Observando a linha do tempo, percebemos que as bandas de rock cristão, juntamente com outros grupos como o Vencedores por Cristo estavam na ponta da vanguarda na modernização da música cristã nacional. Durante os próprios anos 80, alguns sinais indicavam algo que estava por vir: o movimento gospel.
A começar, como dito no post da contratação do Rebanhão com a gravadora PolyGram, alguns olhares começaram a ver que devido a fidelidade do público evangélico, a distribuição de álbuns era algo financeiramente promissor. E pelo fato destes trabalhos serem lançados por pequenos selos, a certificação e o cálculo de vendas (hoje pela ABPD) não eram feitos. Tem-se dito, por exemplo, que o disco Cem Ovelhas de Ozéias de Paula vendeu mais de dois milhões de cópias. E a informação é muito provável de ser verdadeira, já que é um dos álbuns cristãos nacionais mais conhecidos do século XX (se não o mais conhecido), mas lançado por uma pequena e extinta gravadora.
Ozéias de Paula, Rebanhão e Álvaro Tito foram os nomes nos quais a gravadora apostou. Mas, outro aspecto, além da distribuição denomina o que chamamos de movimento gospel: se antes, a música cristã brasileira era envolvida por preconceito, principalmente no que se refere a uso de instrumentos e tecnologia, tais barreiras aos poucos eram quebradas. O próprio Rebanhão, como disse antes gravou seu álbum Luz do Mundo no estúdio Transamérica, onde os grandes artistas da música nacional gravavam, por ser o melhor estúdio da época. Carlinhos utilizava uma guitarra Fender (ao qual continuou a usar durante décadas), Pedro Braconnot um sintetizador Phophet-5, no qual era utilizado mundialmente por grandes músicos. Outro ponto é a apresentação em casas de shows seculares, nos quais Marina de Oliveira também passou a se apresentar logo depois.
O olhar religioso para “música de igreja” deu lugar a uma visão horizontal, de evangelismo no fim dos anos 80, para letras que fugiam das previsíveis rimas, dando lugar a mensagens contextualizadas com o ambiente. Surgiu o Sinal de Alerta, Complexo J e em 1989 era fundada a promissora gravadora Gospel Records por Estevam Hernandes. Não apenas a gravadora, mas não há a menor dúvida de que a Igreja Renascer em Cristo foi o principal componente deste movimento, aliado aos grandes eventos que promovia, como o SOS da Vida e a Marcha para Jesus.
O primeiro álbum “gospel” do Brasil, também lançado em CD foi Princípio do Rebanhão, e consequentemente marcou uma geração pela enorme evolução no repertório, produção musical e arranjos (em um post falaremos mais detalhadamente deste disco). Foi o primeiro álbum distribuído pela gravadora. A Gospel Records lançou vários nomes durante os anos 90, como o Renascer Praise, Resgate, Oficina G3, Fruto Sagrado, Katsbarnea, João Alexandre e muitos outros artistas. De uma pequena igreja árabe tornou-se um império, embora a partir dos anos 2000 a igreja infelizmente perdeu seu foco.
Mas a Gospel Records não foi a única gravadora a apresentar algo diferenciado, e um pouco antes a Bom Pastor, do cantor Luiz de Carvalho tinha lançado alguns nomes, como a Banda Azul, Armando Filho e Cristina Mel. A MK Music apresentou Marina de Oliveira, Complexo J, logo se tornando a maior gravadora ‘gospel’ do Brasil. No mesmo período também surgia a Line Records.
E por que o termo ‘gospel’? Em português, significa evangelho. O gospel aqui resume e facilita, num tom comercialmente melhor toda a música evangélica produzida no país. A ideia veio bem a calhar, pois até hoje a utilizamos, há quase 30 anos do início do movimento.
Há certa controvérsia a respeito do fim do movimento gospel. O autor Salvador de Souza, colecionador do maior acervo de álbuns cristãos no Brasil acredita que foi em 1999, e eu particularmente concordo. Por volta deste ano, vários músicos e bandas encerraram a carreira e tivemos o boom do “louvor e adoração”, tendo o Diante do Trono como seu maior expoente com o álbum Exaltado. Por outro lado, outras pessoas afirmam que o movimento não morreu na década de 90, mas tomou outras ramificações e adaptações ao contexto.
Nas próximas semanas, a Rocklogia apresentará a segunda geração das bandas de rock trazidas pelo movimento gospel.
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