Um dos trabalhos mais aguardados e ousados no meio cristão em 2015, finalmente saiu. Depois de um bom tempo querendo ter acesso ao DVD – e que agradeço honrosamente ao Tiago Abreu por me ajudar nisso e por me deixar fazer a resenha -, enfim consegui assistir Histórias e Bicicletas e poder comentá-lo aqui.
Quem ouve rock já há algum tempo, com certeza já se esbarrou com algum DVD de uma banda famosa que tinha um making of muito bem produzido. Eu já vi vários e confesso que isso me agrada demais, pois você consegue analisar o que a banda é de verdade. O que faz um grupo não é sua interpretação, mas sim o que os motiva a interpretar. No meio cristão, com uma pequena exceção do Rosa de Saron, o qual gravou o Rosa na Estrada, eu ainda não tinha visto um trabalho desses e com tanto conteúdo deste tipo.
De cara, o Histórias e Bicicletas, o filme, já me encantou. Não por suas músicas, as quais, através do CD já sabia quais seriam tocadas, mas por sua hegemonia. Você já percebe isso, através da oração feita antes mesmo de começarem a tocar. Por isso, conhecemos uma banda cristã não por suas letras, mas pela vida dos integrantes.
É claro que, neste trabalho, há muitos defeitos. Quando digo “muitos”, me refiro a quantidade de variações de defeitos e não no sentido quantitativo da palavra. Confesso que serei “chatamente” prolixo por não ouvir Oficina G3 há muito tempo e nem com muita frequência. Seria muito simples escrever duas ou três notas sobre o trabalho e só, como já fiz com análises de outras bandas. Mas eu reconheço o quão popular o quarteto é no meio cristão. Entendo o quanto suas músicas são importantes para muitos jovens e verdadeiramente marcou muitas pessoas em suas caminhadas com Cristo.
Final de 2012, começo de 2013. Nesse período eu estava passando por várias, VÁRIAS transições na minha vida. Estava sem congregar, longe da igreja e de Deus até que voltei aos poucos para os braços do Pai indo a uma congregação aqui, outra ali e tudo mais. Fiquei indo para uma aos domingos até que conheci alguns guris na parada de ônibus que iam em galera para a igreja, e não demorou muito para que eu começasse a ir com eles. Eu tinha acabado de chegar no bairro, não conhecia ninguém. Os caras ouviam rock muito pesado e até então, o único rock (cristão) mais pesado que eu tinha escutado em toda minha vida era de uma banda chamada Pillar. Nessa época eu também era muito fã do Rosa. Um instante: eu era fã mesmo nessa época, hoje não sou muito, em termos de intensidade. Naquele período, foi mais ou menos o qual ouvi o álbum Histórias e Bicicletas (Reflexões, Encontros e Esperança) do Oficina por esses amigos (doidos) dessa congregação que eu passei a ir constantemente. Eu já estava ouvindo o Depois da Guerra, o anterior trabalho de estúdio do Oficina, mas não conhecia o Histórias e Bicicletas até que me passaram – a meu pedido – e daí foi paixão a primeira ouvida. O álbum me agradou de uma forma que eu só conseguia ouvir isso. Reproduzia de “Diz” a “Save Me From Myself” várias vezes sem enjoar. Lembro que, na época, eu estava cursando o curso técnico em administração e esse disco foi meio que um registro do momento que eu estava vivendo e que com certeza, como eu já disse aqui, foi um dos três álbuns que me marcaram em 2013. Logo quando cheguei no O Propagador, verifiquei que já tinha saído análise desse álbum, então não pude fazer, mas agora com o DVD, dá para falar um pouco do trabalho.
Uma coisa que eu sinto muita falta no Oficina são canções críticas que expressam o descaso político e adjacências. A banda tem potencial pra isso, mas por algum motivo resolvem ficar a mercê de letras que versam outros temas. Histórias e Bicicletas foi uma remada grande contra a maré. Não que a banda tenha sido mais crítica: mas eles soaram mais poéticos, a começar pelo título do disco.
Indo ao DVD, que é o ponto crucial dessa resenha: a direção de Hugo Pessoa deu um peso enorme ao trabalho. O produtor já havia trabalhado em D.D.G Experience, gravado em 2009 e no clipe de “Incondicional”. Recentemente trabalhou, também, na direção dos clipes “Algoritmo” e “Quando Tiver Sessenta” da banda Rosa de Saron e em DVDs do Livres para Adorar, Damares, Trazendo a Arca, Heloisa Rosa, dentre outros grupos e intérpretes.
Filmagem
Eu não sou o melhor para falar de filmagem, mas acredito que a do DVD ficou boa, embora eu ache desnecessário alguns 5 segundos focados em cenas dispersas, como a de Duca Tambasco mexendo no celular e os controles da mesa de som. Portanto, isso não tira o fato da filmagem ter alcançado êxito.
Interlúdios
Chegamos em um ponto interessante da análise: os interlúdios. O que é algo bem presente nesse DVD, consiste nos integrantes falando um pouco de suas visões sobre a arte, o chamado de Deus, sonhos e experiências. E fizeram isso muito bem. Também deram um show de poesia e maturidade. Mostraram que o (novo) Oficina tem uma atmosfera filosófica muito maior do que cantar em primeira pessoa como se fosse Deus falando, a exemplo da música “Eu Sou”, do álbum D.D.G. e daquele clichê gospel “eu ando pela força do Senhor, eu vivo pela suas promessas”. O Oficina nunca foi uma banda que me cativou ao ponto de permanecer na playlist do meu celular por mais de uma semana. Mas o álbum Histórias e Bicicletas foi uma grande exceção, porque me trouxe muitas reflexões que estavam perdidas dentro de mim.
Músicas
As músicas que compõem o filme são as mesmas presentes no disco lançado em 2013. “Save Me From Myself” não entrou, talvez porque a banda na época que filmou o DVD, ainda não havia conseguido a liberação para gravá-la, não sei. Achei interessante uma mudada nas canções e, que foi apenas um ensaio da banda, então não chega a ser suas versões originais. A participação de Leonardo Gonçalves em “Lágrimas” foi a parte do projeto em que eu mais me identifiquei. Primeiro pela canção, que é a minha favorita no disco e, segundo: pela combinação das vozes. O Mauro é um cantor nato, isso é indiscutível. O Léo então, nem se fala: tem um vocal muito bem apurado e uma expressão vocal incomparável.
Produção musical e visual
A produção musical do filme foi toda da Oficina G3 e a mixagem ficou por conta de um cara que sou muito fã, Leonardo Ramos, vocalista da banda Supercombo. Eu sou o pior da rede pra falar de produção musical de DVD, mas como tenho um canal no YouTube e sou eu quem produzo os vídeos, digo que os insights que construíram a ideia da produção foram bem pensados, porém, eles poderiam ter feito melhor.
Quando eu vi a divulgação de Histórias e Bicicletas, me enchi de expectativas e disse: “vai ser tão bom quanto o CD”. Mas, infelizmente, não foi tão bom assim: por vários momentos, a ideia que é passada é que aquilo não é uma gravação de um DVD contando os bastidores da produção de um disco, e sim que eles estão apenas filmando o dia-a-dia deles sem se importarem com o resultado. Desculpe-me Oficina e seus fãs, mas o DVD deixou muito a desejar! (pelo menos pra mim).
É um DVD bom? Sim. Mas, para a proposta, que foi mostrar a produção do disco Histórias e Bicicletas, repito: deixou a desejar.
Deixe um comentário