E perto da hora nona exclamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lamá sabactâni; isto é, Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?
Mateus 27.46
A magnitude do sofrimento de Cristo é tão forte a ponto dEle ter declarado sobre o desamparo de Deus. E expressa também um grande mistério que envolve o evangelho: Deus abandonou a Cristo?
Algumas teses humanas defendem que aquele momento foi uma hora de imenso flagelo e, que em tanta agonia, Cristo se sentiu triste e abandonado, mas que Deus ainda estava com Ele. Há também uma visão mais extremista, que acredita que Deus estava sendo crucificado junto com Cristo, mesmo com o sentimento de solidão de Jesus. Porém, são linhas teológicas completamente heréticas e ridículas, principalmente a segunda.
39 E, indo um pouco mais para diante, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres.
42 E, indo segunda vez, orou, dizendo: Pai meu, se este cálice não pode passar de mim sem eu o beber, faça-se a tua vontade.
44 E, deixando-os de novo, foi orar pela terceira vez, dizendo as mesmas palavras.
Mateus 26.39,42 e 44.
Para compreender melhor a questão do desamparo divino, precisa-se entender o que Jesus dizia com “cálice”. Enquanto orava, Ele até pediu para que o Pai afastasse aquele cálice dEle, mas no final, aceitou a vontade de Deus.
Um cristão, salvo e que crê em Deus e em seu Filho, em um estágio difícil de sua vida, tende a crer que Deus o deixou, e que está sozinho, mas isso apenas reflete os sentimentos humanos. No entanto, quando o Mestre foi crucificado, a dor dele foi real e refletiu o desamparo verdadeiro de Deus. Deus não estava com Cristo naquela ocasião, estava contra Cristo!
É aí que entra o significado do cálice. “Deus meu, por que me desamparaste?”. Essas duas passagens se completam. O cálice que o nosso Salvador tanto temia era o cálice da ira divina, era o cálice do desamparo de Deus. Deus abandonou a Cristo e depositou sua ira sobre seu Único Filho para que Ele se tornasse o primogênito entre muitos.
Além do mais, no cume de seu sofrimento, Cristo declara um salmo profético de Davi:
Salmos 22:
1 Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Por que se acham longe de minha salvação as palavras de meu bramido?
2 Deus meu, clamo de dia, e não me respondes; também de noite, porém não tenho sossego.
3 Contudo, tu és santo, entronizado entre os louvores de Israel.
4 Nossos pais confiaram em ti; confiaram, e os livraste.
5 A ti clamaram e se livraram; confiaram em ti e não foram confundidos.
6 Mas eu sou verme e não homem; opróbrio dos homens e desprezado do povo.
7 Todos os que me vêem zombam de mim; afrouxam os lábios e meneiam a cabeça:
8 Confiou no SENHOR! Livre-o ele; salve-o, pois nele tem prazer.
9 Contudo, tu és quem me fez nascer; e me preservaste, estando eu ainda ao seio de minha mãe.
10 A ti me entreguei desde o meu nascimento; desde o ventre de minha mãe, tu és meu Deus.
11 Não te distancies de mim, porque a tribulação está próxima, e não há quem me acuda.
12 Muitos touros me cercam, fortes touros de Basã me rodeiam.
13 Contra mim abrem a boca, como faz o leão que despedaça e ruge.
14 Derramei-me como água, e todos os meus ossos se desconjuntaram; meu coração fez-se como cera, derreteu-se dentro de mim.
15 Secou-se o meu vigor, como um caco de barro, e a língua se me apega ao céu da boca; assim, me deitas no pó da morte.
16 Cães me cercam; uma súcia de malfeitores me rodeia; traspassaram-me as mãos e os pés.
17 Posso contar todos os meus ossos; eles me estão olhando e encarando em mim.
18 Repartem entre si as minhas vestes e sobre a minha túnica deitam sortes.
19 Tu, porém, SENHOR, não te afastes de mim; força minha, apressa-te em socorrer-me.
20 Livra a minha alma da espada, e, das presas do cão, a minha vida.
21 Salva-me das fauces do leão e dos chifres dos búfalos; sim, tu me respondes.
22 A meus irmãos declararei o teu nome; cantar-te-ei louvores no meio da congregação;
23 vós que temeis o SENHOR, louvai-o; glorificai-o, vós todos, descendência de Jacó; reverenciai-o, vós todos, posteridade de Israel.
24 Pois não desprezou, nem abominou a dor do aflito, nem ocultou dele o rosto, mas o ouviu, quando lhe gritou por socorro.
25 De ti vem o meu louvor na grande congregação; cumprirei os meus votos na presença dos que o temem.
26 Os sofredores hão de comer e fartar-se; louvarão o SENHOR os que o buscam. Viva para sempre o vosso coração.
27 Lembrar-se-ão do SENHOR e a ele se converterão os confins da terra; perante ele se prostrarão todas as famílias das nações.
28 Pois do SENHOR é o reino, é ele quem governa as nações.
29 Todos os opulentos da terra hão de comer e adorar, e todos os que descem ao pó se prostrarão perante ele, até aquele que não pode preservar a própria vida.
30 A posteridade o servirá; falar-se-á do Senhor à geração vindoura.
31 Hão de vir anunciar a justiça dele; ao povo que há de nascer, contarão que foi ele quem o fez.
Esse salmo declara sobre o castigo salvífico de Cristo. Através dEle e só por Ele, criaturas podem voltar a sua forma original. Cristo é o cordeiro que reme os pecados de todas as gerações, desde Adão até o último homem que crer nEle. Não é por obras, por leis, não é por obediência à mandamentos, não é por glória e méritos humanos, é só por Ele.
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