A infância, além de ser uma fase marcada pelo início das descobertas da vida, é envolvida pela pureza e simplicidade. O álbum de estreia da banda Hibernia, “A vida como ela era” remete a essa nostalgia dos tempos de inocência, tanto de vida, quanto espiritualmente falando. Não só conceitualmente, as melodias e letras são, em alguns momentos fortemente introspectivas, trazidas a primeira pessoa, o que não é muito comum de encontrarmos no mainstream. Além de tudo, o grupo é adepto ao mesmo crossover abraçado pelas bandas Tanlan e Palavrantiga, por exemplo.
A capa, produzida por Oliver Garcia traz um guarda-chuva. Sabemos que, a chuva durante a infância lembra o sorriso de se molhar a cada pingo recebido. O guarda-chuva, por outro lado transforma-se no pudor e nos receios de que temos em viver a simplicidade da vida e a pureza desta fase. E, claramente, como todo o projeto enfatiza, não é tarde para voltar à inocência. Foi lançado em 2009.
O conjunto inteiro da obra soa muito bem trabalhado e coeso, como dito anteriormente. A faixa título A Vida como ela era representa muito bem o CD. O uso de sintetizadores, teclado e piano aliados ao clássico som da guitarra alternativa contemporânea remetem um momento de lembranças, e ao mesmo tempo na procura de uma retomada ao passado, como bem citado na letra.
Os vocais cheios de feeling do cantor Renato Santana junto a letra e melodia de Além do que se entende retratam bem a angústia do homem contemporâneo cristão em permanecer na presença de Deus com o tempo e situações ao seu desfavor. Ligando-se, temos Vaidade que segue, de forma menos introspetiva a versar sobre as fraquezas humanas, por uma perspectiva bem racional.
Sei nunca é tarde pra voltar à inocência que me fez feliz
E reencontrar sem nenhum pudor
Motivos para estar em Tua presença
Que me fez tão bem
Não sinto muito bem onde estou
Mas é cedo pra dizer não mais
As cores ainda estão por vir
Vão trazer consigo tanta paz
Além do que se entende
Esses Olhos Teus, mais lenta é a melhor balada do projeto, em todos os aspectos. Retrata muito bem a intimidade de Deus com o homem que abre o coração para Ele, com sua melodia e interpretação suave, principalmente com o órgão sintetizado na introdução.
Os riffs de guitarra “abrasileirado” de Não sei Fingir contribui para a boa variação de melodias do álbum, porém, de maneira alguma foge do conceito geral. E se eu disser que não, como várias, inicia-se com forte presença de sintetizadores, mesclando momentos lentos e densos, trazendo o clima de angústia e reflexão enfatizado na letra, cheia de perguntas e sugestões.
Ulster e João fazem parte dos momentos mais fracos do projeto, que poderiam ter sido melhor explorados. Quem me Dera volta ao tema inicial, dissertando a respeito dos erros humanos e seu coração caído diante dos seus planos e ações incorretas. Foi a primeira canção do repertório apresentada pela banda em sua carreira.
Fechando o álbum, este reserva uma das melhores faixas do repertório. O Amor é o que me Basta conclui o conceito do álbum de forma excelente, versando sobre as vaidades e o real sentido da vida para nós que conhecemos Aquele que dá o sentido de todas as coisas, concluindo que, apesar de tanta complexidade e saudade, é possível ser feliz apenas com o amor que vem de Deus. Mais uma vez, o órgão sintetizado é bem presente.
Sem renúncia não há vida que se possa encontrar
Não há defeitos no aroma insaciável do amor
Finalmente, o disco da Hibernia, que se aparenta inicialmente tão simples e despretensioso surpreende-se a cada faixa, embora a partir da sétima o projeto não mantenha o nível apresentado desde o início. O destaque vai, em primeiro lugar as letras. Elas justificam a sensação que as melodias causam a cada audição, sem medo e sem pudor para o ouvinte final. Para quem gosta de discos essencialmente cristãos, mas ao mesmo tempo atento ao mundo contemporâneo, “A Vida como ela era” é um bom exemplo.

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