Quem ao menos tem um conhecimento básico sobre jornalismo deve saber que, durante a graduação, numa formação que se preze, os alunos aprendem, ou ao menos são levados a refletir o impacto social, e também pessoal da informação transmitida. Uma notícia pode acabar com uma vida. Um título ambíguo, até explicar que focinho de porco não é tomada já fez muito estrago. Em meados de 2001, um portal de música chamado Usina do Som publicou uma entrevista de uma banda por aí chamada Catedral, com o título Templo Perdido. Já, a primeira frase do texto era: “A igreja é uma merda!“.
O texto, escrito pelo jornalista Ricardo Alexandre, conhecido por um material extenso sobre o rock feito no Brasil, foi objeto da maior polêmica na história do Catedral, algo que o próprio autor, em 2013, intitulou de “juízo gospel“. Na mesma época, existiam boatos de que a banda tenha participado do programa do Jô e negado a fé por três vezes. Evidentemente, era um hoax, o qual, até os dias de hoje, não é difícil de ser lido (e ainda há quem acredite).
Enquanto o Catedral era boicotado por muitos evangélicos, a banda ainda conseguiu manter um público menor diante das polêmicas. Os discos, distribuídos da WEA não venderam tão bem quanto a outros artistas de rock do selo, mas o próprio grupo, mais tarde diria que era culpa da gravadora, que não fez um bom trabalho de divulgação. Por outro lado, a entrevista, em que simplesmente a banda afirmava que o segmento gospel os limitava, foi transcrita com adjetivos e verbos bastante apelativos e sensacionalistas. O resultado foi imediato: foi o conteúdo mais lido na história do finado portal, e em poucos dias teve que sair do ar. Mas o estrago estava feito.
Com isso, a MK Music se aproveitou da situação e reincidiu, sem maiores explicações, o contrato da carreira solo de Kim. A gravadora publicou que estava cortando relações com a banda pelo fato de não terem nenhum compromisso com o segmento evangélico. A situação foi revoltante para os integrantes do Catedral, que resolveram processar a gravadora, vencendo, muitos anos anos depois, com uma multa no valor de 1 milhão de reais.
Enquanto isso, as comparações com o Legião Urbana continuavam, e chegaram ao ápice quando o tecladista Carlos Trilha, conhecido por tocar e gravar com o Legião nos anos 90, era indicado a produzir 15º Andar, último álbum do Catedral pela WEA. Em setembro de 2002, o Estadão publicava uma matéria de título “Catedral se converte a Legião Urbana“, explicitando, também, a polêmica protagonizada por Kim com o ex-baterista do LU, Marcelo Bonfá. No ano anterior, Dado Villa-Lobos, em entrevista, afirmou que “Catedral é uma banda Denorex”.
“Não queria trabalhar com ele de manhã sabendo que, de tarde, ele estaria produzindo o Catedral. Não conheço muitas músicas dessa banda mas o que ouvi achei pobre, cópia paraguaia mal feita. Não conheço os caras, não posso falar nada da pessoa deles. Mas, como música, só sei que o que fazem é uma porcaria”. [Marcelo Bonfá, Estadão, 2002]
“Quem é Marcelo Bonfá? Pra mim não é nada. Eu respeitava o Renato Russo, mas para o Bonfá não dou a mínima. Só faço uma pergunta: se eles falam tanto de Legião Urbana, por que não continuaram com o grupo depois da morte do Renato Russo? O Catedral está vivo, o Legião acabou”. [Kim, Estadão, 2002]
“A galera do Legião não gostou nada quando ficou sabendo que eu iria produzir o Catedral. Achei um absurdo, parecia que queriam proteger não sei o quê, que o Catedral iria roubar alguma coisa deles. Esta postura é uma bobagem, uma grande besteira”. [Carlos Trilha, Estadão, 2002]
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