Antes de tudo, preciso esclarecer algo que nunca disse na Rocklogia: o rock cristão nacional, sim, tem participação das bandas católicas! Digo isso porque a impressão que dá, em um ano e meio de Rocklogia é que os grupos católicos não tiveram participação efetiva e importante neste processo, o que é o contrário. Mas, na minha limitada visão, me reservei a abordar bandas e músicos os quais teria mais propriedade e conhecimento para contar suas histórias. Por isso que, por exemplo, eu não mencionei o Virtud até hoje aqui, pois não conheço o suficiente sobre o conjunto para falar dele.
Ao mesmo tempo, o Rosa de Saron tem se destacado de uma forma muito positiva no meio musical em geral no meio dos anos. Quebrando as barreiras do religioso versus profano, do católico versus evangélico, sua música é bem produzida, embora não seja composta por grandes músicos (e quando falo grandes músicos, não me refiro exatamente em competência nos seus trabalhos, mas a reconhecimento). O que pode faltar no instrumental do Rosa ganha em dobro nas letras poéticas. Confesso que não conheço muito do grupo, mas há um colunista aqui do site que é fã do grupo. Creio que o Jhonata Fernandes da Um Brinde tem muito mais propriedade para falar do Rosa aqui, e por isso o convidei para escrever o post desta semana. Com vocês, abaixo, as palavras dele sobre o Rosa de Saron.
Quando recebi o convite do Tiago Abreu para falar um pouco do Rosa de Saron aqui no Rocklogia como espécie de biografia da banda, me senti muito honrado, mas ao mesmo tempo senti uma grande responsabilidade sobre mim. É difícil descrever a história de uma banda a qual você é muito fã, com uma análise crítica da trajetória musical deles. Mas, agora, vamos tentar conhecer o Rosa de Saron, que muitos só conhecem por nome e por algumas músicas consideradas românticas.
A banda nasceu da renovação carismática dentro da igreja católica em 1988 em Campinas. Rogério Feltrin, líder e baixista da banda, se uniu com Marcelo Machado, vocal, Eduardo Faro na guitarra, Alessandro na bateria, Alex Nozaki Mota na guitarra dois e Eduardo Bortolato nos teclados, e formavam a banda Rosa de Saron, primeira banda de rock católico no Brasil e acredito que foi a primeira do mundo. Lançaram seu primeiro disco em 1995, intitulado Diante da Cruz, e com uma temática bem evangelística. O álbum lançado pela CODIMUC, gravadora católica, alcançou um público gigantesco nunca antes alcançado por ministérios de louvor do mesmo segmento. O trabalho tinha elementos de hard rock e heavy metal. Marcelo Machado, vocalista, teve poucas canções de sua autoria no disco, contando com “Sacrifício Perfeito” juntamente com o Eduardo Faro, “Latas Retorcidas” junto com o Daniel Colazzos e a faixa-titulo em parceria com o Rogério Feltrin e Eduardo Faro. As nove faixas versava assuntos como drogas, dependência de Cristo e adoração ao Pai. Em 1997, era lançado Angústia Suprema, o qual a banda conseguiu expor mais seu lado católico sem ser chato. Claro, com exceção da música “Intro”, intitulada “Via Crucis”, que mais uma vez foi feita pelo tecladista Eduardo Bortolato, repetindo sua dosagem devocional que fez no “Rosa de Saron (Intro)”, do álbum de estreia, que mostra a ‘áurea’ sonora do catolicismo. Em seguida, surge “Olhos Vermelhos”, composição de Feltrin, o qual também assina “Século I” em parceria com o vocalista Marcelo Machado e o guitarrista Eduardo Faro, e “Angústia Suprema” também em parceria com o Edu. O disco é fechado com “Tempo”, “Chance”, “Carregue os Feridos”, “Caminho de Emaús”, “Anjos das Ruas” e “Linda Menina”. Além de “Angústia Suprema”, “Chance” e “Anjos das Ruas” foram as músicas de mais destaque desse álbum, sendo regravadas no álbum acústico em comemoração de 20 anos de banda em 2008. Em 1999, a banda gravou um EP com três faixas chamado Olhando de Frente. A música teve apenas “Mesmo Assim” e “Olhando de Frente” como inéditas, sendo a faixa 3 uma versão remix da música “Diante da Cruz”. O EP não foi muito sucesso. Talvez aqui venha um retrocesso do sucesso que foi o Angústia Suprema.
Ainda em 1999, Marcelo Machado, que já tinha um trabalho com sua atual banda, The Flanders, decidiu deixar o Rosa alegando estar difícil a conciliação de ambas as bandas. Uma das especulações é que ele queria investir em outros sons e isso não seria feito com o Rosa de Saron. Outros integrantes também deixaram a banda até 2000 como exemplo o tecladista Eduardo Bortolato. O baterista Grevão entrou mais ou menos nesse período de transição da banda.
Mas da formação atual, o último a entrar na banda foi Guilherme de Sá, atual vocalista e um dos melhores da atualidade no cenário rockeiro no Brasil. Em 2002, a banda voltou a gravar com o novo membro e também mudando sua estrutura de composições: se antes ouvia-se a banda identificando um problema, mostrando e dizendo uma forma para solucioná-lo, a partir de Depois do Inverno, vemos um Rosa de Saron exteriorizando os sentimentos e mostrando sua perspectiva sem se preocupar em mostrar soluções fáceis e objetivas. Em outras palavras, ficou mais poético. A entrada de Guilherme serviu para mostrar um lado que estava morno ainda: a individualidade que uma banda pode ter. Quando ouvimos Diante da Cruz, por exemplo, percebemos um aglomerado de referências musicais mas sem nada que fosse indubitavelmente autoral. Com a entrada de Guilherme, o som modificou-se, já que ele também é guitarrista e violonista. Algumas canções desse álbum ficaram marcadas, como “No meu coração”, “Estar com você” e “Muitos Choram”. Acho que o único defeito extremamente perceptível deste projeto é a capa. Sinceramente não me agrada.
https://www.youtube.com/watch?v=erOGESfTVRo
Eu tinha esquecido deste importante detalhe, mas as capas do Rosa de Saron de 1995 até 2008 que foi o lançamento do acústico, foram muito ruins. O projeto gráfico só veio melhorar – isso em minha perspectiva – em 2009 com o Horizonte Distante. Mas não julguem o trabalho da banda pela capa, pois o conteúdo faz valer a pena a falha da arte.
Em 2005, veio o Casa dos Espelhos, com produção de Guilherme de Sá, tendo grandes músicas emplacando nas rádios como “Sem Você” e “Lembranças”. Considero este como um dos melhores álbuns da banda. A dosagem de guitarras foi muito bem aplicada e a ordem das faixas fizeram muita diferença. Eles mantiveram o número de 12 faixas comparado ao trabalho anterior. E em 2007 a banda gravou um CD Acústico, e no ano seguinte um DVD Acústico e Ao Vivo na sede da Rede Século XXI em comemoração de 20 anos de banda. Não vou falar muito do acústico aqui pois já estou fazendo uma resenha sobre ele e sai em breve aqui. Mas resumindo, o acústico foi o primeiro DVD da banda e poupando palavras: ficou muito bom, a nível de acústicos de bandas famosas como Scorpions, Engenheiros do Hawaii e Aerosmith. Em 2008, foi lançado o livro Rock, Fé e Poesia – 20 anos de Rosa de Saron narrados através de suas músicas, escrito pelo baixista Rogério Feltrin.
A banda conseguiu e consegue manter lançamentos anuais. Para mim isso é ótimo, pois sou um radical-devorador-de-álbuns e 1 ano é suficiente para absorver as principais informações do disco e me preparar para o próximo lançamento da banda. Isso se repetiu com o Horizonte Distante. Após dois anos dedicados a acústico em comemoração de duas décadas na estrada, eles não descansaram e já pegaram as guitarras mais uma vez para lançarem o Horizonte Distante. E aqui eu acho importante abrir um parêntese. Este disco é ímpar no repertório da banda, porque mostra um Rosa de Saron sólido, com todos os instrumentos sendo audíveis e letras entendíveis. O que quero dizer de fato com essa afirmação? É que o HD marca um novo tempo na carreira da banda e isso é um fato inegável, pois só quem acompanha a banda desde 2006, como eu, sabe o que os caras passaram para estar onde estão. Fecha parêntese. Eu fiz resenha desse disco aqui, mas vale reforçar que 70% dele estourou nas rádios. Perdi a conta de quantas vezes eu vi a Rede Globo reprisar o comercial de divulgação do disco e de quantas tardes eu ligava a rádio 98FM daqui de Rio Branco e ouvia “O Sol da Meia-Noite” e “Perto, Longe e Depois” (que ficou de fora do disco por direitos autorais). Foi e é um disco louvável que acabou sendo disco de ouro. E se tratando de prêmios e certificações, o Rosa de Saron é especialista. Ganhou, por vários anos o Troféu Louvemos o Senhor e foi indicado, por vezes, ao Grammy Latino.
Em 2010, veio o primeiro DVD elétrico, o Horizonte Vivo Distante, gravado no HSBC, em São Paulo. O DVD foi sucesso de vendas e teve seu formato em CD também muito vendido. O trabalho teve participação especial do cantor Maurício Manieri cantando “Rara Calma” e justo no dia do seu aniversário. A banda também cantou a música “Mais uma Vez”, de composição do Renato Russo e Flavio Venturini. No ano seguinte, em 2011, foi ano de JMJ (Jornada Mundial da Juventude) em Madrid, Espanha. E a banda gravou seu segundo EP da carreira e primeiro em outro idioma. O EP contém musicas super populares no repertório da banda em espanhol e em inglês. Eu já fiz resenha desse trabalho aqui, confere lá.
Como eu já disse, todo ano eles se superam e em 2012 foi um ano fenomenal em termos de composições: eles lançavam O Agora e o Eterno, mais um pela Som Livre e que foi um sucesso de vendas, recebendo, também, disco de ouro. Considero o melhor trabalho de estúdio da banda até aqui. Em 2013, lançaram o terceiro DVD, o Latitude, Longitude, em símbolo dos 25 anos de banda, que teve muitas (boas) participações especiais, a exemplo de Mauro Henrique (Oficina G3), Johnny Voice e Renato Vianna. Em 2014, a banda lançou o CD Cartas ao Remetente e trouxe uma renovação do som pesado o qual faziam anos atrás e foi aliviado com o acústico e trabalhos mais densos. Numa apresentação da banda no programa Encontro com Fátima Bernardes da Rede Globo, falavam de religião e Guilherme opinou dizendo que a salvação não está restringida aos católicos. Em seguida, o padre Paulo Ricardo fez um vídeo em seu canal, contra-argumentando o Guilherme e chamando-o de herege. Isso abalou muito o vocalista, que até pensou em aposentadoria. Claro que essa noticia mobilizou os fãs, e comigo não foi diferente: fiz grupos no Facebook, campanha e até orei para que ele não parasse de cantar, não naquele momento e por aquele motivo.
Enfim galera, eu não sei mais o que dizer. A banda Rosa de Saron é sensacionalmente incrível! Digo como fã. Atualmente o grupo tem 150 mil acessos/mês no site oficial, mais de 2,3 milhões de fãs no Facebook, quase 200 mil seguidores no Twitter e mais de 29,8 milhões de views em seu canal do YouTube. Números grandes para bandas de rock no Brasil.
Concluindo: nunca havia feito biografia de banda nenhuma, e gostei da experiência. Queria ajudar o Tiago e falar um pouquinho da historia dessa banda. Obrigado e muito rock, fé e poesia pra nós!
Deixe um comentário