Rocklogia – A volta dos que não foram

Escrito por

em

Embora a história do Fruto Sagrado tenha muitos elementos para comentar ou analisar, prefiro trazer o restante acerca da banda em um único post, até porque há muitas informações as quais não acrescentariam aos leitores acerca do grupo, e poderiam até mesmo servir para ressuscitar mágoas antigas por parte de integrantes. A verdade é que, em meados de 2002, o então quarteto possuía uma proposta promissora por parte da MK Music, e várias mudanças ocorrendo em sua estrutura interna.

A MK, até aquele presente momento procurava expandir seu leque de artistas. O incidente com o Catedral não afetou a gravadora, que encontrou, na Oficina G3, a substituição perfeita da “representação do rock” no selo. A banda indicou Brother Simion, e, provavelmente, essas conexões abriram a porta para o Fruto Sagrado.

Entretanto, o processo da Salmus Produções ainda estava sendo requentado na estrutura interna da banda, e as mudanças musicais se expandiam para seu disco futuro, O que na Verdade Somos. Nesta época, o vocalista Marcão deixou seu baixo para o músico convidado Francisco Falcon, enquanto Bene Maldonado atuava como produtor musical no disco. Existem muitas controvérsias acerca da gravação deste disco, as quais você poderá entender melhor nos links contidos no fim deste texto.

Era exigência da gravadora que as pendências com a Salmus fossem resolvidas, e elas foram. Com atraso, O que na Verdade Somos foi lançado em janeiro de 2003, e o disco é, até hoje, o mais conhecido da banda. Com canções de impacto como “A Sanguessuga” e “Vício”, com muita influência do new metal, além de baladas características, como “Não Quero mais Acordar Assim”, “O que na Verdade Somos” e “Diferente dos Anjos”. É claro que o contrato do Fruto com a MK não foi recebido com louvor por parte do público, até porque, o grande medo era que a sonoridade da banda tendesse ao pop, como ocorreu com a Oficina G3 e Brother Simion nos álbuns O Tempo e Redenção. Como resposta, Marcão defendeu a gravadora afirmando em uma entrevista divulgada no DotGospel que “grande parte do que se fala a respeito da MK é lenda […]”, e um disco muito mais pesado que os anteriores. O cantor João Alexandre participa em “O Sangue de Abel”, enquanto Amaury Fontenele produz uma faixa-bônus.

Após meses o lançamento do disco, Bênlio Bussinger estava de fora do Fruto Sagrado, e sua saída foi, certamente, o ponto mais polêmico na história da banda. Na época, o tecladista e Marcão chegaram a trocar ofensas em fóruns (principalmente o DotGospel e o Fórum Gospel Mania). É claro que nos dias de hoje é praticamente impossível verificar, afinal, além de terem removido o material, o DotGospel está fora do ar há alguns anos, mas quem viveu a época lembra-se bem. Nestes tempos, também, Bênlio ofereceu uma entrevista à Revista Eclésia, e após à publicação, queixou-se de que o material publicado não era exatamente suas palavras. Mais tarde, diria que o vocalista processou-o, embora tenha perdido na justiça.

Uma das músicas previamente escaladas para O que Verdade Somos não chegou a ser lançada, e existem muitas especulações a respeito disso. Citam, por exemplo, que “Vai Acabar” foi censurada pela gravadora, no entanto, esta informação se choca com a afirmação de Marcão, em 2003, que a gravadora não interferiu em nenhum processo da produção do disco. “Vai Acabar” apareceu posteriormente no álbum seguinte, porém praticamente distinta de sua versão anterior, a qual apenas um trecho pode ser encontrada na rede, com letra.

https://www.youtube.com/watch?v=dEae8jrnKws

Como um trio, a banda retornou aos estúdios Reuel ainda em 2004, para gravar um disco que seria a resposta dos questionamentos de O que na Verdade Somos. Distorção, musicalmente, é mais duro que o anterior. “Superman” claramente tornou-se, e ainda é, uma das principais canções da banda, embora contrasta com a polêmica “O Preço”. Nesta época, Marcão estava simpaticamente alinhado com as ideias do que se tornaria o novo movimento, e parte do álbum possui letras mais complexas, mas entendíveis até mesmo por pessoas de fora do segmento evangélico. No entanto, é claro que em pleno 2005 uma gravadora não saberia utilizar-se desta característica para divulgar melhor o trabalho da banda. O contrato com a MK foi encerrado logo após este projeto.

“Cantar ou compor coisas como “Amar ao meu irmão assim como Jesus me amou”, “chorar com os que choram, se alegrar com os que cantam” é algo de muitíssima responsabilidade. Estamos todos os 4 na mesma situação. Quem não estiver é porque é tão indiferente que nem sente a seriedade desse “cheque-mate” do mundo espiritual que você levantou. Ao que li da letra de “O Preço”, não é bem a mensagem que eu esperava ouvir do Marco e do Bene, os autores. Enquanto cristãos, isso se o Bene entrou para uma igreja depois da minha saída, porque antes não havia compromisso algum.

É quando de fato um ministério deixa de ter esse efeito e passa a ser uma banda de artistas que dominam a arte da poesia e da música, coisa inegável entre eles. Os caras são muito, mas MUITO bons no que fazem, ainda mais com o apoio de um estúdio. Uma qualidade absurdamente boa.

Assim que saí comecei a escrever coisas novas e vi que é difícil demais escrever o que vem do coração sem trazer à tona a confusão. Ou eu deletava as letras novas ou usava as antigas (não poucas) que escrevi e foram dispensadas com desprezo pelo Marco. A parceria Bene x Marco já estava perfeita. Letras do Marco, riffs do Bene. Eu já tinha dançado mesmo”. [Bênlio Bussinger, 2008]

Embora tenham ocorrido tais acontecimentos, Bênlio afirmou publicamente, tempos depois, que sua situação com Marcão tinha se resolvido. Marcão afirmaria, após a saída da banda, que reconhecia vários erros cometidos durante a carreira e que preferia, naquele momento servir a Deus na comunidade local. Sylas e Bene decidiram continuar as atividades do grupo com um novo vocalista, já que Marcão tornara-se pastor. Assim, Vanjor foi integrado. Em 2010, foi lançado o álbum Fruto Sagrado 20 Anos, e durante o ano de 2012, o trio divulgou seis canções inéditas.

“Quando eu percebi que o Fruto estava servindo mais a mim que ao Reino então eu decidi sair. Demorou pra eu perceber que eu era muito mais servido do que servia, mas o Espírito Santo me mostrou! Hoje eu continuo apaixonado por ROCK, apaixonado por música, apaixonado por Jesus e apaixonado em servir!

O louvor aqui da minha igreja é executado praticamente todo com rock, só que agora eu vivo música pra servir a minha comunidade local que nunca foi assistida por mim… porque quem faz muito show aos fins de semana não tem tempo pra servir a igreja local – essa é que é a verdade – e vocês precisam pesar tudo isso na balança – qual é o chamado de vocês hoje? É realmente pra estar numa banda que fará muitos shows no Brasil e com isso o Reino de Deus será glorificado? Se é esse o chamado de Deus pra vida de vocês hoje, quem estiver fora estará em pecado!” [Marcão, 2010]

https://www.youtube.com/watch?v=288hEfhYVvI


Links

Letra da versão original de “Vai Acabar”

Entrevista com Marcão (2003)

Bênlio conta, em fórum, detalhes acerca de sua saída e conflitos internos com os ex-colegas de banda (2008)

Marcão fala sobre seus anos de banda e o motivo de sua saída (2010)

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *