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  • Análise: CD Horizonte Distante – Rosa de Saron

    Dando continuidade as análises da discografia do Rosa de Saron, hoje, resenho um dos melhores trabalhos da banda, o disco Horizonte Distante. Lançado em 2009, é o primeiro trabalho da banda pela Som Livre, uma das maiores gravadoras do Brasil. Após dois anos dedicados ao acústico de comemoração de seus 20 anos, o Rosa apresenta seu quinto álbum de estúdio. As 13 faixas conceituais e bem estruturadas fez com que o disco atingisse a marca de 100 mil cópias vendidas. Muitos fãs da banda consideram este, o seu melhor trabalho de estúdio. Dividi minha análise em três critérios importantes dentro do disco que são composições, arranjos e interpretação.


    Composições

    Guilherme de Sá (vocalista)

    O disco inicia com O Sol da Meia Noite, letra de Guilherme de Sá e que traz um lado poético e profético muito bacana. A música é esperançosa, assim como todo o disco. O compositor carrega uma frase consigo que diz “o Horizonte pode estar distante, mas Ele existe”. Facetas poéticas pra lá de intrigantes, Menos de um Segundo vem em seguida, agora com a temática morte/eternidade, contando, de forma simples, a dura realidade do sofrimento de quem perdeu um ente querido. O que mais me atrai na banda, além do instrumental, é a forma de composição do Guilherme feita sempre na primeira pessoa. O compositor volta a escrever sozinho na quinta faixa chamada Mais que um Mero Poema que é um protesto contra a hipocrisia do país e de como a juventude vai se perdendo em seus vícios. Na sétima faixa, a minha favorita do disco, Sobre Marés & Angra que, segundo o autor, foi inspirada em uma história real na praia. É uma canção bem particular e conflituosa com as escolhas que tomamos. Um trecho bem marcante é a pequena parte do refrão que diz “eu me perdi num abismo infinito”. Quantas vezes não nos perdemos em infinidades de razões? Entre Aspas é uma música autobiográfica de vida com banda que viaja quase todos os dias para fazer shows. Os integrantes disseram no DVD Rosa na Estrada – Especial Rede Século XXI que o Rosa de Saron é um instrumento de missão. Então, eles não só fazem música, mas passam a mensagem da cruz por elas. Meu Lugar é outra bela canção que quase todas as vezes que dou play, sinto uma imensa vontade de chorar. Primeiro: pois diz muito do que sou – um jovem que tem poucos amigos e a maior parte do tempo fica no quarto escrevendo, lendo e ouvindo música. Segundo: expressa um sentimento de liberdade bem profundo. E a última composição do Guilherme sozinho é Velhos Outonos, a qual, na verdade é uma poesia musicada. O refrão embala bem e arrepia: “vai ficar ou vai correr? Vai salvar ou esquecer? Eu só quero que me ame até o por do sol”.

    Considerações: eu sou muito suspeito para falar das composições do Guilherme. Sou muito fã do cara em todos os quesitos musicais. Ele de fato é uma grande referência para mim. Mas tentando deixar o lado fã de lado o elogio pelo sua espontaneidade de pôr o que ele vive de forma que se confunda com quem as ouve. É difícil fazer isso. Eu raramente consigo colocar meus conceitos de fé que creio sem que aquilo soe religioso e padronizado “gospel”. O Guilherme consegue e faz isso com uma naturalidade. Percebemos que ele não foge do cristianismo. Ele não tenta esconder que a banda é cristã e nem que ele não seja, pois isso é notório. Basta ouvir bem e ver o que se trata.


    Eduardo Faro (guitarrista)

    O Dudu tem uma forma de escrever muito única. O compositor é alguém único no meio artístico, isso é inquestionável. Neste disco ele não assina nenhuma música sozinho e para ser sincero, nem sei se a parte letrista tem uma pitada dele. Mas vamos lá: Folhas do Chão (parceria com o Guilherme de Sá) mostra o mesmo lado de escolhas que o “Sobre Marés & Angra”, a diferença é que aqui, é perceptível o lado de peregrino. Ou melhor, o lado de que o homem precisa rever seus conceitos, policiar-se e encontrar-se em Deus. Na Chuva ao Fim da Tarde é um rock bem empolgante e não tem como vibrar com o refrão “não tenho tempo pra fingir, não tenho tempo pra ficar aqui pois sei que nessa noite vai me iluminar”. Mesma Brisa, outra parceria com Guilherme, é uma canção que expressa o sentimento de adorador. A entrega, o desafio, o desejo de servir e pagar qualquer preço pelo evangelho.

    Considerações: o Eduardo é um bom letrista e a maioria de suas composições ficarão eternizadas na vida dos Rosarianos. Neste disco ele pôs a dosagem certa que o trabalho pediu. Acredito que essa era a vibe da banda.


    Rogério Feltrin (baixista)

    O Lerão, apelido carinhoso dado ao Rogério, assim como o Eduardo, não compôs nenhuma canção do disco sozinho, mas rendeu muitas canções boas, o melhor, as melhores desse álbum tem uma pitada dele. A forma como o Feltrin compõe também é bem devocional. Começando por Um Novo Adeus, música que ele começou e o Guilherme terminou, fala do sentimento de saudade que os músicos sentem de suas famílias e do pouco tempo que passam com elas e logo tem que dizer adeus outra vez. Considero esta uma das melhores do disco. Me marcou muito no último ano do ensino médio. Apresentei ela a uma amiga e ela viciou também. Invisível é outra parceria com o vocalista, e reflete a realidade daqueles que não tem voz ou ao menos de nós cristãos, os quais, muitas das vezes queremos pregar o evangelho e as pessoas não param para ouvir. A freneticidade em que as coisas andam fazem com que tenhamos uma certa tristeza, mas lembramos da Luz maior. Esta é a Luz que nos possibilitou ser luz e assim somos incentivados a “crer que alguém pode escutar”. Por isso, é uma música muito, muito, muito boa mesmo! Ela ficou muito melhor ao vivo no DVD Horizonte Vivo Distante. Minha Triste Imperfeição foi uma das faixas de trabalho do disco e parceria do Rogério com Alex Alva. A parte devocional/poética do Rogério é muito agradável. Acredito que como líder da banda ele se propõe em colocar toda a sua verdade na letra, e dá muita certo. Além do mais, é uma letra que o Guilherme de Sá soube interpretar muito bem!

    Considerações: as três músicas que o Rogério Feltrin assinou são muito bem estruturadas em termo de letra. São canções que refletem o lado humano em relação a Deus. Sem dúvidas, todas elas merecem destaques e a banda também por ter três bons compositores.


    Arranjos

    Esse álbum é digno de elogios pela versatilidade dos instrumentos a cada faixa. O som lembra muito o rock britânico, e o conjunto da obra foi bem pensado.


    Interpretação

    O Guilherme, como sempre, mostrou todo o seu talento e técnica vocal nesse disco. Assim como os outros integrantes, o vocalista fez sua parte e conduziu muito bem o disco a ser o que ele é: um dos melhores de 2009. Assim encerro a analise dizendo que este disco já ficou na história não só da música cristã mas do Brasil por ser um disco sólido, temático e contagiante!

  • Análise: CD Siete Camiños – Rosa de Saron

    Em 2011, na cidade de Madrid na Espanha, aconteceria a JMJ (Jornada Mundial da Juventude), e a banda Rosa de Saron foi escolhida como principal atração musical do evento. Vindo de dois anos muito bem marcados com os álbuns Horizonte Distante e Horizonte Vivo Distante, não havia momento mais propício para gravar um EP em outro idioma. Isso foi o caso de Siete Camiños, um EP com 7 faixas sendo 4 em espanhol e 3 em inglês, gravado e produzido em 2011 pelo próprio Guilherme de Sá, vocalista do Rosa. As músicas são todas autorais, tirada de maiores sucessos da banda até então, e traduzidas ao inglês e espanhol.

    Assim como a maior parte dos EPs produzidos pelas bandas de rock, há sempre aquele gosto de quero mais ou uma insatisfação pelas faixas. No SC vejo uma mescla dos dois. Não que seja um trabalho ruim, mas poderia ser algo simples e grandioso, e no caso, o vejo como um projeto simples e simples de produção também. “No Matter What” é uma versão em inglês da música “Tudo o que é meu” do álbum Depois do Inverno. Não dá pra negar que ficou muito boa ouvi-la como uma terceira versão, sendo que, anteriormente fez parte do DVD Horizonte Vivo Distante. A pronúncia e suavidade do Guilherme de Sá no início da canção ficou inegavelmente agradável de se ouvir. No entanto, há pouca novidade instrumental. Não sei se foi proposital deixar as faixas do jeito que elas são em português, mas para mim, poderiam ter inovado. “El Sol de Medianoche” é uma versão em espanhol da música O Sol da Meia Noite presente no álbum Horizonte Distante. A princípio confesso que não gostei da versão em espanhol, mas depois de a ouvir pacientemente, entendi que ela soa muito boa. E quase como um exagero juvenil, digo que essa é uma das únicas músicas brasileiras que ficam boa de se ouvir em quaisquer que seja o idioma.

    Without You” é a versão da clássica “Sem Você” em inglês, presente em três versões anteriores e três versões totalmente diferentes: primeira, a de estúdio no álbum Casa dos Espelhos, segunda no Acústico e Ao Vivo e terceira no DVD Horizonte Vivo Distante. E nessa canção ouve uma trema mudança no instrumental. Soa tipicamente como aquelas canções folk ou aquelas versões acústicas das músicas mais românticas do Alter Bridge. Digo, quase que convicto, que foi a primeira vez que ouvi “Sem Você” e pensei em uma mulher. O inglês do Guilherme trouxe um tom romântico para a canção. Melhor faixa do EP. “Memories” é uma versão em inglês de “Lembranças” encontrada no disco Casa do Espelhos e no DVD Horizonte Vivo Distante. Pontuo a banda no aspecto guitarra e baixo. Bela versão. Por mais que me lembre muito alguns hits do Red Hot Chili Peppers.

    De Lo Alto de La Pedra” é uma versão em espanhol de “Do Alto da Pedra”, presente no Casa dos Espelhos,  Acústico e Ao Vivo e Horizonte Vivo Distante. Para ser sincero, prefiro o Guilherme cantando em inglês do que espanhol. Talvez seja porque não gosto de músicas desse idioma. Mas como o evento era na Espanha, mais do que obrigação cantar em espanhol. A introdução e solo se repetiram. Nada de novo, apenas o idioma. “Extraña Calma” é a versão de “Rara Calma” em espanhol. Faixa inédita para o Acústico e Ao Vivo e se repetiu com participação especial de Mauricio Manieri no Horizonte Vivo Distante. É originalmente uma música acústica. Repito mesmo discurso que fiz para a faixa “O Sol da Meia Noite”. “Menos de Un Segundo” fecha muito bem o EP. Acrescentada uma versão mais trovadoristica, enriqueceu o trabalho.

    A banda mostra com este álbum que sabe fazer música em outra idioma, pecando apenas na inovação do arranjo, mas talvez seja proposital. Vale apena ouvir!

  • Rocklogia – O dia menos esperado do ano

    Ontem foi dia 31 de dezembro. E ainda parecia ser mais um dia como qualquer outro. Trabalho, tarefas diárias. A família, distante. As lojas fechadas. O clima monótono. Parece bizarro ter a “pior” virada do ano num de seus melhores anos, mas quando se está só, muitas das melhores ideias e reflexões surgem.

    Andar pelas ruas num fim de tarde deste dia é um estímulo enorme. Primeiro, porque nota-se, em grande parte dos motoristas uma calma mascarada. Nas ruas, principalmente nas distribuidoras de bebidas, alguns já se reúnem. Os estabelecimentos comerciais, em grande parte fechados e prontos para um descanso de dois dias. Assaltantes se preparando para as casas nas quais almejam roubar. No ouvido eu tinha fones, relembrando algumas canções que foram importantes no ano. Músicas que lembram pessoas, que lembram situações. E de repente surge o pensamento: Onde elas estão? O que fazem? Como se sentem agora?

    A caminhada é a mesma, o ambiente é o mesmo, mas as pessoas não. Tudo está mais vazio e silencioso. Ao entrar em seus aposentos, poder notar um clima ainda mais solitário. Olhar para cada planta, a luz do sol que se põe…

    Há certeza que, por mais tola que seja, podemos usar qualquer coisa neste dia para fazer uma retrospectiva. Ao abrir os arquivos no celular, imagens, fotos, vídeos, mais músicas e até mesmo mensagens. Reler, visualizar parece um exercício masoquista para os que lamentam por este ano, no entanto é nostálgico para quem teve um de seus melhores anos, como eu.

    Penso que, apesar de cada comemoração num ano novo ser meramente simbólica, nossa postura muda a partir destes acontecimentos e ditam como serão nossos próximos dias. São as coisas que nos movem em cada momento a querermos alcançar sonhos e projetos. São pessoas que, assim como nós puderam extrair um pouco de cada um, assim como extraímos um pouco delas. E permaneci pensando: onde elas estão?

    Quando penso nelas, também penso em planos. Quando penso em planos, noto que as coisas que planejo nunca saem exatamente como quero. Algumas vezes, até mais grandiosas, outras fogem totalmente do meu controle ao passar de um ano. E essa linha do tempo, na qual é a vida nos reserva surpresas meticulosamente apresentadas pelo Criador, nos fazendo cada dia mais sonhar com o amanhã. Há muito tempo escrevi uns versos, pensando como seria o meu último dia na Terra. Pensei: por mais que os anos passem, ainda sonhamos com o amanhã, mesmo que ele não exista e nem existirá para nós. E notei que parte do sofrimento de muitos está no fato de não observar o hoje, no qual existe e está para vivenciarmos cada segundo.

    Portanto, desejo a você que, em 2015 viva cada vez mais o hoje. Esteja ao lado das pessoas que hoje podem estar com você, mas amanhã podem não estar. Traga à sua memória aquilo que é importante, e mais do que tudo, procure aprender a cada situação vivenciada.

    E assim passei uma virada monótona sozinho, mas satisfeito por tudo o que aconteceu nestes 365 dias. Olhei para trás, senti a vontade de voltar à alguns meses de 2014 e reviver tudo de novo. Certamente, esta virada foi o dia menos esperado deste meu ano que passou.

    PS: A canção abaixo não está nem perto dentre as que mais me marcaram este ano, mas possui uma reflexão imensamente compatível e inerente ao que está escrito.

  • Entrevista: Rosa de Saron

    Considerada uma das melhores do Brasil, a banda de rock católica Rosa de Saron conseguiu fazer com que seu som extrapolasse as paredes das catedrais e encantou jovens evangélicos e não cristãos.

    Famosos pelas letras fortes, caracterizados pela voz marcante do vocalista Guilherme de Sá e identificados por um rock que vem se mantendo atualizado há mais de 25 anos, não é exagero nenhum dizer que os integrantes do Rosa de Saron fizeram e continuam fazendo história na música cristã nacional.

    Em turnê do novo disco, a banda colhe os frutos de mais um trabalho altamente elogiado. O álbum “Cartas ao Remetente” teve sua resenha aqui em O Propagador.

    Para falar mais sobre história, música e novo disco, conversamos com exclusividade com o Rogério Feltrin, baixista e fundador da banda. Ao lado de Guilherme (voz), Wellington Greve – o Grevão – (bateria) e Eduardo Faro (guitarra), ele integra essa que é, sem dúvidas, uma das bandas de rock de maior qualidade do Brasil, tanto no segmento religioso quanto no secular.

    O PROPAGADOR – No quesito qualidade musical, Rosa de Saron é praticamente unanimidade, sendo frequentemente lembrada como uma das melhores bandas de rock do cenário nacional. Com todo o potencial musical da banda, alguma vez vocês pensaram em ampliar de vez os horizontes deixando o segmento religioso?

    Não. A gente sempre quis e sempre pensou em atingir outros mercados, outros segmentos e outros públicos, mas nunca pensou em deixar o segmento religioso. Nós temos uma noção muito grande das nossas raízes, do porque montamos a banda e isso é o essencial, é o fundamental e imutável.


    OP – Desde o DVD Acústico, e em parte pela parceria com a Som Livre, vocês romperam os limites da música católica e conquistaram não religiosos e evangélicos amantes de rock. Essa ampliação de público interferiu nas composições atuais da banda? Existe a preocupação de, por exemplo, diminuir referências especificamente católicas para tornar suas músicas mais acessíveis?

    Na verdade, não foi exatamente isso que aconteceu. Nós sempre atingimos outros públicos e sempre conseguimos falar com os evangélicos e o público de rock. Não ampliou para outros públicos, mas ampliou de um modo geral para estes mesmos públicos, então cresceu de uma forma geral. E não! Isso não interfere na forma como nos compomos. A gente não compõe para agradar esses públicos, mas agradamos a esses públicos pela forma com que a gente compõe. O caminho, na verdade, ele é inverso.


    OP – Vocês surgiram como uma banda com forte influência do heavy metal fazendo um som que praticamente não existia há mais de 20 anos atrás na música cristã. Com o passar do tempo, mais exatamente após a entrada do Guilherme em 2001, o som se consolidou como um rock que busca referências em outros estilos, como o pop. Como essa mudança foi vista pelo público que a banda tinha até então? Existe alguma possibilidade de um retorno às raízes no Metal?

    Bem, eu acho que a primeira coisa é que o público se renova muito. Se você pegar, 50% do nosso público hoje não tinham nem nascido quando a gente começou. Então não tem muito isso de “como o público encarou”. O público vai renovando sempre. Lógico que tem aqueles que são mais antigos. Uns gostam das novidades, uns não e outros vão passando a curtir outras coisas também. Esses fãs também mudam. Outros não mudam e param de gostar, e assim vai. Eu acho muito difícil a gente analisar, mesmo com artistas com longevidade de carreira, eles manterem a mesma característica de som sempre. Estão sempre se atualizando, se renovando, porque isso é do artista, normalmente, essa ansiedade de novidade, porque a gente também se cansa. São pouquíssimos casos de artistas que mantém exatamente o mesmo estilo por muitos longos anos a fio. Existem alguns casos assim e dá pra citar, claro, de muito sucesso inclusive, mas de um modo geral não. De um modo geral eles gostam de se atualizar e a gente não é diferente.

    Acho pouco provável um retorno à raiz de Metal, pelo menos em curto prazo, porque não é uma coisa que a gente está vivendo no momento de gosto pessoal e musical. O Metal, ele também ficou um pouco datado, ele ficou um ‘som daquela época’ e não se atualizou muito. Agora estão vindo algumas bandas novas, mas eu acho que primeiro a gente precisaria mais ser reconquistados pelo estilo para poder voltar a fazer. Eu gosto de muita coisa de Metal, mas gosto daquelas coisas que eu curtia há quinze anos atrás, há vinte anos atrás, entendeu? Então, aí fica datado mesmo e a gente não. A gente gosta de estar soando atual.


    OP – Desde 2007 a banda vem lançando um trabalho por ano. Como produzir tanto e ainda manter a qualidade? Com tantos trabalhos emblemáticos na bagagem e 25 anos de carreira, fica mais fácil ou mais difícil inovar musicalmente?

    A gente criou um ritmo nosso e incorporou esse ritmo na rotina. É desgastante sim, é puxado, é cansativo, mas nos adaptamos a isso, na verdade. Vamos dizer assim: que se criou uma fórmula interna para conseguir produzir nessa quantidade, mas também não é uma obrigação. Eu tenho dito isso. Eu já respondi a essa pergunta recentemente e a gente não tem essa obrigação de um trabalho por ano, mas temos conseguido fazer e enquanto tivermos o que dizer e estivermos conseguindo fazer trabalhos de qualidade nesse ritmo, a gente faz, mas não há problema nenhum em estender estes prazos. Então, não é uma obrigação que se impõe. A gente gosta de perseguir essa meta, mas se não for possível, tudo bem, ela pode ser revista.


    OP – Como está sendo a receptividade do público com o novo disco?

    Ótima! A receptividade tem sido muito bacana. Eu acho que, em toda nossa carreira, este é um dos melhores feedbacks que a gente teve. São os mais positivos e estamos muito felizes.


    OP – Em entrevista antiga, o Rogério Feltrin afirmou que os integrantes da banda são muito ecléticos “… dentro do rock”. Como toda essa diversidade se traduziu no “Cartas”?

    Eu sou muito suspeito para dizer, mas eu acho que as músicas soam bem diferentes. Se pegar o disco, você vai ter vários tipos de levadas diferentes acontecendo. Algumas músicas puxam para uma coisa mais britânica, outras para uma coisa mais americana. Eu acho que isso se reflete mais nesse sentido. Apesar de ter uma coerência musical do próprio estilo, eu acho que o disco é bem eclético também, com bastante nuances bem diferentes.


    OP – Neste novo álbum, vocês falam de temas atemporais, como a morte, verdade e mentira, além de questões contemporâneas, como o egoísmo, a fragilidade humana e até mesmo uma referência à Síndrome de Asperger. No processo de composições, há uma intenção conceitual para todo o álbum ou a produção é completamente livre e despretensiosa?

    Não existe uma intenção conceitual, mas acaba soando conceitual porque eles são sempre reflexo de um período que a gente está vivendo, entende? Então as músicas acabam girando em torno daquela fase, daquele período e são um retrato daquele momento que a gente está vivendo, do que a gente está pensando, discutindo, conversando. Então, ele não é propositalmente conceitual, mas ele acaba soando um pouco conceitualmente.


    OP – Ainda em relação ao “Cartas”, a banda já tem algum projeto em vista com o disco? Novos videoclipes? Considerando o sucesso dos trabalhos em vídeo da banda, o público pode esperar DVD deste trabalho?

    A gente tem a intenção ainda de produzir alguns clipes para este trabalho. É uma área que estamos investindo agora – de vídeos – porque hoje existe um espaço para isto, principalmente na internet, coisa que não existia há tempos atrás. Por isso que nunca nos preocupamos com videoclipe. Por enquanto, ainda é muito recente e a gente está pensando em um próximo trabalho. Temos algumas ideias de coisas que queremos fazer. São muitas coisas que passam pelas nossas cabeças, mas provavelmente, a gente não faça um DVD deste trabalho. Por enquanto, é algo que não estamos considerando ainda.


    OP – Vocês conhecem ou acompanham alguma banda evangélica? Se sim, qual a visão que vocês tem do rock gospel que é vem sendo produzido no Brasil?

    Na Verdade, acompanhar assim mais de perto, eu acompanho o trabalho da galera do Oficina G3, porque a gente desenvolveu um laço de amizade e sempre estamos trocando ideias e, enfim, conversando sobre trabalho, essas coisas. Então, estamos sempre por dentro do que eles tem feito. Fora isso, eu vejo muito esporadicamente de coisas que as pessoas enviam para a gente, como vídeos, trabalhos e demos. Então a gente acompanha um pouco assim. Mas eu acho que o rock gospel no Brasil sofre do mesmo problema do rock secular, que é a dificuldade de espaço. Não é o momento dele. Não é o momento do rock na música. Apesar disso, mesmo sem exposição, tem muita banda bacana fazendo coisa muita legal em nível de garagem e de underground fazendo coisas muito bacanas e com muito potencial.

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  • Análise: CD O Agora e o Eterno – Rosa de Saron

    Fechando a lista dos álbuns que mais me tocaram (espiritualmente falando), falo um pouco do O Agora e o Eterno, décimo primeiro álbum do Rosa de Saron. Particularmente tenho como o melhor trabalho da banda em sua discografia. Considero também a qualidade simplista de Depois do Inverno, de 2002. Essa é mais uma boa obra de divulgação da Som Livre.

    O Agora e o Eterno mostra claramente o amadurecimento da banda em suas composições. Mas assim como nem toda laranja é doce, o disco tem lá seus defeitos e um deles é o exagero de músicas: 17 no total. Talvez seja até convincente, porém muitas boas canções deste trabalho ficaram esquecidas no DVD de 25 anos (Latitude, Longitude). O título do álbum é autoexplicativo, aborda temas temporais e atemporais. Fazendo um detalhado setplay das canções, você percebe músicas como “Autor Desconhecido“, “Casino Boulevard“, “Rubra Alma” e “Vendetta! Vendetta!” detalhando temas atuais tal como descaso político, aborto e vingança. 

    A obra em si foi muito bem desenvolvida. As composições do Rogério Feltrin continuam seguindo a linha adoração de canções já conhecidas no repertório da banda como “Real em Mim”. Neste trabalho, ele assinou “Rubra Alma” juntamente com o guitarrista Eduardo Faro (que além de um talentoso músico é um excelente letrista) numa composição que fala poeticamente do aborto. E “Quadro Novo” como uma canção que remete a beleza e calmaria do templo. Citando o Edu, ele assinou mais três canções além da parceria com o Rogério, que são “Acenda a Luz“, “As Horas” e “Distante do que sou“. Não consigo afirmar, mas parece que essa fase foi um momento muito difícil na vida do guitarrista, e por isso suas canções neste disco fala muito de esperança, dor e solidão. O principal compositor e o que assina a maioria das composições, é o vocalista Guilherme de Sá que compôs sozinho, 9 das 17 faixas, sendo “Vendetta! Vendetta!” desenvolvida em parceria com Ricardo Domingues, que desde 2009 vem trabalhando nos discos das banda. O mesmo ainda participou como músico convidado agregando uma segunda guitarra.

    Ninguém Mais“, “Metade de Mim” e “Última Lágrima” são canções que mais expressam a adoração à Deus. A faixa “Versos” é uma oração mariana, e que substituiu o jargão de “Linda Menina” popularizada no acústico que tem seu refrão explicitamente cantado “Ave Maria!”. “O meio e o fim” e “Jamais será tarde demais” são músicas bem dançantes considerando o lado pop do grupo. E de tanto se falar que as canções da banda eram românticas, o disco trouxe o que há de mais apreciador numa banda de rock: uma balada romântica com a música “Máquina do Tempo” a qual a mesma rendeu um belo clipe. “Vinte e Seis” é uma das minhas favoritas. Remete toda uma vida que buscou tanto algo mas agora encontra-se sozinho e sedenta de Deus.

    O baterista Grevão mais uma vez cuidou bem da parte de produção, junto com o Guilherme e o Ricardo. Enfim, O Agora e o Eterno é um maravilhoso disco de rock, deixando uma marca pra lá de positiva no cenário em 2012. “Casino Boulevard” foi o single do disco, mas pra espanto de quem vê a banda como mais uma outra do mundo religioso, e tal não substituiu a força que “Sem você” e “Menos de um segundo” tem. Um disco com bons arranjos, boas reflexões, riffs de guitarra muito bem encaixados, bateria com o peso linear ao contra-baixo, e como disse no início: considero o melhor álbum de estúdio da banda até hoje.

  • Um Brinde – 00h49

    Um Brinde – 00h49

    Existem coisas que visivelmente parecem transitórias, já outras dão a impressão de que serão eternas. Para os mais vividos que se relacionaram com pessoas super legais e, juraram que aquela seria pra sempre, sabem do que estou falando. Jesus sabia muito bem quando alguém precisava dele, e até hoje sabe. Ele também sabe o que é eterno e o que é transitório. Por esse e inúmeros motivos, não se preocupa em nos dar o que pedimos. Já percebeu que nos preocupamos muito com coisas passageiras? Uma roupa pra vestir, um carro pra andar, uma viagem pra fazer, e entre outras coisas que dão a ilusão de que serão duradouras. Me preocupo muito com coisas bem simples: poder andar de ônibus e tomar um bom tereré com os amigos enquanto tocamos e cantamos uma boa música no sábado à noite, por exemplo. 

    O texto de hoje foi feito exclusivamente para fazer o fiel leitor refletir sobre suas prioridades. O mais simples pode ser o mais importante. O visível pode estar visivelmente errado, ou não. Deixo duas belas canções para que te faça refletir sobre a sua vida: “Quando tiver sessenta” e quando não saber o que de fato é “Atemporal”.

  • Análise: CD Cartas ao Remetente – Rosa de Saron

    Pode até ser exagero, ou o fato de eu ser fã da banda, justifique, mas “Cartas ao Remetente” foi o melhor álbum de rock nacional lançado neste ano. Já ouvi o Amianto do Supercombo e o EP Eu Sou a Maré Viva da Fresno lançados este ano, mas nenhum é tão bom como o CAR.

    Cartas ao Remetente é o 13° álbum da banda católica Rosa de Saron. Para muitos, é o melhor disco de inéditas do grupo, porém, ainda acho O Agora e O Eterno melhor.

    A faixa que abre o disco chama-se Reis & Princesas, que tem uma temática bem parecida com a música Autor Desconhecido, também foi composta pelo vocalista Guilherme de Sá, e a mesma abre o último álbum gravado em 2012. O projeto inicia com um “teor” de suspense , e um eco eletrônico do início da canção sendo reproduzida antes dos primeiros riffs de guitarra. A poesia perdura e prende o ouvinte já na primeira estrofe quando é cantado “Eu não sei, se eu sigo a ver navios ou se ponho neles os animais”. O refrão é empolgante e chamativo pelo grito de manifesto de uma pessoa que já fez de tudo por uma boa relação com um inimigo – ou outra pessoa qualquer – e nada adiantou. Destaque para o solo com um arranjo melódico que muito lembra alguns clássicos do Creed.

    O disco segue com uma pegada eletrônica em algumas partes, típico da banda que sempre gostou dessa sonoridade desde a entrada do Guilherme, assumindo os vocais. Solte-me! é outra canção que remete o manifesto pessoal. Isso é caracterizado pela frase “Solte-me! Solte-me! Por favor liberte-me, solte-me!“. Também é uma faixa viciante pela versatilidade das palavras e traduz o sentimento de quem tenta, tenta, tenta mas não consegue realizar-se. Deixando claro que as músicas do Rosa as vezes – ou quase sempre – é muito difícil de se definir, e o grupo sabe tão bem disso, que deixa que os próprios fãs tirem suas conclusões.

    A terceira música é a faixa-título. A partir daí o ritmo agitado dá lugar a uma canção semi-acústica (digamos assim). A letra passa a mensagem de que se só tivéssemos o amanhã, será que iríamos buscar à Deus? Qual seria nossa última oração? “Se de fato fosse mesmo o último adeus“, “viva como quem soube que vai morrer” e “uma verdadeira causa pela qual morrer” são umas das várias frases de efeito que leva o ouvinte a refletir sobre seus atos. Destaques para os violões e riffs bem detalhados.

    O disco segue com sua sonoridade muito boa e atraente, agora com uma canção acústica, e uma forte candidata a melhor música do CD. Após ouvir, tente imaginar um clipe da mesma e a ouça outra vez! Quando tiver sessenta é um exemplo nato de música folk tocada por uma banda de rock. O instrumental me lembra o acústico do Scorpions, mas podem discordar de mim. A canção tem um lado futurista/saudosista, vida/morte, certezas/incertezas bem reflexivas. Costumo dizer que essa não é uma música pra todas as horas, pelo fato de ser reflexiva e pessoal. Essa foi uma fase complexa na vida do autor pois sofreu muitos ataques por membros de sua própria fé, e chegou até pensar em aposentadoria. Junto com a faixa 3 (Cartas ao Remetente) e 14 (Fleur De Ma Vie), chorou compondo e gravou-as chorando. Segundo a banda, a letra é um combate ao imediatismo que vivemos e que dos 86.400 segundos que recebemos de Deus durante o dia, gastamos apenas 2 segundos para dizer: “Senhor, obrigado por este dia”.

    Adiante temos Nada entre o valor e a vergonha. A música tem requisitos de balada no instrumental e um protesto à balada na letra. A sonoridade faz-me lembrar algumas canções do Snow Patrol e substituiu bem a faixa Jamais Será Tarde Demais do seu último de inéditas. Seguindo a base mais pesada do disco temos Algoritmo que traz a temática das misericórdias de Deus em nossas vidas, e que Ele sempre nos perdoa, mas insistimos continuar no erro. A poesia traduz esse sentimento nos versos “Setecentas e setenta e sete luzes não puderam iluminar, a sombra que escondeu-se do seu lar“. Destaque com louvor para os riffs e acordes definidos de guitarra e do peso sonoro bem encaixado da bateria. Uma das melhores do disco.

    Continuando no peso “rock rosariano”, temos Neumas D’arezzo. Guido d’Arezzo foi um monge italiano, teórico musical que criou a notação moderna com a criação do tetragrama, encerrando com o uso de neumas na História da Música, e batizou as notas musicais com os nomes que conhecemos hoje: dó, ré, mi, fá, sol, lá e si (que antes eram ut, re, mi, fa, sol, la e san). Essa é mais uma das variáveis canções de protesto pessoal da banda com um grito que traduzido a fala ante a música, seria: “DEIXA-NOS FAZER NOSSO TRABALHO EM PAZ!“. Instrumental perfeito com linhas de baixo bem posicionadas com a simplicidade dos solos de bateria dando um ar de hardcore. E essa mesma bateria perdura durante os 3:42min. de Verdade/Mentira. Destaque sem igual pela boa harmonia de guitarra, contra-baixo e bateria e o encerramento marcante com “Afinal o Pinocchio era apenas um cara de pau“.

    A seguir, temos duas composições do guitarrista Eduardo Faro com Dias Assim e Meus Medos. Ambas expressam o sentimento de dependência do amor de Deus. Pra quem conhece o lado devocional do autor, sabe que suas letras são sempre muito profundas. Destaque para solos sutis e voz marcante do Guilherme. Seguindo, encontramos uma faixa que é bem explícita quanto a fase de Invernia que o vocalista e autor da canção passou. Inicia-se com um questionamento profundo: “Deus, o que há comigo?”. Marcada com um arranjo “trovadorístico” de violinos, arranjados com delicadeza e devoção de Aramis Rocha e Robson Rocha. Destaque pela letra e voz quando é cantado o alívio de “Vai passar, eu sei, vai passar“. Seguindo o pique de canções reflexivas , ouvimos a belíssima O Mestre dos Ventos que também traz os violinos e fala metaforicamente de um mendigo. Há um sentimento de abandono explícito na letra. Outra forte candidata a melhor música do álbum.

    Prestes ao término, nos encontramos com a irreverente Seis Nações. Com solos e bem norte-americanizados, a música fala da imperfeição e desejo pelo melhor. Frases como “Na medida da perfeição, eu sou um imperfeito” e “Quem sempre teve Deus como o centro das atenções, jamais precisou secar as lágrimas quando o amor se ausentou” dão um toque doce na melodia e desejo de ouvir mais vezes. E encerrando o ótimo disco, somos agraciados com a ingênua Fleur De Ma Vie, que traduzido significa Flor da minha vida. Introduzida com sinos e juntado com acordes dedilhados de violão, a canção é uma declaração de amor do autor à sua filha recém-nascida, Lívia Gallo de Sá. E o que mais marca – pelo menos pra mim – é o francês fluente do cantor no final do disco.

    Cartas ao Remetente é um disco bem atual, mas com quesitos futuristas. Mais uma obra totalmente produzida pela banda e divulgado pela Som Livre. A produção musical é do vocalista Guilherme de Sá e o produtor Ricardo Domingues, que também assinou o último disco. Enfim, recomendo. Fiz questão de comprar o disco e baixar pelo iTunes! Abraços!