Um Brinde – Graduando em pessimismo

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Pessimismo: disposição de espírito que leva o indíviduo a encarar tudo pelo lado negativo, a esperar de tudo o pior. (Aurélio – versão eletrônica)

Há não muito tempo fui perguntado porque sempre via as coisas pelo lado negativo. A resposta mais segura, rápida e óbvia que encontrei foi: “porque ele existe”. Mas é claro que não sou pessimista de forma integral daquele tipo que quando vê uma nuvem se formando no céu já prever uma tempestade agonizante de chuva. Arnold Bennett disse que o pessimismo, depois de se acostumar a ele, é tão agradável quanto o otimismo. Então é nessa classe, segundo o Bennett, que eu entro. A classe de pessoas que tem uma cosmovisão ampla a duas esferas de pensamentos. Uma delas é a “vai dar certo / eu acredito” e a outra é “vai dar errado / eu não acredito”. O meu amigo Thiago Junio escreveu um artigo aqui no O Propagador intitulado Um pessimista chamado cristão, em sua coluna Conectados no Amor. Pude tirar algumas boas referências de seu texto para construir esse falho e imperfeito artigo. Que Deus nos guie pela Sua verdade.

“…ser pessimista antes de tudo é ser feliz”

O Thiago conseguiu colocar em um só texto, todo o lado poético e introspectivo de alguém que conhece sua essência. Ser pessimista, é de fato, ser feliz. Eu entendo que o otimismo e seus contrapontos servem de base para crer em bons momentos futuros, como válvula de escape para um problema, digamos assim, e como fonte de inspiração pra vida. Portanto, um pessimista não constrói bases superficiais e não se deprime ao ver algo dando incrivelmente errado, por que? Porque ele não cogitou a possibilidade. E isso serve para os otimistas: cogitar a possibilidade do seu carro quebrar no meio do trânsito frenético em horário de pico e do seu gás acabar no meio de um jantar importante com o seu chefe. Imagine se o rei no dia do casamento de sua filha esquece de pôr a coroa. As pessoas esperam que as coisas deem certo, e se não dão, se entristecem e começam a achar culpados.

“Eu sou pessimista com a nossa situação. Veja os fatos e compare com suas simpatias”

Um pouquinho antes dessa afirmação, o Thiago diz: “Eu não acredito em pessoas. Elas acreditam que se vestir de vermelho vai trazer o amor perfeito da vida delas. Como? É por isso que continuam solteiras e chupando manga.” Contra fatos não há argumentos. Aqui em casa existe uma política de fim de mês, quando as coisas apertam financeiramente meus pais dizem que “Deus proverá”. Mas o engraçado (ou não) é que todo fim de mês a situação aperta financeiramente, e todo fim de mês eu ouço o clichê “Deus proverá”. Contra fatos não há argumentos. Eu não consigo crer que um evento marcado para ás 19hs vai começar ás 19hs. Não passa em minha mente que ateu irá entender a importância da morte de Jesus na cruz. Não cabe a mim acreditar que um time irá ganhar uma partida porque o outro tem um jogador a menos. Sim, eu sou pessimista. As pessoas são hipócritas e injustas, não dá para crer em seres corruptos desse nível, como eu. É impossível para mim crer em pessoas que com a mesma boca que usam para cantar lindas canções a usam para falar mal do vizinho e condenar o impostor da rua. Eu não consigo crer em pessoas más pois eu sou uma. Não consigo sequer crer em mim pois reconheço meus limites e do quanto sou fraco. O Thiago diz mais a frente: “…não deposite sua confiança em homens, mas principalmente em você mesmo. Essa filosofia hedonista que estão impregnando nas cabeças dos seres terrestres só vai te ensinar o quanto você é fracassado, pois você é mesmo”. Concluindo essa parte, não consigo crer em pessoas que usam o argumento de que a vida é curta para desperdiçá-la com coisas vãs.

“As pessoas não sabem sonhar”

Este é o ponto do texto do Junio a qual eu mais me identifico. Nós, seres humanos, temos o ridículo hábito de sonhar com casa própria, carro na garagem, família linda e um emprego bem sucedido, quando não, pessoas como eu, querem divulgar seu trabalho. Algum pecado nisso? Depende. Refaça a pergunta. Algum problema nisso? Não. O problema está na auto valorização. Jesus não se importava em dormir bem e nem tão pouco se iria comer no dia seguinte, mas Ele se importava veementemente com o sono e a fome de seus discípulos. Não sabemos sonhar, pois 99,9% de nossos sonhos são embasados em dinheiro e por dinheiro os homens são capazes de matar. “Quanto mais damos lucros e valores a objetos, mais eles nos escravizam. Imagina só: homens se matam, provocam contendas, divisões, por causa de um papelzinho. É por isso que os ET’s não pousam na terra”. Sinceramente, eu não consigo crer em padrões sociais bem sucedidos pois isso foi/é/será a causa de injustiças. O rapper Rashid em uma de suas letras diz: “desculpa a sinceridade mas alguém tem que perder pro meu time ganhar”. As pessoas fazem isso o tempo todo. Quando componho uma música ou escrevo algo, o mínimo que eu espero de quem ouve/ler é que aquilo ficou ruim. Se a resposta for o oposto, não terei tempo e nem emoção para vangloriar-me pois eu esperei o fracasso e fui surpreendido com algo bom.

“Sim, eu sou pessimista porque maldito é o homem que confia no homem”

Se o seu otimismo até hoje esteve baseado na confiança que você tem no seu semelhante, considere-se maldito. Não sou eu e nem o Thiago Junio que afirmamos isso, é a própria bíblia em Jeremias 17:5. A mesma bíblia afirma que o cobiçoso (essa espécie de pessoas que querem a vida ‘perfeita’ do outro) levanta contendas (Pv 28:25) e que quem confia em si é insensato (Pv 28:26). Não consigo alimentar minha vaidade, pois ela será minha própria recompensa (Jó 15:31) e não acredito nos ricos, financeiramente falando, os quais põem seus corações nisso, porque a bíblia me alerta desse perigo (Sl 62:10). Não dá para confiar em deputados, presidentes, reis e nem príncipes, filhos de homens, pois neles não há piedade (Sl 146:3).

O que esperar de uma sociedade composta por homens pecadores se não o pior? Mas assim como o Thiago Junio concluiu seu texto, encerro o meu dizendo que minha fé não é pessimista. “Ela é esperançosa, sobre todo horror que se pode tirar desses pobres homens instalados na máquina terrestre, o antivírus contra o vírus chamado pecado.” o autor finaliza dizendo que é o pessimista mais esperançoso do mundo. E sabe de uma coisa? Nós cristãos somos mesmo. Agora que você terminou de ler este texto pode pegá-lo e esquecê-lo por aqui sem nem se importar com o que foi dito, mas a nossa graduação em pessimismo prevalece na Terra até concluirmos esse tão difícil curso e nos formarmos como salvos eternos no céu. Como estrangeiro desse mundo vil e fraudulento, nós estamos em contante aprendizado para ignorar conceitos e crer mais e mais na Verdade. Ignorar as teses econômicas de que o mundo está evoluindo e gerando milhões de empregos e firmar-se no Reino de Deus onde terá milhões de vagas preenchidas por pessoas pecadoras e imerecidas, que se não fosse pela graça, estariam sabe Deus como em escala de sofrimento eterno. Essa mesma graça que não tem fim, possibilita-nos crer que o homem só tem coisas más para nos oferecer, porque isso é o que ele é. Isso é o que somos. Por mais bela e agradável que seja nossa vida aqui, o pessimismo subsistirá ao olharmos para o lado e vermos mais uma mãe chorando com a morte de seu filho. Essa é a efemeridade. Longe estou de otimistas globais que anseiam a vitória e não aceitam outra coisa se não vencer, pois de nada eles me ajudarão. O mundo é uma universidade e eu estou graduando em pessimismo! Um brinde!

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