Fábio Sampaio, conhecido por sua atividade como vocalista da banda de rock alternativo Tanlan é o entrevistado de hoje pelo O Propagador. A banda completa cerca de dez anos, com dois álbuns lançados e em um disco em produção. Abaixo, o cantor fala sobre seus projetos musicais dentro e fora da banda, e os rumos do novo movimento. Confira!
O PROPAGADOR – A Tanlan existe há praticamente dez anos, sendo o primeiro EP lançado em 2005. De lá pra cá, o que mais mudou em vocês (pra melhor)?
Acredito que esses dez anos foram essenciais para formar nossa identidade estética e lírica. Mas não dá pra responder essa pergunta sem contar um pouco da nossa história.
Quando começamos, ninguém falava de Rookmaaker ou Schaeffer. Não existia um embasamento teórico/teológico para o que a gente fazia. E isso produzia uma reação muitas vezes negativa de algumas igrejas. Exatamente por isso, quando a Tanlan nasceu, nós não participávamos de nada que envolvesse igreja. Eramos uma banda como outra qualquer abrindo espaço no difícil caminho das bandas autorais em Porto Alegre: Festivais, bares, covers etc.
Com o tempo, a seriedade com a qual encarávamos nosso trabalho foi sendo conhecida por muitos, o que nos levou a receber vários convites para participarmos de eventos evangélicos dentro e fora do estado. Hoje, depois da popularização de bandas como Palavrantiga e Crombie pelo Brasil a fora, não somos mais uma voz solitária na multidão. Mais e mais pessoas começam a acreditar na necessidade de sermos influência cultural fora das 4 paredes litúrgicas e, a cada dia, mais artistas e bandas iniciam projetos nesse caminho.
OP – O guitarrista de vocês, Beto Reinke deixou o grupo em certa época, substituído por Lucas Moser. Com a saída de Lucas, Beto voltou. Como ocorreu essa volta?
A saída do Beto partiu de uma necessidade familiar que lhe exigia um tempo maior de dedicação, tempo este que estava sendo usado com a banda. Logo, a decisão mais coerente com o que acreditamos, só poderia ser a que ele tomou: Deixar a banda para dar atenção à família.
A partir daí fomos em busca de alguém para suprir a necessidade sonora que tínhamos (uma banda de duas guitarras, precisa de duas guitarras) e encontramos no Lucas uma possibilidade muito rica de crescimento, tanto pra gente, quanto pra ele. Depois de pouco mais de um ano como músico convidado, decidimos que era hora dele fazer parte efetiva da banda. Nessa época, o Beto já estava em condições de voltar a se dedicar à banda, e começamos a ensaiar um quinteto. Com o tempo, entretanto, algumas atitudes e posicionamentos (estéticos, teológicos e pessoais) do Lucas começaram a entrar em conflito com o que nós entendiamos ser o DNA da banda. E por conta disso, em um certo momento ele, o Lucas, decidiu que já não dava mais para continuar com a gente, e nós aceitamos a decisão dele.
Assim, voltamos a ser um quarteto tendo o Beto como músico convidado até julho desse ano, quando o efetivamos novamente como membro da banda.
OP – Além da Tanlan, você possui um projeto solo, chamado Feito a mão, que já gerou canções como “Eu” e “Balada de um Andarilho”. O projeto soa bastante diferente da banda, na preferência de sonoridades acústicas. Em sua opinião, a tecnologia hoje mais ajuda ou atrapalha na criatividade?
Sem sombra de dúvidas que ajuda!
Mas ajuda no processo de gravação, não no de criação. Isso acontece com o artista e seu instrumento, um caderninho de notas (que pode ser um celular) e suas ideias. Só depois de a obra ter nascido é que a tecnologia entra para facilitar o processo de registro sonoro.
O projeto “Feito a mão” nasceu de uma necessidade natural de utilizar canções que por diversos motivos, não encontraram espaço na estética da Tanlan. Então, o caminho acabou sendo o projeto solo.
OP – A Tanlan já foi destaque em uma das principais publicações semanais do país – a Revista Época – por fazer parte do que eles chamavam de “A Nova Reforma Protestante”. Na matéria, que foi capa, a banda é citada como parte de um grupo religioso que tenta “recriar o protestantismo à brasileira”. É isso mesmo? Na sua opinião, o que é necessário mudar? Qual seria a forma ideal do cristianismo para você?
Na verdade, fomos citados como uma banda que derruba as barreiras que a cultura gospel criou no país, como uma banda que se comunica tanto com o mercado evangélico, quanto com o convencional.
E mesmo não tendo essa intenção em nossa origem, aceitamos o desafio de criar essa ponte entre o templo e o entretenimento.
OP – No álbum Um dia a Mais, você foi o compositor da maioria das canções, algumas em colaboração com os demais integrantes da Tanlan. Como é o processo de composição do grupo? Quais são as suas inspirações para escrever?
Geralmente, eu escrevo as músicas e mando um áudio pros outros três, a partir daí trabalhamos nos arranjos. Mas acontece de eu já compor a música com todo o arranjo pronto e daí só ensaiamos e amarramos as pontas. Algumas vezes, em grupo, trabalhamos as letras e modificamos drasticamente o arranjo original, até que encontremos a voz que identifique a Tanlan.
Recentemente, como você bem disse, começamos a compor em conjunto. A música “Louco Amor”, é um bom exemplo disso. Nasceu de uma letra que o Fernando Garros (baterista da Tanlan) escreveu e deixou comigo para que eu musicasse. Após algumas versões rejeitadas, modificações na letra e muitos ensaios, chegamos ao que veio se tornar a cação gravada.
Tudo pode ser motivo de inspiração pra gente. Uma frase de algum livro, Uma notícia no jornal, uma mensagem de algum pastor, uma música que tocou no rádio… os estímulos são variados e podem vir de qualquer lugar. Acreditamos que é papel do artista filtrar esses estímulos e decodificá-los em música, pinturas, poemas etc, e é isso que tentamos fazer com nossa arte.
OP – No álbum Um dia a Mais, Marcos Almeida gravou “Vaidade”. No Hope Music Festival, você cantou “Passos Lentos” juntamente com a galera da Aeroilis. Como é sua relação com outras bandas da cena?
Eu sempre acreditei que uma cena só existe quando aqueles que participam dela se comunicam, trocam experiências e provoquem uns aos outros.
Quando começamos, procurávamos “desesperadamente” na internet por outras bandas que estivessem fazendo, ou pensando, o mesmo que a gente. A primeira a encontrarmos foi a Aeroilis. Imediatamente fizemos contato com eles e iniciamos uma relação que dura até hoje, mesmo com eles tendo encerrado suas atividades como banda. E esse hábito de prospectar novas bandas continua até hoje. Sempre que encontro alguma faço questão de entrar em contato.
Quero agregar o máximo de bandas e artistas nessa caminhada. O que eu lamento, é que muitas vezes me sinto o único a pensar assim. Todos estão tão preocupados com o seu, e em fazer a sua história, que esquecem que juntos a gente pode ir mais longe.
Dito isso, é importante concluir que, mesmo tendo a cada dia mais e mais artistas fundamentando seus projetos em visões similares as nossas, não temos ainda uma cena formada. É preciso uma comunicação maior entre esses que já estão consolidados, com os que estão começando para que realmente aconteça uma cena como sonhamos.
OP – Como uma banda que, em grande parte da carreira teve como base a independência, qual é seu pensamento sobre o uso das redes sociais como estratégia para alcance de mais públicos?
É fundamental. A palavra chave em toda história da Tanlan é a “comunicação”. Um artista que não se comunica não é relevante. Não adianta você ser o melhor guitarrista, de mil notas por segundo, se o som que você toca só é perfeito para os anos 80. Precisamos falar a língua da nossa época e é isso que gera comunicação relevante com a cultura.
OP – O que os fãs podem esperar do novo álbum da Tanlan, em fase de composição?
Assim como “Um dia a mais” foi diferente de “Tudo que eu queria”, o próximo será muito diferente do anterior. Queremos sempre nos reinventar, buscar novas referências, fazer o que ainda não fizemos, encontrar soluções que ainda não encontramos, falar o que ainda não falamos e alcançar públicos que ainda não alcançamos. Isso é o que move a Tanlan.
OP – Deixe uma mensagem pros leitores do O Propagador.
Não importa o que você faça, não importa quem você seja, nem onde você esteja, faça tudo que estiver em suas mãos com qualidade e responsabilidade. Seja relevante na sua escola, no seu trabalho, na sua igreja. Não viva uma fé aprendida, mas uma fé vivida. Produza sua arte e espalhe esta esperança que nos move em amor, pelo amor e para o amor. Obrigado pela oportunidade e grande abraço!