com uma ótima letra que até lembra canções pentecostais, a música apresenta um ritmo atraente para os adeptos do sertanejo universitário, com um refrão chiclete, chega muitas a lembrar músicas seculares. Há Esperança, vem mais calma se comparada com as anteriores e apesar de ter uma mensagem linda, parece aquele momento fraco que praticamente todos os álbuns tem. Como um bônus, Quem é Esse? encerra o disco com maestria, sendo a única canção gravada em estúdio, com uma letra forte e impactante conta com a participação de Daniela Araújo, cujos vocais foram um grande acerto para essa faixa.

    Portanto, para quem ainda tinha dúvidas, Acelera e Pisa veio para confirmar de vez o espaço garantido da dupla no cenário do sertanejo universitário.

  • Análise: CD Innocence & Instinct – RED

    Innocence & Instinct é o segundo trabalho da RED, composto por 10 músicas, tendo 4 faixas bônus. E eu começo falando delas: a primeira é uma introdução básica de piano que traz aquela tensão de filme de terror com uma mistura – razoável – de emoção ao ver alguém partir. Overtake You, em contrapartida, é um hardcore bem executado. Forever decai um pouco o peso da anterior, mas continua com aquele peso rediano. Uma mistura pop no refrão mostra de forma mais latente o lado básico do grupo, com guitarras limpas. Nothing and Everything é uma versão acústica e um pouco mais diferente de Fight Inside, que abre o disco. Confesso que ambas as versões são muito agradáveis. Death of Me vem em seguida, mostrando que o peso do álbum ainda vai ser mostrado e que a primeira faixa foi só um prelúdio do que a banda tem a oferecer. Um fator que considero muito interessante no RED é que no mesmo tempo em que eles parecem referenciar um aglomerado de outras bandas, eles não parecem com ninguém e acabam sendo simplesmente eles. É, de longe, o trabalho mais seguro do que eles são por essência.

    Carregada de referências hard rock, Mystery of You vem em seguida, oscilando o nível de agressividade do disco. Start Again suaviza mais ainda, abrindo espaço para a faixa seguinte, Never Be the Same, que começa com um dedilhado de violão e ganha peso mais na frente. O álbum segue uma linha melódica agradável. Diferente dos outros do gênero, Innocence & Instinct não tem a intenção de mostrar solos, guturais e nem fazer com que a galera pire numa roda punk. Em contrapartida, é muito mais enfático nas conduções melódicas, como um todo. É claro que há guturais como no final de Confession (What’s Inside My Head). Mas, em comparação ao seu primeiro trabalho, que já começa meio gritado e tem uma influência eletrônica bem presente, este projeto propõe novos caminhos, mostrando a essência do grupo. É possível ver a evolução dos integrantes em Shadows. A música tem uma pegada pulsante de baixo e refrão um tanto pegajoso. Ordinary World é um cover do Duran Duran com o arranjo todo modificado e a cara da banda sendo impressa.

    Out From Under resgata o lado eletrônico do grupo e os guturais. Uma coisa que certamente agrada é a oscilação vocal apresentada pelo vocalista, que passeia dentre agudos e guturais com proficiência. Take It All Away suaviza o álbum e o fecha com chave de ouro. A canção é acústica e desperta aquela essência trovadoresca com o arranjo de cordas e piano. É um disco claramente direto, e tem poucas faixas, se adequando completamente ao que foi proposto no projeto.

  • Análise: CD Janelas da Alma – Gisele Nascimento

    Gisele Nascimento é uma mezzo-soprano e dona de um timbre belíssimo. Conhecida pela voz calma e suave, a cantora vem ganhando muitos admiradores ao longo dos anos de seu ministério. Logo depois da parceria com sua irmã, Michelle Nascimento e seu primo, Wilian Nascimento no Trio Nascimento, cada um seguiu seu caminho indo trabalhar em seus próximos projetos solos. Agora em 2015, Gisele nos apresentou seu oitavo álbum, Janelas da Alma, com produção de seu pai, Tuca Nascimento, lançado pela gravadora MK Music. O disco traz duas participações: Tuca Nascimento e Alice (intérprete da primeira versão de O Sonho Não Acabou).

    Escolhida como single, Janelas da Alma, de Anderson Freire, recebeu boa aceitação pelo público e já está sendo executada em várias rádios e igrejas. Ao som do piano, a canção começa ganhando destaque pela suavidade imposta pela intérprete. Essa música ganhou um videoclipe que merece ser visto e ouvido! Em seguida, escrita por Vinicius Marquezani, temos Ele te Escolheu, que vem suavemente. A canção cresce com o seu desenrolar, Gisele passa uma mensagem muito forte, versando sobre a fidelidade de Deus sobre às nossas vidas, sendo assim uma das melhores do álbum.

    Imensurável é assinada por Anderson Freire, versando poeticamente acerca da grandeza de Deus e em Seu poder. Na voz de Gisele, a canção ganhou um brilho inexplicável. Parabéns ao compositor e a intérprete. Não Nego, Sou Servo é composição das irmãs, Gislaine e Mylena. É essencialmente pentecostal, desde a letra até aos arranjos, apesar da inserção do pop. Essa é aquela música que parece ser feita especialmente para os grupos de jovens, com um refrão fácil e movimentado. Gisele trouxe uma ótima interpretação para esta canção que poderia virar mais um clichê pelo tema, portanto, o resultado final foi espetacular.

    Em Confiança temos um dueto simples, porém marcante. Gisele convidou sua amiga, Alice, que deu a honra de participar deste projeto. A canção é composta por Anderson Freire e Stefano de Moraes, sua mensagem principal é a esperança, mostrar que é necessário esperar em Deus, pois é depois da tempestade que a bonança vem.

    Com um título instigante, Guerra dos Santos de Dione Freire, vem pra completar o time das canções pop/pentecostais do álbum. Essa canção está dividindo opiniões, alguns acham que Gisele veio com um tom muito alto, já outros gostam do que lhes foi apresentado. Apesar de tudo, vale a pena ouvir esta canção que tem uma ministração incrível no final, porém, acho que a música ficaria melhor na voz de sua irmã, Michelle Nascimento.

    Anderson Freire estava inspirado quando escreveu Sistemas, a sétima faixa deste álbum. Com uma letra que fala sobre os fariseus e o sistema, a canção mescla passado com atualidade. O refrão é um pedido para o Senhor, querendo uma válvula de escape desse conformismo presente nos dias de hoje na vida de muitos cristãos. E se você não prestar atenção, a participação de Tuca Nascimento vai passar despercebida.

    Não tem como não comparar Cálice da Renúncia com “O Mapa do Tesouro”. A letra e a melodia desta canção lembra muito o sucesso anterior, digamos que é uma continuação da mesma. Gisele ainda nos deixa uma referência no final quando diz “não despreze a sua cruz”.

    Na sequência vem mais uma composição do Anderson Freire, Formação Adorador, está aqui é a minha preferida de todo disco. Letra e arranjo se encaixaram perfeitamente, formando um ótimo conjunto. Nela, entendemos que a essência da nossa vida é ser um adorador que adora a Deus em todo tempo, seja na alegria ou na dor.

    E quando chegamos na última faixa, Através da Fé de Eduardo Schenatto, Gisele mostra que não perdeu o fôlego e ainda tem muito a nos passar. Com autoridade e ousadia em cada nota desta canção que fala sobre a importância da fé nos momentos de adversidade, Gisele fecha o repertório com chave de ouro, destaque para os backing vocals que se destacaram.

  • Análise: CD Casa dos Espelhos – Rosa de Saron

    Voltamos mais um pouco no tempo e chegamos ao ano de 2005, ano que a banda Rosa de Saron lançava o Casa dos Espelhos, seu quinto trabalho de estúdio e o segundo com Guilherme de Sá como vocalista. O disco traz elementos de hard rock, new metal e pop rock. Mais um lançamento pela gravadora católica CODIMUC e lançado no dia 14 de Agosto de 2005 no Parque Hopi Hari em Vinhedo, interior de São Paulo.

    Uma curiosidade interessante sobre o disco é que a música Além do meu Jardim, escrita por Eduardo Faro, foi composta após a saída do baterista Grevão, na época de inverno em que a banda estava sem vocalista, sem agenda e sem esperança alguma. Eduardo pediu para que o Grevão voltasse pois eles iriam conseguir superar essa fase, até que conseguiu convencê-lo, retornando a banda. Inclusive, este álbum teria o nome da música, mas durante o processo de gravação, a banda Oficina G3 lançou o disco Além do que os Olhos Podem Ver, fazendo com que o grupo desistisse de usar a música com título do álbum para evitar quaisquer rumores de comparação de ideia copiada de outra banda de rock cristão. (Fonte: Livro Rock, Fé & Poesia)

    A faixa-título abre o disco mostrando o peso instrumental do disco e é, em partes, uma música que se relaciona com o espelho de Narciso, agregando a ideia estética de ser espelho. Sem Você vem em seguida com uma pegada rock norte-americana e mostrando-se como um potencial hit – que acabou sendo, só que na versão acústica. Composição do vocalista Guilherme de Sá, a música fala da dependência de Deus e de como longe dEle, percebemos que não somos nada. Tudo gira para Ele e por Ele!

    Quando eu estava no ensino médio (época em que comecei a amar o Rosa de Saron), Obrigado por Estar Aqui marcou demais a minha vida pois eu havia acabado de me mudar de bairro e não conhecia absolutamente ninguém, até que, depois de algum tempo, fiz amizade com uma guria chamada Micaline e ela me passou essa música que incrivelmente eu ainda não tinha – nessa época eu não ouvia música por álbuns e sim aleatoriamente. A canção continua com a temática da anterior, só que na perspectiva de gratidão: de quanto somos gratos pelo amor do Pai em nós. Eu adotei essa música para meus momentos de solidão e gratidão. Mesmo que ninguém me entenda, eu agradeço a Deus pois Ele sempre estará aqui. Continuando: surge a primeira balada do disco, a linda As Dores do Silêncio. Escrita por Eduardo Faro, a música é uma oração cantada que revela um coração quebrantado e que clama pelo alívio que só vem de Deus. “Sabes ouvir as dores do silêncio, e persistir em esquecer os meus lamentos” é um dos trechos da canção que mais marcam a sua temática. Destaque para o arranjo semi-acústico.

    Tudo o que é Meu é uma bela canção poprock que caracteriza muito o novo Rosa de Saron, com canções poéticas e sem chavões católicos. Amor Sincero é mais uma composição do Edu e que também, marcou a minha vida no período de transição de um bairro para outro. Lembro muito bem que, na época, eu conversava com uma amiga de um município vizinho de Rio Branco e ela dizia que queria um “amor sincero” e eu sempre cantava essa música pra ela. Assim, esta faixa revela o caráter jovem da banda e de como o amor pode transformar. Destaque para o instrumental bem pra cima e de riffs envolventes. Em seguida, temos Uma Trilha Sem Dor, que está na lista de umas trocentas músicas que vou ouvir pelo resto da minha vida. Composição de Guilherme de Sá e do baixista Rogério Feltrin, expressa a efemeridade da vida, mas de como em Deus, somos imortais. Repleto de metáforas e com um arranjo marcante, é uma das principais músicas do disco.

    Roda Gigante é a oitava faixa e terceira composição do Eduardo Faro sozinho no disco. Destaco a pegada pesada da guitarra e dos solos. Lembranças é a típica canção de uma banda famosa que nunca será esquecida pelos fãs. A canção tem uma enorme influência do rock progressivo, mesmo que as letras sejam mais presentes que o próprio instrumental, percebe-se na segunda parte da música uma movimentação maior nas guitarras e bateria, tudo audível sem confusões do que está sendo tocado. Isso deve ser uma das únicas coisas que sinto falta nas gravadoras: elas sabiam pôr os instrumentos em ordem. Não que hoje não seja assim, mas os anos 2000 até 2007, foram anos consideravelmente importantes para o rock nacional. Ao menos para mim, foram anos divisores de águas com bandas acabando e outras nascendo. Divisão de bandas boas e ruins no cenário nacional.

    Passos Lentos é uma das minhas favoritas do disco. Claro que acho o álbum todo muito bom, mas algumas músicas estão em um nível maior de preferência do que outras. Escrita pelo Rogério Feltrin, trata de nossa caminhada cristã e de como o Amor nunca nos deixou e assim, somente com a graça dele podemos prosseguir sorridentes. Quem de Nós? é a minha predileta e ela, não sei o motivo, me lembra minha ex-cunhada. Lembro que estudávamos na mesma sala no terceiro ano do ensino médio e eu, ficava olhando como sua feição refletia uma menina cheia de sonhos mas que, por algum motivo se sentia impedida de realizá-los. Lembro que um dia pedi que ela ouvisse essa música e ela ouvia atenciosa e depois disse que achou muito boa. É uma canção reflexiva e feita para todas as pessoas que se encontram em dúvidas. Não que essa canção seja um resposta para todos as nossas dúvidas, mas, de certo modo, traz uma alívio para nossa ansiedade. Falar dessa música para mim é um grande desafio pois, sinceramente, ela me marcou e me marca muito. O ano de 2005 foi um ano ainda de inocência e que eu sempre me perguntava: “o que vou ser quando crescer?” e é aí onde percebemos que nós só seremos o que queremos ser, quando crescermos.

    Além do Meu Jardim fecha o disco com chave de ouro. Sendo uma canção acústica e bem reflexiva, fala exatamente do momento em que a banda estava vivendo e da emoção de servir a Deus através da música. Esse álbum tem um envolvimento muito grande na minha vida – você já deve ter percebido -, e essa música também me marcou em certo sentido, quando eu sentia saudades do meu avô na volta pra casa depois da escola. No ônibus lotado, eu vinha olhando a paisagem e pensando em como minha vida teria sido diferente se ele não tivesse partido. Eu chegava em casa, encontrava com a minha namorada e pensava em como as coisas seriam se um dia ela dissesse “adeus pra mim”. Isso aconteceu meses depois, mas ficou de aprendizado, que Deus sonda o meu e o seu coração. Basta entendermos isso. Esse é o tipo de disco onde encontramos muito mais verdades do que rock. Se você é um típico roqueiro que ama os solos e gritos extravagantes, provavelmente se decepcionará com o álbum, mas se quiser ouvir um disco que se confundirá com o que você está vivendo, Casa dos Espelhos é um álbum feito pra você. Espero ter conseguido falar um pouco do disco. É claro que dá para explorar muito mais com uma análise mais crítica, portanto, uma resumida análise sobre a essência desse disco consegui passar.

  • Análise: CD S.E.T.E – PG

    PG é um artista diferenciado dos demais do segmento evangélico por ser ousado. E nem me refiro a sua veia roqueira, mas em seu vocal e apresentações bem elétricas. Mas como sou um compositor exigente, considero que suas letras soam uma chatice imensa.

    S.E.T.E (Senhor, Exaltado Tú És) é o sétimo trabalho do cantor como artista solo. O disco foi lançado no dia 31 de julho deste ano pela Som Livre, primeiro álbum de PG pela conceituada gravadora, após dez anos na MK Music.

    Vale salientar, antes de tudo, que S.E.T.E pode não ser, necessariamente, um disco enfadonho e incompreensível, mas tem propriedade para ser claramente confundido (ou considerado) como um mero Ctrl C + Ctrl V dos artistas cristãos norte-americanos e, isso deixa qualquer trabalho com a pretensão de soar bom alcançar o status de chato.

    A obra conta com a participação do guitarrista e ex-companheiro de PG no Oficina G3, Juninho Afram, na faixa que abre o disco, Olhos da Fé. Em relação ao repertório, Ser Alguém é uma das faixas mais poéticas e legais do trabalho, com um violão cujo som é marca registrada de toda a sonoridade. Faz Morada em Mim reflete um pouco da parte trovadoresca do álbum que, por sinal, é boa. Em contrapartida, a faixa-título é uma mistura de vários clichês do gospel e alguns versículos bíblicos fortes. Isso me fez lembrar que, quando ouço música gospel, geralmente sinto mal, por ver a falta de criatividade dos compositores. Ao invés de gravarem um CD por simplesmente gravar, deveriam se atualizar, procurando, assim, superar suas obras. Um curso teológico também não seria nada ruim.

    A respeito das referências estrangeiras, O Salvador surge com um peso ameno e diferenciado no disco. E, claro, revela uma perceptível e significativa influência da banda Thousand Foot Kruth na musicalidade deste trabalho. Mergulhar em Ti, por sua vez, é uma canção relevante.

    Lamentavelmente, Orgulho ou Salvação? é mais uma daquelas faixas gospel que tentam empurrar Deus goela abaixo na vida das pessoas, apelando para as consequências do pecado, usando palavras como “inferno” e “Satanás” para amedrontar os outros. Ser de Deus é uma tentativa frustrada do artista em soar crítico, utilizando-se dos sentidos de “ter” e “ser” de forma superficial, simplesmente finalizando que ele, como eu lírico, quer “ser de Deus”.

    A produção de S.E.T.E ficou por conta do próprio PG e ficou do seu nível: entediante. Para quem busca algo mais além de um som pesado e letras sem muita profundidade, o álbum vai te decepcionar, assim como me decepcionou.

  • Análise: CD Entre a Fé e a Razão – Trazendo a Arca

    Quando uma banda cresce e rapidamente se torna um sucesso nacional, com um disco que supera o outro, o público espera que o artista, a cada lançamento, passe por um processo de catarse musical, sempre se inovando, testando suas fronteiras. Mas como humanos possuem seus limites, em uma hora ou outra a fonte começa a secar.

    O Trazendo a Arca de Pra Tocar no Manto não era mais o grupo tão festivo dos discos anteriores e isso causou um imenso impacto no público. Mas, claro, isso se deve a própria fase que o conjunto estava passando. Com letras mais maduras, a banda imergiu numa temática dura e difícil para digerir, principalmente num contexto em que a teologia da prosperidade perde seus sinais de encanto e desperta mais críticas dos diferentes segmentos evangélicos.

    Após Salmos e Cânticos Espirituais e a subsequente saída de Verônica e Davi Sacer, a banda completou esta trilogia com um disco tão sombrio quanto o de estreia. Entre a Fé e a Razão é um disco curto, direto, rico e… saturado.

    É neste álbum que a banda investe toda a sua sonoridade construída ao longo dos anos. Os teclados de Ronald Fonseca são o principal ponto desta musicalidade, que tem arranjos assinados pelo músico. Com mais cara de “banda” e menos de um pomposo (e exagerado) ministério de louvor, o quinteto mostra-se coeso, sólido, sob as colaborações de Quiel Nascimento na orquestra de cordas e Zé Canuto nos metais.

    Luiz Arcanjo, por sua vez, soou um pouco desconfortável, afinal era a primeira vez em que estava completamente sozinho como vocalista. Suas letras, por outro lado, são aquelas de sempre e, agora, com mais espaço, direcionaria sua parceria, antiga com Sacer, para Ronald. Um redirecionamento necessário e que era o mais óbvio.

    Entre a Fé e a Razão, assim como Pra Tocar no Manto, não foi bem compreendido. Um pouco taxados de “perderem a essência”, esta que foi atribuída a Davi Sacer que, sem mover um dedo, gravou um disco só com composições de Davi Fernandes e Jill Viegas, a banda se fechou em seu mundo a partir de então, ao invés de se ampliarem musicalmente com parcerias. Embora o disco tenha grandes méritos e seja o último grande lançamento do Trazendo a Arca, o que veio, posteriormente, é a velha mania de grandeza (e teimosia) que um grupo, em sua postura musical hermética, possui.

  • Análise: DVD Histórias e Bicicletas – Oficina G3

    Um dos trabalhos mais aguardados e ousados no meio cristão em 2015, finalmente saiu. Depois de um bom tempo querendo ter acesso ao DVD – e que agradeço honrosamente ao Tiago Abreu por me ajudar nisso e por me deixar fazer a resenha -, enfim consegui assistir Histórias e Bicicletas e poder comentá-lo aqui.

    Quem ouve rock já há algum tempo, com certeza já se esbarrou com algum DVD de uma banda famosa que tinha um making of muito bem produzido. Eu já vi vários e confesso que isso me agrada demais, pois você consegue analisar o que a banda é de verdade. O que faz um grupo não é sua interpretação, mas sim o que os motiva a interpretar. No meio cristão, com uma pequena exceção do Rosa de Saron, o qual gravou o Rosa na Estrada, eu ainda não tinha visto um trabalho desses e com tanto conteúdo deste tipo.

    De cara, o Histórias e Bicicletas, o filme, já me encantou. Não por suas músicas, as quais, através do CD já sabia quais seriam tocadas, mas por sua hegemonia. Você já percebe isso, através da oração feita antes mesmo de começarem a tocar. Por isso, conhecemos uma banda cristã não por suas letras, mas pela vida dos integrantes.

    É claro que, neste trabalho, há muitos defeitos. Quando digo “muitos”, me refiro a quantidade de variações de defeitos e não no sentido quantitativo da palavra. Confesso que serei “chatamente” prolixo por não ouvir Oficina G3 há muito tempo e nem com muita frequência. Seria muito simples escrever duas ou três notas sobre o trabalho e só, como já fiz com análises de outras bandas. Mas eu reconheço o quão popular o quarteto é no meio cristão. Entendo o quanto suas músicas são importantes para muitos jovens e verdadeiramente marcou muitas pessoas em suas caminhadas com Cristo.

    Final de 2012, começo de 2013. Nesse período eu estava passando por várias, VÁRIAS transições na minha vida. Estava sem congregar, longe da igreja e de Deus até que voltei aos poucos para os braços do Pai indo a uma congregação aqui, outra ali e tudo mais. Fiquei indo para uma aos domingos até que conheci alguns guris na parada de ônibus que iam em galera para a igreja, e não demorou muito para que eu começasse a ir com eles. Eu tinha acabado de chegar no bairro, não conhecia ninguém. Os caras ouviam rock muito pesado e até então, o único rock (cristão) mais pesado que eu tinha escutado em toda minha vida era de uma banda chamada Pillar. Nessa época eu também era muito fã do Rosa. Um instante: eu era fã mesmo nessa época, hoje não sou muito, em termos de intensidade. Naquele período, foi mais ou menos o qual ouvi o álbum Histórias e Bicicletas (Reflexões, Encontros e Esperança) do Oficina por esses amigos (doidos) dessa congregação que eu passei a ir constantemente. Eu já estava ouvindo o Depois da Guerra, o anterior trabalho de estúdio do Oficina, mas não conhecia o Histórias e Bicicletas até que me passaram – a meu pedido – e daí foi paixão a primeira ouvida. O álbum me agradou de uma forma que eu só conseguia ouvir isso. Reproduzia de “Diz” a “Save Me From Myself” várias vezes sem enjoar. Lembro que, na época, eu estava cursando o curso técnico em administração e esse disco foi meio que um registro do momento que eu estava vivendo e que com certeza, como eu já disse aqui, foi um dos três álbuns que me marcaram em 2013. Logo quando cheguei no O Propagador, verifiquei que já tinha saído análise desse álbum, então não pude fazer, mas agora com o DVD, dá para falar um pouco do trabalho.

    Uma coisa que eu sinto muita falta no Oficina são canções críticas que expressam o descaso político e adjacências. A banda tem potencial pra isso, mas por algum motivo resolvem ficar a mercê de letras que versam outros temas. Histórias e Bicicletas foi uma remada grande contra a maré. Não que a banda tenha sido mais crítica: mas eles soaram mais poéticos, a começar pelo título do disco.

    Indo ao DVD, que é o ponto crucial dessa resenha: a direção de Hugo Pessoa deu um peso enorme ao trabalho. O produtor já havia trabalhado em D.D.G Experience, gravado em 2009 e no clipe de “Incondicional”. Recentemente trabalhou, também, na direção dos clipes “Algoritmo” e “Quando Tiver Sessenta” da banda Rosa de Saron e em DVDs do Livres para Adorar, Damares, Trazendo a Arca, Heloisa Rosa, dentre outros grupos e intérpretes.


    Filmagem

    Eu não sou o melhor para falar de filmagem, mas acredito que a do DVD ficou boa, embora eu ache desnecessário alguns 5 segundos focados em cenas dispersas, como a de Duca Tambasco mexendo no celular e os controles da mesa de som. Portanto, isso não tira o fato da filmagem ter alcançado êxito.


    Interlúdios

    Chegamos em um ponto interessante da análise: os interlúdios. O que é algo bem presente nesse DVD, consiste nos integrantes falando um pouco de suas visões sobre a arte, o chamado de Deus, sonhos e experiências. E fizeram isso muito bem. Também deram um show de poesia e maturidade. Mostraram que o (novo) Oficina tem uma atmosfera filosófica muito maior do que cantar em primeira pessoa como se fosse Deus falando, a exemplo da música “Eu Sou”, do álbum D.D.G. e daquele clichê gospel “eu ando pela força do Senhor, eu vivo pela suas promessas”. O Oficina nunca foi uma banda que me cativou ao ponto de permanecer na playlist do meu celular por mais de uma semana. Mas o álbum Histórias e Bicicletas foi uma grande exceção, porque me trouxe muitas reflexões que estavam perdidas dentro de mim.


    Músicas

    As músicas que compõem o filme são as mesmas presentes no disco lançado em 2013. “Save Me From Myself” não entrou, talvez porque a banda na época que filmou o DVD, ainda não havia conseguido a liberação para gravá-la, não sei. Achei interessante uma mudada nas canções e, que foi apenas um ensaio da banda, então não chega a ser suas versões originais. A participação de Leonardo Gonçalves em “Lágrimas” foi a parte do projeto em que eu mais me identifiquei. Primeiro pela canção, que é a minha favorita no disco e, segundo: pela combinação das vozes. O Mauro é um cantor nato, isso é indiscutível. O Léo então, nem se fala: tem um vocal muito bem apurado e uma expressão vocal incomparável.


    Produção musical e visual

    A produção musical do filme foi toda da Oficina G3 e a mixagem ficou por conta de um cara que sou muito fã, Leonardo Ramos, vocalista da banda Supercombo. Eu sou o pior da rede pra falar de produção musical de DVD, mas como tenho um canal no YouTube e sou eu quem produzo os vídeos, digo que os insights que construíram a ideia da produção foram bem pensados, porém, eles poderiam ter feito melhor.

    Quando eu vi a divulgação de Histórias e Bicicletas, me enchi de expectativas e disse: “vai ser tão bom quanto o CD”. Mas, infelizmente, não foi tão bom assim: por vários momentos, a ideia que é passada é que aquilo não é uma gravação de um DVD contando os bastidores da produção de um disco, e sim que eles estão apenas filmando o dia-a-dia deles sem se importarem com o resultado. Desculpe-me Oficina e seus fãs, mas o DVD deixou muito a desejar! (pelo menos pra mim).

    É um DVD bom? Sim. Mas, para a proposta, que foi mostrar a produção do disco Histórias e Bicicletas, repito: deixou a desejar.

  • Análise: CD Heróis da Fé – Rozeane Ribeiro

    Se você ainda não escutou nenhuma canção de Rozeane Ribeiro, como a aclamada “Jeová Rafah”, que dominou os grupos de jovens e até de senhoras ou o single “Arma”, o qual conquistou a crítica especializada e seu público, já deve ter ouvido alguma de suas grandes composições, como o sucesso “Hino da Vitória”, gravado pela cantora (penteca) Cassiane ou o hit “Esse Adorador”, de Shirley Carvalhaes, entre outras belíssimas canções.

    Heróis da Fé foi muito esperado durante muito tempo por todos os admiradores do ministério de Rozeane, afinal, depois dos sucessos dos discos Rastro de Unção e o recente É Meu, o público queria ver e, principalmente, ouvir o que ainda viria da cantora e compositora que ganhou seu espaço ao sol. Vamos direto ao ponto: Lançado no final de 2014, o disco segue a mesma linha pentecostal dos anteriores, com composições próprias e de grandes nomes da música gospel, como Gislaine e Mylena, Josefo Flavio (marido da cantora), Dennyon Santana e Graciela Gomes, entre outros. A obra foi produzida por Lenno Maia e Cleybinho.

    O álbum começa com a faixa que dá título ao disco, Heróis da Fé e já da pra perceber que essa canção merece destaque neste projeto e foi uma ótima escolha para o título. Contém uma letra contundente, versando para a igreja não parar de pregar a mensagem do evangelho e não negar a Jesus. O resultado final foi o melhor possível.

    Não há como impedir a obra é de Deus, ela não pode parar! Passam céus e passa terra, mas suas palavras não hão de passar!“. É assim que começa a segunda faixa, Pedra de Esquina, com um tema que está sendo bastante explorado no momento por muitos cantores: a igreja que não se cala, apesar das lutas. Com um refrão empolgante, você nem percebe, mas depois de um tempo já está cantando “pedra, pedra de esquina, pedra angular” junto com a cantora. Merece destaque!

    Chegamos ao ápice do disco. Com um arranjo de destaque, temos a melhor canção do álbum em minha opinião, O Som desse Adorador. Isso sim é um louvor pentecostal. A letra fala sobre o tempo em que Paulo e Silas estiveram presos e mesmo assim não deixaram de adorar a Deus, pois sabiam que suas orações estavam sendo ouvidas. Um verdadeiro adorador adora ao Senhor em todo tempo e essa é a mensagem passada por Rozeane. Ao final, ainda somos surpreendidos com a introdução de um trecho de sua composição, “Esse Adorador”.

    A terceira faixa fala sobre a volta de Jesus para arrebatar a Sua igreja, Arrebatamento. Com uma passagem bem conhecida por todos os cristãos, Rozeane introduz-a dizendo que será de repente o momento em que os fiéis subirão ao encontro do Mestre. Também fala sobre os acontecimentos que irão atingir a Terra e termina com uma das músicas mais lindas da Harpa Cristã, “Vencendo vem Jesus”, mostrando que a igreja vai entrar no céu adorando ao Rei.

    Em seguida, temos aquele tipo de faixa que não pode faltar em nenhum CD das cantoras pentecostais, o forrozinho do reteté. O Ambiente de Glória é uma canção animada que fala sobre a glória do Senhor na igreja, cuja presença faz o povo chorar, pular, e sentir o Espírito Santo, o “fogo” queimando e as suas línguas repartidas. Ponto positivo para a obra.

    Sobre a canção Valeu a Pena, temos um arranjo mais leve e tranquilo. Desta vez, a temática consistiu em permanecer fiel em meio as lutas, enfatizando que é necessário ser fiel a Deus, e, como consequência, Ele será fiel a você. Tenho certeza de que essa música irá falar com muitas pessoas. “Se eu fosse olhar para os meus pés, eu não poderia estar aqui cantando. Ninguém veria Deus em mim me usando!

    Em seguida, temos É inegociável, faixa em que o arranjo nos remete a canções antigas que marcaram muitos grupos de louvores do nicho. A composição usa a passagem bíblica que conta a história de Esaú, o qual trocou sua identidade por um prato de lentilha, para dizer que não tem preço aquilo que nos foi dado por Deus.

    Mardoqueu começa contando a história daquele o rei desejou honrar, mostrando que mesmo com os planos de destruição do homem, é Deus quem dá a última palavra. No entanto, mesmo tendo uma melodia interessante e uma letra com base bíblica, a canção não causa aquele impacto ao escutá-la e o refrão não surpreende.

    Confesso que pelo título dessa canção, Hoje eu Posso, achei que era apenas mais uma canção de exaltação humana, mas fui surpreendido. A letra fala sobre a morte e ressurreição de Jesus, mostra que o véu foi rompido e hoje nós podemos falar com Deus e em nome de Jesus, clamar por Ele. Uma boa faixa!

    De Glória em Glória relata passagens bíblicas sobre o momento de pentecoste onde todos foram tomados pelos mistérios de Deus e a glória ali desceu. E assim como foi no passado, atualmente não é diferente, Deus vai mandar o seu poder pra quem permanecer em sua presença. Para muitos, o excesso da palavra ‘glória’ pode ser um erro e um tanto enjoativo, mas isso deixou a música “chiclete”. Portanto, posso imaginar muitos grupos de jovens e mocidades a interpretá-la. Sucesso!

    A décima primeira faixa, O Poderoso Vai Agir, fala sobre o mover de Deus em nossas vidas. Ele faz o fim virar começo e abre portas onde não tem nem parede. O Senhor muda o rumo da nossa história e quando Deus começa a agir ninguém pode impedir. O conceito dessa canção é conhecido por todos os cristãos, mas mesmo assim não deixa a desejar.

    Pra quem achou que a única canção de forró do CD já passou, temos A Procura de Adoradores, ela diz que Deus tem os olhos como chama de fogo e está procurando pessoas que o adore em espírito e em verdade e pergunta se na igreja ainda tem adorador, porque se tiver o milagre vai descer. “E as irmãs adoram, adoram, e os irmãos adoram, adoram, e a mocidade adora, adora, e as crianças adoram, adoram, e os obreiros adoram, adoram, e a igreja adora, adora, adora, adora, adora, exalta ao senhor…“.

    A próxima canção, Use Tua Fé, fala sobre usarmos a fé para alcançar o alvo, citando outros exemplos da Bíblia como Davi e Josué. A letra fala que não é fácil derrotar gigantes, todavia a nossa vitória só vem depois da luta e é preciso coragem para enfrenta-la. O backing se destacou nesta canção e o final da canção é lindo. E, por último, mas não tão menos importante, chegou Só o Senhor é Deus, com uma pegada lembrando sertanejo, o disco chega ao fim e Rozeane Ribeiro mostrou que ainda tem muito o que oferecer para quem a ouve.

    Portanto, a obra oferece o que há de melhor para quem gosta de um bom pentecostal, com um lindo projeto gráfico assinado pela agência Observ Design. Acompanhado de ótimos arranjos e boas letras, Heróis da Fé só comprova que a cantora é uma verdadeira adoradora por excelência. Um dos melhores álbuns pentecostais dos últimos anos!

  • Análise: CD As Canções Que Eu Canto Pra Ela – Thalles

    Já faz um tempo que o cantor Thalles Roberto – conhecido pelo grande sucesso de que goza dentro da chamada cena gospel brasileira – vem anunciando que, no intuito de ampliar cada vez mais o alcance de seu trabalho, irá investir na produção e divulgação de músicas não necessariamente religiosas, embora ancoradas, em essência, nos princípios que professa. Até aí, tudo bem – ou “quase tudo bem” –, afinal de contas, muito antes do cantor mineiro, artistas como, por exemplo, a banda Catedral ou os próprios norte-americanos do Sixpence None The Richer já haviam feito algo semelhante, alcançando, inclusive, bons resultados – não sem provocar, é claro, certo alvoroço em meio aos seus fãs mais “ortodoxos”.

    O problema, no caso de Thalles, é que o músico parece ter escolhido expressar o desejo de fazer essa “reconversão musical” da maneira menos elegante possível: durante uma apresentação em Brasília, realizada no mês de Julho, declarou, em alto e bom som, que já teria feito “tudo o que tinha pra fazer no meio gospel”, sugerindo, ainda, que permanecer nesse meio seria o mesmo que se acomodar, já que “música gospel é tudo igual” e “qualquer um escreve e faz”. Além do mais, na cena gospel nacional só teria “gente fraca” – disse o cantor – e, uma vez em meio a “gente fraca”, ele estaria “acima da média”, daí a necessidade de aceitar o desafio “divino” de conseguir colocar-se acima da média do lado de fora desse universo restrito, e, portanto, de frente para um maior e mais diversificado público. Uma polêmica em muito desnecessária, visto que seu mais recente trabalho, intitulado As Canções Que Eu Canto Pra Ela, lançado em Abril deste mesmo ano – e pela gravadora Universal Music –, já confirmava as intenções de Thalles.

    De qualquer modo, o fato é que, considerando o nível de exigência – nem tão elevado assim – do chamado mainstream brasileiro, o disco As Canções Que Eu Canto Pra Ela é, sem sombra de dúvidas, forte o bastante para apresentar Thalles como um sério candidato a enfrentar o desafio de colocar-se “acima da média” dentro deste vasto, diversificado e não necessariamente religioso mundo pop. Para um cantor e compositor que, como bem mostra o já citado disco, melhor se identifica com a chamada black music –, foi ele próprio, inclusive, quem disse, num de seus shows, que gosta mesmo é de “música de preto” –, nada como uma boa revigorada no contrabaixo, a fim de deixá-lo insinuante o suficiente para que soe o mais próximo possível de uma contagiante e arrebatadora “música de preto”. Por que não acrescentar, também, guitarras mais ousadas? Com solos idem? Mesmo porque o disco, em certos momentos, pede isso – além de riffs mais insistentes, claro! Investir mais nos muito bem acertados “flertes” com ritmos como o samba – a exemplo do que ocorre com a faixa Isso É Amor –, ou mesmo o baião – tal qual se nota em Minha Menina –, certamente daria uma “cara” mais abrasileirada e, portanto, mais atraente, ao groove do talentoso músico.

    Por fim – e de um modo geral –, As Canções Que Eu Canto Pra Ela convence… e traz um Thalles que, se souber potencializar ainda mais sua própria música, poderá, sim, formar um novo, fiel e merecido público aqui do “lado de fora dos portões do templo”.


    Texto originalmente publicado em “Maik Pop Blog”.

  • Análise: CD Acústico e ao Vivo – Rosa de Saron

    Não é novidade nenhuma que o Rosa de Saron gosta de acústicos. Desde os álbuns mais antigos, antes mesmo de Guilherme de Sá assumir os vocais da banda, isso é perceptível. E não existia formato melhor do que o acústico para comemorar 20 anos de banda. Este é o seu primeiro DVD e alguns, como eu, só a conheceram a partir daí quando viram o anúncio do disco passar na Rede Globo nos intervalos do Vale a Pena Ver de Novo – nostalgia! Eles lançaram um CD de estúdio e depois o DVD e CD Acústico e Ao Vivo. Para quem os acompanha, sabe que eles prometeram um novo acústico neste ano, e foi gravado dia 8 de julho na sede da TV Século XXI, na mesma emissora que foi gravado o primeiro. A banda disse que este será o segundo de uma trilogia de acústicos. Como eu disse, eles gostam mesmo de acústicos!

    Irei analisar de forma bem simples o CD Acústico e Ao Vivo por ser um disco de regravações, digamos assim. Era para eu estar fazendo as análises da discografia da banda do primeiro álbum até o mais recente, mas como minha estreia aqui foi analisando o Cartas ao Remetente, então vamos voltar no tempo. Prometo que irei tentar não dar spoilers das músicas que estão nos álbuns anteriores e que estarão nas próximas resenhas.

    Depois desta prolixa introdução, começo falando de Noite Fria (Depois da Cruz, 1995), composição do Eduardo Faro e que teve uma ótima releitura na adaptação para o acústico. A canção original tem aquela guitarra floydiana e no acústico soou muito mais harmônica e singular com os violinos e violões. Em seguida aparece No Meu Coração (Depois do Inverno, 2002) composição do vocalista Guilherme de Sá. Na versão original, a canção soa bem como um típico rock carliforniano, já na versão acústica soa muito mais como uma balada. A letra versa de contrapontos existentes na vida e de como Deus alivia tudo e nos faz entender cada fase a seu tempo. Angústia Suprema (Angústia Suprema, 1997) vê em seguida com a primeira participação especial de um ícone da música católica, Eugênio Jorge. A versão original é interpretada pelo antigo vocalista, Marcelo Machado e é muito bom ver o contraste da música agora sendo tocada em formato acústico e com muito mais elementos musicais e com uma voz diferente. O Guilherme a introduz com beat box e o Eugênio Jorge inicia – muito bem – a canção. Destaco os back vocals que foram essenciais nessa faixa, trazendo o reverb que tinha na versão original para o ao vivo.

    Linda Menina (Angústia Suprema, 1997) é uma bela canção e talvez essa seja a mais polêmica de todos aqueles protestantes que não ouvem o Rosa de Saron por ser uma banda católica. Mas por que odiamos tanto Maria assim? Ela foi a mãe de Jesus, isso não é lindo? É claro que ela não merece adoração nenhuma, mas acredito que devemos respeito a ela. E isso o que a canção indica: não uma adoração a Maria, mas um respeito significativo por ter criado “o filho de Deus para todos libertar”. A versão original tem uma introdução de sax fone muito legal, e eu senti falta dele na introdução. Acredito que essa é a primeira falha que identifico nesse acústico no quesito adaptação. Em seguida, Logo Após o Temporal (Depois do Inverno, 2002), composição do Rogério Feltrin e Guilherme de Sá dá uma suavizada amena no show. A versão acústica ficou muito bem tocada e eu ousaria dizer que ficou até melhor que a versão original. É uma linda canção de “volta por cima em Deus”. Rara Calma é a primeira inédita e nem imaginária que dois anos depois viria se tornar uma febre entre os rosarianos. A música fala bem do momento comemorativo de 20 anos de banda como o próprio Rogério diz ao anunciá-la:

    “A próxima canção que a gente vai tocar é inédita. E ela nasceu, justamente nesse momento que a gente está vivendo da oportunidade… De poder celebrar, 20 anos de uma história muito bonita de se contar… ‘Rara Calma’”

    As Dores do Silêncio (Casa dos Espelhos, 2005), composição do guitarrista Eduardo Faro, é uma canção meio devocional que soou muito bem acústica. Te Louvo em Verdade é uma versão de Eugênio Jorge de uma música do Martin Valverde. É uma música devocional desde o nome e que revela uma sinceridade de filho dependente do Pai. Anjos das Ruas (Angústia Suprema, 1997) é a única composição do acústico do antigo vocalista Marcelo Machado em parceria com o Eduardo Faro. Teve a participação da Aura Lyris (que na época era vocalista da banda Beatrix) e que versa um lado de função da igreja na sociedade. Muitos Choram é uma música super conhecida no repertório da banda e que é até usada em palestras motivacionais por alguns palestrantes. Carrega uma letra muito forte que também tem as características da faixa anterior.

    Amor Sincero (Casa dos Espelhos, 2005) vem em seguida, uma composição do Eduardo Faro e eu devo confessar uma coisa: essa música fica boa até em pagode. Lembro de quando eu me mudei para o bairro que moro atualmente e deixei muita coisa pra trás. Essa música foi um conforto em várias áreas para mim. Como Eu Te Vejo é a segunda inédita, composição do Eduardo Faro e Guilherme de Sá. Ela versa o antes e depois da conversão e da dependência que temos de Deus. Sem Você (Casa dos Espelhos, 2005) recebeu uma versão totalmente nova e isso deu uma aparência de “platonice” na música. Teve a participação genial do guitarrista Demian Tiguez tocando violão solo. Obrigado por Estar Aqui (Casa dos Espelhos, 2005) é composição do Guilherme e também tem um lado devocional muito agradável! Do Alto da Pedra (Depois do Inverno, 2002) é a penúltima faixa e não tenho muita coisa pra falar sobre ela. Considero uma canção muito sincera e que tem frases profundas como “em você não temo minha sorte e eu sei que isso veio de você”. Teve participação emocionante do ator Rafael Almeida dividindo voz com o Guilherme. Monte Inverno encerra o CD Acústico e Ao Vivo com chave de ouro. Fala exatamente da nostalgia dos 20 anos de banda.

    Fui meio prolixo, confesso, mas não dá pra falar de regravações sem “encher linguiça”. E como eu ainda vou falar dos álbuns anteriores ao acústico, não quis dar muito spoiler sobre as músicas que foram regravadas. Enfim, o acústico marcou uma fase muito importante na banda Rosa de Saron e no dia 8 de Julho, eles gravaram o Ao Vivo e Acústico 2/3. A ansiedade está a mil e eu prometo resenha aqui no site!