No post de hoje, eu anuncio outra série para a nossa coluna: a Estante de livros. Como a Musicografia, que aborda o meio musical, nessa vamos abordar a literatura. E hoje, traremos uma trilogia bastante famosa: Crônicas de Nárnia.
Quem já leu Crônicas de Nárnia entende bem as analogias que C.S. Lewis fez em seus livros, relacionando o cristianismo com a fantasia. No livro A Viagem do Peregrino da Alvorada, na viagem de Lúcia, Edmundo e Eustáquio, acompanhados por habitantes de Nárnia numa embarcação chamada Peregrino da Alvorada, eles encontram numa ilha criaturas fantásticas chamadas tontópodes, anões de um único pé gigante. A princípio, os viajantes haviam encontrado nessa ilha um lugar aparentemente inabitado, mas muito bem cuidado, com jardins aparados, etc. A estranheza do local em virtude do contraste do silêncio e vazio com o cuidado e a conservação do ambiente se devia a uma coisa: tontópodes que por algum tipo de encantamento estavam invisíveis. Ao decorrer da história, através do grupo conseguiram sua visibilidade novamente.
A característica mais peculiar desses anões é sua extrema submissão e estupidez, tudo que o chefe dos tontópodes afirmava, o grupo confirmava sem ao menos refletir sobre o que ele falou. Neste trecho um mágico responsável por governar essas criaturas ingênuas diz a Lúcia sobre suas estupidezes:
“-Você nem pode imaginar que problemas tenho tido com eles! Há uns meses estavam lavando pratos e facas antes do almoço, porque, segundo diziam, isso economizava tempo depois. Outra vez estavam plantando batatas cozidas para não terem de cozinhá-las quando as colhessem. Um dia o gato meteu-se na leiteira, e vinte deles começaram a tirar o leite, em vez de pensar em tirar o gato. Vamos dar uma olhadela nos Tontos, agora que você terminou de comer.”
No entanto, o mais cômico sobre os tontópodes é a sua submissão absoluta ao seu chefe. Combinar burrice com essa característica fez com que tornassem as criaturas mais idiotas de Nárnia. Leia este trecho de uma conversa entre Lúcia, o mágico e os tontópodes:
“-Oi, camaradas, já somos visíveis outra vez – disse um de barrete vermelho com borlas, que era sem dúvida o chefe. – Quer dizer, estou dizendo que, quando somos visíveis, podemos ver uns aos outros.
-Genial, isso mesmo, chefe – gritaram todos. – Ninguém pode ser mais genial. Nunca jamais poderia falar melhor.
A mocinha apanhou o velhote dormindo – disse o chefe. – Ganhamos dele dessa vez.
-É o que a gente ia dizer – retrucou o coro. – Está mais inteligente do que nunca, chefe! Continue assim, continue assim.
-Mas como ousam falar assim do senhor? – perguntou Lúcia. – Pareciam ter tanto medo ontem. Não sabem que o senhor pode ouvi-los?
-Essa é uma das coisas engraçadas com relação aos Tontos. Num minuto falam como se eu mandasse em tudo, ouvisse tudo e fosse muito perigoso. Um minuto depois, julgam que me apanham em armadilhas nas quais nem uma criancinha cairia.
…
-Aí vem ela, aí vem ela! – gritaram. – Três vivas para a mocinha! Tapeou o velhote completamente!
-É muito doloroso – disse o chefe dos Tontos – não podermos dar-lhe o prazer de ver-nos como éramos antes de ficarmos feios. Nem acreditaria na diferença. Sabemos que agora estamos feios de morrer. Você vê que eu não menti.
-Estamos horrorosos, chefe, horrorosos – fizeram os outros em coro, saltando como balões. – E como diz, exatamente como diz.
-Pois eu não acho disse Lúcia, gritando para ser ouvida. – Acho vocês até bem bonitos.
-Escutem o que ela está dizendo, escutem. A menina está certa. Estamos muito bonitos. Não há raça mais bonita.
Disseram isso com a maior naturalidade, sem mesmo notar que tinham mudado de opinião.
-Ela está falando – disse o chefe – que éramos bonitos antes de ficarmos feios.
-Isso mesmo, chefe, isso mesmo. Ouvimos o que ela disse.
-Mas eu não disse isso gritou Lúcia. Disse que estão bonitos agora.
-Foi o que ela disse, foi – continuou o chefe. – Que éramos muito bonitos antes.
-Escutem o que os dois estão dizendo – clamaram os Monópodes. – Aí estão duas pessoas para lá de inteligentes. Têm sempre razão. Não podiam ter falado melhor.
-Mas estou dizendo justamente o contrário – berrou Lúcia, batendo o pé com impaciência.
-Pois é, pois é – responderam os Monópodes. – Não há nada como o contrário. Continuem os dois assim.
-Vocês enlouquecem qualquer pessoa – disse Lúcia, desistindo de convencê-los. Mas os Monópodes pareciam tão contentes que ela se convenceu de que, no final das contas, a conversa tinha sido um êxito.”
Nota-se que a idiotice chega a um extremo de mudarem o próprio sentido das palavras para afirmar algo que lhes agradam. Essa passagem no livro constrói mais do que uma engraçada situação, mas uma sátira, a qual se encaixa perfeitamente em várias situações da nossa sociedade pós-moderna, principalmente nossa época.
A submissão exacerbada constrói pessoas mentalmente deficientes. E o que a religião consegue fazer bem é invalidar essa nossa capacidade a fim de criar dependentes religiosos para os usaram com a finalidade de seus próprios proveitos. Crer é também pensar, um assunto cujos cristãos de renome como Santo Agostinho, John Stott e C.S. Lewis trabalhavam.
Mas não é só a religião que é boa em engessar cabeças. Nisso, também temos as escolas e as faculdades, as quais são preparadas para isso. Há pouco espaço para a reflexão dos alunos, e tampouco seu aprendizado. Como diz a música “Another Brick in the Wall, Pt. 2” do Pink Floyd: “em suma, você é apenas mais um tijolo no muro”.
Porém, um aspecto interessante é como a nossa sociedade deturpa o significado de algo para o seu próprio interesse. O chefe dos tontópodes interpretava o que Lúcia falava de outra forma, e seus súditos fiéis o seguiam como se fosse o dono da verdade. E não é assim hoje? O relativismo não destrói apenas a moral de uma comunidade, mas a própria compreensão das coisas. Metades dos problemas seriam resolvidos com uma boa aula de interpretação.
Dá para tirar várias metáforas e reflexões sobre essa passagem, como a alienação religiosa e da sociedade como um todo, a massificação da mídia, o problema e deturpação da interpretação, os falsos doutores de nossa época, a relativização, a submissão do público, etc, o que deixa essa trilogia com um belo prato de reflexões. Crônicas de Nárnia, além de ser um bom livro literário, é uma boa recomendação para quem quer refletir sobre vários aspectos, principalmente o que compete à área cristã e, mesmo sendo uma obra infantil, não deixa de ser profunda e reflexiva.
Recomendo a trilogia completa para quem quer se deliciar com uma boa leitura.
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