“e disse: Em verdade vos digo que se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus.”
(Mateus, 18:3)
Confesso que este foi um dos melhores textos os quais tive o prazer de escrever. Passei algum tempo observando a novela Carrossel, da emissora SBT, cuja produção está sendo reprisada em horário nobre. Nela, Cirilo é um dos principais personagens e é um menino doce, amável, educado e que todos querem estar perto, exceto, Maria Joaquina. Ela é filha de um médico, vive uma vida confortável e estabilizada, que mostra um contraste socioeconômico enorme com a vida a qual Cirilo leva. A indiferença de Maria Joaquina para com o Cirilo me passa duas lições: 1) nós cristãos, muitas vezes mostramos essa indiferença para os que ainda não conhecem a Cristo; 2) precisamos ser mais crianças independentemente de regalias.
Já ouvi várias vezes alguns ditos cristãos agindo com tamanha prepotência com os não crentes, e isso, sinceramente me incomoda. Quase todos os cristãos assistem a TV e deveriam ter uma cosmovisão lapidada, permitindo serem “ministrados” pelo Cirilo. Não somos melhores que o ateu, budista, espírita, etc, mas somos fracos e imerecidos como qualquer ser humano pecador. A palavra é clara quando diz “TODOS PECARAM” (Rm 3:23), mas pela graça gratuita de Deus somos salvos (Rm 3:24). Somos pecadores que não merecem nada de Deus e por isso nossa indiferença não é válida, apenas só mostra o quanto somos miseráveis e incoerentes. Me entenda: não estou dizendo para você sair por aí distribuindo abraços com um sorriso falso no rosto, mas para não se achar como se fosse do grupo que vai de primeira classe para o céu, pois se você for, não é por mérito, mas pela graça. Ouço diariamente, numa igreja pentecostal que há na frente da minha casa, que “se fizermos as coisas certas Deus nos dará um galardão no céu”. Acho que a metáfora tem a ver com Mateus 5:12 mas a Bíblia é clara quando diz que esse “galardão” depende unicamente de Deus. Já ouvi barbaridades maiores como “cada alma que você ganha para Jesus é uma pedrinha que ganha em sua coroa no céu!” Deus capitalista? Deve ser por isso que a teologia da prosperidade tem atraído tantas pessoas.
O aprendizado que fica é que devemos ter o coração puro como criança, fazendo a vontade do Criador como uma criança obedece seu pai. O primeiro passo que Jesus ensinou foi “converterdes” e depois “fizerdes como crianças”. Se ignoramos a conversão, jamais seremos como crianças. Como podemos entender o princípio de Cristo do amor ao próximo se ainda não fomos transformados pela graça? Como podemos ser crianças se ainda nem nascemos para Cristo? O Cirilo me passa a mensagem de que precisamos amar, simplesmente amar, mesmo que esse amor não seja reconhecido. O personagem se mostra afetuoso sempre com a Maria Joaquina mas isso não é recíproco, pois ela sempre lhe trata mal e mostra-se preconceituosa. Isso te lembra algo? Como o amor que damos ao próximo e somos retribuídos com “crentes são tudo hipócritas”, “a igreja é para alienados” e uma infinidade de outras frases que não vale a pena mencionar aqui. Não que eu esteja defendendo a massa de cristãos que existe hoje, mas me refiro aos que são crianças e entenderam o porquê de ser criança. Quando o apóstolo Paulo afirma ter atingido a maturidade, ele usa o termo “menino” para dizer o que deixou de ser e não criança (1Co 13:11). Por que será? Porque não podemos perder nosso lado criança. Foi Cristo mesmo que nos disse que é necessário receber o reino [a mensagem] como crianças (Lc 18:17).
Em vários episódios, vemos o Cirilo querendo impressionar a Maria Joaquina várias vezes, mas nada adianta. Vejo um reflexo disso na nossa pregação. Em muitas vezes, tentamos impressionar as pessoas e elas nos ignoram sem nos dar ouvidos. O antídoto rápido e fácil não tenho, mas precisamos ser mais claros e menos repetidores de ideias, pois as pessoas estão cansadas de ouvirem o que funcionou com você, sobre os milagres que ocorreram com você, a sua vida pouco importa, elas precisam ouvir a Palavra, elas precisam ouvir falar de Jesus como Ele é e não como você o vê. O Cirilo que eu quero ser é aquele que não desiste de tentar se aproximar dos amigos, afim de estabelecer um relacionamento com eles. O Cirilo que eu quero ser é este que mesmo não sendo retribuído, continua amando incondicionalmente. Um brinde!

Deixe um comentário