Um Brinde – O “Leite Azedo” do Simonami

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Simonami é uma banda curitibana muito massa! Massa? Deixe eu explicar: quando estamos preparando um bolo, o essencial no seu preparo é a massa. Se a massa não for boa, o bolo não será bom. Talvez a expressão “massa” que nós, jovens brasileiros do século XXI usamos, não tenha nada a ver com o que massa signifique realmente. Os ingredientes precisam ser bem escolhidos e com amor. A galera do Simonami sabe muito bem disso. Desde a escolha do nome da banda, o qual é uma homenagem a um grande amigo, até a composição de suas músicas, são usados componentes dignos para um bolo consistente. E assim como em todo bom bolo, não pode faltar o leite, não é? (embora eu não seja muito simpatizante de bolos, no máximo um pedacinho em um pires no aniversário de um amigo e só, sinto-me satisfeito). Mas, e se o leite estiver azedo? Boa coisa o bolo não vai ficar.

Digamos que você acabou de ler uma metáfora da metáfora. Usei o exemplo do bolo para um contraste extrovertido entre leite e massa. Portanto, o principal nesse texto é falar da música “Leite Azedo” da banda Simonami (inclusive entrevistei a vocalista Lillian Soares no meu blog), a qual está no primeiro trabalho da banda, o Simonami EP, lançado em 2011 de forma independente. Pretendo fazer uma análise bem simples, pois a música é simples. Não me lembro quem disse, mas alguém de nosso tempo falou que uma coisa não deixa de ser grande por ser simples. E é essa a definição mais cabível para “Leite Azedo”: grande e simples. No papo bem distraído o qual tive com a Lillian no Dialetos & Coisas Boas, a cantora disse que as vezes escreve a dor a qual sente e depois que ela passa, aquilo se transforma em uma linda canção. E talvez seja a definição correta do que os sertanejados definem como sofrência. O que os discípulos de Pablo não sabem é a profundidade de uma música além de uma mera afirmação coletivas de experiências falhas. Existe consistência na letra, a mesma torna o bolo durinho e com um brilho atraente. Assim, há vida lá fora, como canta a Tanlan em “Hermético“.

Do alto vem trovão, vem raio
De dentro vem todo o mal
De um lado eu tenho as sete vidas
Do outro eu morro toda vez
E no começo eu usou bandida
No fim eu sou a mãe do rei
O meu “pra sempre” era tão certo
E agora eterno é leite azedo…

O que faz um leite azedar? Antes, não espere de mim a função de um exímio crítico que explique a letra da música, até porque fico levemente irritado quando alguém me pede para explicar algo autoral. O leite azeda quando fica fora do congelador por muito tempo e não é esquentado. A vida é tão transitória como um leite esquecido na cozinha em uma noite de quinta. E o motivo pelo qual a torna esquecida é o isolamento, ou seja, fechar-se do mundo em constante movimento. Infelizmente não sou jornalista e tão pouco estudo a profissão, mas amo o ofício, tento ser colunista e leio de tudo para escrever bem. Eu sei que se eu me fechar, ninguém nunca vai saber de mim, pois nenhuma pessoa lerá nada de um Jhonata Fernandes anônimo. Quando ouço a Lillian cantar “De outro eu morro toda vez“, sinto que aí está o sentimento lá do início do texto: se a massa não for boa, o bolo não será bom. “Leite Azedo” é uma das únicas músicas que ouço repetitivamente sem enjoar. Deve ser porque existe muito mais do que o violão, voz e letra: existe vida!

Ah, se eu fosse o tempo esperaria mais, mais, mais
Para ver se acontece o que eu prevejo no fim
Ah, se eu fosse espaço eu soltaria mais a mim
Pra ver se aqui dentro eu desaborreço
Pra ver se aqui dentro eu desapareço

Lembro que minha ex-namorada me perguntou após duas semanas de termos terminado, como eu me sentia. De imediato enviei a música do Simonami para ela e disse: “é assim que me sinto”. Ela respondeu alguns minutos depois dizendo: “pela letra, acho que não se sente muito bem”. De fato, não me sentia bem mesmo, pois perder algo que, principalmente se gosta tanto, é muito ruim. Um pedaço da sua alma se desmancha. Alguns fazem automutilação, outros se embriagam, outros mais radicais, até tentam suicídio; nós mortais, apenas escrevemos. E foi isso que Lillian fez: escreveu o que sentia. A massa leva tempo para ficar boa e as vezes esse tempo nos custa algo como ansiedade e sem ter o que fazer. Na vida acontece o mesmo: leva tempo para nos recompormos e esse período nos custa muito. Cada segundo parece milênios de tensão. Deve ser por isso que o p(r)o(f)eta disse:

Tempo de chorar, e tempo de rir;
Tempo de prantear, e tempo de dançar;
(Eclesiastes 3:4)

O tempo é muito mais do que um espaço de minutos e horas, ele significa que os episódios mudaram e o curso da vida também. Eu lembro que já escrevi uns dois textos para o meu blog ouvindo esta música. Lembro-me também de voltar para casa durante a noite olhando a linda paisagem de Rio Branco da janela do ônibus. Não esqueço de ouvir meu amigo Iury Aleson mudando de opinião sobre a banda (a princípio ele não gostava do folk deles, mas depois entendeu a essência e passou a gostar). Lembro-me de “Leite Azedo” servir de inspiração para alguns conselhos os quais, obrigatoriamente, dei ao meu irmão. Lembro, também, de certa madrugada de angústia, quando reproduzi a música e orei. Portanto, assim como o leite azeda quando é esquecido, perdemos o bom humor quando somos esquecidos. Perdemos o foco quando olhamos para o lado e não enxergamos mais razões para lutar, persistir, crer, e, desta forma, a vida azeda quando é esquecida. Belchior escreveu em “Como nossos pais” que sabe tudo na ferida viva de seu coração. E nós sabemos de fato, pois sabemos a dor que sentimos em madrugadas de insônia. Nós, mais do que ninguém, sabemos quando a vontade de chorar aperta o coração e nos desmanchamos em lágrimas. Sabemos, e só Deus e nós sabemos, do desconfortável sentimento de culpa e angústia que sentimos em tempos de crises. “Se eu fosse o tempo esperaria mais” e certamente esperaria mesmo pois queremos acertar as coisas. Queremos endireitar a rota que se desviou e por ordem na bagunça toda que há em nossa casa interna.

Dos dedos vem o arranjo que eu quis
Dos lábios vem cebola e fel
Em casa tem amor, tem pai, mãe
Da rua vem um homem mau
De mim sai choro, vos, saudade
Do Outro eu roubo a ideia o ideal

Como um recém estudante de música, entendo a alegria que é instrumentalizar uma canção. Nossa, que dádiva! Mas em termos, o outro lado de nós não está alinhado com melodias esplêndidas. Cebola e fel representam mau gosto horrível. Se perceber bem, a cebola só entra na comida acompanhada de outros legumes ou nutrientes, mas nunca é servida só em um lindo prato, pois é ruim e desagrada a boca. O mais incrível é que eu entendo perfeitamente o sentimento do compositor. Parece até que eu fiz parte da elaboração musical da letra, no entanto, não a fiz. Acima disse que há muito mais por trás de uma música do que nos é apresentada, e quando atingimos uma certa idade, entendemos a dor como uma fase ruim e que ela logo passará, mesmo que aquilo nos leve alguma coisa. “Do outro eu roubo a ideia o ideal“. Daqui há alguns anos olharemos para trás e entenderemos cada sentimento sentido, sorriremos de situações bobas e compreendermos o porquê do bolo demorar tanto para ficar pronto, mas o principal é que entenderemos o quanto se pode aprender com uma canção e o quanto podemos refletir com a arte que nos cerca, e, assim, também, o quanto podemos usar a dor para abençoar outros. Desta forma foi comigo quando ouvi “Leite Azedo” pela primeira vez! Para concluir, deixo uma pequena poesia que escrevi em um desses tempos difíceis. Um brinde!

O tempo me destrói

Eu pouparei palavras
Falarei tão pouco que você nem vai perceber
Vou ignorar a gramática como ignora a matemática
Não vou rimar e nem convencer
Vou mostrar somente o que está escrito
Então, você vai perceber que tudo o que quis dizer
É que o tempo me destrói
E por causa dele, encerro essa dor disfarçada de poesia.

https://www.youtube.com/watch?v=B9ShWJ8aXN0

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