Dentre tantas coisas na Bíblia, as vezes nos perdemos em pequenas questões. Certas vertentes teológicas centram-se no sofrimento humano, outras nas bênçãos materiais e espirituais, outras em questões da antiga aliança, em costumes e tradições. Mas a atemporalidade de Eclesiastes está sempre lá. Acontece que, enquanto houver sociedade humana, haverá tempo, enquanto tiver tempo haverá vaidade.
Nascemos nus, desprotegidos, ignorantes, sem a menor consciência de onde viemos e o que será de nós a partir de então. A medida do crescimento, agregamos noções, ideias, conhecimentos. Vemos que a vida não é tão cor-de-rosa o quanto talvez pensávamos. Num conflito de ideias, filosofias de vida, vamos andando sob a corda bamba. Na busca de sentido, encontramos um Evangelho, as palavras de um homem, que se dizia filho de Deus há mais de dois mil anos atrás. Este homem morreu por nós, e cita a Bíblia que ressuscitou. Acreditamos e vivemos isso.
Mas, a realidade é que, hoje, e talvez desde sempre a maior parte das pessoas vivessem como se não houvesse nada após tudo isso, como se não cressem verdadeiramente no que afirmam. O medo do nada? Afinal, que parte do conhecimento palpável poderia nos provar de que realmente existe um Deus, um ser superior operando este enorme sistema no qual somos nada? Somos insignificantes no meio de um universo tão complexo.
Trabalhamos, comemos, relutamos contra e a favor de tantas coisas, para que depois de vários anos morramos num leito de hospital após o desenvolvimento de um câncer devastador. Ajuntamos riquezas com tanto suor que mais tarde serão esbanjadas de forma irresponsável por nossos filhos, ou até mesmo retidas em benefício de alguém que sequer conheceremos. Somos engraçados: estamos no nada, somos um nada e trazemos outros para um nada na busca de que esse nada não tenha menos sentido do que já tem.
Ter talvez é uma forma de sentirmos que nossa passagem pela Terra não seja tão aparentemente inútil e que teimosamente, se esforçamos um pouco, deixaremos uma marca nossa aqui, já que, pelo menos os que creem em Cristo acreditam que não são daqui. Mas, de que adianta? Buscar o máximo de conhecimento não me fará superior ao ignorante que morre de fome num país subdesenvolvido. Chamados, nada levaremos. Poderia eu ter sobre o meu corpo contatos físicos com várias pessoas. Mas, se revelaria outra vaidade.
Poderia, até mesmo fazer de Deus como um salva-vidas, um paraquedas, um balão de oxigênio, um seguro de vida, mas meu egoísmo revelaria novamente o nível de vaidade que isso alcançaria. Será que tudo o que estamos vivenciando não é apenas uma demonstração de nossa fragilidade, impotência, decadência, incapacidade de escolha e a soberania do Criador para que cresçamos e desenvolvemos em humildade e renúncia a tudo que, vindo de nós atribuímos como grande e importante?
A vida é uma escada rolante que não volta, não pede nossa opinião. E por mais que queiramos alongar ou diminuir nossos prazos, há tempo para tudo. Nascer, morrer, alegrar, entristecer. Devemos ter, em nossos corações um real entendimento disso.
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