Lançado há exatamente duas semanas, o novo CD da banda de rock Oficina G3 acaba de chegar às lojas causando grande repercussão midiática. Um dos mais vendidos no iTunes, com single tendo recorde de visualizações no YouTube, a banda recebe todo o reconhecimento que acumulou durante os 25 anos de carreira.
O projeto gráfico do disco, produzido por Hugo Pessoa e Jean Carllos é interessante, conceitual. No mais, o uso da bicicleta e o design “retrô” embelezam o projeto. Também não entendo o porquê a gravadora retirou certas páginas do encarte, desvalorizando o produto final.
Comparado ao Depois da Guerra, temos um Oficina G3 mais maduro, com canções mais poéticas, uma sonoridade mais alternativa, e em alguns pontos também bastante experimental. Isso logo é notável nas duas primeiras faixas, “Diz” e “Água Viva”. A primeira, destacando-se pela execução da bateria por Alexandre Aposan, e na segunda pelos teclados de Jean Carllos, o baixo e o vocal de apoio de Duca Tambasco. Ainda, nesta segunda, percebe-se um “casamento” perfeito da letra com o arranjo.
Um detalhe negativo neste trabalho, em minha opinião é a baixa participação de Juninho Afram nos vocais. O músico cantou um pequeno verso em “Confiar”, single do álbum, que possui arranjos de violão e um excelente solo de guitarra com muito feeling, mas nenhuma interpretação completa em alguma música. Já Mauro Henrique, atual vocalista ainda atuou como violista, e em relação ao DDG, mostrou razoavelmente bem sua potência vocal, e fez excelentes interpretações, como em “Lágrimas”, em parceria com Leonardo Gonçalves, canção que se revela como a melhor balada do disco, e provavelmente dentre as melhores da Oficina G3 nesta categoria.
Enquanto o cover de DDG foi “People Get Ready”, o de Histórias e Bicicletas é “Save me from Myself”, gravada anteriormente por Michael W. Smith, faixa que possui muitas influências alternativas. O cover é agradavelmente bom, sem muitos destaques, porém superando expectativas, se comparada com a versão original, principalmente pelos toques de teclado e o virtuoso solo de guitarra por Juninho. Também, a regravação do clássico de Kleber Lucas, “Aos pés da Cruz”, versão que considero superior à original, embora não haja tantas novidades. A banda conseguiu manter a essência da canção sem impedir que houvesse uma vibe rock na música.
É interessante a inclusão do poema em cordel na faixa “Encontro”, com a participação de Roberto Diamanso, e uma letra muito interessante e rica, que trata de um tema complexo, mas de uma forma simples. Na verdade, este detalhe é notável em praticamente todas as canções deste trabalho. “Compartilhar” tem um arranjo, principalmente dos teclados que me lembram de discos mais antigos da Oficina G3, principalmente Indiferença e O Tempo. “Descanso” é uma das faixas mais lentas do repertório, escrita pela falecida esposa de Mauro em parceria com o próprio, e também a com versos mais verticais da obra. Destaque pela sonoridade progressiva, e a execução do violão.
Por fim, comento duas das melhores canções do repertório: “Não ser” e “Sou eu”. A primeira destaca pelo peso, que lembra o DDG, porém com muitos efeitos eletrônicos. A execução do baixo por Duca na introdução é pulsante, e Alexandre Aposan faz, em minha opinião a melhor participação no disco, ao fim guturais de Jean, é a canção que, particularmente mais lembra o último disco do G3. A segunda possui uma introdução bem alternativa, que dá ao ar de uma música bem leve, porém, o peso é gradativo, até o refrão, mesclando momentos leves, comandados pelo teclado, e “pesados”, com muitos riffs de guitarra e baixo.
São várias considerações gerais que tenho a respeito de Histórias e Bicicletas (Reflexões, Encontros e Esperança). Claramente, é um projeto mais maduro em todos os quesitos, principalmente nas letras. E, também acredito que, naturalmente este trabalho não será tão aceito pelo público o quanto Depois da Guerra foi. O novo CD da Oficina G3 traz relatos autobiográficos transformados em versos, dramas e sentimentos pessoais que se tornaram versos musicais. Nota-se, no encarte, no texto escrito por Duca Tambasco, na maior parte das composições, como “Lágrimas”, “Descanso”, “Confiar” e “Encontro”, por exemplo, reflexões humanas trazidas a primeira pessoa. O uso da bicicleta, no título e em todo o projeto fica mais entendível no texto de Duca, e inclusive elogio essa temática utilizada.
Mais que um registro autobiográfico, Histórias e Bicicletas (Reflexões, Encontros e Esperança) é a musicalização de um contexto histórico do ser humano atual, em sua individualidade, solidão, as complexidades pessoais que envolvem o seu interior, e principalmente a necessidade da existência de Deus dentro de si. Isto não é, e dificilmente será entendido por grande parte do público que curte o conjunto. Porém, não garante um fracasso do álbum. No nível de reconhecimento que a banda possui, a notoriedade que o projeto alcançou, e a qualidade técnica e poética deste trabalho tem de tudo para fazer com que este fique marcado como um dos melhores discos do ano, todavia dificilmente venha a ser mais destaque que um disco mais popular e menos complexo, desagradando parte do público.
Noto também que, por ser um trabalho mais “leve”, a participação do tecladista Jean Carllos foi fundamental, assim como foi no disco Elektracustika. O músico soube trazer uma pegada alternativa interessante em seus arranjos, mesclando elementos musicais dos discos mais antigos. Duca Tambasco deixou de ser um mero baixista como um dos integrantes mais importantes na produção deste trabalho. Isto é percebível pelo encarte, em seu texto de reflexão, sua forte atuação como back vocal na maior parte das músicas, e por fim a sonoridade do baixo, que desta vez me pareceu mais fundamental que no último trabalho da Oficina G3. O artista também aparenta estar menos tímido.
Juninho Afram, que outrora sempre se destacou como guitarrista e band leader recuou um pouco, e permitiu que os demais integrantes viessem a “crescer” e aparecer. Posso dizer que, atualmente a Oficina G3 não pode ser descrita simplesmente como “a banda do Juninho”, mas sim um quinteto de fato, que se completa mutuamente. Isto é notável em suas apresentações ao vivo atualmente. Mauro Henrique, além de vocalista agora tem a missão de trazer os violões, e consolidar de vez seu talento no grupo. Alexandre Aposan, que surpreendeu a todos no último álbum de estúdio do G3 mantém sua qualidade técnica neste novo trabalho, tanto em canções mais leves ou pesadas, firmando que é atualmente um dos melhores bateristas do gospel nacional. No geral, o disco é aprovado, e já está dentre os meus três favoritos deste ano.
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