2013 foi um ano crucial para o grupo mineiro Diante do Trono. Tu Reinas, seu 16º trabalho, encontrou grandes dificuldades não somente para entrar no mercado, como também em ser um resgate à boa forma da banda. Ser contundente.
A direção do DVD é assinada por Alex Passos, e conta com um documentário mesclado em culto de 70 minutos, que é dividido em atos. Entrevistas e pequenos relatos com os moradores de cada comunidade visitada. O áudio 5.1 nos coloca no epicentro da ação em todos os minutos, desde o silêncio de uma faixa a outra, ao caos do ápice de algumas ministrações. Há um ligeiro desapontamento na seção dos extras que acabam formando a parte menos nobre do projeto, não pela qualidade ou interesse dos mesmos, mas porque nos deixam sedentos de mais – em um teaser do Tetelestai, próximo projeto da banda, já gravado em Israel.
O DVD Tu Reinas tem alguns grandes destaques que valem a pena discorrer. Em uma decoração rústica, o medley de duas músicas – “Vestes de Louvor/Isaías 40” – foi uma grande sacada para ser usado como abertura. Diante de um vocal reduzido, a banda explora divisões simples a três vozes, nada muito complexo. Após a interlude sobre a chegada à Comunidade Quilombola da Fonseca, na cidade de Manaíra em Paraíba, criou-se um clima semiacústico para a música tema do CD. O espontâneo é intimista e curto, dando corte para “Santo” em que a presença do cantor Juliano Son, fazendo dueto com a Ana Paula, reforçou a ideia de que o Diante do Trono não estava sozinho nessa missão. Quase no final da faixa “Exaltado” temos o backing fazendo a cama harmônica para a melodia principal, terminando com um diminuendo e sem conclusão, dando um gostinho de “quero mais”. O maior destaque do DVD Tu Reinas, no entanto, está no caminho para Petrolina (PE) em que já é perceptível uma coesão brilhante no contraste: água. O palco para o momento foram as águas do Rio São Francisco, e nesse ato as temáticas da música não poderiam ser diferentes. Ainda que os novos arranjos tenham ficado muito longe de ser o ideal para cada música, deixando o texto sem peso, caindo num padrão quaternário, não tirou o brilho das respostas inseridas. O destaque fica com “Manancial”. É uma daquelas interpretações one in a lifetime onde a Ana Paula acabou fazendo toda a afetação da música trabalhar a favor da mensagem com uma interpretação comedida, pontual, acertada e genuína. Em “Águas Purificadoras”, mesmo com seu novo arranjo se assemelhando em estilo, intenção e dinâmica dentro as outras faixas, ganhou uma extensão para um espontâneo avivado e incisivo. No último ato do DVD, em Juazeiro do Norte, reunindo 30 mil pessoas, a banda subiu num palco stepback com direito a uma casa de taipa, cortinas, um poço artesiano e uma janela bem convidativa. Com uma dancinha tímida, Ana Paula entrou no palco cantando a festiva “Só o Senhor é Deus”. Em um arranjo mais reto, a música “Brasil”, com a participação de André Valadão e Mariana Valadão, teve a divisão vocal feita com intervalos de segunda causou uma excelente dissonância e a dinâmica do instrumental ficou impagável, finalizando com “Deus do Recomeço”.
No âmbito sonoro, visando em gravar canções mais acessíveis para as igrejas, eles abdicaram de uma sensibilidade musical por uma objetividade rasa. A banda não quis peitar o ostracismo, não se inseriu de forma autônoma. O ponto positivo do Tu Reinas, entretanto, que acaba se tornando a moeda de duas coroas, está no local da gravação. A intenção do projeto em ser gravado no Sertão Nordestino, fazendo com que os olhos se voltem para esta região é louvável. Nós, consumistas do produto, confortáveis com tudo ao dispor não vamos conseguir mensurar a importância das gravações, pois não nos afeta de uma forma direta. Nós não sabemos o que é NÃO ter as nossas necessidades atendidas. É um projeto de contestação, lamúrias, de quebra e de vazio, com mensagens contra alianças espúrias, algo puramente pragmático e até bem intencionado.
Deslizes aconteceram. Como se a Ana Paula Valadão quisesse puxar a corda do conceito oposto ao de sutileza até ver onde rompia e acabou rompendo. Acontece. Alegando sinceridade, alguns dirão que a banda fez em busca do emocionalismo. Mas essa é uma falácia que joga com uma pesada de fatores e retira o contexto do produto. Estamos nos referindo a um trabalho técnico com uma ação afirmativa de mão-de-obra talentosa, que alçou um voo muito maior do que em músicas. Um exemplo coeso da sinergia visual. Começa e termina com faixas que falham miseravelmente em agradar os saudosistas da orquestra que não apenas não se adequam, como fazem questão de lutar contra mudanças que vão ocorrer quer eles queiram, quer não. O Diante do Trono, com o seu novo DVD, ainda quer ser cáustico e mordaz, ainda quer tocar e ferir, porém despido de excessos. Assista de novo.
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