Categoria: Fronteira

  • Fronteira – A Pintura Musical de Neomorphus

    Depois de duas semanas sem publicar (perdão, leitores), hoje vou expor uma obra musical minha e de meus amigos de faculdade. No meu primeiro semestre na faculdade, fiz um trabalho da matéria Circuitos Artísticos e Culturais para apresentar sobre determinado tema artístico que foi envolvido nas aulas. Como a professora não deu um modelo certo para apresentar o trabalho, qual foi a minha ideia: criar uma música sobre o tema.

    Como o trabalho envolvia produções de animações do MUMIA (Mostra Udigrudi Mundial de Animação), resolvi pegar quatros vídeos que constavam em apresentações de 7, 14 e 28 de abril organizadas pela mostra em BH (maiores informações clique aqui). Os vídeos foram: “O Homem que pintava músicas”, de Jackson Abacatu; “A Gaiola”, de Samira Daher; “Neomorphus”, do Animatório; e o curta alemão “LaNuit deL’Ours (A Noite do Urso)”, de Sam e Fred Guillaum.

    The man who painted music (O homem que pintava músicas) – Jackson Abacatu from Jackson Abacatu on Vimeo.

    “O Homem que pintava músicas”
    “O homem que pintava músicas” relaciona a música com a imagem. O vídeo conta a história de um homem chamado Votagus, um artista que buscava como todos os outros do seu ramo desenhar e pintar paisagens, pessoas e coisas. Mas Votagus também buscava expressar visualmente os ruídos, os sons, os acordes, etc. E nisso, descobriu o seu desejo: músicas de pinturas. É interessante as analogias que ele faz ao longo do vídeo, como a das notas graves representarem pessoas ranzinzas, o trítono (chamado de som do diabo) as coisas obscuras, etc.

    A Gaiola from Samira Daher on Vimeo.

    “A Gaiola”
    Esse é o mais genial. Curto, direto e simples, o vídeo tratou um tema bastante recorrente na nossa sociedade pós-moderna: a mística da liberdade. Construindo uma sátira, ela coloca os homens dentro duma gaiola, que é a própria Terra, e os pássaros como criaturas livres. É o único que não quero explicar tanto, a própria animação fala por si própria.

    Neomorphus from Animatorio on Vimeo.

    “Neomorphus”
    Esse vídeo é o mais complexo (ou eu tentei aprofundar demais e não consegui), mas é sobre uma criatura que constantemente se transforma na duração do vídeo.

    La nuit de l’ours Trailer from Cine3D Association on Vimeo.

    “LaNuit deL’Ours (A Noite do Urso)”
    Como não é brasileiro, o áudio do vídeo está em alemão e não possui links completos. Num resumo mais simples, é a história de pessoas de uma cidade que se reúnem a noite na casa de um urso (ou ursa) depois de um dia de trabalho.

    Unindo ideias desses quatro vídeos eu escrevi a seguinte canção:

    A Pintura Musical de Neomorphus

    Essa é a gaiola de Neomorphus
    E a música que ele foi pintar,
    Ele foi buscar a sua flor de lótus,
    Mas se perdeu ao ver esse luar.

    Dentro da gaiola ele se criava,
    Querendo pintar o silêncio da canção,
    E aqueles pássaros lá conversavam:
    E se nós soltássemos uma dessas mãos?

    Pintou um tom menor,
    Querendo ser maior.

    Neomorphus está procurando
    A grande casa deste Urso,
    Preso na gaiola a tanto,
    Com a alma de um mendigo.

    Era um dó menor de tanta dó
    Vivendo como um belo sol maior
    Era grave a vida, baixo em si
    Colorindo um quadro que era sobre si

    Existem notas que colorem a noite fria?
    Existe silêncio que pinta o dia?
    O menor e o maior são da mesma melodia,
    Vivendo em ré querendo ir pra lá.

    Os pombos dizem liberdade,
    Mas homens não sabem ser livres.

    Neomorphus está procurando
    A grande casa deste Urso,
    Preso na gaiola a tanto,
    Com a alma de um mendigo.

    A canção foi apresentada pela primeira vez como trabalho de Circuitos Artísticos e Culturais na sala de aula com muitos elogios por Luiz no vocal, Matheus na guitarra e backing vocal, Lucas no backing vocal e baixo improvisado no violão e eu, Thiago Junio, no violão e num backing vocal choroso e detestável.

    Ela foi reapresentada num sarau da Igreja Cristã Esperança em uma versão diferente, com mudanças tonais no refrão e reinterpretações nas notas musicais. Ficou mais interessante a nova versão, porém não foi executada com a mesma qualidade musical da sala. A nossa apresentação fica entre o trecho de 6m33segs até 8m33segs, e contém apenas uma parte da canção.

    Algo que eu tenho a impressão de ter acontecido com relação a letra da obra é que ninguém deve ter compreendido bem. Nunca neguei a subjetividade das poesias musicais, mas uma boa interpretação e buscar entender o conteúdo e as expressões artísticas do artista são tão importantes quanto as experiências pessoais ao consumir uma arte. Isso proporciona mais enriquecimento cultural, de valores, e retira o eu receptor do seu próprio mundo, possibilita o exercício da empatia, do aprendizado através do próximo e respostas para próprias perguntas que nunca conseguiu confrontar. Logo, por esse motivo eis que abrirei o véu: vou explicar a letra.

    Essa é a gaiola de Neomorphus
    E a música que ele foi pintar,
    Ele foi buscar a sua flor de lótus,
    Mas se perdeu ao ver esse luar.

    Há vários símbolos nessa estrofe que precisam ser explicados. A palavra “gaiola” foi recortada do vídeo “A Gaiola” e é o símbolo da escravidão do ego humano e da falsa liberdade.

    Neomorphus é a criatura da canção. Trazida do vídeo “Neomorphus”, simboliza alguém que constantemente se transforma para se adaptar a ideias humanas, como é enxergado na animação. A palavra “neomorphus” une outras duas: “morphus”, quem vem da palavra grega “morphe”, cujo significado é “forma”; e “neo”, que significa novo. As duas sintetizam “nova forma”.

    A “música que ele foi pintar” é uma clara referência ao “O Homem que pintava músicas”, só que o homem que expressava essa música visivelmente dentro do contexto da letra é o Neomorphus. A pintura musical de Neomorphus é a expressão de sua vida, presa dentro de uma gaiola.

    Flor de lótus” foi algo que escrevi para rimar sonoramente com “Neomorphus”, não é descrito em nenhum dos vídeos. Porém, possui sua ideia própria dentro da poesia. Apesar de simbolizar na maior parte da cultura asiática a pureza espiritual, o nascimento divino, eu peguei uma ideia particular dela: a prosperidade.

    O “luar” é o encontro com a complexidade e a beleza do mundo. Neomorphus perdeu-se nas perguntas sem respostas da humanidade ao tentar encontrar sua prosperidade, sua felicidade.

    Dentro da gaiola ele se criava,
    Querendo pintar o silêncio da canção,
    E aqueles pássaros lá conversavam:
    E se nós soltássemos uma dessas mãos?

    Neomorphus criava-se dentro da gaiola. Eu associo com frequência a palavra “criar” com tirar algo do nada, e no contexto da canção é ligado à criação da identidade, pois essa criação é a única característica que não é predefinida e nos resta formar como indivíduos carentes de uma imagem própria. Essa característica é algo impossível para o homem, já que tudo que ele faz é baseado em algo (criar difere-se de transformar, já dizia Lavoisier). Neomorphus poderia se criar? Poderia construir uma identidade?

    Essa estrofe é bastante introspectiva, o silêncio da canção confirma isso. Neomorphus, perdido pela complexidade terrena, no luar, exercitava o mergulho na interioridade, pintava uma canção que buscasse refletir o esvaziamento, silêncio do que o cercava, da humanidade, de sua ideia de prosperidade.

    Há um contraste nesse trecho, uma dialética que atormenta esses versos. Os pássaros descritos na letra é uma ideia retirada da “A Gaiola”. Dois pássaros, ao observar a gaiola dos homens, estavam conversando sobre a liberdade humana. Um pássaro pergunta ao outro:

    -E se soltássemos alguns deles?

    A reposta está na segunda ponte da canção. No entanto, percebe-se o contraste do retorno a si mesmo e a ideia da escravidão humana. Neomorphus exercitava a introspectividade porque estava percebendo que vivia dentro duma gaiola, ou pior, porque ele tentava se criar. Ao tentarmos criar um conceito de liberdade, de valores sociais, cairemos numa gaiola, ergueremos um sistema e entraremos dentro dele para que o próprio nos governe. Ah, a mística da liberdade!

    Pintou um tom menor,
    Querendo ser maior.

    A canção explora diversas facetas da vida do Neomorphus. Essa ponte de dois versos expõe um lado do personagem e um dos maiores problemas da humanidade: a hipocrisia. Baseando-se na criatividade de “O Homem que pintava músicas”, o tom menor é bastante ligado a músicas tristes. Tons menores expressa a solidão, a tristeza e a depressão. O tom maior é uma escolha melhor para quem quer demonstrar alegria e felicidade. Esses versos explora as máscaras que Neomorphus constrói de si mesmo, com sorrisos comprados, o afundando nas suas próprias mentiras que ele mesmo acredita. Ele vive no meio do vazio da contemporaneidade acreditando estar completo. Além disso, expressa a busca por lugares altos, buscando ser maior, o tom maior, mas sempre será menor, pois todos somos iguais, independente de nossas conquistas. Como diria C.S. Lewis no livro Príncipe Caspian:

    “É honra suficientemente grande para que o mendigo mais miserável possa andar de cabeça erguida, e também vergonha suficientemente grande para fazer vergar os ombros do maior imperador da Terra. Dê-se assim por satisfeito.” (1951, p. 276)

    Neomorphus está procurando
    A grande casa deste Urso,
    Preso na gaiola a tanto,
    Com a alma de um mendigo.

    Explicarei os versos com uma citação do C.S. Lewis, em Cristianismo Puro e Simples, novamente:

    “Se descubro em mim um desejo que nenhuma experiência deste mundo pode satisfazer, a explicação mais provável é que fui criado para um outro mundo.” (2005, p. 50)

    Antes de esclarecer o sentido do refrão, explicarei os símbolos encontrados nele. “A grande casa deste Urso” é uma referência a animação alemã “LaNuit deL’Ours (A Noite do Urso)”. A tal casa era onde o Urso acolhia os animais da cidade, onde ele organizava as festividades, alimentava os moradores, etc. O Urso simboliza Cristo.

    Há duas possíveis interpretações para o refrão:

    • Neomorphus, por reconhecer que era um mendigo espiritual, entender sua realidade interior e saber que estava preso a uma gaiola, buscava um descanso, um alimento que não é encontrado nesse mundo, ele desejava a grande casa. Ele queria se desprender do sistema humano, de si mesmo e poder se encontrar a Deus e, consequentemente, a si mesmo;
    • Um homem andante, desesperado, procurando um lugar, descansar das falsas ideias, de sua ilusória liberdade, com fome de algo que não sabia o que era. Ele estava apenas procurando, mas não entendia o que buscava ou não queria entender.

    Escolham por si mesmos o que querem entender.

    Era um dó menor de tanta dó
    Vivendo como um belo sol maior
    Era grave a vida, baixo em si
    Colorindo um quadro que era sobre si

    Ousei criar uma bela pintura musical nessa estrofe, com muitos jogos de palavras. Dó menor, um acorde triste só por ser menor, se relaciona com o sentimento de pena de si mesmo, mas esse Neomorphus, um cara de tanta dó, vivia como se fosse radiante como o sol. A palavra “sol” também designa um acorde musical e, no contexto da música, é maior. A estrofe trabalha, como a primeira ponte da música, as máscaras que são construídas pelo personagem. Ele era um dó menor – um cara imerso na solidão interior – vivendo como um sol maior – um acorde musical triste, mas exibindo uma alegre.

    “Si” pode ter quatro símbolos nesse trecho: geralmente, é o tom mais grave do contrabaixo, logo simboliza as trevas interiores; si também é um pronome reflexivo pessoal oblíquo, indicando introspectividade (baixo em si mesmo);  a tríade (conjunto de 3 notas musicais que formam a estrutura de um acorde) do sol maior contém o si como 3ª Maior, percebe-se então que, apesar de ser um sol radiante, ele também era um grave si; semelhante ao símbolo anterior, quando se forma um sol maior e, ao tirar a nota dominante (o próprio sol), cria-se um sol com baixo em si (G/B). Neomorphus era grave, um ser imerso numa escuridão profunda, era baixo em si. E essa era sua pintura: cores claras na visibilidade, tons escuros na sua invisível alma.

    Existem notas que colorem a noite fria?
    Existe silêncio que pinta o dia?
    O menor e o maior são da mesma melodia,
    Vivendo em ré querendo ir pra lá.

    Existem notas que colorem a noite fria? Existe silêncio que pinta o dia? Essas perguntas são retóricas, são questionamentos do eu lírico: há algo para simbolizar a minha existência sem identidade?

    A sociedade, independente de sua época, sempre levantou características para designar status sociais: o homem cultural, o inteligente, o de classe média, o universitário, o santo e religioso, determinadas profissões, o que curte determinado estilo musical e vários outros. A felicidade e a identidade são construídas sobre esses fundamentos culturais e relativos, e essas identidades qualificam o que é menor e maior. Na música, existem notas maiores e notas menores, mas o conceito dessas notas não é constituído pela sua força e magnitude, e nem pelos seus méritos sonoros. São duas notas que ocupam e tem funções diferentes numa obra sonora e tem a mesma importância. O que chamamos de maior e menor na sociedade, o engenheiro e o pedreiro, o gari e o empresário, o político e o mendigo, são todos iguais, estão na mesma melodia humana.

    “Vivendo em ré querendo ir pra lá” é um dos meus versos preferidos da canção. Ré é uma nota musical, lá também. Uma frase assim parece mostrar alguém tocando um tom, porém desejando tocar outro, um contraste em si mesmo. Mas a palavra “ré” também é significa outra coisa: retrocesso. Essa trecho simboliza o andar em círculos, uma pessoa perdida, em constante guerra consigo mesmo, ela quer ir para algum lugar que a livre de suas obscuridades interiores, para lá, criando várias miragens, no entanto vive retrocedendo, tocando o ré na vida.

    Os pombos dizem liberdade,
    Mas homens não sabem ser livres.

    Essa ponte é a resposta da segunda estrofe (Dentro da gaiola ele se criava,/ Querendo pintar o silêncio da canção,/ E aqueles pássaros lá conversavam:/ E se nós soltássemos uma dessas mãos?). Essa estrofe de duas linhas tem uma citação indireta a “A Gaiola”. Enquanto os dois pássaros observavam o funcionamento do sistema humano, eles conversavam sobre isso. Um pássaro indagou sobre a possibilidade da liberdade dos homens, porém, quando viram a reação alienada que um garoto teve quando foi liberto, ele percebeu a impossibilidade do tal:

    -E se soltássemos alguns deles?

    -Impossível.

    -Por quê?

    -Não sobreviveriam aqui fora.

    Um cara disse sobre pássaros, liberdade e homens há mais ou menos dois mil anos.

    26 Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas?
    27 E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura?
    28 E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam;
    29 E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles.
    30 Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé?
    31 Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos?
    32 Porque todas estas coisas os gentios procuram. Decerto vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas;
    33 Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.
    Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.
    Mateus 6:26-34

    Talvez esse cara queria dizer que somos escravos de nós mesmos, de sistemas egocêntricos, que a liberdade só seria encontrada num passo para a transcendentalidade. Talvez ele quisesse dizer que Neomorphus é um indivíduo que desejava buscar a sua liberdade em mais materialismo, tornando-se escravo dele. Talvez.

    Uma poesia de um amigo meu, Tiago Abreu, chamada “Onde?”, retrata nossa busca incansável por tesouros velhos, mas que não passam de miragens vazias:

    De todas as vias, um alvo
    Do início vejo o meu fim
    Onde quero chegar?
    Andando em círculos
    Dançando em círculos
    Assim vivo

    De todas as pessoas, uma
    A atenção direta e única
    A quem quero alcançar?
    Esta é minha vida
    Este é o meu mundo
    É o meu lar

    Um objetivo é meu troféu
    Empoeirado na estante
    E neste instante
    Vívido, mas distante
    Perdendo mais uma chance
    Aquela chance

    Peço, por favor
    Aumente o sabor
    Não quebre o encanto
    Não me acorde
    Não me transforme

    Neomorphus simboliza todas aquelas pessoas cansadas de serem escravizadas pelos seus eus de vazio, pelas gaiolas que todos os homens criam, que procuram a verdadeira liberdade através de um grande salto a um precipício de fé, aquelas que querem encontrar o descanso na casa do Urso. Ou simplesmente, uma música ininteligível para aqueles que não querem entender.

    Vocês escolhem.


     

    Referências

    Lewis, Clive Staples. As Crônicas de Nárnia: Príncipe Caspian. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p.276
    Lewis, Clive Staples. Cristianismo Puro e Simples. São Paulo: Martins Fontes, 2005. p. 50.
    Agenda BH, MUMIA – Mostra Udigrudi Mundial de Animação. Disponível em <http://www.agendabh.com.br/eventos_detalhes.php?CodEve=16130> Acesso em 30 de setembro de 2015.
    Significados, Significado de Flor de lótus. Disponível em <https://www.significadosbr.com.br/flor-de-lotus> Acesso em 30 de setembro de 2015.
    Luiz David S. Mendes, AULA XI – TRÍADE MAIOR e MENOR. Disponível em <http://aprendendotocaroviolao.blogspot.com.br/2012/03/aula-xi-triades-parte-1.html> Acesso em 07 de agosto de 2015.
    Wikipédia, Tríade. Disponível em <https://pt.wikipedia.org/wiki/Tr%C3%ADade> Acesso em 07 de agosto de 2015.

  • Fronteira – Um remédio, um anestésico ou uma LSD?: As pílulas da farmácia

    As igrejas de hoje são realmente farmácias espirituais, ou tem se tornado um centro de tráfico de drogas e anestésicos mentais e espirituais? Podem ser bastante fortes essas analogias, mas ao se deparar com o evangelho de Jesus, o que deveríamos encontrar: a simplicidade ou fantasias de egos levantados?

    A lei da liberdade em Cristo é quebrada pelo legalismo e anestesiada pela religião, e os extremismos da libertinagem, que na verdade é escravidão da carne, é ingerida em doses de drogas de falso cristianismo. Quando as igrejas deixarão de servir a um sistema para viver pelo Reino de Deus?

    Você encontra remédio, anestésico ou LSD na igreja?

    As Pílulas da Farmácia

    Anestésico,
    LSD,
    Remédio,
    A farmácia da vida
    Passa uma só via,
    Mas ninguém mostra a comida.

    A receita leva,
    Fora dos extremos,
    A cura da lepra
    Do nosso interior.

    Mas quem pode explicá-la?
    Quem pode explicá-la?

    Anestésico para os dias,
    Compramos anestésicos
    Na farmácia dali nessa via,
    A via da visão de império.

    Império de visões,
    De sensações,
    De criações,
    Não somos nós,
    Somos um império as sós.

    Há três vias:
    O anestésico, o LSD e o remédio.

    O anestésico do homem
    Vem anestesiando
    Nossas sensações,
    Padronizando
    Nossas identidades,
    Escravizando
    Nossos pensamentos.
    Fogem da liberdade
    Para a falsa verdade,
    Iludem as cidades,
    Cantam boas maldades.

    Você está anestesiado?

    Mas se não injetou
    Os anestésicos,
    A LSD pegou
    E nós céus se jogou.

    Você cria verdades?
    Vive outro deus
    De sua individualidade?
    Você fuma os seus
    E do sistema inverdades?

    O fogo desce
    Queimando você,
    Um cigarro
    De fumaça e ser.

    E nessa busca do sobrenatural,
    Toma a LSD espiritual,
    Cria fantasias e mistérios,
    Onde requer o simples, o sério.

    Você fuma prosperidade
    E atrocidades,
    Fuma busca por anjos,
    Fuma fantasias espirituais
    Com fundos carnais,
    Você fuma você.

    Você tem LSD no bolso?

    Mas você sabe quem é
    Por detrás dessa face
    De iludida fé?

    É um mendigo espiritual
    Atrás de comida imaterial,
    Doente, o inimaginável
    Pecado fatal.

    Morrendo aos poucos
    Na agonia sem paz,
    Deixe-se ser louco
    Longe do que lhe apraz.

    A receita do médico
    Tem o seu remédio,
    Isso é o evangelho
    Sem grandes mistérios.

    Você deseja ver
    O seu eu e seu remédio?

  • Fronteira – Por cada “garoto sírio” no mundo

    Foto: Foto chocante de menino morto revela crueldade de crise migratória | G1

    Deixando a “Estante de Livros” de lado, hoje vou tratar um assunto que repercutiu nessa semana: a foto de um garoto sírio que foi encontrado morto numa praia, mais um no meio de muitos refugiados da Síria.  A publicação dela trouxe diversas reflexões por todo o mundo desde a semana passada. Montagens da fotografia, textos repletos de pensamentos sobre a morte desse menino se abundaram-se pela mídia e nas redes sociais. Porém, essa adversidade a qual a humanidade lida começou hoje? Só está acontecendo no contexto dessa fotografia?

    Estamos nos relacionando uns com outros em um mundo extremamente violento e cheio de guerras. As notícias em torno dos povos árabes aumentam a cada dia, o terrorismo islâmico cresce, tensões entre a Rússia e os EUA explodiram alguns meses atrás e, para agravar a situação, a criminalidade e as violências regionais erguem-se como monstros contra a população urbana. Além das rixas e intrigas entre homens, enfrentamos diversos problemas ambientais causados pela próprio ser humano.

    O fato é que estamos cegos pela negação, mecanismo de defesa psicológica que nega um fato que possa incomodar a sua própria existência, e pela falta de empatia. Os acontecimentos se enchem nas nossas mentes, causando uma disfunção narcotizante, uma anestesia total das reações humanas, uma letargia nas atitudes.

    Matrix revela que a sociedade humana se encontra cega e tudo que ela mostra são meras projeções virtuais. Cada emoção ocasionada em nós por informações negativas, seja ela boa ou ruim, está na superfície de nossos olhos, porque não podemos realmente sentir o peso das notícias.

    Onde está a empatia? Se realmente chorássemos com os que choram com outros “garotos sírios” da vida, talvez a situação não estaria tão crítica na nossa própria nação, onde crianças são entregues a violência, a marginalização, ao abandono dos pais, tanto no sentido criminal como o abandono dentro da própria casa, a prostituição e o trabalho infantil, a hiper exposição midiática, a publicidade exagerada, a pedofilia, etc. São casos que podem se encontrar no vizinho, dentro da nossa própria casa, porém nossa revolta permanece efêmera.

    Permanecermos indignados com a injustiça, com as doenças éticas da sociedade, e culpamos Deus pelos problemas mundiais que cada vez mais bate na nossa porta, mas qual é a origem de todas essas desgraças senão nós mesmos? Nossa dor é politizada, vazia como argumentos; nossa moral é egoísta, baseada em pressupostos materialistas e em nosso próprio ser; nossa bondade e ética são individualistas, fundamentadas em conhecimentos sobre o mundo e no status “homem cultural”; nosso conceito de amor é superficial e passageiro, solidificados no interesse e felicidade própria; e nossas fronteiras são ilusões, somos todos iguais.

    Para argumentar o que realmente a humanidade está passando, há um trecho do livro “O Futuro da Humanidade” de Augusto Cury exemplifica perfeitamente essa condição:

    Marco Polo viu o rosto do amigo entristecer pouco a pouco. Nada o animava. Ligou a TV num programa de notícias para que ele se distraísse um pouco, mas piorou as coisas. Desde que saiu pelo mundo, Falcão nunca mais assistira à TV, apenas de relance.

    Viu um repórter denunciando a fome na Etiópia, mostrando imagens de crianças magérrimas, em pele e osso, sem expressão facial, em profundo estado de melancolia. Quase não tinham força muscular para se movimentar. Deviam estar brincando, mas estavam morrendo. Falcão curvou-se, colocou a cabeça à frente do corpo e arregalou os olhos.

    O repórter disse que, de acordo com a FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentos), a cada cinco segundos morre uma criança de fome. Falcão, estarrecido, meneou a cabeça gritou:

    – Não é possível! Estão deixando as crianças morrerem!

    Em seguida, viu outra imagem fantasmagórica: um pai correndo e gritando desesperadamente com um filho sangrando no colo. Ele fora vítima de um ataque terrorista. As imagens que saltavam da tela pareciam mais loucas do que as alucinações que o perturbavam na sua fase psicótica mais drástica. E aquilo era real. Falcão começou a passar mal, Teve palpitações e suor excessivo.

    Em seguida, observou a expressão facial do repórter que transmitia as notícias. Para seu espanto, o rosto não traduzia o drama da notícia, revelava apenas um ar de consternação.

    Posteriormente, o mesmo repórter mudou rapidamente o semblante, abriu um sorriso e falou de um milionário excêntrico, que aparecia na tela acariciando seus cavalos em suntuosas cocheiras. Esta notícia penetrou como um terremoto no intelecto de Falcão. Estava incrédulo.

    Percebeu que o processo de transmissão das informações destruía a afetividade dos espectadores. Fitou o jovem amigo e comentou incisivamente:

    – Vocês não sentem asco por essa sociedade?

    – Esses acontecimentos são péssimos! – confirmou Marco Polo.

    – Péssimos? São horríveis! Vocês estão adaptados ao lixo social. Não se perturbam mais com eles!

    – Não! Nós detestamos essas imagens!

    – Seus olhos a detestam, mas suas emoções não reagem.

    Marco Polo ficou abalado. Sentiu que Falcão estava coberto de razão. Embora perambulasse pelas ruas e presenciasse determinados tipos de sofrimentos, não tinha contato com algumas das mais repugnantes misérias cometidas pelo sistema. Sua sensibilidade não estava doente nem era exagerada, mas anestesiada, analisou.

    Como estudante de jornalismo, conheço esse universo perfeitamente, a carnificina das pautas. Os dilemas do fato pouco importam ao jornalista, o que é importante nela é o seu retorno midiático. A fotografia não mostrou os mais obscuros pensamentos do noticiador e da massa: notícia boa é notícia que dá dinheiro para repórteres e informação tenebrosa e sensacional para o espectador. Sim, o que mais o jornalista quer é polêmicas e problemas, isso é lucro, o receptor gosta de assistir notícias apenas por ver, saber mais e mais, entrando numa profunda caverna de letargia mental. Não coloco em jogo a publicação da notícia, que foi de vital importância, mas os muitos interesses soturnos das almas que não são vistas naquela imagem.

    Nesse enorme muro que levantamos entre nós, por fronteiras de países, ideologias, religião, visões políticas, e muitas outras divisões, vidas como a do garoto sírio serão machucadas e levadas pela sombra da morte, tornando toda a humanidade vítimas e cúmplices de um sistema de egoísmo e individualismo. Achamos que o inimigo mora no oriente, ou no norte europeu ou americano, mas ele está bem dentro de nós, em todos nós.


    Referências

    Marilena Henriques Teixeira Netto, Mecanismos de Defesa. Disponível em: <https://artigosdepsicologia.wordpress.com/2007/10/04/mecanismos-de-defesa/> Acesso em 08 de setembro de 2015.

  • Fronteira – Musicografia: Bruno Branco – Lado a lado

    O primeiro trabalho musical do Bruno Branco na sua carreira solo foi Lado a Lado, uma obra totalmente acústica, usando três violões, um banjo, escaleta e alguns recursos de percussão, com interpretações vocais de Bruno. Todas as canções foram compostas por Branco, e produzido por Jordan Macedo, produtor de músicos e bandas como Thalles, Heloisa Rosa, Lucas Souza, Chris Durán e bandas como o Palavrantiga.

    Em várias entrevistas, Branco demonstra que o Lado a Lado foi composto por várias ideias. Em entrevista a Missão Gospel, ele revela que o

    “desejo ao produzir esse álbum é que ele fosse de “bolso”, ou seja, algo agradável e pelo qual as pessoas pudessem usufruir no dia a dia. E nada melhor que um álbum “Lado a Lado” das pessoas, nome da terceira faixa do disco. A música foi sugerida para dar brilho ao nome do CD pelo designer que fez a capa do disco, Josué Ribeiro.”

    Já em outra entrevista para o site Som de Madeira, ele afirma:

    “Tentamos não fazer um disco enjoativo. É um disco que carrega várias épocas da minha vida, mostrando os frutos de andar lado a lado com Deus: nas crises e nos momentos bons. O nome é um resumo do disco. Ele foi feito lado a lado com Deus e com as pessoas também que participam da minha vida. E por ser um CD com músicas de reflexão, ele foi feito com a intenção de uma pessoa tê-lo lado a lado por muito tempo.”

    A leveza e a simplicidade transmitida pelos arranjos e pelas letras sugerem realmente um disco para se estar lado a lado com as pessoas, e reflexões sobre o que é realmente importante na vida. É algo que deva ser apreciado não como uma obra religiosa, escutada nos cultos de domingo e esquecida na semana, um costume que permeia a falsa espiritualidade dos cristãos de templos e não do diário, mas para ser mastigada no cotidiano, acompanhadas por dose de reflexões. Das palavras de Bruno sobre Lado a Lado na entrevista ao Som da Madeira:

    “O disco é muito verdadeiro, é uma extensão destes últimos anos da minha vida, carrega uma inocência. Ele não foi pensado para uma tribo ou mercado. É um disco para ser degustado com tempo. É atemporal. É o resultado de uma coragem de saber que tenho algo que pode não ser importante para a multidão, mas pode ser importante para alguém. Se for, valerá muito a pena.”

    A primeira canção do álbum, “Canção pra Você”, foi baseada em um testemunho do autor.

    “No final de 2008, comprei um apartamento que estava caindo aos pedaços. Decidi reformá-lo. Eu morava com minha avó e achava que precisava ir morar sozinho, me casar etc. Queria muito uma mudança na minha vida e apliquei essa mudança na reforma do apartamento. Após a reforma, o apartamento estava simplesmente perfeito. Mas lá estava eu, sozinho na sala, olhando para aquele porcelanato lindo, mas com um enorme vazio dentro de mim. Foi então que me ajoelhei e o Espírito Santo disse ao meu coração: ‘Quem precisa de reforma é você. A casa está linda, você fez isso para chamar a atenção, ser amado, mas a casa que eu quero mexer é você. Você é o templo. Não adianta nada disso aqui, se você, a verdadeira casa, estiver em ruínas.” [Troféu Promessas, 2012]

    A faixa segue a mesma ideia de “Casa” do Palavrantiga,  porém é mais romantizada, uma bela declaração, e contém reflexões sobre a abnegação e o verdadeiro templo divino. “Onde está o valor destas coisas, disso aqui sem Você” expressa perfeitamente o vazio do materialismo humano, de preencher todo o nosso vácuo de espírito com coisas passageiras, a casa interior destroçada e desocupada, sendo que a vida só terá seu valor se Deus estiver conosco.
    “Simples” é uma das melhores do disco. Ela representa perfeitamente um dos supremos conceitos expressados no conjunto: a simplicidade. A canção foi debatida e usada na questão sobre a cultura artística do Reino por causa dos versos “Então, quem dirá que a arte não pode ser nossa?/ Então, quem dirá que tem que ser sem sorriso?”. Porém, essa canção me leva a pensar sobre a arte de ser simples e viver sobre esse estilo de vida. O melhor trecho da música com uma influência do músico Bob Marley reflete muito bem essa arte: “Use as coisas e ame as pessoas”. O primeiro defensor dessa prática, no entanto, não foi Bruno e nem Bob Marley, foi Cristo:

    25. Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário?
    26. Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas?
    27. E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura?
    28. E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam;
    29. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles.
    30. Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé?
    31. Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos?
    32. Porque todas estas coisas os gentios procuram. Decerto vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas;
    33. Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.
    34. Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.
    Mateus 6:25-34

    Viver nas pegadas da simplicidade do Mestre significa, também, trocar as prioridades na vida. Não se torna apenas um conceito de aparência, na qual transforma apenas como nós portamos. Muda também nossos ideais, nossas buscas, os motivos das nossas orações. A vida é uma arte de amar as pessoas.

    A faixa-título “Lado a Lado”, apesar de boa, é a canção menos interessante do álbum, mas uma letra bem mais complexa que as demais. De qualquer forma, o folk veloz dela anima qualquer um.

    A melhor do álbum é a “Reforma”. Um dos movimentos que mais cresceu nos últimos anos com o advento da internet e das redes sociais foi o reformado, ou calvinista. Os estudos feitos pela teologia calvinista são um dos mais bem organizados, estruturados e solidificados do  protestantismo, e seu extremo cuidado no aspecto bíblico foi um dos motivos de sua explosão. Porém, a cosmovisão calvinista é apenas mais um no meio de tantos pontos de vista do cristianismo, e embora seja muito bem organizado não significa salvação. Qualquer teologia sempre se estruturará na mentalidade das pessoas, mas se o coração não estiver transformado não passará de títulos e rótulos. A verdadeira reforma não transforma a construção primeiramente, ela muda a estrutura da casa, senão qualquer teologia virará teoria. E teoria demais embriaga, como dizia a letra do “Neófito” do Resgate.

    Voltando a canção, a genialidade da letra foi no jogo de analogias feitas nela com as duas passagens bíblicas sobre os odres velhos e a pérola perdida, e a verdadeira capacidade gerada na humanidade com a reforma: poderem amar.

    “Os loucos que amaram mais, acharam a pérola perdida
    Os loucos que amaram menos, odres velhos vinho desperdiça”

    O vinho simboliza na música o Amor, a pérola perdida o encontro do homem com o Amor, e os odres velhos um indivíduo não arrependido ou não transformado. Repetindo o conceito de Simples, a composição se estrutura no Amor.

    Você pode não estar apaixonado, não gostando de alguém, mas mesmo assim irá curtir a belíssima “Flores”. O melhor desse tipo de balada romântica, como “Mais uma Canção” do Los Hermanos, é conquistar seus ouvidos, mesmo sendo solteiro e sem expectativas amorosas. Quem estiver apaixonado, ou em algum relacionamento, essa música pode ser oficial da sua playlist. “Flores” é uma mistura de poesia romântica com um arranjo simples, mas encantador, uma das melhores do tema.

    “Palavras Soltas” é uma excelentíssima canção. A combinação do folk cheio de feeling no arranjo à letra de declaração a Deus estala o coração do ouvinte, uma habilidade do Bruno. São composições poéticas, simples, sem o toque pseudo intelectual das letras da música contemporânea, mas são ricas e profundas. “Saberás” segue da mesma forma que essa faixa, focada numa musicalidade com mais feeling e numa bela declaração, mais poética, contudo, não tão profunda. São duas canções sublimes, e suas poesias revelam mais sentimentos do que conceitos.

    “Vermelho Escarlate” finaliza o álbum maravilhosamente. Essa faixa mistura um folk com uma ideia que já havia explicado em “Reforma”. Vermelho escarlate é descrito na composição como a cor da letra inscrita nos corações dos filhos de Deus, e é baseado em 2 Coríntios 3.3.

    Porque já é manifesto que vós sois a carta de Cristo, ministrada por nós, e escrita, não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas nas tábuas de carne do coração.
    2 Coríntios 3:3

    Esses dois trechos da música explica toda a ideia dela:

    “A cidade tem confrontação no amor
    E a letra é vermelha escarlate
    Escritas nestas tábuas, de carne e coração(…)
    Não é letra mas sim sangue o conserto
    E a letra é vermelha escarlate
    Escrita nestas tábuas de carne e coração”

    Vermelho é a cor do sangue e sangue significa vida. A letra em um papel é morta, porém, quando entra em um coração se transforma em algo vivo. Rótulos e títulos se tornarão vazios se as letras vermelhas escarlates não circularem em nosso sangue.

    Lado a Lado é baseado em dois fundamentos, amor e simplicidade, e o meio utilizado foi a linguagem poética, arranjos modestos, andando sobre o folk com influências do blues e do MPB, mas que foram perfeitamente combinados. Um motivo de agradecimento a genialidade do Jordan Macedo, afinal, a ideia de gravar um álbum totalmente acústico foi persistida por ele, pois Bruno queria gravar um disco de banda.

    Bruno Branco buscou principalmente com essa produção fornecer um álbum com princípios cristãos, com uma linguagem menos engessada, presa aos clichês gospel e quebrar a barreira entre o gospel e secular. Sua opinião sobre essa barreira, aliás, sempre foi confusa para mim. Apesar disso, ele é um grande músico da geração que tem surgido atualmente e o seu inicio de carreira com esse excelentíssimo trabalho merece todo respeito.

    “Reforma”, “Simples”, “Vermelho Escarlate”, “Canção pra Você”, “Flores” e “Palavras Soltas” são as melhores, em ordem decrescente, do disco.

    Na próxima Musicografia falarei sobre o Prato & Sino, último lançamento do compositor, e dissertar em mais reflexões proporcionadas por esse álbum.

    Playlist da semana: Palavras Soltas, Reforma, Flores


    Referências

    Érica Fernandes, “As pessoas estão cansadas de religião”, afirma Bruno Branco. Disponível em: <http://www.lagoinha.com/ibl-noticia/as-pessoas-estao-cansadas-de-religiao-afirma-bruno-branco/> Acesso em 1 de agosto de 2015.

    Som da Madeira, Entrevista – Bruno Branco. Disponível em: <http://somdemadeira.blogspot.com.br/2011/12/entrevista-bruno-branco.html> Acesso em 1 de agosto de 2015.

    Wikipédia, Jordan Macedo. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Jordan_Macedo> Acesso em 1 de agosto de 2015.

    Wikipédia, Lado a Lado (álbum). Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Lado_a_Lado_(%C3%A1lbum)> Acesso em 1 de agosto de 2015.

  • Fronteira – A interpretação é livre!

    Devo ter polemizado com esse título, numa sociedade pós-moderna que exerce com vigor ferrenho a base relativista (incoerência juntar base e relativismo na mesma frase, já que base significa algo absoluto). Mas esse título, queira ou não, é a verdade mais absoluta.

    Por que a interpretação é livre? Para quem faz essa pergunta, eu devolvo uma outra: pode uma árvore de maçã dar laranja? Uma indagação nada convencional, mas vou explicar.

    Na Revista Espaço Acadêmico, da edição N° 144 de maio de 2013, Andrey Dioney Fonseca afirma que “ao momento em que determinado bem cultural chega às mão de um consumidor que dele pode fazer diferentes usos, inclusive usos que distam do que fora pensado por aqueles que produziram esse bem cultural.”, o autor enfoca na liberdade de interpretação. Esse fundamento tem raízes no humanismo e no relativismo cultural. E a realidade é que esse argumento é tão verídico, que faz o relativismo uma verdade absoluta (adoro paradoxos).

    Jesus disse em Mateus 7 sobre uma realidade além do que é visível para nós: “16. Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos? 17. Assim, toda árvore boa produz bons frutos; porém a árvore má produz frutos maus. 18. Uma árvore boa não pode dar maus frutos; nem uma árvore má dar frutos bons.”

    Nesse mundo de certezas e dúvidas, há outra realidade por trás dessa, feita de cenas de vazio e deserto. Esse mundo é um complexo sistema a qual eu mesmo não entendo em sua totalidade, mas sei que fui feito para ser dele. Esse mundo complexo pode ter vários nomes: eu, identidade, coração, etc. E é essa dimensão que Cristo veio tratar, pois dela provém toda a realidade humana. Parafraseando Søren Kierkegaard:

    “O homem é uma síntese de infinito e de finito, de temporal e de eterno, de liberdade e de necessidade, é, em suma, uma síntese.”

    Quando afirmo esse mundo, eu falo sobre quem eu, você é. Não sobre o que você faz e o que você tem, mas sobre seu ser, sua identidade espiritual, seu eu, e é esse planeta de interioridade que define o que você interpreta, pensa, escolhe e faz. Sua interpretação é livre para pensar sobre quem você é!

    A pergunta do início agora foi respondida. Pode uma árvore de maçã dar laranja? Não, porque o que eu interpreto é a partir de quem eu sou. Eu tenho dois pares de olhos, os olhos exteriores e os olhos do interior, que enxerga o além das coisas materiais. Se eu tiver esses olhos interiores fechados, enxergarei só a materialidade, interpretarei apenas o que é material.

    Já ouviu a afirmação que todo homem é pecador, não é? Vejo teólogos, crentes repetindo essa afirmação como papagaios. Na verdade, às vezes um cristão parece realmente um papagaio: repete informações e doutrinas decoradas, sem ao menos entendê-las. O cérebro deles é um tijolo. Você sabe o que o pecado significa? Pecado não é uma substância venenosa, que possui materialidade, pois assim ela teria que ser criada.

    Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; (Romanos: 3. 23)

    O ato de pecar é possibilitado pela destituição da glória de Deus. Destituição é perder algo, é ser ausente de uma posição a qual era seu destino, seu propósito. O pecado é ausência de Deus, e nada melhor que o Albert Einstein para explicar isso:

    “O mal não existe, senhor, pelo menos não existe por si mesmo. O mal é simplesmente a ausência do bem, é o mesmo dos casos anteriores, o mal é uma definição que o homem criou para descrever a ausência de Deus. Deus não criou o mal. Não é como a fé ou como o amor, que existem como existem o calor e a luz. O mal é o resultado da humanidade não ter Deus presente em seus corações. É como acontece com o frio quando não há calor, ou a escuridão quando não há luz.”

    Só há duas alternativas para o seu próprio interior: ser ou não ser. Porque toda interpretação tem apenas duas bases, o que é e o que não é. Sabe por que o homem detém verdades relativas? Porque ele não conhece o todo, e por estar cego espiritualmente, enxerga partes da verdade pela graça comum. O absoluto se encontra na espiritualidade, no divino, pois só Deus conhece toda realidade, e só conhecendo essa dimensão o homem deixará de ser relativista.

    A Bíblia trata plenamente da história dessa verdade absoluta. Essa verdade veio e os homens não o conheceram, pois não eram dos seus. A verdade é uma pessoa, e essa pessoa se chama Jesus. É a expressão perfeita do homem e Deus. Conhecer a Cristo, ter sua identidade totalmente formada nEle é o destino do homem, porém, não é simplesmente uma vontade sua, pois um interior vazio não pode querer ser cheio por si mesmo. “Quando se trata de conhecer a Deus, toda a iniciativa depende dEle”, dizia o C. S. Lewis.

    Você pode ter sua vida padronizada em regras práticas baseada em religiosidade que fingem ser a espiritualidade, mas pode não conhecer a Deus. Jó dizia que antes ele apenas conhecia de ouvi falar sobre Deus, mas depois de grandes dificuldades e problemas, ele disse: mas agora os meus olhos te veem. Ele passou do vazio existencial para a verdadeira vida, obteve seu eu. E são justamente os olhos desse eu que pode dizer: eu realmente vejo Deus, eu realmente conheço a verdadeira interpretação, pois eu o enxergo com os verdadeiros olhos do interior.

  • Fronteira – Um remédio, um anestésico ou uma LSD?

    O lançamento de séries nesta coluna já virou mania, e hoje anuncio uma nova: “Um remédio, um anestésico ou uma LSD?”. O que esta sequência de textos buscará trazer? O que esse título significa?

    Remédio, anestésico e LSD. Alguém entende esses termos? Remédio indica uma doença e uma cura. Anestésico está ligado com o desligar, dopar dos sentidos humanos. LSD é uma droga alucinógena. Nessa série, elas adquirem a posição de metáfora sobre qual tipo de cristianismo eu, você e os cristãos têm divulgado.

    Primeiro, o cristianismo sempre afirmou sobre a doença humana de cunho espiritual, logo, também afirma que é o portador da cura. Søren Kierkegaard dizia em seu livro, “O Desespero Humano”, que o “único que conhece a doença mortal é o cristão”. Logo, o cristianismo tem a função de divulgador do remédio. Esse é o seu supremo propósito.

    O anestésico faz uma analogia com a questão da alienação, do controle da racionalidade que a tradição faz, e se relaciona com a seguinte pergunta: você tem feito do cristianismo uma religião de controle e massificação por interesses próprios, ou mesmo, é uma própria marionete desse sistema?

    Por último, LSD remete a fantasia que os cristãos constroem com o misticismo propagado principalmente pelo meio neopentecostal, porém, também com desejos que nunca serão realizados pelo cristianismo. Se identifica com a seguinte questão: o que você mostra às pessoas é uma concepção mágica, fantasiosa as pessoas, ou o verdadeiro evangelho?

    Essa série nasceu de um profundo cansaço e revolta contra a alienação religiosa e contra a hipocrisia encontrada nesse meio. De um modo artístico, pretendo abordar vários textos, poemas, e exibir algumas escritas por mim.
    Um remédio, um anestésico ou uma LSD, o que você tem divulgado?

  • Fronteira – Estante de Livros: A sátira de C. S. Lewis com os tontópodes

    No post de hoje, eu anuncio outra série para a nossa coluna: a Estante de livros. Como a Musicografia, que aborda o meio musical, nessa vamos abordar a literatura. E hoje, traremos uma trilogia bastante famosa: Crônicas de Nárnia.

    Quem já leu Crônicas de Nárnia entende bem as analogias que C.S. Lewis fez em seus livros, relacionando o cristianismo com a fantasia. No livro A Viagem do Peregrino da Alvorada, na viagem de Lúcia, Edmundo e Eustáquio, acompanhados por habitantes de Nárnia numa embarcação chamada Peregrino da Alvorada, eles encontram numa ilha criaturas fantásticas chamadas tontópodes, anões de um único pé gigante. A princípio, os viajantes haviam encontrado nessa ilha um lugar aparentemente inabitado, mas muito bem cuidado, com jardins aparados, etc. A estranheza do local em virtude do contraste do silêncio e vazio com o cuidado e a conservação do ambiente se devia a uma coisa: tontópodes que por algum tipo de encantamento estavam invisíveis. Ao decorrer da história, através do grupo conseguiram sua visibilidade novamente.

    A característica mais peculiar desses anões é sua extrema submissão e estupidez, tudo que o chefe dos tontópodes afirmava, o grupo confirmava sem ao menos refletir sobre o que ele falou. Neste trecho um mágico responsável por governar essas criaturas ingênuas diz a Lúcia sobre suas estupidezes:

    “-Você nem pode imaginar que problemas tenho tido com eles! Há uns meses estavam lavando pratos e facas antes do almoço, porque, segundo diziam, isso economizava tempo depois. Outra vez estavam plantando batatas cozidas para não terem de cozinhá-las quando as colhessem. Um dia o gato meteu-se na leiteira, e vinte deles começaram a tirar o leite, em vez de pensar em tirar o gato. Vamos dar uma olhadela nos Tontos, agora que você terminou de comer.”

    No entanto, o mais cômico sobre os tontópodes é a sua submissão absoluta ao seu chefe. Combinar burrice com essa característica fez com que tornassem as criaturas mais idiotas de Nárnia. Leia este trecho de uma conversa entre Lúcia, o mágico e os tontópodes:

    “-Oi, camaradas, já somos visíveis outra vez – disse um de barrete vermelho com borlas, que era sem dúvida o chefe. – Quer dizer, estou dizendo que, quando somos visíveis, podemos ver uns aos outros.
    -Genial, isso mesmo, chefe – gritaram todos. – Ninguém pode ser mais genial. Nunca jamais poderia falar melhor.
    A mocinha apanhou o velhote dormindo – disse o chefe. – Ganhamos dele dessa vez.
    -É o que a gente ia dizer – retrucou o coro. – Está mais inteligente do que nunca, chefe! Continue assim, continue assim.
    -Mas como ousam falar assim do senhor? – perguntou Lúcia. – Pareciam ter tanto medo ontem. Não sabem que o senhor pode ouvi-los?
    -Essa é uma das coisas engraçadas com relação aos Tontos. Num minuto falam como se eu mandasse em tudo, ouvisse tudo e fosse muito perigoso. Um minuto depois, julgam que me apanham em armadilhas nas quais nem uma criancinha cairia.

    -Aí vem ela, aí vem ela! – gritaram. – Três vivas para a mocinha! Tapeou o velhote completamente!
    -É muito doloroso – disse o chefe dos Tontos – não podermos dar-lhe o prazer de ver-nos como éramos antes de ficarmos feios. Nem acreditaria na diferença. Sabemos que agora estamos feios de morrer. Você vê que eu não menti.
    -Estamos horrorosos, chefe, horrorosos – fizeram os outros em coro, saltando como balões. – E como diz, exatamente como diz.
    -Pois eu não acho disse Lúcia, gritando para ser ouvida. – Acho vocês até bem bonitos.
    -Escutem o que ela está dizendo, escutem. A menina está certa. Estamos muito bonitos. Não há raça mais bonita.
    Disseram isso com a maior naturalidade, sem mesmo notar que tinham mudado de opinião.
    -Ela está falando – disse o chefe – que éramos bonitos antes de ficarmos feios.
    -Isso mesmo, chefe, isso mesmo. Ouvimos o que ela disse.
    -Mas eu não disse isso gritou Lúcia. Disse que estão bonitos agora.
    -Foi o que ela disse, foi – continuou o chefe. – Que éramos muito bonitos antes.
    -Escutem o que os dois estão dizendo – clamaram os Monópodes. – Aí estão duas pessoas para lá de inteligentes. Têm sempre razão. Não podiam ter falado melhor.
    -Mas estou dizendo justamente o contrário – berrou Lúcia, batendo o pé com impaciência.
    -Pois é, pois é – responderam os Monópodes. – Não há nada como o contrário. Continuem os dois assim.
    -Vocês enlouquecem qualquer pessoa – disse Lúcia, desistindo de convencê-los. Mas os Monópodes pareciam tão contentes que ela se convenceu de que, no final das contas, a conversa tinha sido um êxito.”

    Nota-se que a idiotice chega a um extremo de mudarem o próprio sentido das palavras para afirmar algo que lhes agradam. Essa passagem no livro constrói mais do que uma engraçada situação, mas uma sátira, a qual se encaixa perfeitamente em várias situações da nossa sociedade pós-moderna, principalmente nossa época.

    A submissão exacerbada constrói pessoas mentalmente deficientes. E o que a religião consegue fazer bem é invalidar essa nossa capacidade a fim de criar dependentes religiosos para os usaram com a finalidade de seus próprios proveitos. Crer é também pensar, um assunto cujos cristãos de renome como Santo Agostinho, John Stott e C.S. Lewis trabalhavam.

    Mas não é só a religião que é boa em engessar cabeças. Nisso, também temos as escolas e as faculdades, as quais são preparadas para isso. Há pouco espaço para a reflexão dos alunos, e tampouco seu aprendizado. Como diz a música “Another Brick in the Wall, Pt. 2” do Pink Floyd: “em suma, você é apenas mais um tijolo no muro”.

    Porém, um aspecto interessante é como a nossa sociedade deturpa o significado de algo para o seu próprio interesse. O chefe dos tontópodes interpretava o que Lúcia falava de outra forma, e seus súditos fiéis o seguiam como se fosse o dono da verdade. E não é assim hoje? O relativismo não destrói apenas a moral de uma comunidade, mas a própria compreensão das coisas. Metades dos problemas seriam resolvidos com uma boa aula de interpretação.

    Dá para tirar várias metáforas e reflexões sobre essa passagem, como a alienação religiosa e da sociedade como um todo, a massificação da mídia, o problema e deturpação da interpretação, os falsos doutores de nossa época, a relativização, a submissão do público, etc, o que deixa essa trilogia com um belo prato de reflexões. Crônicas de Nárnia, além de ser um bom livro literário, é uma boa recomendação para quem quer refletir sobre vários aspectos, principalmente o que compete à área cristã e, mesmo sendo uma obra infantil, não deixa de ser profunda e reflexiva.

    Recomendo a trilogia completa para quem quer se deliciar com uma boa leitura.

  • Fronteira – Musicografia: Bruno Branco

    Anunciando a primeira série da Fronteira, Musicografia é uma novidade da coluna. Unindo biografia, inspirações próprias e conhecimento musical e artístico, a presente série busca abordar músicos da cena brasileira e internacional, envolvendo suas obras, músicas, e trabalhos, estudando-as e trazendo pensamentos sobre.

    No primeiro texto da Musicografia, abordarei um compositor singular e bastante recente. Em 2011, foi lançado o que para mim representa um artista fora dos padrões e clichês evangélicos. Nesse ano, o cantor mineiro de Belo Horizonte, Bruno Branco, desponta com excelentíssimo trabalho Lado a Lado, e para completar a discografia, lança em 2014, o álbum Prato & Sino.

    Integrando a playlist de artistas folk na cena cristã juntamente com Marcela Taís, Os Arrais, e Eduardo Mano, o músico com influências do folk, pop rock e MPB, tem a habilidade de criar belas canções, ricas em poesias e arranjos que conseguem carregar o feeling de suas letras. Desse gênero musical que tem surgido na cena do novo movimento, Bruno é indubitavelmente o melhor compositor.

    Lado a Lado foi arranjado para ser um álbum totalmente voz e violão, independente, usando da simplicidade desse tipo de produção. Porém, mesmo seguindo esse tipo de estilo musical, Branco conseguiu fazer algo épico, com grandes músicas. A proposta do álbum foi devidamente cumprida, desde a primeira canção até a última.

    Analisando as faixas deste projeto, “Reforma” é a melhor do disco, expondo uma brilhante letra sobre o verdadeiro sentido da transformação de nosso ser: a capacidade de amar. Como diz a melodia, “os loucos que amaram mais acharam a pérola perdida, os loucos que amaram menos, odres velhos vinho desperdiça”. “Simples”, “Canção pra Você”, “Flores” e “Vermelho Escarlate” são outras canções magníficas e geniais. “Saberás” e “Palavras Soltas” são também belas e feras produções. A faixa título, “Lado a Lado”, é uma boa composição, mas não chega ao nível das outras canções do mesmo álbum.

    No álbum Prato & Sino, Bruno Branco fugiu da proposta folk do álbum anterior, e com a distribuição da Som Livre, resolveu usar instrumentos elétricos. O resultado que se originou de sua criatividade foi algo totalmente diferente do Lado a Lado, mas manteve o nível de qualidade artística. Preenchido por ótimas camadas de guitarra, o disco soou uma mistura de folk, pop rock, blues e MPB. É impossível dentro de sua carreira eleger uma canção ruim. As melhores de Prato & Sino foram duas composições espetaculares: “Brasília Líquida” e “Pedro Jorge”. “Brasília Líquida”, com ressalvas ao trecho grudante “Ainda temos sede de mais”, onde a combinação do instrumental com a voz do cantor foi perfeita, transmite um sentimento de como estamos correndo atrás de coisas tolas e vazias, como a canção inteira consegue expor. “Pedro Jorge”, uma criação à lá “Faroeste Cabloco”, apesar da diferença musical, segue a mesma proposta de crítica social, principalmente ao “clube social evangélico”.

    “Pai Nosso”, “Prato & Sino”, “Amor”, “Honra”, “Da Flor” são também magníficas músicas. “Cultura Nova”, “Mainstream”, “Rio” integram o álbum como ótimos lançamentos do álbum. “E Agora, José”, “Onde Estás” e “Luz” se juntam ao resto como belíssimas canções também. O álbum em si ganhou uma boa dose de crítica contra a nossa cultura de conceitos líquidos, superficiais, uma espécie de conteúdo sem base, contra o comércio do Evangelho e continuou com o toque poético do primeiro álbum.

    É difícil escolher qual álbum é melhor, pois são construções musicais com perspectivas diferentes que atingiram com perfeito sucesso o seu devido objetivo, mas o primeiro conseguiu atingir melhor a meta, reunindo canções que ficam quase no mesmo patamar de qualidade musical.

    Apesar de ser dono de uma potente voz e de ser um ótimo compositor, Bruno não considera-se como cantor, porém como poeta, é o que diz o próprio em entrevista ao site da Lagoinha: “Não queria seguir a carreira, tanto que até hoje não me enxergo como um cantor, me vejo como um poeta e uso a música para transformar o que sinto e o que penso em uma linguagem mais acessível”.

    Como músico, o mineiro tem muitos talentos, toca violão, sua voz é singular, com um timbre mesclando a rouquidão, com tons mais graves e agudos em certas partes, além de ser e é um brilhante compositor. Bruno Branco começou a sua história discográfica com dois ótimos CDs. E, tem tudo para continuar o belo trabalho que começou.

    Playlist da semanaPedro Jorge, Simples, Flores, Vermelho Escarlate, Brasília Líquida, Canção pra Você, Reforma, Saberás, Amor

  • Fronteira – A pergunta do século: a zoeira nunca acaba?

    A famosa frase advinda do Facebook, a qual deve ter se originado em meados de 2012/2013, “the zuera never ends (a zuera nunca acaba)”, conquistou milhares de seguidores fiéis, transformando a cultura da rede social. Porém, junto com ela, veio seus extremos cujo desconforto nos faz repensar uma grande questão do novo século: a zoeira nunca acaba?

    A revolução da zoeira trouxe mudanças socioculturais à comunidade em geral, transformando-se numa importante ferramenta social, de construção de indivíduos, sendo até mesmo uma relevante máscara para a própria socialização. Ou vai me dizer que alguém com status de “zuero” não está um passo a frente ao sucesso nas relações sociais?

    Porém, arrisco dizer que o maior problema do homem é a falta de equilíbrio que, consequentemente, causa outros milhares de problemas a si mesmo, ao seu próximo e ao meio ambiente. Por que a falta de equilíbrio? Porque tudo tem seu devido lugar e contexto. Logo, se você retirar uma coisa do seu espaço, é como um castelo de cartas: todas as outras saem da sua devida posição e o castelo desaba. E é justamente o desequilíbrio interior que ocasionou um terrível dilema nessa sociedade pós-moderna: a zoeira desregulada.

    De um primeiro ponto, a análise das brincadeiras com características físicas, psicológicas e de escolhas individuais demonstram que em boa parte das ocasiões a zoeira tem extrapolado seus limites, infringindo a liberdade do próximo, e desrespeitando o seu semelhante. O famoso “humor negro” é uma das espécies de brincadeiras que mais tem piadas de mau gosto, sem falar na quantidade de “zuerinhos” de Facebook com comentários e posts altamente ofensivos.

    Numa forma de erradicar esses dilemas sociais, deve-se sempre pensar se o que se publica vai afetar a quem propriamente pode ver isso, a deixar apenas de enxergar o seu próprio ponto de vista, e perceber as divergências com a sociedade ao redor. É claro que o “vitimismo”, o ego exacerbado, que se ofende com qualquer coisa, deve ser colocado em pauta.

    O segundo ponto é o uso da zoeira para desequilibrar debates, como arma de ofensa ao adversário ou até para mudar os rumos do próprio. A verdade é que geralmente a zoeira é usada num debate por causa da falta de argumentos, como as benditas frases (ironia) de impactos, como “mimimi”, etc.

    O último ponto é o que eu vou reforçar nesse texto. O maior problema da zoeira são as consequências que ela traz para a falta de compromisso com questões que envolvem seriedade, como eventos relacionados ao cristianismo e a prática da fé. Eu já participei de situações cujo contexto pedia atitudes responsáveis, mas as reações não eram movidas pelo decoro. Um exemplo foi numa ocasião, em que eu estava realizando um evento de rock “cristão” (vale colocar aspas no cristão pelo fato de lá estar priorizando o cristianismo, não o rock, o qual parecia não estar acontecendo, na prática) em uma praça pública, juntamente com uma galera. Havia um grupo de adolescentes por perto, passando por problemas relacionados com o excessivo consumo de álcool, sendo que alguns estavam vomitando e outros deitados no chão. Qual foi a atitude nossa: zoar o pessoal à nossa parte, sem oferecer ajuda aos próprios. Senti-me como mais um nesse mundo de gente gospel, sem fazer a diferença com ações.

    Outra situação nada saudável que a bendita zoeira tem criado são os famosos selfies, fotos em locais de orações, cultos e congregações: “Oh, espere, deixe que todos vejam o quanto que eu sou religioso e louvo a Deus”, bem incoerente com Mateus 6. Muitos projetos têm sido fadados ao fracasso quando o objetivo é atropelado pela zoeira, sendo que a própria é apenas um meio.

    Outro fato é que o culto a Cristo e o aprendizado tem sido colocado de lado nas congregações contemporâneas em troca de eventos ricos em brincadeiras, jovialidades e coisas do tipo. Isso tem adoecido a igreja, pois ela é completamente dependente do fundamento encontrado em Cristo. Portanto, uma igreja jovem sem Cristo, continua sendo superficial e vazia.

    Com todos esses tópicos resta apenas uma resposta para a pergunta do início: a zuera acaba sim, e tem seus limites.

  • Fronteira – Existe mesmo arte gospel e secular?

    Nos últimos dias, suscitou uma polêmica em torno de alguns músicos gospel. Fugindo dessa questão, há um crescente debate sobre a arte sagrada, porém baseada nos mesmos pressupostos falhos.

    A formulação de questionamentos revela uma base de reflexões, e antes de questionar qualquer cultura e pensamento, devemos colocar em dúvida a própria base da questão, conferindo-lhe a verdade. E a grande pergunta é: pode-se ou não pode fazer arte secular?

    O cerne deste problema é uma grande falha do nosso atual sistema religioso. O que deve ser debatido não é a autorização para produzir arte secular, mas a enorme barreira entre o que é território do mundo e o que é da igreja. E o teor de preconceito que existe nestes lados é tão alto.

    Respondendo a esta polêmica, trago um texto do vocalista da banda Switchfoot, Jon Foreman, encontrado traduzido para o português no blog de Sandro Baggio:

     “Para ser honesto , esta questão me entristece, porque sinto que ela representa um problema muito maior do que simplesmente algumas músicas do Switchfoot. Na verdadeira forma socrática, deixe-me lhe fazer algumas perguntas: Lewis ou Tolkien mencionam Cristo em qualquer de suas séries de ficção? As sonatas de Bach são cristãs? O que é mais semelhante a Cristo, alimentar os pobres, fabricar móveis, limpar banheiros ou pintar um pôr do sol? Há um cisma entre o sagrado e o secular em todas as nossas mentes modernas. A visão de que um pastor é mais “cristão” do que um treinador de um time de voleibol feminino é falha e herética. A posição que um líder de adoração é mais espiritual do que um zelador é condescendente e falha. Essas vocações e propósitos diferentes demonstram ainda mais a soberania de Deus. Muitas canções são dignas de serem escritas. Switchfoot escreverá algumas; Keith Green, Bach e talvez você mesmo tenha escrito outras. Algumas dessas canções são sobre redenção, outras sobre o nascer do sol, outras sobre nada em particular: escritas pela simples alegria da música. Nenhuma dessas músicas nasceu de novo, e nesse sentido, não existe tal coisa como música cristã. Não. Cristo não veio morrer por minhas músicas, ele veio por mim. Sim. Minhas músicas são uma parte da minha vida. Mas, julgando pelas Escrituras, só posso concluir que o nosso Deus está muito mais interessado em como eu trato os pobres, os quebrantados e os famintos, do que com os pronomes pessoais que eu uso quando eu canto. Eu sou um crente. Muitas dessas músicas falam sobre essa crença. A obrigação de dizer isso ou fazer aquilo não soa como a gloriosa liberdade que Cristo morreu para me dar. No entanto, eu tenho uma obrigação, uma dívida que não pode ser quitada por minhas decisões líricas. Minha vida será julgada por minha obediência, e não por minha capacidade de limitar as minhas letras nessa ou naquela caixa. Todos temos vocações diferentes; Switchfoot está tentando obedecer ao que fomos chamados. Não estamos tentando ser Audio Adrenaline ou U2 ou POD ou Bach; estamos tentando ser Switchfoot. Uma canção que tem as palavras “Jesus Cristo” não é nem mais nem menos “cristã” do que uma instrumental (já ouvi muita gente dizer “Jesus Cristo” e não estavam falando sobre o seu redentor). Jesus não morreu por nenhuma de minhas músicas. Portanto, não há hierarquia de vida ou músicas ou ocupação, só há obediência. Temos um chamado para tomar a nossa cruz e seguir. Podemos ter certeza de que essas estradas serão diferentes para todos nós. Assim como você tem um corpo e cada parte tem uma função diferente, assim também, em Cristo nós, que somos muitos, formamos um só corpo e cada um de nós pertencemos uns aos outros. Por favor, seja lento em julgar “irmãos” que têm um chamado diferente.”

    Marcos Almeida, um dos maiores nomes do novo movimento, vem trabalhando nesse debate, e durante esses tempos de polêmicas, futilidades e mais rixas cristãs, sua resposta parece ter sido a única convincente em tanta gritaria vazia em prol de si mesmo. O debate não gira em torno da liberdade para criar arte secular, porém na falsa ilusão da separação do que é profano e do que é sagrado. Secular tem significado imundo, e gospel, o puro, mas são duas divisões que em si mesmas não existem. Uma criação sonora, tanto secular como gospel, é música, foram feitas pelas mesmas notas mundanas, usando os mesmos símbolos de linguagem, não se utiliza de um acorde celestial nem demoníaco, pois tudo que existe na Terra foi criado por Deus, para uso dos homens. É claro que a nossa cultura é sim manchada pelo pecado, tanto o falso termo gospel como o ilusório secular, pois provém de homens pecadores, no entanto, não significa que a arte peque, mas que ela é um fruto da criatividade de quem a detém.

    Como artista, um cristão não tem obrigação de definir sua arte para enquadrar-se nesses dois mercados tolos, porém, deve produzir algo que glorifique a Deus, conforme seu próprio chamado. No entanto, o significado do ato de glorificar a Deus não significa algo que deva ter as palavras e expressões gospel, evangélicas e/ou cristãs, contudo, somente glorificamos a Deus quando nos tornamos objeto de sua glória, ou seja, nosso interior se transforme a cada dia mais num espelho da face de Deus. Logo, a melhor definição de arte é aquela que expõe quem somos.

    O conceito de arte em si é uma discussão milenar, e gerou diversas teorias. O melhor significado que dá para se tirar com vários debates sobre, da teologia e da filosofia, pode-se supor que ela se relaciona com o interior do homem, de suas expressões mais profundas, mas qualquer sistema cultural faz com que essa expressão se engesse de acordo com seus valores, para servir os gostos da massa, do mercado, etc. Todo homem está em luta constante dentro de si mesmo, se deparando com algo que pode matar o seu ego e ponto de vista. A arte é a expressão disso, de como o ser humano se relaciona com essas guerras interiores, com a crítica do que é ruim. A verdadeira expressão artística é aquela que procura ser um espelho do seu autor. Também se relaciona com o simples prazer artístico, com o gozo de criar, pois compor uma obra é a suprema realização de um artista.

    Todavia, tanto o sistema religioso quanto o secular cria formas de sistematizar a criação artística para se adequar a mass media. O pior é ver que esse sistema é uma feitoria humana para o seu próprio ego, principalmente do próprio artista. Fugir de “caixas” é procurar um reconhecimento pelo que você faz do seu mais profundo interior, mesmo que não seja pleno, nem o mais verdadeiro e belo, pois o resto procura ser produto de massa.