Depois de duas semanas sem publicar (perdão, leitores), hoje vou expor uma obra musical minha e de meus amigos de faculdade. No meu primeiro semestre na faculdade, fiz um trabalho da matéria Circuitos Artísticos e Culturais para apresentar sobre determinado tema artístico que foi envolvido nas aulas. Como a professora não deu um modelo certo para apresentar o trabalho, qual foi a minha ideia: criar uma música sobre o tema.
Como o trabalho envolvia produções de animações do MUMIA (Mostra Udigrudi Mundial de Animação), resolvi pegar quatros vídeos que constavam em apresentações de 7, 14 e 28 de abril organizadas pela mostra em BH (maiores informações clique aqui). Os vídeos foram: “O Homem que pintava músicas”, de Jackson Abacatu; “A Gaiola”, de Samira Daher; “Neomorphus”, do Animatório; e o curta alemão “LaNuit deL’Ours (A Noite do Urso)”, de Sam e Fred Guillaum.
The man who painted music (O homem que pintava músicas) – Jackson Abacatu from Jackson Abacatu on Vimeo.
“O Homem que pintava músicas”
“O homem que pintava músicas” relaciona a música com a imagem. O vídeo conta a história de um homem chamado Votagus, um artista que buscava como todos os outros do seu ramo desenhar e pintar paisagens, pessoas e coisas. Mas Votagus também buscava expressar visualmente os ruídos, os sons, os acordes, etc. E nisso, descobriu o seu desejo: músicas de pinturas. É interessante as analogias que ele faz ao longo do vídeo, como a das notas graves representarem pessoas ranzinzas, o trítono (chamado de som do diabo) as coisas obscuras, etc.
A Gaiola from Samira Daher on Vimeo.
“A Gaiola”
Esse é o mais genial. Curto, direto e simples, o vídeo tratou um tema bastante recorrente na nossa sociedade pós-moderna: a mística da liberdade. Construindo uma sátira, ela coloca os homens dentro duma gaiola, que é a própria Terra, e os pássaros como criaturas livres. É o único que não quero explicar tanto, a própria animação fala por si própria.
Neomorphus from Animatorio on Vimeo.
“Neomorphus”
Esse vídeo é o mais complexo (ou eu tentei aprofundar demais e não consegui), mas é sobre uma criatura que constantemente se transforma na duração do vídeo.
La nuit de l’ours Trailer from Cine3D Association on Vimeo.
“LaNuit deL’Ours (A Noite do Urso)”
Como não é brasileiro, o áudio do vídeo está em alemão e não possui links completos. Num resumo mais simples, é a história de pessoas de uma cidade que se reúnem a noite na casa de um urso (ou ursa) depois de um dia de trabalho.
Unindo ideias desses quatro vídeos eu escrevi a seguinte canção:
A Pintura Musical de Neomorphus
Essa é a gaiola de Neomorphus
E a música que ele foi pintar,
Ele foi buscar a sua flor de lótus,
Mas se perdeu ao ver esse luar.
Dentro da gaiola ele se criava,
Querendo pintar o silêncio da canção,
E aqueles pássaros lá conversavam:
E se nós soltássemos uma dessas mãos?
Pintou um tom menor,
Querendo ser maior.
Neomorphus está procurando
A grande casa deste Urso,
Preso na gaiola a tanto,
Com a alma de um mendigo.
Era um dó menor de tanta dó
Vivendo como um belo sol maior
Era grave a vida, baixo em si
Colorindo um quadro que era sobre si
Existem notas que colorem a noite fria?
Existe silêncio que pinta o dia?
O menor e o maior são da mesma melodia,
Vivendo em ré querendo ir pra lá.
Os pombos dizem liberdade,
Mas homens não sabem ser livres.
Neomorphus está procurando
A grande casa deste Urso,
Preso na gaiola a tanto,
Com a alma de um mendigo.
A canção foi apresentada pela primeira vez como trabalho de Circuitos Artísticos e Culturais na sala de aula com muitos elogios por Luiz no vocal, Matheus na guitarra e backing vocal, Lucas no backing vocal e baixo improvisado no violão e eu, Thiago Junio, no violão e num backing vocal choroso e detestável.
Ela foi reapresentada num sarau da Igreja Cristã Esperança em uma versão diferente, com mudanças tonais no refrão e reinterpretações nas notas musicais. Ficou mais interessante a nova versão, porém não foi executada com a mesma qualidade musical da sala. A nossa apresentação fica entre o trecho de 6m33segs até 8m33segs, e contém apenas uma parte da canção.
Algo que eu tenho a impressão de ter acontecido com relação a letra da obra é que ninguém deve ter compreendido bem. Nunca neguei a subjetividade das poesias musicais, mas uma boa interpretação e buscar entender o conteúdo e as expressões artísticas do artista são tão importantes quanto as experiências pessoais ao consumir uma arte. Isso proporciona mais enriquecimento cultural, de valores, e retira o eu receptor do seu próprio mundo, possibilita o exercício da empatia, do aprendizado através do próximo e respostas para próprias perguntas que nunca conseguiu confrontar. Logo, por esse motivo eis que abrirei o véu: vou explicar a letra.
Essa é a gaiola de Neomorphus
E a música que ele foi pintar,
Ele foi buscar a sua flor de lótus,
Mas se perdeu ao ver esse luar.
Há vários símbolos nessa estrofe que precisam ser explicados. A palavra “gaiola” foi recortada do vídeo “A Gaiola” e é o símbolo da escravidão do ego humano e da falsa liberdade.
Neomorphus é a criatura da canção. Trazida do vídeo “Neomorphus”, simboliza alguém que constantemente se transforma para se adaptar a ideias humanas, como é enxergado na animação. A palavra “neomorphus” une outras duas: “morphus”, quem vem da palavra grega “morphe”, cujo significado é “forma”; e “neo”, que significa novo. As duas sintetizam “nova forma”.
A “música que ele foi pintar” é uma clara referência ao “O Homem que pintava músicas”, só que o homem que expressava essa música visivelmente dentro do contexto da letra é o Neomorphus. A pintura musical de Neomorphus é a expressão de sua vida, presa dentro de uma gaiola.
“Flor de lótus” foi algo que escrevi para rimar sonoramente com “Neomorphus”, não é descrito em nenhum dos vídeos. Porém, possui sua ideia própria dentro da poesia. Apesar de simbolizar na maior parte da cultura asiática a pureza espiritual, o nascimento divino, eu peguei uma ideia particular dela: a prosperidade.
O “luar” é o encontro com a complexidade e a beleza do mundo. Neomorphus perdeu-se nas perguntas sem respostas da humanidade ao tentar encontrar sua prosperidade, sua felicidade.
Dentro da gaiola ele se criava,
Querendo pintar o silêncio da canção,
E aqueles pássaros lá conversavam:
E se nós soltássemos uma dessas mãos?
Neomorphus criava-se dentro da gaiola. Eu associo com frequência a palavra “criar” com tirar algo do nada, e no contexto da canção é ligado à criação da identidade, pois essa criação é a única característica que não é predefinida e nos resta formar como indivíduos carentes de uma imagem própria. Essa característica é algo impossível para o homem, já que tudo que ele faz é baseado em algo (criar difere-se de transformar, já dizia Lavoisier). Neomorphus poderia se criar? Poderia construir uma identidade?
Essa estrofe é bastante introspectiva, o silêncio da canção confirma isso. Neomorphus, perdido pela complexidade terrena, no luar, exercitava o mergulho na interioridade, pintava uma canção que buscasse refletir o esvaziamento, silêncio do que o cercava, da humanidade, de sua ideia de prosperidade.
Há um contraste nesse trecho, uma dialética que atormenta esses versos. Os pássaros descritos na letra é uma ideia retirada da “A Gaiola”. Dois pássaros, ao observar a gaiola dos homens, estavam conversando sobre a liberdade humana. Um pássaro pergunta ao outro:
-E se soltássemos alguns deles?
A reposta está na segunda ponte da canção. No entanto, percebe-se o contraste do retorno a si mesmo e a ideia da escravidão humana. Neomorphus exercitava a introspectividade porque estava percebendo que vivia dentro duma gaiola, ou pior, porque ele tentava se criar. Ao tentarmos criar um conceito de liberdade, de valores sociais, cairemos numa gaiola, ergueremos um sistema e entraremos dentro dele para que o próprio nos governe. Ah, a mística da liberdade!
Pintou um tom menor,
Querendo ser maior.
A canção explora diversas facetas da vida do Neomorphus. Essa ponte de dois versos expõe um lado do personagem e um dos maiores problemas da humanidade: a hipocrisia. Baseando-se na criatividade de “O Homem que pintava músicas”, o tom menor é bastante ligado a músicas tristes. Tons menores expressa a solidão, a tristeza e a depressão. O tom maior é uma escolha melhor para quem quer demonstrar alegria e felicidade. Esses versos explora as máscaras que Neomorphus constrói de si mesmo, com sorrisos comprados, o afundando nas suas próprias mentiras que ele mesmo acredita. Ele vive no meio do vazio da contemporaneidade acreditando estar completo. Além disso, expressa a busca por lugares altos, buscando ser maior, o tom maior, mas sempre será menor, pois todos somos iguais, independente de nossas conquistas. Como diria C.S. Lewis no livro Príncipe Caspian:
“É honra suficientemente grande para que o mendigo mais miserável possa andar de cabeça erguida, e também vergonha suficientemente grande para fazer vergar os ombros do maior imperador da Terra. Dê-se assim por satisfeito.” (1951, p. 276)
Neomorphus está procurando
A grande casa deste Urso,
Preso na gaiola a tanto,
Com a alma de um mendigo.
Explicarei os versos com uma citação do C.S. Lewis, em Cristianismo Puro e Simples, novamente:
“Se descubro em mim um desejo que nenhuma experiência deste mundo pode satisfazer, a explicação mais provável é que fui criado para um outro mundo.” (2005, p. 50)
Antes de esclarecer o sentido do refrão, explicarei os símbolos encontrados nele. “A grande casa deste Urso” é uma referência a animação alemã “LaNuit deL’Ours (A Noite do Urso)”. A tal casa era onde o Urso acolhia os animais da cidade, onde ele organizava as festividades, alimentava os moradores, etc. O Urso simboliza Cristo.
Há duas possíveis interpretações para o refrão:
- Neomorphus, por reconhecer que era um mendigo espiritual, entender sua realidade interior e saber que estava preso a uma gaiola, buscava um descanso, um alimento que não é encontrado nesse mundo, ele desejava a grande casa. Ele queria se desprender do sistema humano, de si mesmo e poder se encontrar a Deus e, consequentemente, a si mesmo;
- Um homem andante, desesperado, procurando um lugar, descansar das falsas ideias, de sua ilusória liberdade, com fome de algo que não sabia o que era. Ele estava apenas procurando, mas não entendia o que buscava ou não queria entender.
Escolham por si mesmos o que querem entender.
Era um dó menor de tanta dó
Vivendo como um belo sol maior
Era grave a vida, baixo em si
Colorindo um quadro que era sobre si
Ousei criar uma bela pintura musical nessa estrofe, com muitos jogos de palavras. Dó menor, um acorde triste só por ser menor, se relaciona com o sentimento de pena de si mesmo, mas esse Neomorphus, um cara de tanta dó, vivia como se fosse radiante como o sol. A palavra “sol” também designa um acorde musical e, no contexto da música, é maior. A estrofe trabalha, como a primeira ponte da música, as máscaras que são construídas pelo personagem. Ele era um dó menor – um cara imerso na solidão interior – vivendo como um sol maior – um acorde musical triste, mas exibindo uma alegre.
“Si” pode ter quatro símbolos nesse trecho: geralmente, é o tom mais grave do contrabaixo, logo simboliza as trevas interiores; si também é um pronome reflexivo pessoal oblíquo, indicando introspectividade (baixo em si mesmo); a tríade (conjunto de 3 notas musicais que formam a estrutura de um acorde) do sol maior contém o si como 3ª Maior, percebe-se então que, apesar de ser um sol radiante, ele também era um grave si; semelhante ao símbolo anterior, quando se forma um sol maior e, ao tirar a nota dominante (o próprio sol), cria-se um sol com baixo em si (G/B). Neomorphus era grave, um ser imerso numa escuridão profunda, era baixo em si. E essa era sua pintura: cores claras na visibilidade, tons escuros na sua invisível alma.
Existem notas que colorem a noite fria?
Existe silêncio que pinta o dia?
O menor e o maior são da mesma melodia,
Vivendo em ré querendo ir pra lá.
Existem notas que colorem a noite fria? Existe silêncio que pinta o dia? Essas perguntas são retóricas, são questionamentos do eu lírico: há algo para simbolizar a minha existência sem identidade?
A sociedade, independente de sua época, sempre levantou características para designar status sociais: o homem cultural, o inteligente, o de classe média, o universitário, o santo e religioso, determinadas profissões, o que curte determinado estilo musical e vários outros. A felicidade e a identidade são construídas sobre esses fundamentos culturais e relativos, e essas identidades qualificam o que é menor e maior. Na música, existem notas maiores e notas menores, mas o conceito dessas notas não é constituído pela sua força e magnitude, e nem pelos seus méritos sonoros. São duas notas que ocupam e tem funções diferentes numa obra sonora e tem a mesma importância. O que chamamos de maior e menor na sociedade, o engenheiro e o pedreiro, o gari e o empresário, o político e o mendigo, são todos iguais, estão na mesma melodia humana.
“Vivendo em ré querendo ir pra lá” é um dos meus versos preferidos da canção. Ré é uma nota musical, lá também. Uma frase assim parece mostrar alguém tocando um tom, porém desejando tocar outro, um contraste em si mesmo. Mas a palavra “ré” também é significa outra coisa: retrocesso. Essa trecho simboliza o andar em círculos, uma pessoa perdida, em constante guerra consigo mesmo, ela quer ir para algum lugar que a livre de suas obscuridades interiores, para lá, criando várias miragens, no entanto vive retrocedendo, tocando o ré na vida.
Os pombos dizem liberdade,
Mas homens não sabem ser livres.
Essa ponte é a resposta da segunda estrofe (Dentro da gaiola ele se criava,/ Querendo pintar o silêncio da canção,/ E aqueles pássaros lá conversavam:/ E se nós soltássemos uma dessas mãos?). Essa estrofe de duas linhas tem uma citação indireta a “A Gaiola”. Enquanto os dois pássaros observavam o funcionamento do sistema humano, eles conversavam sobre isso. Um pássaro indagou sobre a possibilidade da liberdade dos homens, porém, quando viram a reação alienada que um garoto teve quando foi liberto, ele percebeu a impossibilidade do tal:
-E se soltássemos alguns deles?
-Impossível.
-Por quê?
-Não sobreviveriam aqui fora.
Um cara disse sobre pássaros, liberdade e homens há mais ou menos dois mil anos.
26 Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas?
27 E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura?
28 E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam;
29 E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles.
30 Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé?
31 Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos?
32 Porque todas estas coisas os gentios procuram. Decerto vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas;
33 Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.
Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.
Mateus 6:26-34
Talvez esse cara queria dizer que somos escravos de nós mesmos, de sistemas egocêntricos, que a liberdade só seria encontrada num passo para a transcendentalidade. Talvez ele quisesse dizer que Neomorphus é um indivíduo que desejava buscar a sua liberdade em mais materialismo, tornando-se escravo dele. Talvez.
Uma poesia de um amigo meu, Tiago Abreu, chamada “Onde?”, retrata nossa busca incansável por tesouros velhos, mas que não passam de miragens vazias:
De todas as vias, um alvo
Do início vejo o meu fim
Onde quero chegar?
Andando em círculos
Dançando em círculos
Assim vivo
De todas as pessoas, uma
A atenção direta e única
A quem quero alcançar?
Esta é minha vida
Este é o meu mundo
É o meu lar
Um objetivo é meu troféu
Empoeirado na estante
E neste instante
Vívido, mas distante
Perdendo mais uma chance
Aquela chance
Peço, por favor
Aumente o sabor
Não quebre o encanto
Não me acorde
Não me transforme
Neomorphus simboliza todas aquelas pessoas cansadas de serem escravizadas pelos seus eus de vazio, pelas gaiolas que todos os homens criam, que procuram a verdadeira liberdade através de um grande salto a um precipício de fé, aquelas que querem encontrar o descanso na casa do Urso. Ou simplesmente, uma música ininteligível para aqueles que não querem entender.
Vocês escolhem.
Referências
Lewis, Clive Staples. As Crônicas de Nárnia: Príncipe Caspian. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p.276
Lewis, Clive Staples. Cristianismo Puro e Simples. São Paulo: Martins Fontes, 2005. p. 50.
Agenda BH, MUMIA – Mostra Udigrudi Mundial de Animação. Disponível em <http://www.agendabh.com.br/eventos_detalhes.php?CodEve=16130> Acesso em 30 de setembro de 2015.
Significados, Significado de Flor de lótus. Disponível em <https://www.significadosbr.com.br/flor-de-lotus> Acesso em 30 de setembro de 2015.
Luiz David S. Mendes, AULA XI – TRÍADE MAIOR e MENOR. Disponível em <http://aprendendotocaroviolao.blogspot.com.br/2012/03/aula-xi-triades-parte-1.html> Acesso em 07 de agosto de 2015.
Wikipédia, Tríade. Disponível em <https://pt.wikipedia.org/wiki/Tr%C3%ADade> Acesso em 07 de agosto de 2015.