Foram-se os dias que havíamos deixado a ditadura e demos o passo para a redemocratização. Nossos pais rebeldes fizeram histórias contra a imposição estatal. A história da humanidade é uma caverna rica de histórias. Em milhares de anos, somos um povo que construiu coisas, das cavernas a prédios.
Sim, a tecnologia evoluiu, a ciência evoluiu, mas o homem só retrocede. A ciência tenta materializar o ser humano, transformando-o em cadeias químicas e biológicas, um sistema de fenômenos explicáveis por um microscópico, mas as guerras aumentam, e a depressão agora é o mal do século. A razão tenta explicar todo o mundo, mostrar que toda a existência é perceptível pelos sentidos humanos, mas não explica a individualidade, e os fenômenos físicos de culpa humana continuam aumentando. Em pleno século XXI, conseguimos criar a bomba atômica, voar com aviões, navegar por mares, mas não conseguimos amar nossos inimigos.
Assim, pode-se dizer, somos um povo conectado, unidos, mas individualistas por dentro. Mas por trás desse egocentrismo exacerbado, a espécie humana vive sob uma condição: está interligada com os seres ao redor. Não existem processos históricos de características individuais, somos seres sociais, o que fazemos influencia todos ao redor. Sim, o seu individualismo afeta a todo mundo. Você, liderando empresas, ganhando dinheiro, financiando suas ações, ficando milionário, o dinheiro que você possui, uma criança lá na África está precisando dele para comprar comida, pois quem tem e quer demais, possui o que é dos outros. Você quer justiça, mas planta injustiça. Como queremos um mundo sem desigualdades se ainda desejamos ter mais e conquistar, ganhar, somar?
Nossa intelectualidade é um poço fundo vazio. Criamos grandes mentes lotadas de títulos e estudos, mas com pouca profundidade. Valorizamos a embalagem e não o conteúdo. Os títulos são os almejados, as honras e as grandezas estão no topo de nossos sonhos, mas a interioridade de nosso cérebro é destruída por tanta decoração e intensivas ministrações. Formamos muitos inteligentes, poucos sábios. E o pouco que aprendemos é utilizado apenas para aumentar nossa glória, mas também as deficiências de nossos achegados.
Nossos empregos, nossas áreas, nossos cursos são tão deturpados, vazios de justiça e igualdade. Não se produz mais para construir uma sociedade melhor, mas para crescimento profissional. Nossas funções são carregadas de corrupção. A política não constrói leis para melhorar a sociedade, nosso sistema judicial não estabelece a justiça, mas uma disputa de direitos, o povo não luta pelo país, mas quer um lugar cheio de perfeições, nossos meios de comunicações corrompidos pela mídia baseada na fama e no sucesso. Nosso tempo é um dia baseado em esteiras de luta por sucessos, mas para sobreviver à guerra terrena.
Cristo veio estabelecer um Reino capaz de transformar pessoas. O Reino de Deus não é um reino de homens, que coloca o ser humano como centro de tudo, como na época da ditadura católica, que pregava o geocentrismo, colocando a terra como o ponto central. Mas coloca Deus como centro de tudo (Rm 11:36). Quando a tese do heliocentrismo foi divulgada, os religiosos da época acusavam os criadores da teoria de hereges, de todos os tipos de críticas, cegos pela própria barriga, mas não sabiam que estavam tremendamente enganados. Pregavam que o homem era o centro de tudo, e que Deus o havia feito assim, para dominar, e que tudo fora criado para honra de seu próprio eu. Mas o heliocentrismo afirmou, mesmo sendo condenado como uma heresia, que o sol era o centro do universo. É assim conosco. Se algum religioso, humanista, egocêntrico te condenar por pregar que todas as coisas foram feitas para Deus, lembre-se que a verdade sempre esteve invisível para aqueles que só olham a si mesmos.
E o Reino dos Céus veio trazer a verdade divina:
Então disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-me; (Mateus: 16. 24)
Aquele que deseja seguir a Cristo deve negar a si mesmo, negar a individualidade, o seu eu, e viver sob o arrependimento. Seguir a Cristo implica amar ao seu irmão mesmo quando não quer amá-lo, é abnegar de seus caminhos para tomar um trajeto, de sobremaneira, maior, mas estreito, dolorido. É deixar de viver pelo mundo e por coisas passageiras, para viver por um lugar eterno, o amor.
Quando Cristo morreu na cruz, o madeiro mostrava dois mistérios: o vertical e o horizontal. O tronco era o vertical, ligava o homem a Deus, e o horizontal nos braços, ligava os homens em amor, em comunhão. E estava Cristo no meio estabelecendo o perdão. Ele destruiu o pecado para trazer a paz e a harmonia.
Porque então, estamos vivendo no meio de ilhas individualistas, a procura de continentes solidários. Pois é isso que buscamos, a comunhão sobrenatural, a solidariedade, o amor correndo nas veias exteriores de nossos relacionamentos e nas nossas socializações. Enquanto o ódio provoca mares tempestuosos, cria oceanos enormes, que separam pessoas umas das outras, o Reino de Deus é um continente que emana o amor.
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