Nós, seres humanos, tão iguais, mas ao mesmo tempo particulares. Juntos num mesmo espaço, suscetíveis aos mesmos problemas e fraquezas, estampados numa estante, a estante da vida. Em nossa vida cristã, não é nada diferente. Uns vasos, nesta estante estão empoeirados, sinal de que um dia foram úteis. Outros, rachados, quebrados, que necessitam de renovo e reparo. E o Oleiro está pronto em nossa frente, embora muitas das vezes não o enxerguemos. Basicamente isto é o ponto central do terceiro projeto da cantora mineira Heloisa Rosa, lançado em 2008.
Curioso é, uma artista de melodias e interpretações vocais tão simples, e as vezes passadas desapercebidas pela maior parte das pessoas lançar um álbum contendo um conceito tão maduro, profundo e atual. Talvez este seja o motivo ao qual superou as vendagens dos anteriores, mas isto não vem ao caso. O fato é que, o CD de Heloisa Rosa contém mensagens que ultrapassam comuns temáticas de canções que ouvimos no hall cristão nacional, principalmente levando em conta o mainstream. O trabalho, também foi produzido num momento de grandes mudanças em sua carreira e vida pessoal, como a morte de sua mãe e a mudança de seus músicos de apoio, que formaram o Palavrantiga e deixaram de atuar com Heloisa.
A faixa-título, e primeira do repertório traz com força e clareza o seu discurso, nos preparando para todo o contexto letrístico e musical do álbum. O pecador despedaçado, destruído pela sua vivência diária, ou experiência com o mundo conturbado, e o Salvador que alivia, preenche o vazio e entende com uma amplitude sobrenatural o que passa em nosso interno e externo. Aos poucos, somos levados a entender que a nossa verdadeira identidade como seres humanos só é revelada e compreendida quando estamos diretamente envolvidos com Deus.
A intimidade com Deus nos proporciona um amadurecimento espiritual, em sabermos que só podemos ter uma satisfação e vida de verdade quando aprendemos e vivemos dependentes dEle, sem formalismos religiosos ou complexidades desnecessárias, que muitas vezes só fazem empobrecer nossa vida cristã. Após as três primeiras canções, que dissertam sobre os assuntos citados, a obra centra a figura de Jesus Cristo, reforçando a ideia de entrega e dependência do Salvador.
Entre os vasos rachados, empoeirados e fracos, existem aqueles que um dia já foram fortemente úteis ao Senhor. E o que aconteceu neste ínterim? O comodismo, as pressões deste mundo foram criando pequenas rupturas, enfraquecendo as estruturas. A partir de tudo isso, é importante voltar ao primeiro amor, que diretamente é relacionado com ser moldado e reconstruído novamente pelo Oleiro. Afinal, nossa perfeição como seres humanos é inatingível, e este mundo com suas vaidades sempre tentarão nos distanciar do amor de Deus.
Quão bom é saber que Deus não desiste de nós. Que, assim como comparado no livro de Jeremias, Ele insiste, continua a moldar, reconstruir o mesmo barro até que este atinja a perfeição, novo, forte e agradável. Que, nesta estante da vida, Ele tem todo o poder e soberania sobre nossa vida, emoções, sabe o melhor para nós antes mesmo do nosso princípio (Salmo 139). Seja um vaso novo e perfeito nas mãos dEle, sem medo de se render e entregar, mesmo na dor de ser reconstruído.

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