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  • Limão com Mel – Quando a música se torna clichê?

    Conversando com o amigo Diego M. Azevedo que tive o prazer de encontrar durante os dias que fiquei no Rio de Janeiro, acabamos chegando num assunto que achei pertinente discorrer em um texto. Afinal, o que faz uma música ser clichê? Quando ela se torna clichê?

    Analisando por um viés da música cristã, entendemos que a nossa música para ser caracterizada como cristã ou gospel como queiram, precisava trazer conceitos e mensagens religiosas, relacionados à fé que pregamos, devendo estar criteriosamente dentro do diz a Bíblia.

    Assim, surge uma dúvida: é possível que músicas baseadas na palavra de Deus se tornem “clichês”? Estaria a principal fonte de inspiração musical evangélica se tornando “batida” e comum?

    Atualmente surge no meio um novo movimento musical, por vezes intitulado de crossoverque não se rotula gospel, mas também não se coloca como secular. Poderíamos colocar que é uma intersecção entre os dois segmentos musicais, sendo possível ser consumida pelos dois mercados sem problema algum, visto que essa música não vem carregada de jargões religiosos, apesar de ter uma essência cristã, mas também não abusa de termos mundanos nem se opõe à vida cristã. Devagar, esse movimento vem conquistando apreciadores, principalmente no lado do “conjunto” evangélico.

    Não se sabe se vem pra ficar, se vai passar. Sabemos que não é algo novo, isso já foi tentado em outro momento da história da música cristã, como a banda Catedral, que por esse motivo foi alvo de inúmeras críticas sendo acusados de trocar a música gospel pela secular. Agora, em um novo momento, com cristãos mais receptivos, pode ser que o movimento frutifique, atualmente defendido por nomes como Palavrantiga, Tanlan, Marcela Taís, entre outros expoentes.

    Mas fugir do comum é fazer algo totalmente diferente? Não seria possível cantar a Bíblia sem os famosos bordões consagrados por cantores de renome, do tipo “Faz chover, chuva de bençãos, Eu vou conquistar, Vou vencer, O Deus de promessas”? Sim é possível. E tem gente mostrando como.

    Um desses nomes responde por Leonardo Gonçalves. Basta pegar o encarte de seu disco pra perceber que as composições não fogem da ótica cristã, mas não é um amontoado de frases feitas extraídas de nenhum almanaque gospel de motivação. Em Principio e Fim, Leonardo consegue mesclar poesia cristã com melodias que nos fazem viajar nas canções, refletir sobre ou apenas se deixar levar. Nessa vibe também surge os irmãos Arrais. Trazendo pela Sony Music o disco Mais, a dupla tem sido muito elogiada pela forma diferenciada como tem trazido mensagens cristãs, sendo considerado por muitos como um dos melhores projetos do ano. Impressionante como as composições são criativas, como são colocadas sem buscar o crossover, e muito menos ser clichê.

    Por fim, vale salientar que não existe fórmula da criatividade, da fuga do clichê. Caso se torne uma fórmula, o criativo e inovador passará a ser o novo clichê. A criatividade está justamente nisso, de fugir aos padrões e modelos, e para isso, não é preciso deixar de cantar a Bíblia, apenas que deixe de ver a música como um mero produto fabricado para vender, voltando a dar à música o status de arte, que é seu por direito.

    E pra você, quando a música gospel se torna clichê?

  • Entrevista: Fábio Sampaio (Tanlan)

    Fábio Sampaio, conhecido por sua atividade como vocalista da banda de rock alternativo Tanlan é o entrevistado de hoje pelo O Propagador. A banda completa cerca de dez anos, com dois álbuns lançados e em um disco em produção. Abaixo, o cantor fala sobre seus projetos musicais dentro e fora da banda, e os rumos do novo movimento. Confira!

    O PROPAGADOR – A Tanlan existe há praticamente dez anos, sendo o primeiro EP lançado em 2005. De lá pra cá, o que mais mudou em vocês (pra melhor)?
    Acredito que esses dez anos foram essenciais para formar nossa identidade estética e lírica. Mas não dá pra responder essa pergunta sem contar um pouco da nossa história.

    Quando começamos, ninguém falava de Rookmaaker ou Schaeffer. Não existia um embasamento teórico/teológico para o que a gente fazia. E isso produzia uma reação muitas vezes negativa de algumas igrejas. Exatamente por isso, quando a Tanlan nasceu, nós não participávamos de nada que envolvesse igreja. Eramos uma banda como outra qualquer abrindo espaço no difícil caminho das bandas autorais em Porto Alegre: Festivais, bares, covers etc.

    Com o tempo, a seriedade com a qual encarávamos nosso trabalho foi sendo conhecida por muitos, o que nos levou a receber vários convites para participarmos de eventos evangélicos dentro e fora do estado. Hoje, depois da popularização de bandas como Palavrantiga e Crombie pelo Brasil a fora, não somos mais uma voz solitária na multidão. Mais e mais pessoas começam a acreditar na necessidade de sermos influência cultural fora das 4 paredes litúrgicas e, a cada dia, mais artistas e bandas iniciam projetos nesse caminho.


    OP – O guitarrista de vocês, Beto Reinke deixou o grupo em certa época, substituído por Lucas Moser. Com a saída de Lucas, Beto voltou. Como ocorreu essa volta?

    A saída do Beto partiu de uma necessidade familiar que lhe exigia um tempo maior de dedicação, tempo este que estava sendo usado com a banda. Logo, a decisão mais coerente com o que acreditamos, só poderia ser a que ele tomou: Deixar a banda para dar atenção à família.

    A partir daí fomos em busca de alguém para suprir a necessidade sonora que tínhamos (uma banda de duas guitarras, precisa de duas guitarras) e encontramos no Lucas uma possibilidade muito rica de crescimento, tanto pra gente, quanto pra ele. Depois de pouco mais de um ano como músico convidado, decidimos que era hora dele fazer parte efetiva da banda. Nessa época, o Beto já estava em condições de voltar a se dedicar à banda, e começamos a ensaiar um quinteto. Com o tempo, entretanto, algumas atitudes e posicionamentos (estéticos, teológicos e pessoais) do Lucas começaram a entrar em conflito com o que nós entendiamos ser o DNA da banda. E por conta disso, em um certo momento ele, o Lucas, decidiu que já não dava mais para continuar com a gente, e nós aceitamos a decisão dele.

    Assim, voltamos a ser um quarteto tendo o Beto como músico convidado até julho desse ano, quando o efetivamos novamente como membro da banda.


    OP – Além da Tanlan, você possui um projeto solo, chamado Feito a mão, que já gerou canções como “Eu” e “Balada de um Andarilho”. O projeto soa bastante diferente da banda, na preferência de sonoridades acústicas. Em sua opinião, a tecnologia hoje mais ajuda ou atrapalha na criatividade?

    Sem sombra de dúvidas que ajuda!

    Mas ajuda no processo de gravação, não no de criação. Isso acontece com o artista e seu instrumento, um caderninho de notas (que pode ser um celular) e suas ideias. Só depois de a obra ter nascido é que a tecnologia entra para facilitar o processo de registro sonoro.

    O projeto “Feito a mão” nasceu de uma necessidade natural de utilizar canções que por diversos motivos, não encontraram espaço na estética da Tanlan. Então, o caminho acabou sendo o projeto solo.


    OP – A Tanlan já foi destaque em uma das principais publicações semanais do país – a Revista Época – por fazer parte do que eles chamavam de “A Nova Reforma Protestante”. Na matéria, que foi capa, a banda é citada como parte de um grupo religioso que tenta “recriar o protestantismo à brasileira”. É isso mesmo? Na sua opinião, o que é necessário mudar? Qual seria a forma ideal do cristianismo para você?

    Na verdade, fomos citados como uma banda que derruba as barreiras que a cultura gospel criou no país, como uma banda que se comunica tanto com o mercado evangélico, quanto com o convencional.

    E mesmo não tendo essa intenção em nossa origem, aceitamos o desafio de criar essa ponte entre o templo e o entretenimento.


    OP – No álbum Um dia a Mais, você foi o compositor da maioria das canções, algumas em colaboração com os demais integrantes da Tanlan. Como é o processo de composição do grupo? Quais são as suas inspirações para escrever?

    Geralmente, eu escrevo as músicas e mando um áudio pros outros três, a partir daí trabalhamos nos arranjos. Mas acontece de eu já compor a música com todo o arranjo pronto e daí só ensaiamos e amarramos as pontas. Algumas vezes, em grupo, trabalhamos as letras e modificamos drasticamente o arranjo original, até que encontremos a voz que identifique a Tanlan.

    Recentemente, como você bem disse, começamos a compor em conjunto. A música “Louco Amor”, é um bom exemplo disso. Nasceu de uma letra que o Fernando Garros (baterista da Tanlan) escreveu e deixou comigo para que eu musicasse. Após algumas versões rejeitadas, modificações na letra e muitos ensaios, chegamos ao que veio se tornar a cação gravada.

    Tudo pode ser motivo de inspiração pra gente. Uma frase de algum livro, Uma notícia no jornal, uma mensagem de algum pastor, uma música que tocou no rádio… os estímulos são variados e podem vir de qualquer lugar. Acreditamos que é papel do artista filtrar esses estímulos e decodificá-los em música, pinturas, poemas etc, e é isso que tentamos fazer com nossa arte.


    OP – No álbum Um dia a Mais, Marcos Almeida gravou “Vaidade”. No Hope Music Festival, você cantou “Passos Lentos” juntamente com a galera da Aeroilis. Como é sua relação com outras bandas da cena?

    Eu sempre acreditei que uma cena só existe quando aqueles que participam dela se comunicam, trocam experiências e provoquem uns aos outros.

    Quando começamos, procurávamos “desesperadamente” na internet por outras bandas que estivessem fazendo, ou pensando, o mesmo que a gente. A primeira a encontrarmos foi a Aeroilis. Imediatamente fizemos contato com eles e iniciamos uma relação que dura até hoje, mesmo com eles tendo encerrado suas atividades como banda. E esse hábito de prospectar novas bandas continua até hoje. Sempre que encontro alguma faço questão de entrar em contato.

    Quero agregar o máximo de bandas e artistas nessa caminhada. O que eu lamento, é que muitas vezes me sinto o único a pensar assim. Todos estão tão preocupados com o seu, e em fazer a sua história, que esquecem que juntos a gente pode ir mais longe.

    Dito isso, é importante concluir que, mesmo tendo a cada dia mais e mais artistas fundamentando seus projetos em visões similares as nossas, não temos ainda uma cena formada. É preciso uma comunicação maior entre esses que já estão consolidados, com os que estão começando para que realmente aconteça uma cena como sonhamos.


    OP – Como uma banda que, em grande parte da carreira teve como base a independência, qual é seu pensamento sobre o uso das redes sociais como estratégia para alcance de mais públicos?

    É fundamental. A palavra chave em toda história da Tanlan é a “comunicação”. Um artista que não se comunica não é relevante. Não adianta você ser o melhor guitarrista, de mil notas por segundo, se o som que você toca só é perfeito para os anos 80. Precisamos falar a língua da nossa época e é isso que gera comunicação relevante com a cultura.


    OP – O que os fãs podem esperar do novo álbum da Tanlan, em fase de composição?

    Assim como “Um dia a mais” foi diferente de “Tudo que eu queria”, o próximo será muito diferente do anterior. Queremos sempre nos reinventar, buscar novas referências, fazer o que ainda não fizemos, encontrar soluções que ainda não encontramos, falar o que ainda não falamos e alcançar públicos que ainda não alcançamos. Isso é o que move a Tanlan.


    OP – Deixe uma mensagem pros leitores do O Propagador.

    Não importa o que você faça, não importa quem você seja, nem onde você esteja, faça tudo que estiver em suas mãos com qualidade e responsabilidade. Seja relevante na sua escola, no seu trabalho, na sua igreja. Não viva uma fé aprendida, mas uma fé vivida. Produza sua arte e espalhe esta esperança que nos move em amor, pelo amor e para o amor. Obrigado pela oportunidade e grande abraço!

  • Dia do rock: Live Aid, movimento e 2014

    Da esquerda para a direita: John Deacon, Brian May e Freddie Mercury, três dos quatro integrantes do Queen

    Um gênero musical inicialmente com pequeno prazo de validade transformou-se num dos maiores, se não o maior movimento musical do último século. Em várias décadas, várias vertentes, que demonstraram várias exposições de ideias e valores deram corpo ao rock tão multifacetado que temos hoje.

    Se hoje temos uma visão abrangente do que tudo isso representou para a cultura mundial, gostaria de pensar em 1985, no dia 13 de julho, quando Bob Geldof organizou o evento em prol da fome na Etiópia, contando com a participação de vários artistas e bandas da música popular. O evento prometia bastante, com a reunião do Led Zeppelin (que tinha acabado em 1980 com a morte do baterista John Bonham), a volta de Paul McCartney aos palcos depois do susto e lamento causado pelo assassinato de seu ex-companheiro de Beatles John Lennon, e também a participação do The Who, que estava em hiato.

    Cada artista tinha exatos vinte minutos para apresentação, e de todos, quem roubou a cena foi o Queen. O quarteto, formado por John Deacon, Brian May, Freddie Mercury e Roger Taylor embalou o público, de 82 mil pessoas com canções como “Bohemian Rhapsody”, “Radio Ga Ga” e “Hammer to Fall”. A icônica presença de palco de Mercury tornou-se uma prova de que o cantor e compositor era uma lenda viva, e sua performance foi considerada a melhor apresentação de uma banda de rock na história.

    O Live Aid foi uma prova de que as questões sociais sempre estiveram, de certa forma paralelo ao rock como gênero musical. A expressão fora do conservadorismo da juventude da época era talvez uma busca pela contracultura do movimento hippie dos anos 60. O evento foi tão importante que em 2005 Bob organizou o Live 8, com intenções distintas, mas com um impacto enorme. A reunião da formação clássica do Pink Floyd (dividida desde meados de 1981) marcou o evento. Foi a única reunião da banda em sua história, já que em 2008 o tecladista Richard Wright morreu de câncer.


    No ambiente cristão

    O rock fez lembrar, através de uma juventude cristã influenciada pelo gênero muitas questões esquecidas e ignoradas pela “bolha religiosa”. Se por um lado, ainda, em pleno século XXI há um enorme preconceito ao rock feito por cristãos por parte de antirreligiosos, podemos considerar que o rock fez um belo serviço ao mundo cristão.

    Em 2014, recolhemos algumas lembranças e comemorações no cenário nacional. A banda Resgate, que já gravou quase dez álbuns em vinte e cinco anos de carreira soma uma discografia admirável, mantendo a mesma formação de seu início. Sem dúvida, um quarto de século merecido que gerará uma gravação este ano. Dando mais surpresas ainda, o Rebanhão se reunirá após quase quinze anos inativo para gravar um DVD no Rio de Janeiro, previsto para novembro e com turnê no país em 2015, comemorando os 35 anos da banda fundada em 1979. Ambos os grupos quebraram paradigmas em seu tempo, na luta por uma expressão de fé mais livre e mais preocupada com o contexto atual.

    Parte das bandas novas da cena independente tentam um caminho mais ousado, o chamado novo movimento, também conhecido popularmente como “crossover” (leia o artigo sobre o assunto) que tenta, de uma vez por todas expressar a fé sem o uso do “evangeliquês” ou conceitos que muitas vezes não fazem sentido para quem nunca teve contato mais profundo com temas do ambiente cristão. Destas bandas, temos como destaques Tanlan, Quarto Fechado, a extinta e precursora Aeroilis, Hibernia, Memora, Palavrantiga e muitas outras.

    Que venham mais dias mundiais do rock!

  • Rocklogia – Desmistificando o novo movimento ou crossover no meio cristão

    Atenção: A opinião do autor mudou. Após ler o texto, leia Desafios para o novo movimento.

    Eu me nego a usar a palavra crossover neste contexto. Vamos apenas de novo movimento.

    Com a popularidade de bandas e artistas como Tanlan e Palavrantiga, tem crescido a discussão de vários assuntos nos meios virtuais, como portais de notícias e redes sociais. Um destes, sendo o principal é: até onde vai a interação da “música religiosa” em espaço “não-religioso”? A própria pergunta possui um raciocínio errado. Mas vamos com calma, e entender o que é, com quem começou e disseminou esta ideologia. Eu, particularmente abordaria esse assunto apenas daqui a uns meses, para não atropelar a linha do tempo que vou apresentar sobre a história do rock cristão no Brasil aqui na Rocklogia. Mas, como o tema tem gerado confusão, é de certa urgência apresentar a minha visão particular e do que tenho lido sobre o assunto vindo de quem mais entende: os próprios criadores dessa música.

    Antes de tudo: Janires, Catedral e João Alexandre não são nomes do novo movimento. Se você observar isso escrito em qualquer lugar, não acredite. No caso de Janires, era um músico comum que se converteu ao cristianismo e decidiu colocar a sua visão de mundo nas músicas para evangelização. O cantor não tinha um propósito filosófico e extremamente conceitual em sua obra. Fazia o que sua criatividade permitia e o público que identificasse o abraçaria. Óbvio que ele é um dos nossos melhores referenciais de como olhar fora da caixa, mas não é o mesmo que temos atualmente. No caso do Catedral, surgiu como uma banda de rock cristão como qualquer outra, que mais tarde construiu uma ideia de fazer uma música para todos os públicos. Ou seja, o grupo nasceu segmentado e depois tentou subverter esta situação. A Catedral conseguiu atingir o mercado secular? Sim, e com êxito! Mas não pode ser chamada como integrante do novo movimento porque não nasceu com essa ideia. João Alexandre nunca negou ser um cantor do mercado evangélico, ou colocar um cristianismo claro e direto em suas canções. Possui seu lado poético e artístico, mas continua sendo um músico com rótulo cristão. Quando o cantor afirmou não querer mais fazer parte do chamado “movimento gospel”, não negou sua veia cristã, mas referindo-se ao movimento ocorrido no final dos anos 80, no qual a Renascer em Cristo foi a principal instituição colaboradora.

    Esclarecido um ponto importante, surge uma pergunta: o que é novo movimento? Novo movimento é, como seu título define um movimento musical (não um estilo) em que a arte produzida não é segmentada por barreiras religiosas, ou até mesmo antirreligiosas. Um movimento em que a fé do indivíduo não é mais importante que o conteúdo no qual é apresentado. Não é um movimento nascido no “gospel” para atingir o “secular”. Até porque, em concepção o novo movimento não nasce dentro da música religiosa, mas desde o início desconsidera os muros existentes para invadir todos os ambientes e não ser contaminado pela perspectiva atual. É, claro, que por consequência, o fato de atingir um “público cristão” fará com que muitos, até de forma inocente o rotule como um artista/banda gospel. Uma das consequências que o novo movimento pretende trazer é uma transformação de todos os mercados “segmentados” que o envolvem para que seus efeitos perdurem com o passar do tempo.

    E por que se chama “novo movimento”? O nome “novo movimento” foi utilizado pela primeira vez pelo músico Arvid Auras, um baterista que foi integrante e o principal compositor da banda Aeroilis, conhecida como a precursora do movimento. Neste texto, produzido pelo instrumentista, ele conceitua a expressão. Infelizmente, não posso transcrevê-lo, porque o site da banda encontra-se inativo. No início do texto, eu disse que não gosto de utilizar a palavra “crossover”, porque o significado desta expressão, em sentido original e principal se refere ao fato de misturar dois ou mais gêneros musicais, o que tem pouco, ou definitivamente nada a ver com o que o novo movimento propõe em sua concepção. Entretanto, ainda assim o termo ainda é utilizado no exterior para designar cristãos que romperam as barreiras do mercado cristão e expandiram seu trabalho para um público maior e mais heterogêneo.

    O novo movimento também coincide com um momento de descontentamento de uma parcela de cristãos (ainda pequena), tanto com teologias nas quais mantém contato, seja pelas igrejas/instituições que frequentam e músicas produzidas por artistas do mainstream gospel. A busca por um conteúdo relevante, sincero, profundo e que não é uma mera propaganda de uma crença ou placa de denominação pode explicar o êxito que artistas do underground estão alcançando atualmente, principalmente com o advento da internet. Incluindo o contexto pós-moderno, em que muitas pessoas procuram algo etéreo, mas fora dos padrões religiosos que temos, a música apresentada pelo novo movimento cai como uma luva para esses indivíduos.

    E por que o “novo movimento” causa tanta confusão? Para começar, há pouco material disponível sobre o assunto, e a conceituação por jornalistas e blogueiros é confusa e superficial. A inclusão de nomes que não fazem parte do movimento, ou até mesmo a linha de pensamento em que ele é restrito as bandas de rock, o que não é. Segundo, porque a própria “música gospel” brasileira, mesmo com suas limitações líricas está chegando numa mídia que não pertence ao nicho evangélico. Estes artistas que estão em destaque, por alcançarem novos públicos (embora não fidelizem) são denominados, de forma incorreta como algo semelhante ao novo movimento. Terceiro, porque achamos que, para ser integrante do novo movimento, o público deve de alguma forma falar pelo conteúdo do artista. Se o artista, com seu conteúdo ainda possui um público muito homogêneo, somos levados a pensar que a tentativa é falha. Quarto e mais importante: a nossa mentalidade dualista de dividir a música “profana” da “sagrada” é algo tão enraizado na nossa cultura (principalmente aqui no Brasil) que é, de certa forma muito complexo definirmos com clara exatidão o que esses desbravadores de novas linguagens e abordagens estão fazendo. Isso me lembra do desconforto que temos em pensar no pós-modernismo com nossa perspectiva modernista. Talvez, a minha metáfora seja absurda, mas é a visão que tenho.

    A Aeroilis foi a primeira banda que nasceu com essa ideologia no Brasil (lembremo-nos que no exterior temos várias outras) e lançou seu primeiro álbum em 2004, tal qual é considerado o primeiro trabalho desse movimento. No ano seguinte, a Tanlan lançou seu primeiro EP, e ambos os grupos são os precursores. De certa forma, influenciaram tanto que a maioria das bandas de rock que compartilham dessa visão são da região sul do Brasil. E, por minha suposição, creio que Palavrantiga alcançou mais sucesso por três motivos: tem sua origem na região sudeste, sua aparição foi mais tardia e a imagem/discurso de Marcos Almeida, que de certa forma se destacou de uma forma diferente e tomou novas abordagens, principalmente com seu portal Nossa Brasilidade.

    O vocalista e frontman da Tanlan, Fábio Sampaio citou artistas e bandas que crê serem do novo movimento, que são: Aeroilis, Hibernia, Marcela Taís, Crombie, Lorena Chaves, Danni Distler, Eduardo Mano, Banda Salt, Grato!, Hélvio Sodré, Adriel Nephesh, Primerandar, Os Oitavos, Quarto Fechado, Palavrantiga e Tanlan. Eu, particularmente também incluiria Bruno Branco, Memora e Matina. Aeroilis e Fábio Sampaio já tocaram juntos, Tanlan já gravou com Marcos Almeida. Várias outras parcerias entre esses nomes poderiam ser mencionadas aqui.

    Para finalizar, creio que é importante citar a obra de um filósofo que influenciou a proposta de algumas, senão todas essas bandas e artistas. O livro “A arte não precisa de justificativa”, de Hans Rookmaaker provavelmente seja a leitura mais indispensável para quem deseja entender a fundo as ideias do novo movimento. Convido você, assim como eu a entender mais profundamente esse movimento dentro da música nacional, e não sermos levados por uma visão de patamar comum sobre o assunto.

  • Análise: CD Um dia a Mais – Tanlan

    Há poucos anos em atividade, mas com uma maturidade e proposta musical admirável. A banda de rock gaúcho Tanlan chega ao mercado nacional com seu segundo álbum de estúdio, intitulado Um dia a Mais, produzido de forma independente com distribuição da gravadora Sony Music Brasil.

    Segundo o vocalista do grupo, Fábio Sampaio o repertório deste trabalho responde a algumas perguntas feitas no álbum de estreia, Tudo que eu queria, lançado em 2008. Um dia a Mais foi gravado em estúdios na cidade de Porto Alegre dentre fevereiro e junho de 2012, e foi masterizado no Sterling Sound, localizado em Nova York, EUA. A mixagem do trabalho ficou a cargo de Fábio Sampaio, que também assina a maior parte das faixas do álbum.

    O projeto gráfico do disco foi produzido pela agência NaMassa, e apresenta uma imagem de bom gosto que remete ao tema da obra. Vamos às faixas.

    A primeira canção é Louco Amor. A partir desta nota-se bem as diferenças letrísticas contidas neste trabalho em relação ao anterior. Aqui, o amor de Deus é tratado de forma simples e popular. Nos arranjos, vários riffs interessantes e uma presença forte de sintetizadores, principalmente na introdução.

    Numa pegada mais pesada que anterior, temos Meu nome, Meu sangue, que também recebeu uma versão em videoclipe. A faixa conta com uma presença maior e percussiva da bateria, lembrando muito sonoridades gringas. Uma das melhores.

    Um dia a Mais é bastante parecida com as canções do CD Tudo que eu queria. Na letra, temos aqui um questionamento acerca da motivação humana de viver, perguntando ao ouvinte o que o faz acordar toda a manhã, se há algum motivo ou não. Destaco, instrumentalmente a sonoridade bate-estaca da bateria e a dinâmica instrumental da banda.

    A música acabou é uma das faixas mais leves e religiosas do repertório. Contando com uma presença maior da guitarra no início, e ganhando um peso gradativo e minimalista, é uma canção agradável de ouvir. Destaque para a interpretação de Fábio Sampaio.

    A seguir, temos Hermético, bem alternativa, mescla momentos com fortes riffs de guitarra com uma sonoridade do baixo bem presente. A necessidade de nos desligarmos de nossos conceitos, o individual universo particular e viver a vontade de Deus é tratada na canção de uma forma bem simples e entendível.

    O primeiro single divulgado do álbum, há um bom tempo foi a canção De Onde Vem, que possui umas das sonoridades e letras mais comerciais do projeto. Contando com uma introdução bem eletrônica, riffs bem marcados e uma bateria que lembra algumas das faixas anteriores, a música versa sobre o novo lar que teremos após essa vida.

    Seguindo o clima alternativo, temos Meu Defeito, que se destaca nos arranjos do baixo, e em seguida com a bateria, bem marcada do início ao fim. Sua letra versa sobre erros e fatalidades do passado, e a necessidade de continuar em meio às dificuldades.

    Ser ou Não Ser possui, em sua letra uma base consideravelmente filosófica, fazendo afirmações na linha de “Um dia a mais”. Qual a importância da vida? O que é viver? O refrão da faixa é cativante e rapidamente marca na mente.

    A canção mais “gospel” do trabalho é Sobre o Amor, que possui forte influência do folk rock, contando com violões na intro, e a seguir bons arranjos de baixo, que contribuem para o clima vertical contido na letra. Canção de entrega, pouco poética, mas bem articulada, gostei.

    Quero Viver é uma bem pop rock, e versa a respeito da nossa caminhada constante para a vida vindoura através de um encontro com Deus. Excelentes riffs na introdução e arranjos do baixo nas primeiras estrofes.

    Também uma das primeiras canções divulgadas, e dentre as melhores do repertório, temos Fingir. Com um título bem sugestivo, versa sobre a duplicidade humana, a necessidade que o indivíduo tem de fingir para as pessoas que está vivendo como deveria, fugindo dos problemas e das situações. No arranjo, destaque para a sonoridade bate-estaca da bateria.

    Fechando o álbum positivamente, temos o folk Vaidade, com a participação especial do cantor Marcos Almeida, ex-back e tecladista de Heloisa Rosa e vocalista do Palavrantiga, banda de destaque no nicho. A letra é a melhor do repertório, e exprime bem o conceito eclesiástico de vaidade, mas trazendo a afirmação de que a vida ainda vale a pena. Ainda há a presença de metais no final da canção, e destaco a ótima interpretação vocal de Marcos Almeida. Excelente.

    Finalmente, deixo minhas considerações gerais acerca da obra. É um álbum excelente, diferindo bastante de Tudo que eu queria em alguns pontos, principalmente na parte letrista, ao qual posso considerar mais “gospel” que o anterior. Os arranjos estão bem elaborados, mesclando bem várias vertentes como o rock alternativo, pop rock e folk rock. O desafio, agora para a Tanlan é firmar seu nome no mainstream, pois qualidade e coesão em seu trabalho a banda já tem.

  • TOP 10 – Melhores álbuns gospel de 2012

    2012 foi um ano bastante produtivo para a produção da música cristã brasileira. Grandes nomes lançaram grandes discos e, claro, grandes nomes decepcionaram… Tendo em vista o nosso movimentado ano, listamos aqui o nosso TOP 10 com os melhores álbuns lançados em 2012.


    Novos Horizontes - Brenda10º: Novos Horizontes – Brenda

    Brenda é uma das jovens mais promissoras da música gospel nacional. Em seu segundo disco, Novos Horizontes, lançado pela Sony Music, a cantora supera em qualidade seu álbum de estreia e mostra porque merece ser reconhecida. Dona de uma voz potente e dominando graves e agudos com muita eficiência, Brenda passeia por alguns estilos sem perder a qualidade, indo do pentecostal ao pop com naturalidade. (texto por Tayse Souza)

    Leia a resenha do álbum Novos Horizontes aqui.

    Ouça: Invisível, Adorarei e O Meu Deus


    Escolhidos - Elaine de Jesus - 20129º: Escolhidos – Elaine de Jesus

    Corrigindo os erros de Celestial, Elaine de Jesus veio com uma produção musical e repertório mais comedido e bem trabalhado. Especialmente pela participação do baterista da Oficina G3, Alexandre Aposan, nas músicas, o trabalho merece destaque pela qualidade instrumental. (texto por Tiago Abreu)

    Ouça: Provocando Milagres, Hoje Tem Festa e Que Ele Cresça


    Sobre o Mesmo Chão - Palavrantiga8º: Sobre o Mesmo Chão – Palavrantiga

    O álbum tem onze faixas, sendo todas de autoria de Marcos Almeida e liricamente expande ideias do novo movimento. Foi gravado no estúdio Diante do Trono, tendo a produção de Jordan Macedo. (texto por Thallyson Borba)

    Leia a resenha do álbum Sobre o Mesmo Chão aqui.

    Ouça: Branca, Rio Torto e De Manhã


    Diante do Trono 15 - Creio7º: Creio – Diante do Trono

    O Diante do Trono nos presenteou com um CD que podemos ouvir do começo ao fim. Sem espontâneos, sem melancolias… A decisão de dar mais espaço para o vocal masculino nos solos deixou o CD com uma pegada bem mais pop rock e promete agradar até mesmo os que já haviam cansado do grupo. (texto por Gesson Nunes)

    Leia a resenha do álbum Creio aqui.

    Ouça: Em Tua Presença, Escudo e Proteção e Casa de Oração


    David Quinlan - Um Lugar para Dois - 20126º: Um Lugar para 2 – David Quinlan

    Intimista, suave, mas não dormente, Um Lugar para 2 é dotado de riqueza musical e transmite, muito bem, a proposta de intimidade com o Pai que o disco quer passar. Destacando-se pelas várias participações especiais, demonstra, claramente, o amadurecimento de David Quinlan.  (texto por Tiago Abreu)

    Leia a resenha do álbum Um Lugar para 2 aqui.

    Ouça: Vem Dançar, Rei do Universo e Aumenta Minha Fé


    Um Dia a Mais - Tanlan - 20125º: Um Dia a Mais – Tanlan

    Desta vez como um trio, Um Dia a Mais marca uma Tanlan mais básica, direta e menos experimental. Com forte influência do post-grunge característico de bandas como o Foo Fighters, o disco segue de forma muito “pra cima”, com composições próprias, bem trabalhadas, e produção impecável. (texto por Tiago Abreu)

    Leia a resenha do álbum Um Dia a Mais aqui.

    Ouça: Fingir, Vaidade e Meu Nome, Meu Sangue


    Teus Sonhos - Fernandinho4º: Teus Sonhos – Fernandinho

    Teus Sonhos, novo álbum de Fernandinho teve a missão de dar continuidade ao grande Uma Nova História. Grande parte do repertório contém composições próprias. Tecnicamente, o disco tem contribuição de profissionais estrangeiros que enriqueceram o trabalho, desde a captação de áudio ao vivo por Gabe Wilson, a parceira na produção com John Hartley (Nashville), mixagem por Shane Wilson (EUA) e Sam Gibson (Inglaterra). (texto por Danilo Andrade)

    Leia a resenha do álbum Teus Sonhos aqui.

    Ouça: Jesus, Filho de Deus, Teus Sonhos e Infinitamente Mais


    A Poesia Caminha... - Jorge Camargo e Gladir Cabral3º: A Poesia Continua… – Jorge Camargo e Gladir Cabral

    Os talentosos músicos Jorge Camargo e Gladir Cabral se juntaram para cantarem músicas dedicadas a várias cidades do mundo. A riqueza de versos gerou tributos a muitas metrópoles do nosso planeta: Barcelona, Luanda, Londres, Buenos Aires, Lisboa, Veneza, Bagdá, Paris, Havana, Nova York, Rio de Janeiro, Jerusalém e Pasárgada. Sem dúvida, vale ouvir. (texto por Tiago Abreu)


    Resgate - Este Lado para Cima2º: Este Lado Para Cima – Resgate

    Quando você pensa que quatro músicos na meia idade ainda possuem fôlego e moral para fazerem músicas questionadoras e de “protesto” acerca do quão horrível anda o meio evangélico, você chega a conclusão que esta é uma grande banda. Resgate, especialmente sob o incômodo de Zé Bruno, produziu um disco que se encaixa perfeitamente nos lamentos de nosso tempo, e alerta sobre a necessidade de voltarmos para o Senhor sob arranjos crus, fortes, que nos remetem a orgânica do grande clássico On the Rock. (texto por Tiago Abreu)

    Ouça: Eles Precisam Saber, Eu Estou Aqui e Errando e Aprendendo


    Leonardo Gonçalves - Princípio e Fim - 20121º: Princípio e Fim – Leonardo Gonçalves

    Leonardo Gonçalves já é sinônimo de qualidade musical. Tudo que ele faz se destaca pela busca por excelência. Princípio e Fim não foge a regra e até soa mais coeso, assumindo um som pop muito bem produzido. Leo é sofisticado, talentoso, tem ótimo gosto musical e soube imprimir o conceito de eternidade de forma inteligente e sutil a obra, que mescla composições de Leonardo, Daniela Araújo e de outros músicos/cantores, sem se desprender da excelente temática. (texto por Tayse Souza)

    Ouça: Sublime, Novo e Bondade


    E pra você, quais foram os melhores álbuns gospel de 2012? Concorda com nossa opinião? Comente!