Parece absurdo afirmar que um disco ao vivo, com um repertório de regravações é um dos melhores lançamentos de 2014 na cena cristã tupiniquim. Mas esta é uma verdade clara: Ao Vivo em São Paulo, de Heloisa Rosa é um bom trabalho, e remonta através de obras conhecidas um conceito maior antes implícito na discografia da cantora.
Heloisa Rosa, em dez anos de carreira demonstra mais maturidade do que muitos artistas do mainstream e que ostentam mais tempo de estrada. Em quatro álbuns, a compositora mostrou seu estilo, agora inconfundível: canções intimistas, confessionais e que abordam, quase sempre o relacionamento entre o ser humano e Deus. Cada álbum foi desenvolvido em uma temática específica, e Ao Vivo em São Paulo une tudo isso de forma estratégica.
Para uma obra intimista e que reflete, em letras a solidão, angústia, impotência e a busca pela paz e refúgio em Deus nenhum lugar no Brasil soaria mais adequado para a gravação que São Paulo, intitulada por muitos como uma metrópole cada vez mais claustrofóbica e caótica. O isolamento social, destaque nos grandes centros urbanos, além do desencantamento humano pós-modernista constroem um cenário no qual as canções de Heloisa soam tão contextualizadas, e ao mesmo tempo apaziguantes.
O disco, com interlúdios pode ser dividido em três partes: a primeira demonstra a situação do homem antes do pecado original. Com a introdução de “Vaidade“, a melhor canção de seu melhor álbum, Rosa surpreende por substituir o arranjo anterior, um tanto melancólico por um andamento mais acelerado, com mais riffs de guitarra.
“Dançarei Contigo” e “Não Temerei” colocam em evidência a pegada mais “pesada” do último álbum, com influências do rock britânico, além de vários sintetizadores. Mas o destaque de Ao Vivo em São Paulo, sem dúvida está em sua segunda parte, que consiste na queda. “Seis da Tarde” e “Deus Meu“, com versões bastante distintas das gravadas em estúdio foram extremamente bem trabalhadas, retratando toda a emoção proposta.
A parte da redenção é um pouco maior, sendo preparada pelas duas últimas músicas da queda, “Estante da Vida” e “Clamarei Teu Santo Nome“. A interação de Heloisa com o público em “Lindo Jesus” surpreende, “Jesus é o Caminho“, aguardada como um dos possíveis melhores momentos do projeto cumpre as expectativas aguardadas. A canção que tornou Heloisa conhecida é executada em tons mais graves, como a cantora costuma fazer em seus shows, acompanhada de uma ministração com críticas sutis à teologia da prosperidade. O real ponto negativo do álbum está na faixa bônus, “Eu Vejo a Cruz“, com a participação de David Quinlan. Além de deslocada de todo o projeto, a faixa não acrescenta absolutamente nada ao álbum.
Dado isso, Ao Vivo em São Paulo é um exemplo claro da simplicidade de Heloisa Rosa dentro de um projeto pretensioso. A construção do álbum é muito boa, e mostra que uma obra ao vivo necessariamente não é obrigada a soar como uma coletânea de sucessos desconexos. Parabéns a Heloisa, que desbancou uma série de lançamentos inéditos de um ano fraco, ensinando muitos outros veteranos.
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