Pode até ser exagero, ou o fato de eu ser fã da banda, justifique, mas “Cartas ao Remetente” foi o melhor álbum de rock nacional lançado neste ano. Já ouvi o Amianto do Supercombo e o EP Eu Sou a Maré Viva da Fresno lançados este ano, mas nenhum é tão bom como o CAR.
Cartas ao Remetente é o 13° álbum da banda católica Rosa de Saron. Para muitos, é o melhor disco de inéditas do grupo, porém, ainda acho O Agora e O Eterno melhor.
A faixa que abre o disco chama-se Reis & Princesas, que tem uma temática bem parecida com a música Autor Desconhecido, também foi composta pelo vocalista Guilherme de Sá, e a mesma abre o último álbum gravado em 2012. O projeto inicia com um “teor” de suspense , e um eco eletrônico do início da canção sendo reproduzida antes dos primeiros riffs de guitarra. A poesia perdura e prende o ouvinte já na primeira estrofe quando é cantado “Eu não sei, se eu sigo a ver navios ou se ponho neles os animais”. O refrão é empolgante e chamativo pelo grito de manifesto de uma pessoa que já fez de tudo por uma boa relação com um inimigo – ou outra pessoa qualquer – e nada adiantou. Destaque para o solo com um arranjo melódico que muito lembra alguns clássicos do Creed.
O disco segue com uma pegada eletrônica em algumas partes, típico da banda que sempre gostou dessa sonoridade desde a entrada do Guilherme, assumindo os vocais. Solte-me! é outra canção que remete o manifesto pessoal. Isso é caracterizado pela frase “Solte-me! Solte-me! Por favor liberte-me, solte-me!“. Também é uma faixa viciante pela versatilidade das palavras e traduz o sentimento de quem tenta, tenta, tenta mas não consegue realizar-se. Deixando claro que as músicas do Rosa as vezes – ou quase sempre – é muito difícil de se definir, e o grupo sabe tão bem disso, que deixa que os próprios fãs tirem suas conclusões.
A terceira música é a faixa-título. A partir daí o ritmo agitado dá lugar a uma canção semi-acústica (digamos assim). A letra passa a mensagem de que se só tivéssemos o amanhã, será que iríamos buscar à Deus? Qual seria nossa última oração? “Se de fato fosse mesmo o último adeus“, “viva como quem soube que vai morrer” e “uma verdadeira causa pela qual morrer” são umas das várias frases de efeito que leva o ouvinte a refletir sobre seus atos. Destaques para os violões e riffs bem detalhados.
O disco segue com sua sonoridade muito boa e atraente, agora com uma canção acústica, e uma forte candidata a melhor música do CD. Após ouvir, tente imaginar um clipe da mesma e a ouça outra vez! Quando tiver sessenta é um exemplo nato de música folk tocada por uma banda de rock. O instrumental me lembra o acústico do Scorpions, mas podem discordar de mim. A canção tem um lado futurista/saudosista, vida/morte, certezas/incertezas bem reflexivas. Costumo dizer que essa não é uma música pra todas as horas, pelo fato de ser reflexiva e pessoal. Essa foi uma fase complexa na vida do autor pois sofreu muitos ataques por membros de sua própria fé, e chegou até pensar em aposentadoria. Junto com a faixa 3 (Cartas ao Remetente) e 14 (Fleur De Ma Vie), chorou compondo e gravou-as chorando. Segundo a banda, a letra é um combate ao imediatismo que vivemos e que dos 86.400 segundos que recebemos de Deus durante o dia, gastamos apenas 2 segundos para dizer: “Senhor, obrigado por este dia”.
Adiante temos Nada entre o valor e a vergonha. A música tem requisitos de balada no instrumental e um protesto à balada na letra. A sonoridade faz-me lembrar algumas canções do Snow Patrol e substituiu bem a faixa Jamais Será Tarde Demais do seu último de inéditas. Seguindo a base mais pesada do disco temos Algoritmo que traz a temática das misericórdias de Deus em nossas vidas, e que Ele sempre nos perdoa, mas insistimos continuar no erro. A poesia traduz esse sentimento nos versos “Setecentas e setenta e sete luzes não puderam iluminar, a sombra que escondeu-se do seu lar“. Destaque com louvor para os riffs e acordes definidos de guitarra e do peso sonoro bem encaixado da bateria. Uma das melhores do disco.
Continuando no peso “rock rosariano”, temos Neumas D’arezzo. Guido d’Arezzo foi um monge italiano, teórico musical que criou a notação moderna com a criação do tetragrama, encerrando com o uso de neumas na História da Música, e batizou as notas musicais com os nomes que conhecemos hoje: dó, ré, mi, fá, sol, lá e si (que antes eram ut, re, mi, fa, sol, la e san). Essa é mais uma das variáveis canções de protesto pessoal da banda com um grito que traduzido a fala ante a música, seria: “DEIXA-NOS FAZER NOSSO TRABALHO EM PAZ!“. Instrumental perfeito com linhas de baixo bem posicionadas com a simplicidade dos solos de bateria dando um ar de hardcore. E essa mesma bateria perdura durante os 3:42min. de Verdade/Mentira. Destaque sem igual pela boa harmonia de guitarra, contra-baixo e bateria e o encerramento marcante com “Afinal o Pinocchio era apenas um cara de pau“.
A seguir, temos duas composições do guitarrista Eduardo Faro com Dias Assim e Meus Medos. Ambas expressam o sentimento de dependência do amor de Deus. Pra quem conhece o lado devocional do autor, sabe que suas letras são sempre muito profundas. Destaque para solos sutis e voz marcante do Guilherme. Seguindo, encontramos uma faixa que é bem explícita quanto a fase de Invernia que o vocalista e autor da canção passou. Inicia-se com um questionamento profundo: “Deus, o que há comigo?”. Marcada com um arranjo “trovadorístico” de violinos, arranjados com delicadeza e devoção de Aramis Rocha e Robson Rocha. Destaque pela letra e voz quando é cantado o alívio de “Vai passar, eu sei, vai passar“. Seguindo o pique de canções reflexivas , ouvimos a belíssima O Mestre dos Ventos que também traz os violinos e fala metaforicamente de um mendigo. Há um sentimento de abandono explícito na letra. Outra forte candidata a melhor música do álbum.
Prestes ao término, nos encontramos com a irreverente Seis Nações. Com solos e bem norte-americanizados, a música fala da imperfeição e desejo pelo melhor. Frases como “Na medida da perfeição, eu sou um imperfeito” e “Quem sempre teve Deus como o centro das atenções, jamais precisou secar as lágrimas quando o amor se ausentou” dão um toque doce na melodia e desejo de ouvir mais vezes. E encerrando o ótimo disco, somos agraciados com a ingênua Fleur De Ma Vie, que traduzido significa Flor da minha vida. Introduzida com sinos e juntado com acordes dedilhados de violão, a canção é uma declaração de amor do autor à sua filha recém-nascida, Lívia Gallo de Sá. E o que mais marca – pelo menos pra mim – é o francês fluente do cantor no final do disco.
Cartas ao Remetente é um disco bem atual, mas com quesitos futuristas. Mais uma obra totalmente produzida pela banda e divulgado pela Som Livre. A produção musical é do vocalista Guilherme de Sá e o produtor Ricardo Domingues, que também assinou o último disco. Enfim, recomendo. Fiz questão de comprar o disco e baixar pelo iTunes! Abraços!
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