Nos últimos dias, suscitou uma polêmica em torno de alguns músicos gospel. Fugindo dessa questão, há um crescente debate sobre a arte sagrada, porém baseada nos mesmos pressupostos falhos.
A formulação de questionamentos revela uma base de reflexões, e antes de questionar qualquer cultura e pensamento, devemos colocar em dúvida a própria base da questão, conferindo-lhe a verdade. E a grande pergunta é: pode-se ou não pode fazer arte secular?
O cerne deste problema é uma grande falha do nosso atual sistema religioso. O que deve ser debatido não é a autorização para produzir arte secular, mas a enorme barreira entre o que é território do mundo e o que é da igreja. E o teor de preconceito que existe nestes lados é tão alto.
Respondendo a esta polêmica, trago um texto do vocalista da banda Switchfoot, Jon Foreman, encontrado traduzido para o português no blog de Sandro Baggio:
“Para ser honesto , esta questão me entristece, porque sinto que ela representa um problema muito maior do que simplesmente algumas músicas do Switchfoot. Na verdadeira forma socrática, deixe-me lhe fazer algumas perguntas: Lewis ou Tolkien mencionam Cristo em qualquer de suas séries de ficção? As sonatas de Bach são cristãs? O que é mais semelhante a Cristo, alimentar os pobres, fabricar móveis, limpar banheiros ou pintar um pôr do sol? Há um cisma entre o sagrado e o secular em todas as nossas mentes modernas. A visão de que um pastor é mais “cristão” do que um treinador de um time de voleibol feminino é falha e herética. A posição que um líder de adoração é mais espiritual do que um zelador é condescendente e falha. Essas vocações e propósitos diferentes demonstram ainda mais a soberania de Deus. Muitas canções são dignas de serem escritas. Switchfoot escreverá algumas; Keith Green, Bach e talvez você mesmo tenha escrito outras. Algumas dessas canções são sobre redenção, outras sobre o nascer do sol, outras sobre nada em particular: escritas pela simples alegria da música. Nenhuma dessas músicas nasceu de novo, e nesse sentido, não existe tal coisa como música cristã. Não. Cristo não veio morrer por minhas músicas, ele veio por mim. Sim. Minhas músicas são uma parte da minha vida. Mas, julgando pelas Escrituras, só posso concluir que o nosso Deus está muito mais interessado em como eu trato os pobres, os quebrantados e os famintos, do que com os pronomes pessoais que eu uso quando eu canto. Eu sou um crente. Muitas dessas músicas falam sobre essa crença. A obrigação de dizer isso ou fazer aquilo não soa como a gloriosa liberdade que Cristo morreu para me dar. No entanto, eu tenho uma obrigação, uma dívida que não pode ser quitada por minhas decisões líricas. Minha vida será julgada por minha obediência, e não por minha capacidade de limitar as minhas letras nessa ou naquela caixa. Todos temos vocações diferentes; Switchfoot está tentando obedecer ao que fomos chamados. Não estamos tentando ser Audio Adrenaline ou U2 ou POD ou Bach; estamos tentando ser Switchfoot. Uma canção que tem as palavras “Jesus Cristo” não é nem mais nem menos “cristã” do que uma instrumental (já ouvi muita gente dizer “Jesus Cristo” e não estavam falando sobre o seu redentor). Jesus não morreu por nenhuma de minhas músicas. Portanto, não há hierarquia de vida ou músicas ou ocupação, só há obediência. Temos um chamado para tomar a nossa cruz e seguir. Podemos ter certeza de que essas estradas serão diferentes para todos nós. Assim como você tem um corpo e cada parte tem uma função diferente, assim também, em Cristo nós, que somos muitos, formamos um só corpo e cada um de nós pertencemos uns aos outros. Por favor, seja lento em julgar “irmãos” que têm um chamado diferente.”
Marcos Almeida, um dos maiores nomes do novo movimento, vem trabalhando nesse debate, e durante esses tempos de polêmicas, futilidades e mais rixas cristãs, sua resposta parece ter sido a única convincente em tanta gritaria vazia em prol de si mesmo. O debate não gira em torno da liberdade para criar arte secular, porém na falsa ilusão da separação do que é profano e do que é sagrado. Secular tem significado imundo, e gospel, o puro, mas são duas divisões que em si mesmas não existem. Uma criação sonora, tanto secular como gospel, é música, foram feitas pelas mesmas notas mundanas, usando os mesmos símbolos de linguagem, não se utiliza de um acorde celestial nem demoníaco, pois tudo que existe na Terra foi criado por Deus, para uso dos homens. É claro que a nossa cultura é sim manchada pelo pecado, tanto o falso termo gospel como o ilusório secular, pois provém de homens pecadores, no entanto, não significa que a arte peque, mas que ela é um fruto da criatividade de quem a detém.
Como artista, um cristão não tem obrigação de definir sua arte para enquadrar-se nesses dois mercados tolos, porém, deve produzir algo que glorifique a Deus, conforme seu próprio chamado. No entanto, o significado do ato de glorificar a Deus não significa algo que deva ter as palavras e expressões gospel, evangélicas e/ou cristãs, contudo, somente glorificamos a Deus quando nos tornamos objeto de sua glória, ou seja, nosso interior se transforme a cada dia mais num espelho da face de Deus. Logo, a melhor definição de arte é aquela que expõe quem somos.
O conceito de arte em si é uma discussão milenar, e gerou diversas teorias. O melhor significado que dá para se tirar com vários debates sobre, da teologia e da filosofia, pode-se supor que ela se relaciona com o interior do homem, de suas expressões mais profundas, mas qualquer sistema cultural faz com que essa expressão se engesse de acordo com seus valores, para servir os gostos da massa, do mercado, etc. Todo homem está em luta constante dentro de si mesmo, se deparando com algo que pode matar o seu ego e ponto de vista. A arte é a expressão disso, de como o ser humano se relaciona com essas guerras interiores, com a crítica do que é ruim. A verdadeira expressão artística é aquela que procura ser um espelho do seu autor. Também se relaciona com o simples prazer artístico, com o gozo de criar, pois compor uma obra é a suprema realização de um artista.
Todavia, tanto o sistema religioso quanto o secular cria formas de sistematizar a criação artística para se adequar a mass media. O pior é ver que esse sistema é uma feitoria humana para o seu próprio ego, principalmente do próprio artista. Fugir de “caixas” é procurar um reconhecimento pelo que você faz do seu mais profundo interior, mesmo que não seja pleno, nem o mais verdadeiro e belo, pois o resto procura ser produto de massa.
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