Autor: Tiago Abreu

  • Rocklogia – Asas

    Após Armagedon, último disco do Kats tendo Brother Simion como líder, algumas coisas ocorreram. O cantor lançou mais um disco solo, chamado A Promessa, que, como dito em outro post, é talvez o seu pior trabalho. No entanto, em 1998, o vocalista lançou mais um projeto individual, que desta vez foi um divisor de águas e com certeza foi um impulso para que deixasse o Katsbarnea no ano seguinte: Asas.

    Muito do que há nos primeiros discos de Brother é folk. Canções simples, tocadas em voz e violão. Entretanto, o músico mudou levemente sua lógica em Asas, inserindo outros elementos e gêneros, como o techno e o hard rock. As composições estão claramente mais apuradas, com várias temáticas contextualizadas. A mais gritante é, sem dúvida, a questão ambiental. Com duas músicas diretamente relacionadas à problemática (“SOS Terra” e “Tempestade”), há uns arranjos bons aqui e ali, e no geral nota-se que algumas faixas podiam ser facilmente canções do Katsbarnea (inclusive, Jadão participa em algumas com seu baixo característico).

    “Liberdade” tem uma temática recorrente por Simion, a respeito da pseudoliberdade humana, criticando o uso de drogas por indivíduos que estão aprisionados por seus vícios. “Etério” vem de O Som que Te Faz Girar, desta vez com uma gravação mais recente e com arranjo leve. “Canguru Águia” é certamente a mais forçada e fraca do disco. Apesar de sua proposta, o resultado final não combinou com o estilo de Simion (mas valeu a intenção!). O crossover deu mais certo em “Reggae Street”, com sua pegada gostosa de ouvir. “Hey Brother” recupera todo o entusiasmo do músico em falar de temas atuais, citando em sua letra, por exemplo, a ‘era nuclear’, com preenchimentos vocais de Anhaia e Fontenele. “I Hope You See Light” fecha o CD melhor do que começou, com uma vibe hard rock com riffs de guitarra afiados. Penso o quanto a música seria ainda mais forte se tivesse sido gravada originalmente pelo Kats sem o uso de bateria eletrônica. Mas a faixa mais grandiosa do álbum, embora dotada de grande simplicidade, é a sua faixa-título, “Asas”, que naturalmente tornou-se um dos maiores sucessos do frontman.

    O disco foi produzido pelo rapper Amaury Fontenele, que claramente impulsionou a influência eletrônica de algumas faixas (que seria o ponto central do álbum seguinte, Na Virada do Milênio). Paulo Anhaia, que anteriormente produziu Armagedon e os clássicos da Oficina G3 (Indiferença) e Resgate (On The Rock) faz-se presente, tocando baixo e atuando como engenheiro de áudio, back vocal e mixagem. A parceria de Simion com Estevam Hernandes prossegue, com todas as músicas assinadas pela dupla (embora muitos afirmem que os créditos são simbólicos).

    https://www.youtube.com/watch?v=APwRHJinCrM

    Em meados de 1999, o Katsbarnea praticamente já tinha se transformado na carreira solo de Brother Simion. Há um erro histórico por conta de alguns autores, em que afirmam a saída do cantor. No entanto, a banda deixou de existir de forma natural. Certamente, não fazia o menor sentido manter em existência um grupo que trocava constantemente sua formação e tinha apenas como compositor Brother. Todavia, surpreendente, o nome Katsbarnea retornaria em 2000, com uma nova formação, totalmente desvinculada de seu ex-líder e fundador. Mas isso é assunto e explicação para um próximo post

  • Rocklogia – Metal Nobre

    A banda brasiliense Metal Nobre surgiu em meados de 1997, quando, por um sonho, o baixista Kenney teve a ideia do nome para o grupo. Até os dias de hoje, da formação original, além de Kenney, sobrou o vocalista JT (foto), mas vários discos foram lançados. No ano seguinte, saiu o primeiro projeto, de título homônimo, mas a banda alcançaria um reconhecimento maior através de Revelação, seu sucessor.

    O divisor de águas na carreira do Metal Nobre foi o ao vivo Nas Mãos do Senhor, de 2002, que conteve as canções de maior notoriedade dos discos anteriores. Lançado pela Gospel Records, o disco impulsionou o lançamento de mais um inédito, chamado Ao Teu Lado, que incluiu o estilo característico do hard rock da banda contido nos projetos anteriores, mas com a inclusão maior de baladas.

    Após um longo tempo sem inéditas, a banda apresentou Alta Voltagem em 2008, com “Guerreiro de Deus”, destaque no projeto ao vivo sucessor. Made in Brazil, de 2012, foi gravado em vários locais do país, e foi produzido com toda a dificuldade de um trabalho independente, mas o resultado final não deve em nada em relação às bandas do mainstream. Afinal, Metal Nobre é, mesmo assim, um dos grupos mais conhecidos na história recente do rock cristão brasileiro.

  • Para refletir – A estante e os troféus

    Quando a realidade é clara, direta e há a insistência de não a enxergar, mesmo estando óbvio e “na cara”. É neste contexto em que o ato de pensar, refletir e reavaliar os acontecimentos cotidianos soa mais dolorido. Construímos uma série de pequenos sonhos diários, ações a fazer, pessoas a interagir, ignorando o natural descontrole que é nosso dia-a-dia. É uma realidade talvez cruel, mas a mais justa, não é mesmo? Tudo o que foi pensado, milimetricamente planejado entra em choque com o outro que está do lado. A única ação, portanto, é aceitar.

    Assim, infelizmente, parece que levamos nossa vida como uma estante. Cada realização, um troféu, que logo logo estará empoeirado, abandonado, enquanto corremos por outro mais belo. E nesse loop de acontecimentos, vemos um pouco de nós morrer a cada instante. Nossos sonhos aparentemente inalcançáveis ficam para trás, sentimentos falecem, e percebemos que no fim das contas somente o essencial permanece. Costumo pensar que a morte física é apenas a conclusão de um processo mortífero, que é a nossa vida. É isso o que experimentamos: a morte do eu.

    E dentro deste processo, querendo ou não, uma hora aprendemos com a vida que nos é oferecida. Não há como construir o amanhã sem as vivências do hoje, as quedas, as dores e as realizações. Nosso caráter é formado através de tudo o que é vivenciado durante este tempo, moldados e reconstruídos por Deus. A medida dos anos, olhar para trás, e saber muito bem o que realmente é e sempre foi importante para nós, e no final nos encontrarmos para sempre com o Pai, concluindo de forma perfeita nossa trilha.

    É desta forma que gosto de pensar a respeito deste processo, no qual nunca estamos sós.

    https://www.youtube.com/watch?v=1aAw9gQUTdE

  • Rocklogia – O rock vintage do Resgate

    O Resgate tinha alcançado um posto respeitável no rock cristão nacional através de On The Rock, e graças à Paulo Anhaia o som da banda evoluiu muito. Dois anos daquele lançamento se passaram, e o quarteto propôs fazer um disco mais ousado que o anterior, principalmente nas letras. Daí surgiria um de seus trabalhos mais incompreendidos, Resgate.

    Nesta época, a banda gostaria de obter um som diferente do disco anterior. Ao invés de estar fortemente pautado no hard rock e no heavy metal, o Resgate gostaria de produzir uma musicalidade vintage e crua. Anhaia abraçou a ideia que, como produtor mais experiente do que em On The Rock, realizou experimentações junto ao grupo que culminou na sonoridade encontrada no álbum.

    O disco, como um todo tem timbres de guitarra mais característicos, mas o destaque vai para a bateria de Jorge Bruno. Sem reverbs e poucos overdubs, o som é bastante orgânico. As letras, em maioria extremamente complexas, talvez as mais bem construídas no repertório da banda. Um dos grandes exemplos é a canção de abertura, “Liberdade” e “E Daí?”. Eu particularmente gosto muito de “No One” e sua simplicidade, embora a pegada da intro de “Antes” seja memorável.

    Na prática, o álbum não foi masterizado. Paulo Anhaia, juntamente com o vocalista Zé Bruno apenas checaram os níveis de áudio no computador do produtor, que estava na cozinha da casa de sua mãe. Apesar da intensa seriedade do disco, não faltou humor nos créditos do encarte, com a seguinte citação: “Masterização: Mother’s Kitchen”.

    No geral, Resgate transmite uma sonoridade envolvente, simples e letras que abordam a questões internas do ser humano e pontos fundamentais do cristianismo (como a transformação de vida do indivíduo). É de certo que sua posição na discografia da banda é ingrata, afinal está dentre dois divisores de águas do Resgate (On The Rock e Praise), o que de certa forma sempre o ofuscou dos demais álbuns.

  • Damares sofre acidente após show

    A cantora pentecostal Damares, neste domingo (8/3) sofreu um acidente automobilístico juntamente com seu marido, Pr. Aldori. Segundo a assessoria de imprensa da intérprete, o casal seguia numa rodovia federal para a residência enquanto um motorista bêbado colidiu no carro em que a artista estava.

    De acordo com o comunicado, após a batida, o automóvel de Damares capotou três vezes e parou próximo a um barranco. Mesmo assim, segundo a assessoria, o casal sofreu ferimentos leves e passam bem. O acontecimento foi declarado como um “livramento de Deus” e foi divulgado nas redes sociais da cantora, com uma fotografia do acidente.

  • Rocklogia – Catedral na MK Music

    Com certeza, muitos dos leitores já devem ter sentido a impressão de que o rock cristão nacional sempre esteve uns dez anos atrasado dos acontecimentos do rock nacional do ciclo não-religioso. Pode notar. Os Mutantes, no final dos anos 60 faria uma revolução estética. A revolução estética no Brock cristão ocorreu no final dos anos 70/início dos anos 80 com Janires, juntamente com o Rebanhão. No início dos anos 8o surgiriam várias bandas de rock icônicas, como os Titãs, Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, Ira! e outros. No rock cristão as bandas mais longevas começaram a surgir no final deste mesmo período.

    Os anos 90 foram tempos difíceis, ao contrário do auge ocorrido anteriormente. A música sertaneja começava a se destacar no mainstream, e os grupos de rock mais conhecidos passaram por situações que ameaçaram sua existência. O cantor Cazuza, ex-Barão Vermelho morreria vítima de AIDS, mesma doença que matou Renato Russo em 1996. Uma suposta guerra de egos faria Arnaldo Antunes sair dos Titãs em 92. Em contrapartida, o rock cristão tupiniquim estava a todo o vapor. Com grandes eventos abertos para conjuntos do gênero, como o destacado SOS da Vida, muitos artistas de rock figuravam espaço nas grandes gravadoras (o que não se vê muito atualmente, mas isso é assunto para outro post…).

    A MK Music, em seus primeiros anos, investiu num cast bastante diversificado. Isso implicou em contratações de cantores e bandas de rock. Em 1992, a banda Complexo J foi provavelmente a primeira, lançando dois discos, no qual o primeiro é excelente. Em 1993, Carlinhos Felix, agora em carreira solo lançava o sucesso Basta Querer, com uma proposta bem mais pop do que o rock do Rebanhão. Outros grupos, como o Semeando e o Contato Vital também lançariam obras pela MK.

    No mesmo ano em que o Complexo J trocava a MK pela Gospel Records, o Catedral adentrava à gravadora com o lançamento Contra Todo Mal, que definitivamente demonstrou muitas mudanças na música da banda. Podem até negar, mas ao passar dos anos investiram bem mais em canções mais simples, com propostas mais comerciais. As associações com o Legião Urbana tornaram-se cada vez mais frequentes. Até hoje, todas as ligações são desencorajadas pelo grupo, mas são inquestionavelmente pertinentes. Talvez o ápice disso foi alcançado no álbum A Revolução, cuja faixa-título pode muito bem ser comparada à textura de algumas faixas de O Descobrimento do Brasil. Coincidência ou influência? Prefiro deixar na visão dos leitores.

    O sucesso do Catedral no mercado evangélico é inquestionável. Quando a MK Music, no fim dos anos 90 consolidou-se como a principal gravadora do mercado evangélico, a Catedral gozava o título de artista recordista de vendas do selo. Neste momento, gravadora e banda entrelaçavam-se muito bem em seus alvos, uma parceria de êxito. Mas como nem tudo são flores, sabemos que o fim disso não foi positivo, e é o que veremos nas próximas semanas…

    https://www.youtube.com/watch?v=lez4Hpnoo3M

  • Rocklogia – O pulso ainda pulsa

    A Rocklogia dá uma pausa essa semana para relembrar uma situação um pouco fora da história do rock cristão brasileiro.

    Em 1989, os Titãs lançavam um de seus melhores trabalhos, o álbum Õ Blésq Blom, que contém o clássico “O Pulso”, época em que Arnaldo Antunes ainda integrava a banda. Sua letra dispensa comentários e merece ser relembrada aqui.

    https://www.youtube.com/watch?v=Ehmqn4OhJXc

    O que ninguém esperava era em que 2012 o vocalista do Resgate, Zé Bruno, escrevesse um texto analisando a situação da música cristã nacional, parodiando a canção de Arnaldo. O texto, intitulado de “Troféu II – O pulso”, é a continuação do texto em que ironizou o processo de votação do Troféu Promessas. Relembre:

    Falando um pouco sobre música.

    Neste final de semana pude conhecer dois trabalhos que me agradaram muito. Tive a grata surpresa ao ouvir os CDs do Hélvio Sodré e do Tanlan que estão dentro de um universo rock-pop no qual tenho navegado com o Resgate, há algum tempo. Acredito que deva ter mais gente fazendo coisa boa por aí a fora, cito dois casos porque pude ouví-los.

    Começamos com o Resgate em 1989, estamos perto de completar 24 anos, mas não me acho uma referência no sentido crítico, até porque meu universo musical roqueiro implica em muitas limitações harmônicas…sabe como é, são só três acordes… (risos) it’s only rock’n’roll but I like it!

    Mas confesso que quando me apresentam algo novo me sinto como se estivesse lendo o jornal de ontem, sabe como é? Aquela sensação de já ter lido aquela matéria e visto aquelas fotos? Imediatamente coloco de lado o periódico e sigo a vida à procura de uma notícia nova, infelizmente o Ctrl + C seguido de Ctrl + V insiste em subsistir em nosso meio.

    Graças a Deus não é o caso destes dois CDs que pude ouvir, eles saem do lugar comum, isso é bom.

    Não estou fazendo o papel de crítico, apenas refletindo sobre o que estamos fazendo com a nossa arte. A música e a poesia andam juntas e são a expressão da nossa razão e sentimento. Na verdade não sei se vivo em busca de uma música do céu, acho que vivo procurando uma maneira cada vez melhor de expressar o que Deus coloca dentro de mim aqui mesmo na Terra. O que eu preciso do céu acho que já tenho na forma revista e atualizada e na linguagem de hoje.

    Acredito que este é o grande problema… Nossa arte musical e poética precisa vir à luz pela reflexão nas sagradas letras, acho que é disso que sinto falta.

    Meu amigo e mestre Ariovaldo Ramos me disse que sem Bíblia não há heresia. Acho que é por isso que me sinto melhor às vezes ouvindo uma música em uma rádio qualquer do que ouvindo o melhor dos iguais no meio evangélico. Onde não há Bíblia não há heresia, na música “secular” (sei lá quem inventou esse título) consigo enxergar apenas o sentimento que o poeta demonstra e sua reflexão sobre a vida, e isso me soa coerente, e muitas vezes até se alinha com a lógica de Renato Pereira de Carvalhos em sua palavra. Por um outro lado músicas evangélicas sem reflexão e teologia se tornam avessas aos meus ouvidos, pois a poesia não contém o ingrediente que eu esperava que deveria conter.

    Teve dias que cheguei a pensar que não teria mais jeito, mas ouvindo meus novos amigos, valei-me Arnaldo Antunes, senti que o pulso ainda pulsa.

    Poderia citar Palavrantiga, O Trigo, Daniela Araújo…e outros tantos que me perecem que nadam livremente contra a correnteza. A mim me parece que não se importam com o fluxo natural, que legal isso! Fazem sua arte, cantam sua música e pronto. Eu gosto de ser assim, e admiro quem o é. Espero não me equivocar com essa galera, acho que não vou não…

    Depois de um tour de alguns anos no universo neopentecostal, sou grato por estar de volta e encontrar gente que sempre foi herói na resistência, pessoas que mantiveram vivo o mundo onde hoje encontro vida outra vez, obrigado a todos!

    Além disso, esses heróis servem de útero para que Hélvios e Tanlans possam nascer. Espero poder contribuir de algum jeito com esse mundo.

    Parabéns aos novos diferentes que mantém a alegria sentir de que o vinho pode ser novo todo dia em todos os sentidos. A cada dia vem um novo tsunami, mais um sucesso gospel, mais um meteoro da paixão, mas esse pessoal me faz ver que o pulso ainda pulsa…

    Vai minha paródia…

    Auto-ajuda, profecia, esquizofrenia
    Só vitória, dando glória, e histeria
    Conquistando, avançando, valentia
    Submundo do gerúndio, alquimia

    E o pulso ainda pulsa (graças a Deus)

    O pulso ainda pulsa

    Atos proféticos, símbolos, judaísmo
    Artimanha, barganha, fanatismo
    Fronha, lenço, arca, candelabro
    Meia, sabonete ungido, abracadabra!

    E o pulso ainda pulsa
    O pulso ainda pulsa

    Cópia, versão, fé, enlatado
    Revelação, mais unção, pré-fabricado
    Mexas, barbies, clipes, relógios dourados
    Tiques, Sarzedas e Disney, auditório animado

    Mas o pulso ainda pulsa
    O pulso ainda pulsa

  • Rocklogia – Acústicos, acústicos e mais acústicos

    A moda dos acústicos chegou no rock cristão nacional, e de 1998 até 2003 teve alguns trabalhos do tipo que até hoje são marcados como projetos marcantes na carreira de algumas bandas. Apesar de serem álbuns que pouco agradam aos fãs de rock, ajudam na vinda de novos públicos que não apreciam tanto ‘peso’.

    A primeira banda a apostar em gravar um disco do tipo foi a Oficina G3, com o Acústico de 1998. Um álbum de estúdio, como se fosse um cartão de apresentação do novo vocalista, PG que substituía Luciano Manga. É um álbum mediano, que agrada bem mais pelas duas inéditas (Quem? e Autor da Vida) do que pelas novas versões. No ano seguinte, foi gravada a versão ao vivo deste álbum, com mais músicas acústicas, e o resultado foi bem melhor que o anterior, lembrando uma boa época da Oficina G3.

    Foi no mesmo ano de 1999 que o Fruto Sagrado também gravou um acústico comemorando dez anos de carreira. Diferentemente da Oficina G3, a banda explorou novos arranjos, como em “Investimento”, numa execução bem melhor que a original.

    Mas o melhor acústico, sem dúvida foi o do Katsbarnea, de 2000. É claro que o vocal de Paulinho Makuko está longe de ser um dos melhores, mas em nenhum dos outros discos citados neste texto possui tanta participação do público como este do Kats. É audível por todo o projeto o público vibrando a cada canção. Até se fosse um mudo cantando, este disco seria muito bom.

    Em 2001, foi a vez do Resgate. A própria banda não gostou do resultado final, mas particularmente acho um bom álbum, além da inclusão da inédita “Água Viva”. Mas, se a banda desejar gravar outro acústico melhor que este, creio que todos aguardarão bem satisfeitos.

    https://www.youtube.com/watch?v=GGNmSZyxO7M

    Numa atitude um tanto quanto insana, Paulinho Makuko resolveu fazer outro álbum acústico no Katsbarnea em 2002. Profecia une o acústico com a música clássica, e embora não seja completamente acústico, foi um disco na hora errada, ainda mais por trazer músicas da carreira solo do ex-vocalista Brother Simion.

    O Catedral, mesmo não se intitulando cristão ou gospel, lançou pela Line Records o Acima do Nível do Mar, em 2003, que faz uma boa fusão do rock com a MPB, com músicas inéditas e regravações. É considerado por muitos como o melhor trabalho do grupo carioca.

  • Rocklogia – Os últimos anos do Rebanhão

    Muito se fala no contrato do Catedral com a Warner Music Brasil em 1999, mas bem antes disso vários músicos cristãos assinaram com a ‘gravadora secular’. O Rebanhão foi uma delas.

    Aquela altura do campeonato, a nova formação estava estável há três anos. Sem mais vocalistas, creio que o álbum seguinte, Por Cima dos Montes pode ser tranquilamente considerado um álbum solo de Pedro Braconnot, e mostra um afastamento mediano à proposta inicial e musical do grupo. Lançado em janeiro de 1996, musicalmente, é um bom álbum, com arranjos muito interessantes e criativos e produção musical polida. A maturidade instrumental alcançada aqui é admirável. Mas, em letras é uma maré extremamente baixa. Pedro é compositor da maioria delas, a exceção de “Louvor” (Jorge Guedes) e “Eu Voltarei” (Tutuca Borges e Sobreira Batell). “Ligado na Videira”, que é a canção um pouco mais próxima do Rebanhão antigo tem a contribuição de Pablo Chies na autoria.

    Por Cima dos Montes também é um álbum marcado por regravações. Um pot-pourri de “Salas de Jantar” (Janires) e “Contemplar” (Pedro Braconnot), “Razão” do álbum Novo Dia e “Flor do Campo”, do Semeador. Quando pensamos em regravações, há a firme certeza que a nova versão deve superar a original, e ainda bem que neste ponto o álbum não falhou. A exceção de “Razão”, todas as demais regravações ficaram muito boas, principalmente “Flor do Campo”, gravada exclusivamente em piano e voz.

    https://www.youtube.com/watch?v=oZ-Cza9xlCo

    Capa do relançamento do álbum, lançado em 2002.
    Capa do relançamento do álbum, lançado em 2002.

    “Sempre Estar Contigo”, “Noiva” e “Salmo 147”, como dito antes aproximam-se um pouco mais de um estilo mais devocional. A faixa-título, “Por Cima dos Montes” de início lembra um pouco um vocal sertanejo, mas não é. O refrão é bom, e garante um dos momentos interessantes do projeto. “Crazy of Jesus” é a música mais forçada do CD, e consequentemente o pior ponto. Basicamente, Por Cima dos Montes é um disco de art rock, e possui muitas influências da época. Particularmente, a textura do álbum me lembra muito o CD Made in Heaven do Queen, lançado em dezembro de 1995, um mês antes do projeto do Rebanhão.

    A formação deixou de ser estável logo depois. Rogério dy Castro e Wagner Carvalho, em 1997 saíram para fundar uma banda. Com Wagner Derek e Davi Fernandes surgiu a Primeira Essência. Os últimos anos do Rebanhão seguiram-se com Pablo Chies tocando com Pedro por mais um tempo, até em gravações de outros artistas, como Marina de Oliveira e Cristina Mel. Braconnot participou do segundo álbum da coletânea Amo Você da MK Music, juntamente com sua esposa Ayna, época que a gravadora ainda tinha abertura a cantores de fora do cast.

    Pablo Chies acabou saindo também, e mais uma vez Pedro ficou sozinho. Recrutou vários outros músicos, e de forma independente foi lançado, pelo nome Rebanhão o projeto Vamos Viver o Amor, que é uma maré ainda mais baixa que Por Cima dos Montes. Absolutamente nada no álbum lembra o Rebanhão, embora tenha a regravação de “Fronteiras”, do Princípio. Em 2000, o Rebanhão fez seus últimos shows. Pedro Braconnot foi entrevistado por uma revista sobre música, e na mesma época decidiu ‘dar um tempo’ na banda. Porém, o hiato tornou-se permanente. O grupo recebeu convites para voltar, mas Pedro recusou, afirmando que não pretende viver apenas da banda e tem em vista outras coisas a fazer. Carlinhos Felix prestou homenagens ao grupo, regravando várias de suas músicas em carreira solo. Paulo Marotta participou de seu álbum Nada a Perder, lançado pela MK em 1995 na música “Muro de Pedra”.

    Em janeiro de 2013, na Igreja Congregacional de Bento Ribeiro, Pablo Chies, Carlinhos Felix e Pedro Braconnot cantaram várias canções do Rebanhão, e em 2014 a surpresa da volta da banda (um assunto para um post futuro). Acima de tudo, em vinte anos, provou ser uma das bandas mais criativas do rock cristão nacional, e merece todo o crédito pelo legado que construíram.

  • Rocklogia – Indiferença

    Aos fãs mais recentes da Oficina G3, mil desculpas, mas existem álbuns na discografia da banda que sejam melhores que o tão comentado, bajulado e superestimado D.D.G. O que parece controverso para alguns é óbvio para outros. Assim, Indiferença é, talvez o grande exemplo disso.

    Lançado em meados de 1996, este disco foi, sem dúvida, o primeiro divisor de águas na carreira da banda Oficina G3. Duca Tambasco já tinha participado em poucas faixas de Nada é Tão Novo, Nada é Tão Velho, mas é neste momento em que o baixista faz realmente sua estreia. No entanto, ele não era o único. Um tecladista brasiliense, chamado Jean Carllos era recém-chegado, para somar a formação que tinha Juninho Afram, Luciano Manga e Walter Lopes como veteranos.

    Outro destaque no disco é a produção musical de Paulo Anhaia, que tinha, recentemente trabalhado com o Resgate e Katsbarnea. Com o ótimo resultado de On The Rock e Armagedon, o óbvio era que o futuro trabalho da Oficina G3 ampliasse a visão do grupo. E foi o que aconteceu.

    As canções do álbum são escritas por quase todos os integrantes, embora a maioria sejam resultado do trabalho individual de Juninho. Com mais faixas instrumentais como “Glória” e “Duca’s Jam”, os pequenos espaços no álbum são preenchidos por performances proficientes dos músicos. Nos vocais, Manga comanda com maestria, embora haja participação de Afram e Lopes em outras. Os sintetizadores de Jean são perfeitamente adequados ao que cada música pede.

    Embora o repertório não seja completamente inédito, as regravações do primeiro álbum da banda foram competentemente produzidas, com novos arranjos e interpretações. Um grande exemplo é “Magia Alguma”, uma das melhores baladas do Oficina G3. Vale lembrar que o maior sucesso do grupo está no disco, a clássica “Espelhos Mágicos”.

    Algumas performances do Oficina G3, nesta época podem ser encontradas na internet. No ano seguinte, Luciano Manga saiu do grupo. Na verdade, a banda já estava preparada para isso, já que Manga era pastor, e em algum momento precisaria se ausentar. Mas, para não atrapalhar a Oficina G3, Manga ajudou-os na escolha de outro vocalista, e encontraram num rapaz chamado Pedro Geraldo (mais tarde, conhecido como PG) a personalidade perfeita para substituí-lo. PG era vocalista e baixista de uma banda de metal cristão da época, e aceitou entrar no grupo.

    Luciano Manga é amigo dos integrantes do Oficina G3 até hoje, e ajudou o grupo em outros momentos, como na indicação de Celso Machado para guitarrista base convidado. Manga fez participação especial em dois álbuns posteriores do grupo, na canção “Pirou”.