Devo ter polemizado com esse título, numa sociedade pós-moderna que exerce com vigor ferrenho a base relativista (incoerência juntar base e relativismo na mesma frase, já que base significa algo absoluto). Mas esse título, queira ou não, é a verdade mais absoluta.
Por que a interpretação é livre? Para quem faz essa pergunta, eu devolvo uma outra: pode uma árvore de maçã dar laranja? Uma indagação nada convencional, mas vou explicar.
Na Revista Espaço Acadêmico, da edição N° 144 de maio de 2013, Andrey Dioney Fonseca afirma que “ao momento em que determinado bem cultural chega às mão de um consumidor que dele pode fazer diferentes usos, inclusive usos que distam do que fora pensado por aqueles que produziram esse bem cultural.”, o autor enfoca na liberdade de interpretação. Esse fundamento tem raízes no humanismo e no relativismo cultural. E a realidade é que esse argumento é tão verídico, que faz o relativismo uma verdade absoluta (adoro paradoxos).
Jesus disse em Mateus 7 sobre uma realidade além do que é visível para nós: “16. Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos? 17. Assim, toda árvore boa produz bons frutos; porém a árvore má produz frutos maus. 18. Uma árvore boa não pode dar maus frutos; nem uma árvore má dar frutos bons.”
Nesse mundo de certezas e dúvidas, há outra realidade por trás dessa, feita de cenas de vazio e deserto. Esse mundo é um complexo sistema a qual eu mesmo não entendo em sua totalidade, mas sei que fui feito para ser dele. Esse mundo complexo pode ter vários nomes: eu, identidade, coração, etc. E é essa dimensão que Cristo veio tratar, pois dela provém toda a realidade humana. Parafraseando Søren Kierkegaard:
“O homem é uma síntese de infinito e de finito, de temporal e de eterno, de liberdade e de necessidade, é, em suma, uma síntese.”
Quando afirmo esse mundo, eu falo sobre quem eu, você é. Não sobre o que você faz e o que você tem, mas sobre seu ser, sua identidade espiritual, seu eu, e é esse planeta de interioridade que define o que você interpreta, pensa, escolhe e faz. Sua interpretação é livre para pensar sobre quem você é!
A pergunta do início agora foi respondida. Pode uma árvore de maçã dar laranja? Não, porque o que eu interpreto é a partir de quem eu sou. Eu tenho dois pares de olhos, os olhos exteriores e os olhos do interior, que enxerga o além das coisas materiais. Se eu tiver esses olhos interiores fechados, enxergarei só a materialidade, interpretarei apenas o que é material.
Já ouviu a afirmação que todo homem é pecador, não é? Vejo teólogos, crentes repetindo essa afirmação como papagaios. Na verdade, às vezes um cristão parece realmente um papagaio: repete informações e doutrinas decoradas, sem ao menos entendê-las. O cérebro deles é um tijolo. Você sabe o que o pecado significa? Pecado não é uma substância venenosa, que possui materialidade, pois assim ela teria que ser criada.
Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; (Romanos: 3. 23)
O ato de pecar é possibilitado pela destituição da glória de Deus. Destituição é perder algo, é ser ausente de uma posição a qual era seu destino, seu propósito. O pecado é ausência de Deus, e nada melhor que o Albert Einstein para explicar isso:
“O mal não existe, senhor, pelo menos não existe por si mesmo. O mal é simplesmente a ausência do bem, é o mesmo dos casos anteriores, o mal é uma definição que o homem criou para descrever a ausência de Deus. Deus não criou o mal. Não é como a fé ou como o amor, que existem como existem o calor e a luz. O mal é o resultado da humanidade não ter Deus presente em seus corações. É como acontece com o frio quando não há calor, ou a escuridão quando não há luz.”
Só há duas alternativas para o seu próprio interior: ser ou não ser. Porque toda interpretação tem apenas duas bases, o que é e o que não é. Sabe por que o homem detém verdades relativas? Porque ele não conhece o todo, e por estar cego espiritualmente, enxerga partes da verdade pela graça comum. O absoluto se encontra na espiritualidade, no divino, pois só Deus conhece toda realidade, e só conhecendo essa dimensão o homem deixará de ser relativista.
A Bíblia trata plenamente da história dessa verdade absoluta. Essa verdade veio e os homens não o conheceram, pois não eram dos seus. A verdade é uma pessoa, e essa pessoa se chama Jesus. É a expressão perfeita do homem e Deus. Conhecer a Cristo, ter sua identidade totalmente formada nEle é o destino do homem, porém, não é simplesmente uma vontade sua, pois um interior vazio não pode querer ser cheio por si mesmo. “Quando se trata de conhecer a Deus, toda a iniciativa depende dEle”, dizia o C. S. Lewis.
Você pode ter sua vida padronizada em regras práticas baseada em religiosidade que fingem ser a espiritualidade, mas pode não conhecer a Deus. Jó dizia que antes ele apenas conhecia de ouvi falar sobre Deus, mas depois de grandes dificuldades e problemas, ele disse: mas agora os meus olhos te veem. Ele passou do vazio existencial para a verdadeira vida, obteve seu eu. E são justamente os olhos desse eu que pode dizer: eu realmente vejo Deus, eu realmente conheço a verdadeira interpretação, pois eu o enxergo com os verdadeiros olhos do interior.
Deixe um comentário