Autor: Jhonata Fernandes

  • Um Brinde – O Deus que coloca sorriso em rostos

    Um Brinde – O Deus que coloca sorriso em rostos

    Continuando a série de textos com análises de músicas do Coldplay, hoje escrevo sobre “God Put a Smile Upon Your Face” (Deus colocou um sorriso em seu rosto) que está no segundo álbum da banda, o A Rush Of Blood To The Head, lançado em 2002. Essa é uma música muito boa em seus dois quesitos básicos: melodia e letra. Alguns teóricos musicais consideram “música boa” aquelas que cativam e faz com que seus ouvintes a ouçam repetidamente sem enjoar. “God Put a Smile Upon Your Face” tem essas características. Em Provérbios capitulo 3 verso 2, Deus nos dá boa doutrina e nos diz para não abandonar o seu ensino. E o que é o ensino de Deus? De imediato afirmamos que é a Escritura. Sabemos que a Bíblia é muito mais que um aglomerado de escritos apologéticos, ela é a própria Palavra de Deus revelada. Como disse o Yago Martins em um congresso missionário: “O livro basta!” Mas Deus deixou algo lindo e maravilhoso chamado música, o qual, também tem sua função didática. O que aprendemos com a bíblia são bases sólidas de coisas que veremos nas artes que nos cercam. O ensino de Deus na Bíblia nos dá o norte que precisamos para ver seus feitos se revelando em nossas vidas. A música do Coldplay começa assim:

    “Para onde vamos, ninguém sabe
    Tive que dizer que quando fico um pouco deprimido
    Deus me dá estilo e graça
    Deus coloca um sorriso em meu rosto”

    Vemos pontos interessantes nessa primeira parte que nos encoraja muito e nos leva a pensar melhor. Primeiro ponto é a frase: “Para onde vamos, ninguém sabe”. A princípio vemos uma pequena crise psicológica da eternidade, mas a letra reflete algo mais profundo porém simples. No livro de Salmos o salmista passa por esse mesmo processo quando questiona “Para onde me irei do teu Espírito, ou para onde fugirei da Tua presença?” mas sente-se aliviado quando diz “Eu Te louvarei, porque de um modo tão admirável e maravilhoso fui formado; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem.” O Coldplay nem chega a pôr ponto de interrogação e já se conforma em dizer que ninguém sabe e que Deus vos dá “estilo e graça”. E aqui abrimos o segundo ponto da primeira parte da música que diz “Tive que dizer que quando fico um pouco deprimido / Deus me dá estilo e graça”. Ainda usando o salmista Davi como referência bíblica vemos o seu desabafo no Salmos 31: “Tem compaixão de mim, ó Senhor, porque estou angustiado; consumidos estão de tristeza os meus olhos, a minha alma e o meu corpo.” Na dor Deus manifesta seu poder e graça. Um médico só pode provar que é médico de verdade quando fica diante de alguém enfermo e com Deus não é diferente. Foi por isso que o apóstolo Paulo disse que a graça de Deus basta e que o poder dele se aperfeiçoa na fraqueza (2 Coríntios, 12:9). Podemos usar o “estilo” citado pela banda como “força”. Deus nos mostra que temos força sufiente para buscá-Lo e é só desse princípio que precisamos pois Ele se encarregará do resto. O que mais me deixa contente em analisar as músicas de bandas não rotuladas como cristãs é saber que Deus com sua tamanha maestria coloca a beleza de seus ensinamentos em lugares que jamais imaginaríamos ver. Quando tiramos o cristianismo da caixa podemos experimentá-lo com autenticidade ao invés de só vermos estável. O próximo ponto importante dessa primeira parte da música foi o que me fez sorrir: “Deus coloca um sorriso em meu rosto”. Há umas semanas atrás meu irmão e eu estávamos doentes, disse a ele que o amava e ele retribuiu dizendo o mesmo. Meu irmão tem 8 anos e é uma criança afetuosa, o que aprendo com esse trecho do Coldplay é que Deus – a própria alegria – nos dá paz mesmo que a tristeza insista em nos visitar. Deus coloca um sorriso em nossos rostos quando mais precisamos sorrir. Quando eu estava doente, pegando muita febre e fraco, consegui ver graça nisso e dei glória a Deus por isso também. A música continua:

    “Onde vamos estabelecer um limite
    Tive que dizer que desperdicei todo o seu tempo, querida, querida
    Sempre que eu fico melancólico
    Deus coloca um sorriso em seu rosto”

    Costumo dizer que os limites servem para nos lembrar que não precisamos ir além do que já sabemos pois somos frágeis demais para compreender tudo. O Coldplay usa duas palavras bem familiares: “limites” e “tempo”. Em Eclesiastes 3 vemos que há tempo para tudo na vida e em Salmos 74:17 vemos que Deus estabeleceu limites. O que aprendo com isso? É que tempo perdido são limites rompidos. Perdi muito tempo acordado quando poderia estar dormindo, descansando para o dia seguinte porque isso é benção para nós. Quando Deus coloca limites e nós pensamos em romper, negligenciamos as bençãos do Pai e negamos sua graça sobre nós.

    “Agora, quando resolve tudo, eu estou pior que você
    Sim, quando você resolve tudo o que eu queria
    Agora, quando você resolve onde estabelecer os limites
    Seu palpite é tão bom quanto o meu”

    Essa é a parte da música “God Put a Smile Upon Your Face” traduzida em português, agora traduzo para o contexto bíblico que é “Deus, quando faço as coisas por mim mesmo, elas até parecem agradáveis, mas quando o Senhor é quem faz elas saem melhores. Suas decisões são muito melhores que as minhas!” Essa é a linguagem cristã na música. Os limites impostos por Deus são situações que nos favorecem mesmo quando não enxergamos assim. Quando Deus estabelece limites em nossas vidas, somos incentivados a exercitar melhor nossa fé nEle. Não podemos confiar em nossas próprias mãos pois são frágeis e inconstantes.

    “Agora, quando resolve tudo, eu estou pior que você
    Sim, quando você resolve tudo o que eu queria
    Agora, quando você resolve onde estabelecer os limites
    Seu palpite é tão bom quanto o meu”

    Quando confiamos em Deus temos convicção de que Ele pode e vai fazer tudo que precisamos. Ele põe limites para nos dá a alegria de sabermos que podemos descansar nele e as coisas vão se encaminhar. Não quero que entenda que estou dizendo que a confiança em Deus é como um fundamentalismo “hipper liberal” que acredita na mansidão das coisas simples etc. A confiança em Deus através de Cristo é o que nos dá esperança por sua graça (II Co 3:1-5). Essa foi uma maneira simples que encontrei para analisar mais uma música do Coldplay que tem muito cristianismo para nos passar. O Deus que coloca sorriso em nossos rostos é o mesmo Deus que impôs tempo para tudo e impõe limites em questões suficientes. Afinal de contas, se o copo já está cheio, não há porque continuar virando a jarra. Ouça a música e analise a letra por si mesmo! Um brinde!

  • Um Brinde – Alguém pode parar esta coisa?

    Um Brinde – Alguém pode parar esta coisa?

    Ano 2000 e a banda Coldplay lançava seu primeiro álbum, o Parachutes. Todas as canções são muito boas, mas uma em especial me chamou atenção por sua sinceridade letrista e eu quis fazer um comparativo com o cristianismo. Ela se chama “High Speed” (Alta Velocidade) e é uma composição dos quatro integrantes: Chris Martin, Guy Berryman , Jon Buckland e Will Champion. Pretendo fazer uma série de textos com musicas do Coldplay e no que elas se relacionam com o cristianismo. Que Deus nos guie em amor!

    “High Speed” segue uma vibe muito gostosa de se ouvir e analisando a letra fui sinceramente edificado, principalmente no trecho que diz “alguém pode parar esta coisa?”. Essa pergunta eu faço diariamente para várias coisas que me cercam: alguém pode parar a corrupção? Alguém pode parar as mentiras políticas? Alguém pode parar os falsos profetas?

    Qualquer um pode voar esta coisa?
    Antes que minha cabeça exploda
    Antes que minha cabeça comece a tocar
    Vivíamos a vida dentro de uma bolha
    Vivíamos a vida dentro de uma bolha.”

    Viver dentro de uma bolha me parece muito com uma alienação. Acredito que seja disso que o Coldplay está falando: do sistema que manipula e forma pessoas incapazes de ceder, ou seja, fechadas para conhecer a verdade e segui-la.

    “E se repartia a qualquer um que tivesse necessidade.” (Atos 4:35)

    O texto de atos se refere a terras, bens materiais, mas a relação com a música “High Speed” é notória, pois quem de nós pode voar [administrar] essa coisa [bem]? Quem pode ser salvo? Quem pode crer? E aqui, o caro leitor percebe o rumo do texto mudar radicalmente e questionar a razão do escrito, certo? A música começa com um questionamento e esse questionamento é o que milhares de cristãos do ocidente ao oriente vem fazendo a anos: quem pode ser livre? Como um bom calvinista creio na predestinação divina e que Cristo morreu pelos escolhidos. Se a Bíblia diz que quem crer será salvo fica um questionamento para os arminianos: todos creem em Cristo? Um coral harmônico de “NÃÃÃÃO!” Então a morte redentora não foi para todos. Podemos discutir isso depois caso o leitor queira, mas agora, voltemos a música:

    Confiança em você
    É confiança em mim
    É confiança em alta velocidade.
    Alguém pode parar esta coisa?
    Antes que minha cabeça exploda
    Antes que minha cabeça comece a tocar.
    Vivíamos a vida dentro de uma bolha
    Vivíamos a vida dentro de uma bolha.”

    Quando confiamos em Deus, confiamos em nós. Sim, eu não creio em humanistas que negam a existência de Deus pois Ele é o autor da vida (Atos 3:15) e único que colocou a ideia de eternidade no homem (Eclesiastes 3:11). E aqui o Coldplay muda a pergunta para “Alguém pode parar esta coisa?” a frases que mais me chamam atenção na música. Se antes a pergunta provocava uma dúvida inocente dando a ideia de desconhecimento dos fatos, agora a dúvida é por algo que não mais se acredita. Alguém pode parar a injustiça, a mentira e as falsas ideias? Mark W. Baker diz no livro Jesus, O Maior Psicólogo que Já Existiu que “acreditar que a humanidade é fundamentalmente má faz você querer se afastar dela o máximo possível e só se associar àqueles que defendem idênticas convicções religiosas.” (Pág. 29) Por mais que o mundo esteja corrompido não cabe a mim julgar todas as pessoas de acordo com o meu pressuposto, para ser sincero, não sou capaz de embasar todas as minhas teorias e defender tudo aquilo que acredito, porém, creio que se é possível negar totalmente um Deus Todo-Poderoso e digno de todo louvor, de igual modo é possível crer nEle para sua glória! “Alguém pode parar esta coisa?” Se essa coisa se refere ao mal, Deus pode impedi-lo (I Sm 25:34). Seja qualquer outra coisa que o Coldplay se refira, Deus pode parar e/ou fazer andar/voar.

    A letra se repete outras vezes com alguns crescentes:

    Confiança em você,
    É confiança em mim
    É confiança em alta velocidade.
    Em Alta velocidade
    Em alta velocidade, você quer
    Alta velocidade, você quer
    Alta velocidade, você quer.”

    “Em Deus, cuja palavra eu louvo, em Deus ponho a minha confiança e não terei medo;” (Salmos 56:4)

    Deus sendo nossa confiança, o temor da injustiça política, crise existencial, falta de esperança nas pessoas e outras coisas se tornam nulas. Ele está no controle de tudo mesmo que para nós tudo isso pareça uma bagunça enorme. Eu costumo dizer sempre isso para os meus irmãos de congregação: “Deus não perdeu o controle!” Em Isaías 45:18 somos alertados que Deus “que formou a terra, que a fez e a estabeleceu, não a criando para ser um caos, mas para ser habitada: Eu sou o Senhor e não há outro.” Esse é o nosso conforto! Crer que não existe outro deus além do nosso Deus  forte e poderoso para salvar! Esse mesmo Deus pode parar seus ideais fracos e inconstantes de agirem por aí espalhados no mundo afim de convencer pessoas. Se cremos nele, cremos em nós e isso pode fazer um efeito benéfico sem tamanho. Que Ele continue nos guiando! Amém!

  • Um Brinde – O Cirilo que eu quero ser

    Um Brinde – O Cirilo que eu quero ser

    “e disse: Em verdade vos digo que se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus.”
    (Mateus, 18:3)

    Confesso que este foi um dos melhores textos os quais tive o prazer de escrever. Passei algum tempo observando a novela Carrossel, da emissora SBT, cuja produção está sendo reprisada em horário nobre. Nela, Cirilo é um dos principais personagens e é um menino doce, amável, educado e que todos querem estar perto, exceto, Maria Joaquina. Ela é filha de um médico, vive uma vida confortável e estabilizada, que mostra um contraste socioeconômico enorme com a vida a qual Cirilo leva. A indiferença de Maria Joaquina para com o Cirilo me passa duas lições: 1) nós cristãos, muitas vezes mostramos essa indiferença para os que ainda não conhecem a Cristo; 2) precisamos ser mais crianças independentemente de regalias.

    Já ouvi várias vezes alguns ditos cristãos agindo com tamanha prepotência com os não crentes, e isso, sinceramente me incomoda. Quase todos os cristãos assistem a TV e deveriam ter uma cosmovisão lapidada, permitindo serem “ministrados” pelo Cirilo. Não somos melhores que o ateu, budista, espírita, etc, mas somos fracos e imerecidos como qualquer ser humano pecador. A palavra é clara quando diz “TODOS PECARAM” (Rm 3:23), mas pela graça gratuita de Deus somos salvos (Rm 3:24). Somos pecadores que não merecem nada de Deus e por isso nossa indiferença não é válida, apenas só mostra o quanto somos miseráveis e incoerentes. Me entenda: não estou dizendo para você sair por aí distribuindo abraços com um sorriso falso no rosto, mas para não se achar como se fosse do grupo que vai de primeira classe para o céu, pois se você for, não é por mérito, mas pela graça. Ouço diariamente, numa igreja pentecostal que há na frente da minha casa, que “se fizermos as coisas certas Deus nos dará um galardão no céu”. Acho que a metáfora tem a ver com Mateus 5:12 mas a Bíblia é clara quando diz que esse “galardão” depende unicamente de Deus. Já ouvi barbaridades maiores como “cada alma que você ganha para Jesus é uma pedrinha que ganha em sua coroa no céu!” Deus capitalista? Deve ser por isso que a teologia da prosperidade tem atraído tantas pessoas.

    O aprendizado que fica é que devemos ter o coração puro como criança, fazendo a vontade do Criador como uma criança obedece seu pai. O primeiro passo que Jesus ensinou foi “converterdes” e depois “fizerdes como crianças”. Se ignoramos a conversão, jamais seremos como crianças. Como podemos entender o princípio de Cristo do amor ao próximo se ainda não fomos transformados pela graça? Como podemos ser crianças se ainda nem nascemos para Cristo? O Cirilo me passa a mensagem de que precisamos amar, simplesmente amar, mesmo que esse amor não seja reconhecido. O personagem se mostra afetuoso sempre com a Maria Joaquina mas isso não é recíproco, pois ela sempre lhe trata mal e mostra-se preconceituosa. Isso te lembra algo? Como o amor que damos ao próximo e somos retribuídos com “crentes são tudo hipócritas”, “a igreja é para alienados” e uma infinidade de outras frases que não vale a pena mencionar aqui. Não que eu esteja defendendo a massa de cristãos que existe hoje, mas me refiro aos que são crianças e entenderam o porquê de ser criança. Quando o apóstolo Paulo afirma ter atingido a maturidade, ele usa o termo “menino” para dizer o que deixou de ser e não criança (1Co 13:11). Por que será? Porque não podemos perder nosso lado criança. Foi Cristo mesmo que nos disse que é necessário receber o reino [a mensagem] como crianças (Lc 18:17).

    Em vários episódios, vemos o Cirilo querendo impressionar a Maria Joaquina várias vezes, mas nada adianta. Vejo um reflexo disso na nossa pregação. Em muitas vezes, tentamos impressionar as pessoas e elas nos ignoram sem nos dar ouvidos. O antídoto rápido e fácil não tenho, mas precisamos ser mais claros e menos repetidores de ideias, pois as pessoas estão cansadas de ouvirem o que funcionou com você, sobre os milagres que ocorreram com você, a sua vida pouco importa, elas precisam ouvir a Palavra, elas precisam ouvir falar de Jesus como Ele é e não como você o vê. O Cirilo que eu quero ser é aquele que não desiste de tentar se aproximar dos amigos, afim de estabelecer um relacionamento com eles. O Cirilo que eu quero ser é este que mesmo não sendo retribuído, continua amando incondicionalmente. Um brinde!

  • Análise: CD Horizonte Distante – Rosa de Saron

    Dando continuidade as análises da discografia do Rosa de Saron, hoje, resenho um dos melhores trabalhos da banda, o disco Horizonte Distante. Lançado em 2009, é o primeiro trabalho da banda pela Som Livre, uma das maiores gravadoras do Brasil. Após dois anos dedicados ao acústico de comemoração de seus 20 anos, o Rosa apresenta seu quinto álbum de estúdio. As 13 faixas conceituais e bem estruturadas fez com que o disco atingisse a marca de 100 mil cópias vendidas. Muitos fãs da banda consideram este, o seu melhor trabalho de estúdio. Dividi minha análise em três critérios importantes dentro do disco que são composições, arranjos e interpretação.


    Composições

    Guilherme de Sá (vocalista)

    O disco inicia com O Sol da Meia Noite, letra de Guilherme de Sá e que traz um lado poético e profético muito bacana. A música é esperançosa, assim como todo o disco. O compositor carrega uma frase consigo que diz “o Horizonte pode estar distante, mas Ele existe”. Facetas poéticas pra lá de intrigantes, Menos de um Segundo vem em seguida, agora com a temática morte/eternidade, contando, de forma simples, a dura realidade do sofrimento de quem perdeu um ente querido. O que mais me atrai na banda, além do instrumental, é a forma de composição do Guilherme feita sempre na primeira pessoa. O compositor volta a escrever sozinho na quinta faixa chamada Mais que um Mero Poema que é um protesto contra a hipocrisia do país e de como a juventude vai se perdendo em seus vícios. Na sétima faixa, a minha favorita do disco, Sobre Marés & Angra que, segundo o autor, foi inspirada em uma história real na praia. É uma canção bem particular e conflituosa com as escolhas que tomamos. Um trecho bem marcante é a pequena parte do refrão que diz “eu me perdi num abismo infinito”. Quantas vezes não nos perdemos em infinidades de razões? Entre Aspas é uma música autobiográfica de vida com banda que viaja quase todos os dias para fazer shows. Os integrantes disseram no DVD Rosa na Estrada – Especial Rede Século XXI que o Rosa de Saron é um instrumento de missão. Então, eles não só fazem música, mas passam a mensagem da cruz por elas. Meu Lugar é outra bela canção que quase todas as vezes que dou play, sinto uma imensa vontade de chorar. Primeiro: pois diz muito do que sou – um jovem que tem poucos amigos e a maior parte do tempo fica no quarto escrevendo, lendo e ouvindo música. Segundo: expressa um sentimento de liberdade bem profundo. E a última composição do Guilherme sozinho é Velhos Outonos, a qual, na verdade é uma poesia musicada. O refrão embala bem e arrepia: “vai ficar ou vai correr? Vai salvar ou esquecer? Eu só quero que me ame até o por do sol”.

    Considerações: eu sou muito suspeito para falar das composições do Guilherme. Sou muito fã do cara em todos os quesitos musicais. Ele de fato é uma grande referência para mim. Mas tentando deixar o lado fã de lado o elogio pelo sua espontaneidade de pôr o que ele vive de forma que se confunda com quem as ouve. É difícil fazer isso. Eu raramente consigo colocar meus conceitos de fé que creio sem que aquilo soe religioso e padronizado “gospel”. O Guilherme consegue e faz isso com uma naturalidade. Percebemos que ele não foge do cristianismo. Ele não tenta esconder que a banda é cristã e nem que ele não seja, pois isso é notório. Basta ouvir bem e ver o que se trata.


    Eduardo Faro (guitarrista)

    O Dudu tem uma forma de escrever muito única. O compositor é alguém único no meio artístico, isso é inquestionável. Neste disco ele não assina nenhuma música sozinho e para ser sincero, nem sei se a parte letrista tem uma pitada dele. Mas vamos lá: Folhas do Chão (parceria com o Guilherme de Sá) mostra o mesmo lado de escolhas que o “Sobre Marés & Angra”, a diferença é que aqui, é perceptível o lado de peregrino. Ou melhor, o lado de que o homem precisa rever seus conceitos, policiar-se e encontrar-se em Deus. Na Chuva ao Fim da Tarde é um rock bem empolgante e não tem como vibrar com o refrão “não tenho tempo pra fingir, não tenho tempo pra ficar aqui pois sei que nessa noite vai me iluminar”. Mesma Brisa, outra parceria com Guilherme, é uma canção que expressa o sentimento de adorador. A entrega, o desafio, o desejo de servir e pagar qualquer preço pelo evangelho.

    Considerações: o Eduardo é um bom letrista e a maioria de suas composições ficarão eternizadas na vida dos Rosarianos. Neste disco ele pôs a dosagem certa que o trabalho pediu. Acredito que essa era a vibe da banda.


    Rogério Feltrin (baixista)

    O Lerão, apelido carinhoso dado ao Rogério, assim como o Eduardo, não compôs nenhuma canção do disco sozinho, mas rendeu muitas canções boas, o melhor, as melhores desse álbum tem uma pitada dele. A forma como o Feltrin compõe também é bem devocional. Começando por Um Novo Adeus, música que ele começou e o Guilherme terminou, fala do sentimento de saudade que os músicos sentem de suas famílias e do pouco tempo que passam com elas e logo tem que dizer adeus outra vez. Considero esta uma das melhores do disco. Me marcou muito no último ano do ensino médio. Apresentei ela a uma amiga e ela viciou também. Invisível é outra parceria com o vocalista, e reflete a realidade daqueles que não tem voz ou ao menos de nós cristãos, os quais, muitas das vezes queremos pregar o evangelho e as pessoas não param para ouvir. A freneticidade em que as coisas andam fazem com que tenhamos uma certa tristeza, mas lembramos da Luz maior. Esta é a Luz que nos possibilitou ser luz e assim somos incentivados a “crer que alguém pode escutar”. Por isso, é uma música muito, muito, muito boa mesmo! Ela ficou muito melhor ao vivo no DVD Horizonte Vivo Distante. Minha Triste Imperfeição foi uma das faixas de trabalho do disco e parceria do Rogério com Alex Alva. A parte devocional/poética do Rogério é muito agradável. Acredito que como líder da banda ele se propõe em colocar toda a sua verdade na letra, e dá muita certo. Além do mais, é uma letra que o Guilherme de Sá soube interpretar muito bem!

    Considerações: as três músicas que o Rogério Feltrin assinou são muito bem estruturadas em termo de letra. São canções que refletem o lado humano em relação a Deus. Sem dúvidas, todas elas merecem destaques e a banda também por ter três bons compositores.


    Arranjos

    Esse álbum é digno de elogios pela versatilidade dos instrumentos a cada faixa. O som lembra muito o rock britânico, e o conjunto da obra foi bem pensado.


    Interpretação

    O Guilherme, como sempre, mostrou todo o seu talento e técnica vocal nesse disco. Assim como os outros integrantes, o vocalista fez sua parte e conduziu muito bem o disco a ser o que ele é: um dos melhores de 2009. Assim encerro a analise dizendo que este disco já ficou na história não só da música cristã mas do Brasil por ser um disco sólido, temático e contagiante!

  • Um Brinde – “Eu Nem Quero Mais”

    Um Brinde – “Eu Nem Quero Mais”

    Hoje, continuarei falando da banda Simonami. Diga-se de passagem, os caros leitores já perceberam o quanto admiro a banda, certo? OK. Além de falar desse grupo, vou tratar de um tema que eu nunca tratei antes: suicídio. Talvez por ser um assunto muito delicado, ou por eu achar bem longe da minha realidade, neguei-me a escrever sobre isso por tanto tempo. Mas hoje é o dia e tecnicamente irei ser sucinto.

    “Janela” é a segunda música do álbum Então Morramos, da banda curitibana Simonami. O disco tem nove faixas e traz um estilo folk/MPB bem intrigante. Calma, eu não irei fazer uma resenha. Mas é como eu disse: nunca falei de suicídio antes, então é fato que eu iria enrolar durante o texto todo para poder começar a falar do assunto proposto.

    Por mais que “Janela” não seja uma música escrita para ser especificamente sobre suicídio, é inegável que em sua letra narra o drama de alguém que está prestes a tirar a própria vida e num rápido instante, desiste. A canção se divide em uma estrofe e um refrão. Sendo que a estrofe e o refrão repetem com uma palavra acrescentada.

    Eu escalo a cama do alto e
    Olho de dentro pra fora
    Miro a janela pro salto e
    O medo estoura o meu coração
    Me aperta o sangue
    Tanto que corte nenhum vaza
    O sol não aumenta o calor, e eu já não sinto mais” (na repetição acrescenta o “nada”)

    Vamos lá: a pessoa está aflita e já fez de tudo, até cortou os pulsos (ou tentou cortar, não sei). Trêmula e com medo, o indivíduo está em meio de decidir o futuro de sua vida. É só pular e pôr fim em tudo. Peraê! Abre um parêntese. É só pular e tudo acabou? Mas o que levou-a a fazer aquilo não continuará existindo e causando o mesmo efeito em outras pessoas? OK, o suicida não mais sentirá a dor mas ela não vai morrer, quem vai morrer é o suicida. Imagina se eu vou sair matando todos os cachorros que vejo porque um me mordeu. Isso seria grave, não? Fecha parêntese. Levando em conta essa minha observação, o suicídio não mata a dor, mata o corpo, assim como o caçador não mata o animal, e sim a caça.

    E eu sei que tudo o que eu estou escrevendo aqui não faz muito sentido para alguém que já pensou em suicídio ou foi amigo de alguém que se matou. Mas eu não sou psicólogo, sou um músico, então dá um desconto vai. Refrão:

    Chega, o tempo da sua vez
    De que contar até três
    Não faz passar, não faz passar
    Deixa, eu nem quero mais
    Não vou mais fazer por onde
    Parece que tudo se esconde” (na repetição acrescenta “de mim”)

    Agora entende o título do texto? Eu sinceramente não entendo esse refrão e sabe, para mim não importa entender. O que eu leio e ouço nessa parte é o suficiente. Talvez, só quem vive o drama de chegar ao ponto de tentar um suicídio, é que entende isso. E aqui nem cabe levantar aquela questão de “o suicida vai para o inferno?”, mas levanto a questão do por enquanto, do efêmero e doloroso. Sei o quanto a solidão dói e o quanto isso parece injusto. Davi expressa no Salmos 44 verso 22 que por amor a Deus somos mortos/ou levados a morte todos os dias. O suicídio afugenta algo que não é possível entender para nós que conseguimos lidar bem com a dor. Ninguém é obrigado a ser um experiente nato em lidar com o sofrimento e por isso, a depressão como o último estágio da dor humana, como define o psicanalista Augusto Cury, nos leva a querer matar isso. Tirar a própria vida pode ser definido como aliviar um sofrimento insuportável, o qual é incômodo conviver.

    Então, o que eu aprendo com esta música? Aprendo que somos frágeis e incapazes. Somos flagelos que facilmente são levados pelo vento em dias de inverno. Somos peças fora do lugar tentando se achar a cada movimento. Somos pó (Salmos 113.14) e carentes de Deus. O sentimento de querer se matar é a externa revelação de que precisamos urgentemente dos carinhos de Deus, do Pai protetor que rege a Terra com toda maestria de um Pai perfeito! “Eu nem quero mais”. Se você caiu nesse texto com a intenção de procurar um alívio e leu essa frase, repita consigo e diga alto outra vez, EU NEM QUERO MAIS! Não vale apena se entregar porque somos maiores do que a dor, somos humanos! Superamos!

    Um brinde!

  • Um Brinde – Quando Kevin Arnold falou de fé

    Um Brinde – Quando Kevin Arnold falou de fé

    Sou um fã nato do seriado Anos Incríveis que, na minha infância foi televisionado na TV Cultura e foi um sucesso nos anos 90. Depois de anos, em tempos de www, como diz o grande Humberto Gessinger, consegui encontrar algumas temporadas completas no YouTube. Bem, o personagem principal é o Kevin Arnold (Fred Savage) de 13 anos. O mesmo narra a história, só que já adulto. Anos Incríveis é uma criação honrosa de Neal Marlens e Carol Black. Pois bem, a família Arnold não é religiosa. Mas neste episódio, Kevin inicia falando da formação de seu país (Estados Unidos) e da base de fé que tinham, tendo o curso mudado no fim da década de 60 com alguns questionamentos sobre o real sentido da vida. Kevin não fala necessariamente de religião e nem do próprio Deus. O mesmo tem como dever de casa escrever um necrológio que é uma espécie de como as pessoas falarão de nós após morrermos. Kevin ainda muito ingênuo, não sabe o que de fato tem que fazer. Na primeira tentativa faz uma resumidíssima apresentação e sua professora o repreende, pois se assemelha com a história do presidente George Washington. Em casa, a família Arnold passa por alguns problemas com os recibos dos impostos a serem pagos. A mãe de Kevin, Norma Arnold (Alley Mills), perde os recibos, mas não perderiam de vez, apenas alguns problemas da agência haviam acontecido. O que deixou Norma preocupada mesmo, foi os astronautas da Apolo13 que estavam na lua e correndo risco por alguma falha mecânica. Por conta disso, ela vai até uma igreja e Kevin a segue, mais tarde a noite, já em casa, ele sai e reza a Deus. Quando entra, vê os pais sorrindo e bem um com o outro. Então Kevin reflete sobre a família e fé.

    Entenda caro leitor, o episódio não trata de nada grandiosamente espiritual, apenas um pouco do que nós cristãos deveríamos observar mais: as nuances de nossa rotina. Já escrevi aqui um pouco sobre isso e creio ter deixado claro que o que torna os dias cansativos e sem graça não é a rotina em si, mas a repetição sem extras dos dias. A professora de Kevin pediu apenas uma página do necrológio. Sim, não exigiu muita coisa, pois sabia que eram jovens demais, mas precisavam compreender um pouquinho de suas próprias vidas. O irmão do personagem, Wayner, o qual não é nada gentil nem legal, ao descobrir o trabalho do irmão, tenta “ajudá-lo” sugerindo que o escreva:

    “Kevin Arnold: nasceu idiota
    Viveu uma vida idiota
    Morreu idiota”

    Acredito que já vivemos uma vida assim. Talvez não vivemos mais por viver pois entendemos agora que há um sentido para a vida. Aprendi 3 coisas bem importantes com este episódio:

    1°) Estamos muito longe de sermos humanos. A busca incessante de querermos ser perfeitos e o piloto automático frenético, faz com que transpareça que não somos humanos com falhas, limitações, dores e sonhos. A fé nos garante muito mais que refúgio. Ela nos dá a certeza do que não vemos (Hb 11:1). Deus nos mostra o caminho da verdade (Sl 25:8) e nos instrui e ensina (Is 28:26). Ao contrário do que as pessoas pregam, o nosso Deus se relaciona sim conosco. Ele apenas não fala em Sua palavra, mas se relaciona com seus filhos, que é incrivelmente abençoador para nós. Quando entendemos que somos humanos, compreendemos o quanto necessitamos do amor do Pai e precisamos melhorar como filhos.

    2°) As crises são transitórias. Por mais difícil e dolorosa que sejam as crises que enfrentamos, elas são transitórias, cedo ou tarde vão passar. Se bem que elas parecem infinitas porque nos atinge demais, e isso porque somos frágeis e não vemos lado bom nas dores. Não que é necessário sair por aí fingindo que está tudo bem com um enorme sorriso no rosto, mas é importante procurar algo bom onde aparentemente não existe bondade. Soa bem contraditório, mas isso é necessário. Precisamos entender que nunca seremos completamente felizes aqui na Terra, e isso nos motivará a continuar crendo em Deus e nas suas maravilhas.

    3°) A fé sempre será uma decisão. É bem provável que já tenhamos pensado em coisas triviais e de pensarmos em largar a fé. Não importa a base, mas já pensamos ou abandonamos a fé. Eu, particularmente, abandonei a fé católica, espirita e dos testemunhas de Jeová. Neste episódio, Kevin Arnold decide orar, decide buscar a Deus por um instante, e mesmo não tendo uma relação com Deus ativa, ele soube o que dizer. Em Habacuque 2:4, vemos que o justo viverá pela fé. Viver é algo prolongado e cheia de decisões. Pagar impostos por exemplo, não é uma decisão que parte de nós, e como um simples calvinista, também creio que a fé não é decisão nossa, mas Deus nos permite ver essas situações e tomarmos tais rumos conclusivos. Por isso, a fé faz parte do corpo divino da graça. Graças a misericórdia do nosso Deus podemos ter fé nele e viver melhor.

    Quando Kevin Arnold falou de fé eu percebi que o meu lado humano pulsa e anseia por Deus. Entendi que minha cosmovisão cristã precisa ir além de musicas e situações rotineiras, preciso olhar com amor para o meu bairro, cidade, estado e país. Preciso tirar bonança do caos político que se estabelece no congresso e ver ternura na simples dor de uma personagem de um seriado ou filme que muito gosto. Quando Kevin Arnold falou de fé, eu sorri e disse: “Obrigado meu Deus, Tua glória é magnífica e incomparável!” Um brinde!

    https://www.youtube.com/watch?v=mLHr5fBAmmU
  • Um Brinde – A arte de decepcionar leitores

    Um Brinde – A arte de decepcionar leitores

    Eles esperam que você seja perfeito, que não falhe (não quando eles esperam). E a cada texto que você escreve e publica, eles esperam a perfeição. E agora? Você não pode falhar, companheiro! Escolha um tema que eles gostam. Fale do que a mídia está alimentando no momento. Dê a eles o que querem. Alimente seus egos com informações bem baratas e sutis. Não pesquise muita coisa não, pois eles querem que você mostre seu ponto de vista, para terem um pretexto para que te julguem. Escreva sobre algo bem polêmico pois é isso o que a mídia sustenta: dane-se o bom senso! Eles querem que você se saia bem, mas se sair mal, também vão adorar, pois terão o que compartilhar nas redes sociais com a legenda: “olha o que esse babaca anda escrevendo”. Fique do lado o qual está ganhando. Se for esquerda, esquerda. Se for direita, direita. Não demonstre seu posicionamento teológico, filosófico e/ou político. Eles não gostam de muita formalidade. Mas bem que eles gostam de ser impressionados, então uma formalidade de vez em quando é muito bom. Ignore a letra do Guilherme de Sá que diz “escreva um livro e que ele ensine algo de bom”. Eles gostam de sensacionalismo, mas não muito, pois não gostam que os outros zombem deles por lerem coisas desse nível. Dê um conteúdo bem simples, mas simples demais não, pois eles não querem ler qualquer coisa. Então vai ser necessário fazer uma pesquisa né? Mas talvez não gostem… Mas…

    Infelizmente essa é uma realidade na websfera brasileira. Blogueiros, colunistas, jornalistas e escritores de modo geral são os grandes responsáveis por alimentar um público rebelde acostumado a ler somente elogios e algo que os atraia. Eu, particularmente, falho nesse critério, pois não escrevo para agradar ninguém, mas se agrado é por pura consequência de meu trabalho. Se você não se encaixa no perfil de leitor que escrevi logo acima, meus parabéns, porque você não está preocupado em ler artigos com assuntos que vão encher seu ego de bonança crítica, mas ao ler algum conteúdo procura entender o autor. As aulas de português sempre nos exigiram interpretação de textos, e é fato que você entendeu isso. Parabéns leitor, estamos juntos! Não precisamos de heroísmo literário, precisamos apenas de um bom texto argumentativo. A internet é dos inteligentes e os bons textos, dos tolerantes.

    Aos demais, digo-vos que fiquei com a arte de decepcionar leitores. Não consigo agradar, eu apenas escrevo. E a todos os meus digníssimos leitores, um brinde!

  • Um Brinde – O “Leite Azedo” do Simonami

    Um Brinde – O “Leite Azedo” do Simonami

    Simonami é uma banda curitibana muito massa! Massa? Deixe eu explicar: quando estamos preparando um bolo, o essencial no seu preparo é a massa. Se a massa não for boa, o bolo não será bom. Talvez a expressão “massa” que nós, jovens brasileiros do século XXI usamos, não tenha nada a ver com o que massa signifique realmente. Os ingredientes precisam ser bem escolhidos e com amor. A galera do Simonami sabe muito bem disso. Desde a escolha do nome da banda, o qual é uma homenagem a um grande amigo, até a composição de suas músicas, são usados componentes dignos para um bolo consistente. E assim como em todo bom bolo, não pode faltar o leite, não é? (embora eu não seja muito simpatizante de bolos, no máximo um pedacinho em um pires no aniversário de um amigo e só, sinto-me satisfeito). Mas, e se o leite estiver azedo? Boa coisa o bolo não vai ficar.

    Digamos que você acabou de ler uma metáfora da metáfora. Usei o exemplo do bolo para um contraste extrovertido entre leite e massa. Portanto, o principal nesse texto é falar da música “Leite Azedo” da banda Simonami (inclusive entrevistei a vocalista Lillian Soares no meu blog), a qual está no primeiro trabalho da banda, o Simonami EP, lançado em 2011 de forma independente. Pretendo fazer uma análise bem simples, pois a música é simples. Não me lembro quem disse, mas alguém de nosso tempo falou que uma coisa não deixa de ser grande por ser simples. E é essa a definição mais cabível para “Leite Azedo”: grande e simples. No papo bem distraído o qual tive com a Lillian no Dialetos & Coisas Boas, a cantora disse que as vezes escreve a dor a qual sente e depois que ela passa, aquilo se transforma em uma linda canção. E talvez seja a definição correta do que os sertanejados definem como sofrência. O que os discípulos de Pablo não sabem é a profundidade de uma música além de uma mera afirmação coletivas de experiências falhas. Existe consistência na letra, a mesma torna o bolo durinho e com um brilho atraente. Assim, há vida lá fora, como canta a Tanlan em “Hermético“.

    Do alto vem trovão, vem raio
    De dentro vem todo o mal
    De um lado eu tenho as sete vidas
    Do outro eu morro toda vez
    E no começo eu usou bandida
    No fim eu sou a mãe do rei
    O meu “pra sempre” era tão certo
    E agora eterno é leite azedo…

    O que faz um leite azedar? Antes, não espere de mim a função de um exímio crítico que explique a letra da música, até porque fico levemente irritado quando alguém me pede para explicar algo autoral. O leite azeda quando fica fora do congelador por muito tempo e não é esquentado. A vida é tão transitória como um leite esquecido na cozinha em uma noite de quinta. E o motivo pelo qual a torna esquecida é o isolamento, ou seja, fechar-se do mundo em constante movimento. Infelizmente não sou jornalista e tão pouco estudo a profissão, mas amo o ofício, tento ser colunista e leio de tudo para escrever bem. Eu sei que se eu me fechar, ninguém nunca vai saber de mim, pois nenhuma pessoa lerá nada de um Jhonata Fernandes anônimo. Quando ouço a Lillian cantar “De outro eu morro toda vez“, sinto que aí está o sentimento lá do início do texto: se a massa não for boa, o bolo não será bom. “Leite Azedo” é uma das únicas músicas que ouço repetitivamente sem enjoar. Deve ser porque existe muito mais do que o violão, voz e letra: existe vida!

    Ah, se eu fosse o tempo esperaria mais, mais, mais
    Para ver se acontece o que eu prevejo no fim
    Ah, se eu fosse espaço eu soltaria mais a mim
    Pra ver se aqui dentro eu desaborreço
    Pra ver se aqui dentro eu desapareço

    Lembro que minha ex-namorada me perguntou após duas semanas de termos terminado, como eu me sentia. De imediato enviei a música do Simonami para ela e disse: “é assim que me sinto”. Ela respondeu alguns minutos depois dizendo: “pela letra, acho que não se sente muito bem”. De fato, não me sentia bem mesmo, pois perder algo que, principalmente se gosta tanto, é muito ruim. Um pedaço da sua alma se desmancha. Alguns fazem automutilação, outros se embriagam, outros mais radicais, até tentam suicídio; nós mortais, apenas escrevemos. E foi isso que Lillian fez: escreveu o que sentia. A massa leva tempo para ficar boa e as vezes esse tempo nos custa algo como ansiedade e sem ter o que fazer. Na vida acontece o mesmo: leva tempo para nos recompormos e esse período nos custa muito. Cada segundo parece milênios de tensão. Deve ser por isso que o p(r)o(f)eta disse:

    Tempo de chorar, e tempo de rir;
    Tempo de prantear, e tempo de dançar;
    (Eclesiastes 3:4)

    O tempo é muito mais do que um espaço de minutos e horas, ele significa que os episódios mudaram e o curso da vida também. Eu lembro que já escrevi uns dois textos para o meu blog ouvindo esta música. Lembro-me também de voltar para casa durante a noite olhando a linda paisagem de Rio Branco da janela do ônibus. Não esqueço de ouvir meu amigo Iury Aleson mudando de opinião sobre a banda (a princípio ele não gostava do folk deles, mas depois entendeu a essência e passou a gostar). Lembro-me de “Leite Azedo” servir de inspiração para alguns conselhos os quais, obrigatoriamente, dei ao meu irmão. Lembro, também, de certa madrugada de angústia, quando reproduzi a música e orei. Portanto, assim como o leite azeda quando é esquecido, perdemos o bom humor quando somos esquecidos. Perdemos o foco quando olhamos para o lado e não enxergamos mais razões para lutar, persistir, crer, e, desta forma, a vida azeda quando é esquecida. Belchior escreveu em “Como nossos pais” que sabe tudo na ferida viva de seu coração. E nós sabemos de fato, pois sabemos a dor que sentimos em madrugadas de insônia. Nós, mais do que ninguém, sabemos quando a vontade de chorar aperta o coração e nos desmanchamos em lágrimas. Sabemos, e só Deus e nós sabemos, do desconfortável sentimento de culpa e angústia que sentimos em tempos de crises. “Se eu fosse o tempo esperaria mais” e certamente esperaria mesmo pois queremos acertar as coisas. Queremos endireitar a rota que se desviou e por ordem na bagunça toda que há em nossa casa interna.

    Dos dedos vem o arranjo que eu quis
    Dos lábios vem cebola e fel
    Em casa tem amor, tem pai, mãe
    Da rua vem um homem mau
    De mim sai choro, vos, saudade
    Do Outro eu roubo a ideia o ideal

    Como um recém estudante de música, entendo a alegria que é instrumentalizar uma canção. Nossa, que dádiva! Mas em termos, o outro lado de nós não está alinhado com melodias esplêndidas. Cebola e fel representam mau gosto horrível. Se perceber bem, a cebola só entra na comida acompanhada de outros legumes ou nutrientes, mas nunca é servida só em um lindo prato, pois é ruim e desagrada a boca. O mais incrível é que eu entendo perfeitamente o sentimento do compositor. Parece até que eu fiz parte da elaboração musical da letra, no entanto, não a fiz. Acima disse que há muito mais por trás de uma música do que nos é apresentada, e quando atingimos uma certa idade, entendemos a dor como uma fase ruim e que ela logo passará, mesmo que aquilo nos leve alguma coisa. “Do outro eu roubo a ideia o ideal“. Daqui há alguns anos olharemos para trás e entenderemos cada sentimento sentido, sorriremos de situações bobas e compreendermos o porquê do bolo demorar tanto para ficar pronto, mas o principal é que entenderemos o quanto se pode aprender com uma canção e o quanto podemos refletir com a arte que nos cerca, e, assim, também, o quanto podemos usar a dor para abençoar outros. Desta forma foi comigo quando ouvi “Leite Azedo” pela primeira vez! Para concluir, deixo uma pequena poesia que escrevi em um desses tempos difíceis. Um brinde!

    O tempo me destrói

    Eu pouparei palavras
    Falarei tão pouco que você nem vai perceber
    Vou ignorar a gramática como ignora a matemática
    Não vou rimar e nem convencer
    Vou mostrar somente o que está escrito
    Então, você vai perceber que tudo o que quis dizer
    É que o tempo me destrói
    E por causa dele, encerro essa dor disfarçada de poesia.

    https://www.youtube.com/watch?v=B9ShWJ8aXN0

  • Um Brinde – Gênesis, “Enough To Let Me Go” e a minha imperfeição

    Um Brinde – Gênesis, “Enough To Let Me Go” e a minha imperfeição

    Uma música, poesias, filmes e livros são distrações muito comuns para mim, como os dias que se espalham e se entregam como redemoinho no inverno. Assim, este é um texto para falar de coisas vãs e fatos que passam desapercebidos, pois as noções e encantos do nosso cárcere sentimental enfeitam cada dia mais nosso trajeto existencial.

    E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou-lhe nas narinas o fôlego da vida; e o homem tornou-se alma vivente“. (Gênesis 2.7)

    Apenas um sopro divino foi capaz de nos dar a vida, e a mesma terra a qual pisamos foi fonte do pó para nossa origem. No entanto, houve a queda, o pecado, e então a consequência:

    Do suor do teu rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, porque dela foste tomado; porquanto és pó, e ao pó tornarás“. (Gênesis 3.19)

    Ao pó tornaremos como átomos mortos, sem mais esperança e sem mais vida. Uma música me despertam muitas sensações. Embora não ouço apenas uma música, “Enough to Let me Go”, da banda Switchfoot traz-me melhor esta questão do que outras. Sua primeira estrofe é bem sincera:

    (Tradução)
    Oh!
    Eu sou uma alma perambulante,
    Eu ainda estou caminhando pelo caminho que me leva pra casa,
    sozinho, tudo que eu sei,
    É que eu ainda tenho uma montanha a subir,
    Por conta própria. Por conta própria“.

    A decisão de reconhecer nossos erros e entregar-se a Deus como um filho que corre para os braços de um pai é uma dádiva linda e instigante, sem quaisquer requisitos. A diferença de andar em círculos e andar procurando uma direção é uma só: a intenção. Portanto, mais que nunca aqui na Terra, para deixarmos de ser apenas pó, só existe algo que nos joga para muito longe do caos do egoísmo: Deus, a única esperança.

    Viu Deus a terra, e eis que estava corrompida; porque toda a carne havia corrompido o seu caminho sobre a terra“. (Gênesis 6.12)

    O pecado corrompe e nos cega. Isso me faz lembrar uma situação: dia desses conheci dois jovens que com orgulho falavam de suas andanças pelas festas e de como tinham uma vida sexual ativa. Senti pena e estranheza ao mesmo tempo: como podem achar o pecado algo tão normal assim e ainda zombarem de quem não leva a mesma vida?

    (Tradução)
    Você me ama o suficiente pra me deixar ir?
    Você me ama o suficiente pra me deixar ir?
    Para me deixar acabar com isso,
    Para me deixar cair por você,
    Você me ama o suficiente pra me deixar ir?

    A doutrina da graça me ensinou que não consigo ser bom por mim mesmo, pois tudo é pela graça! Se vos escrevo agora, é pela graça de Deus. Há algum tempo reconheci que Deus molda meu coração de forma tão delicada que as vezes até esqueço de que sou mau e fraudulento. Ele me conhece melhor que ninguém. Raramente sento com alguém para pedir um conselho, porque Deus molda-me! Por mais que minha imperfeição seja grande, Ele me faz reconhecer que tudo que eu preciso já está aqui. Ele me ama, nos ama o suficiente para nos deixar ir e sermos responsáveis por nossos atos, e, assim como o pai permite a filha sair de casa quando atinge uma certa idade para juntar-se ao seu marido, Deus nos deixa refletir e decidirmos se queremos ser artistas na Terra ou meros sobreviventes.

    Porventura se procederes bem, não se há de levantar o teu semblante? e se não procederes bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo; mas sobre ele tu deves dominar“. (Gênesis 4.7)

    Devemos controlar o pecado, mas seria hipocrisia minha falar que nunca senti vontade de ir à festas como as quais os dois jovens frequentam contaram, e sair com várias garotas diferentes. No entanto, eu sei que isso não me levaria a lugar nenhum senão a perdição, pois pecado nos cega. No Éden, o pecado abriu os olhos do homem para o conhecimento do bem e do mal, o que de fato é pior que não enxergar, pois o mal atrai e assim nos cega para o bem. Isso é um paradoxo real, e aconteceu, acontece e ainda acontecerá muito entre nós.

    (Tradução)
    De volta da morte do inverno
    De volta da morte e todas as nossas folhas estão secas.
    Você está tão linda essa noite…
    (Você me ama o suficiente pra me deixar ir?)
    De volta da morte que nós passamos,
    De volta da morte e ambas as nossas línguas estão presas.
    Você parece tão linda essa noite.
    (Você me ama o suficiente pra me deixar ir?

    Jon Foreman canta mais a frente que “toda semente morre antes de crescer”, e morrer para o pecado é nascer para Deus. Toda essa metáfora entre os textos de Gênesis e a música do Switchfoot não é para soar como uma poesia redundante e nem para expressar o meu favoritismo pela banda, mas pra tentar traduzir um pouco de minha vivência de forma bíblica. Nunca seremos bons o bastante, eu nunca serei bom o bastante. E, consequentemente, não há sequer um que seja bom (Salmos 14.3). O sentimento de culpa não nos torna inocentes, apenas deixa a máscara desmanchar sem cores, deixando a verdade do “tudo é vaidade” reinar como vilã em nós.

    (Tradução)
    Inspire
    E deixe isso passar.
    Toda respiração que você toma não é propriamente sua.
    Não é sua espera…
    Você me ama o suficiente pra me deixar ir?

    Nem o ar que respiramos é propriamente nosso! Ainda duvida que vivemos pela graça e nada que fazemos ou porventura venhamos fazer pode mudar isso? Quanto vale sua vida? Você seria capaz de abandoná-la para encontrar em Deus o seu lugar? Isso só é possível quando amamos a Deus sobre todas as coisas! Somos estrangeiros em terras perigosas e frias, por isso, não há muito tempo para ficar rodando e correndo feito louco. A decisão é sua, é minha, é nossa. Mas lembre-se: é pela graça de Deus. Se você O escolheu é porque Ele te escolheu primeiro! Um brinde!

  • Um Brinde – Mutantes-Humanos

    Um Brinde – Mutantes-Humanos

    Acorda cedo, ajoelha-se, ora, levanta, toma banho, escova os dentes, toma café, se arruma e vai à aula. Isso se repete na quinta e sexta-feira. Já falei dos dias aqui metaforizando a música “Primeiro Andar” dos Los Hermanos. Pensa-se muito: no emprego que não se conseguiu, faculdade que ainda não começou, na vida que se leva e o que encarregou para que se chegasse até aqui. Lê-se a bíblia, sente-se mais perto de Deus, e só. Isso é tudo na semana. O motivo mais singelo de levantar e viver mais um dia é unicamente pela graça do Pai, a qual nem merecemos. Mas existem complicações cotidianas que só entendemos quando há um choque fatal com algo inédito: por isso, conheça uma banda nova, pegue outro ônibus, conheça alguém especial, faça com que cada segundo valha a pena. Seja mais do que se vê.

    Certamente vos repreenderá, se em oculto vos deixardes levar de respeitos humanos” (Jó 13:10)

    A vida no piloto automático é diminuta e, muita das vezes, sem escolhas. A única noção a qual temos é de que precisamos correr numa esteira sem fim. Lembra-se então de dias alegres em família e pensamos: “onde tudo isso se perdeu?” Mas na verdade, o que somos? Uma evolução de alguma espécie de macaco? Ou criação de Deus à sua imagem e semelhança? Se você é cristão, ou ao menos crê na existência de Deus, ficará com a segunda opção. Mas apenas isso é inútil, pois posso dizer com a minha boca todos os dias que gosto de molho inglês e todos os dias não provar de seu sabor. O que isso adianta? Nada. Afirmar uma coisa não a torna real. Dizer que crê em Deus e que foi feito a sua imagem e semelhança não te faz um humano ou algo parecido, apenas como um mutante que se move e respira. Isso parece algo repentino, mas isso é cosmovisão cristã: observar a ciência e a evolução humana por uma perspectiva cristã nos faz enxergar fatores sobre a humanização do nosso ser e mutação dos ideais comportamentais. Vida cristã não é um devocional, mas é renúncia e aprendizado. É cruz!

    Fato é que, nossa vida é um processo, e é difícil ter certezas de tudo imediatamente. Existem várias questões as quais ainda não tenho um pensamento concreto. Acredita-se em tão pouca coisa que se fosse selecionar as que de fato acreditamos, ficariam muito poucas. Mas eu acredito no homem, mesmo não sendo humanista lá essas coisas, eu acredito no homem porque Deus o ama. A raça humana ainda não está extinta e tampouco tornando-se burra, só estamos perdendo a fé e a esperança em nosso Deus universal, aquele que não faz acepção de pessoas (Ef 6:9). Ele transcende quaisquer tipo de religião e contribui para o bem daqueles que O amam (Rm 8:28).  A mutação mais equivocada e triste foi a queda do homem. O pecado é a mutação extraordinária da maldade e que nos impede de sermos humanos de origem, criados à imagem e semelhança de Deus. Mas, ao reconhecemos isto, permitimos que Ele nos clareie e, a partir desta aceitação, deixaremos de ser fruto do acaso fermentado por uma ideia também equivocada, tornando-nos, com toda honestidade, parecidos mais ainda com Cristo! Um brinde!