Categoria: Entrevistas

  • Entrevista: Fábio Sampaio (Tanlan)

    Fábio Sampaio, conhecido por sua atividade como vocalista da banda de rock alternativo Tanlan é o entrevistado de hoje pelo O Propagador. A banda completa cerca de dez anos, com dois álbuns lançados e em um disco em produção. Abaixo, o cantor fala sobre seus projetos musicais dentro e fora da banda, e os rumos do novo movimento. Confira!

    O PROPAGADOR – A Tanlan existe há praticamente dez anos, sendo o primeiro EP lançado em 2005. De lá pra cá, o que mais mudou em vocês (pra melhor)?
    Acredito que esses dez anos foram essenciais para formar nossa identidade estética e lírica. Mas não dá pra responder essa pergunta sem contar um pouco da nossa história.

    Quando começamos, ninguém falava de Rookmaaker ou Schaeffer. Não existia um embasamento teórico/teológico para o que a gente fazia. E isso produzia uma reação muitas vezes negativa de algumas igrejas. Exatamente por isso, quando a Tanlan nasceu, nós não participávamos de nada que envolvesse igreja. Eramos uma banda como outra qualquer abrindo espaço no difícil caminho das bandas autorais em Porto Alegre: Festivais, bares, covers etc.

    Com o tempo, a seriedade com a qual encarávamos nosso trabalho foi sendo conhecida por muitos, o que nos levou a receber vários convites para participarmos de eventos evangélicos dentro e fora do estado. Hoje, depois da popularização de bandas como Palavrantiga e Crombie pelo Brasil a fora, não somos mais uma voz solitária na multidão. Mais e mais pessoas começam a acreditar na necessidade de sermos influência cultural fora das 4 paredes litúrgicas e, a cada dia, mais artistas e bandas iniciam projetos nesse caminho.


    OP – O guitarrista de vocês, Beto Reinke deixou o grupo em certa época, substituído por Lucas Moser. Com a saída de Lucas, Beto voltou. Como ocorreu essa volta?

    A saída do Beto partiu de uma necessidade familiar que lhe exigia um tempo maior de dedicação, tempo este que estava sendo usado com a banda. Logo, a decisão mais coerente com o que acreditamos, só poderia ser a que ele tomou: Deixar a banda para dar atenção à família.

    A partir daí fomos em busca de alguém para suprir a necessidade sonora que tínhamos (uma banda de duas guitarras, precisa de duas guitarras) e encontramos no Lucas uma possibilidade muito rica de crescimento, tanto pra gente, quanto pra ele. Depois de pouco mais de um ano como músico convidado, decidimos que era hora dele fazer parte efetiva da banda. Nessa época, o Beto já estava em condições de voltar a se dedicar à banda, e começamos a ensaiar um quinteto. Com o tempo, entretanto, algumas atitudes e posicionamentos (estéticos, teológicos e pessoais) do Lucas começaram a entrar em conflito com o que nós entendiamos ser o DNA da banda. E por conta disso, em um certo momento ele, o Lucas, decidiu que já não dava mais para continuar com a gente, e nós aceitamos a decisão dele.

    Assim, voltamos a ser um quarteto tendo o Beto como músico convidado até julho desse ano, quando o efetivamos novamente como membro da banda.


    OP – Além da Tanlan, você possui um projeto solo, chamado Feito a mão, que já gerou canções como “Eu” e “Balada de um Andarilho”. O projeto soa bastante diferente da banda, na preferência de sonoridades acústicas. Em sua opinião, a tecnologia hoje mais ajuda ou atrapalha na criatividade?

    Sem sombra de dúvidas que ajuda!

    Mas ajuda no processo de gravação, não no de criação. Isso acontece com o artista e seu instrumento, um caderninho de notas (que pode ser um celular) e suas ideias. Só depois de a obra ter nascido é que a tecnologia entra para facilitar o processo de registro sonoro.

    O projeto “Feito a mão” nasceu de uma necessidade natural de utilizar canções que por diversos motivos, não encontraram espaço na estética da Tanlan. Então, o caminho acabou sendo o projeto solo.


    OP – A Tanlan já foi destaque em uma das principais publicações semanais do país – a Revista Época – por fazer parte do que eles chamavam de “A Nova Reforma Protestante”. Na matéria, que foi capa, a banda é citada como parte de um grupo religioso que tenta “recriar o protestantismo à brasileira”. É isso mesmo? Na sua opinião, o que é necessário mudar? Qual seria a forma ideal do cristianismo para você?

    Na verdade, fomos citados como uma banda que derruba as barreiras que a cultura gospel criou no país, como uma banda que se comunica tanto com o mercado evangélico, quanto com o convencional.

    E mesmo não tendo essa intenção em nossa origem, aceitamos o desafio de criar essa ponte entre o templo e o entretenimento.


    OP – No álbum Um dia a Mais, você foi o compositor da maioria das canções, algumas em colaboração com os demais integrantes da Tanlan. Como é o processo de composição do grupo? Quais são as suas inspirações para escrever?

    Geralmente, eu escrevo as músicas e mando um áudio pros outros três, a partir daí trabalhamos nos arranjos. Mas acontece de eu já compor a música com todo o arranjo pronto e daí só ensaiamos e amarramos as pontas. Algumas vezes, em grupo, trabalhamos as letras e modificamos drasticamente o arranjo original, até que encontremos a voz que identifique a Tanlan.

    Recentemente, como você bem disse, começamos a compor em conjunto. A música “Louco Amor”, é um bom exemplo disso. Nasceu de uma letra que o Fernando Garros (baterista da Tanlan) escreveu e deixou comigo para que eu musicasse. Após algumas versões rejeitadas, modificações na letra e muitos ensaios, chegamos ao que veio se tornar a cação gravada.

    Tudo pode ser motivo de inspiração pra gente. Uma frase de algum livro, Uma notícia no jornal, uma mensagem de algum pastor, uma música que tocou no rádio… os estímulos são variados e podem vir de qualquer lugar. Acreditamos que é papel do artista filtrar esses estímulos e decodificá-los em música, pinturas, poemas etc, e é isso que tentamos fazer com nossa arte.


    OP – No álbum Um dia a Mais, Marcos Almeida gravou “Vaidade”. No Hope Music Festival, você cantou “Passos Lentos” juntamente com a galera da Aeroilis. Como é sua relação com outras bandas da cena?

    Eu sempre acreditei que uma cena só existe quando aqueles que participam dela se comunicam, trocam experiências e provoquem uns aos outros.

    Quando começamos, procurávamos “desesperadamente” na internet por outras bandas que estivessem fazendo, ou pensando, o mesmo que a gente. A primeira a encontrarmos foi a Aeroilis. Imediatamente fizemos contato com eles e iniciamos uma relação que dura até hoje, mesmo com eles tendo encerrado suas atividades como banda. E esse hábito de prospectar novas bandas continua até hoje. Sempre que encontro alguma faço questão de entrar em contato.

    Quero agregar o máximo de bandas e artistas nessa caminhada. O que eu lamento, é que muitas vezes me sinto o único a pensar assim. Todos estão tão preocupados com o seu, e em fazer a sua história, que esquecem que juntos a gente pode ir mais longe.

    Dito isso, é importante concluir que, mesmo tendo a cada dia mais e mais artistas fundamentando seus projetos em visões similares as nossas, não temos ainda uma cena formada. É preciso uma comunicação maior entre esses que já estão consolidados, com os que estão começando para que realmente aconteça uma cena como sonhamos.


    OP – Como uma banda que, em grande parte da carreira teve como base a independência, qual é seu pensamento sobre o uso das redes sociais como estratégia para alcance de mais públicos?

    É fundamental. A palavra chave em toda história da Tanlan é a “comunicação”. Um artista que não se comunica não é relevante. Não adianta você ser o melhor guitarrista, de mil notas por segundo, se o som que você toca só é perfeito para os anos 80. Precisamos falar a língua da nossa época e é isso que gera comunicação relevante com a cultura.


    OP – O que os fãs podem esperar do novo álbum da Tanlan, em fase de composição?

    Assim como “Um dia a mais” foi diferente de “Tudo que eu queria”, o próximo será muito diferente do anterior. Queremos sempre nos reinventar, buscar novas referências, fazer o que ainda não fizemos, encontrar soluções que ainda não encontramos, falar o que ainda não falamos e alcançar públicos que ainda não alcançamos. Isso é o que move a Tanlan.


    OP – Deixe uma mensagem pros leitores do O Propagador.

    Não importa o que você faça, não importa quem você seja, nem onde você esteja, faça tudo que estiver em suas mãos com qualidade e responsabilidade. Seja relevante na sua escola, no seu trabalho, na sua igreja. Não viva uma fé aprendida, mas uma fé vivida. Produza sua arte e espalhe esta esperança que nos move em amor, pelo amor e para o amor. Obrigado pela oportunidade e grande abraço!

  • Entrevista: Carlinhos Felix

    Carlinhos Felix, intérprete conceituado da música cristã nacional é o entrevistado de hoje no O Propagador. Iniciou sua carreira no final da década de 70, sendo integrante de duas bandas. A primeira, a Sinal Verde, que mais tarde lhe garantiu entrada no Rebanhão, onde permaneceu até 1991, atuando como guitarrista, violonista, compositor e vocalista. Do Rebanhão, em carreira solo até os dias de hoje, Carlinhos escreveu e gravou canções que hoje são clássicos, lançando álbuns por grandes gravadoras. Confira nossa conversa com o músico, que falou sobre carreira, influências musicais e a volta do Rebanhão.

    O PROPAGADOR – Em 2012, você estreou no cast da Sony Music e em seguida lançou “Lindo Senhor”. Agora, em 2014, você lança o single “Não posso me calar”. Fale um pouco sobre essa canção e o que ela representa para o momento atual de seu ministério.
    Ela é muito forte e eu acredito no que ela diz. É uma mensagem pra esses dias que estamos vivendo. Estou decidido a fazer com que minha música seja mais que uma simples canção, alguma coisa que venha trazer um impacto nas pessoas e em especial, nesta canção um impacto na Igreja de hoje. E aqui pra nós, ela tem uma melodia maravilhosa e um refrão forte.


    O PROPAGADOR – No álbum “Lindo Senhor”, você regravou Fruto Sagrado, Trazendo a Arca e uma composição de Janires gravada pela Banda Azul. Por que as escolheu para gravar?
    OK. Você está ligado! “Amor de Deus” gravei com o Fruto Sagrado em 1999, 2 dias antes de ir morar nos EUA. Me apaixonei por esta música. Aprendi a cantar dentro do estúdio de gravação, foi amor a primeira vista, por isso decidir por no repertório. “Marca da Promessa”, eu gostei tanto dela que fiz um arranjo alterando os acordes e com uma andamento um pouco mais pra frente. Cantei tanto que pedi permissão aos compositores para gravar e ter o registro dela com minha interpretação. É também uma letra que eu acredito, por isso coloquei no repertório. “Baião Eletrônico” é um clássico, se vocês observarem, fiz um arranjo caprichado, para uma música de alto nível.


    O PROPAGADOR – Considerando que sua carreira começou como baixista da banda Sinal Verde em meados de 1979, você completa 35 anos de carreira, um tempo muito considerável para um artista cristão. De lá pra cá, qual foi (e talvez ainda seja) seu maior desafio como cantor/músico?
    Você pegou pesado, sabe tudo! Meu desafio é manter minhas origens musicais, não me contaminar e guardar o meu coração de aborrecimentos, promessas não cumpridas e por ai vai… são muitas emoções. O mais DEUS tem me ajudado a vencer.


    O PROPAGADOR – Na época em que você começou, existiam poucos ou praticamente nenhum guitarrista cristão. Quais foram suas referências no instrumento naquela época?
    De guitarristas, George Benson, Steve Lukather, Paulinho Guitarra e Toney Fontes.


    O PROPAGADOR – Depois de vários anos morando na cidade de Vila Velha, você retorna ao Rio de Janeiro. Qual o motivo para esta mudança?
    Estar de volta à minha querida cidade e dos acontecimentos musicais, pelos meus filhos, e estar também num lugar mais central para me locomover. Meu volume de viagens é muito grande, o Rio me dá mais mobilidade.


    O PROPAGADOR – Seu último DVD lançado foi “Na Tua Sombra”, gravado no Olympia e lançado em 2005. Você pretende gravar algum DVD nos próximos anos?
    Sim. Já precisava gravar outro, mas ainda não foi possível. Sei que num futuro bem próximo estarei gravando.


    O PROPAGADOR – Em carreira solo, além de composições autorais, você gravou canções de vários compositores, com destaque a Jorge Guedes, Joran, Adson Sodré, além de Lucas Ribeiro e seu irmão Luciano Dewey, que tocaram contigo na Sinal Verde. Qual é o significado dessas parcerias pra você?
    São na maioria inesquecíveis amigos e que somaram e somam muito em minha vida. E o mais importante é que sei qual a fonte de inspiração.


    O PROPAGADOR – Com o Rebanhão, e fora do Rebanhão, você realizou feitos até então pouco comuns, como gravar com músicos fora do nicho cristão (como nos álbuns Pé na Estrada e Coisas da Vida). Você acredita que os músicos cristãos podem aprender algo com os do secular? Existe limite para essa interação gospel + secular?

    Isto é muito relativo, depende do nível de amizade. Os que gravei, todos foram meus amigos de dentro de casa, eles se sentiam bem comigo e minha música os confortavam. Eu orava com eles e pregava a palavra pra eles e eles ouviam, alguns aceitaram a JESUS. Os que não aceitaram ouviram e tem uma semente no coração. Todos são meus amigos e ainda nos encontramos.


    O PROPAGADOR – Em entrevista ao Super Gospel, no ano de 2003, você afirmou ter se assustado com muitos trabalhos, afirmando que estávamos atravessando um momento de pouca identidade. Após mais de dez anos, qual é a sua opinião sobre a música gospel hoje?
    Infelizmente continua ainda a mesma coisa. Muita influência de fora em tudo, nos arranjos, nos timbres, a nossa música perdeu muito, tem muita gente cantando igual, fazendo tudo igual, tem horas quem confundimos, como: quem é quem? A galera ficou preguiçosa pra escrever, pra fazerem melodias e de investirem em suas qualidades e talentos.


    O PROPAGADOR – Em janeiro de 2013, no seu aniversário, você cantou ao lado do tecladista Pedro Braconnot e do guitarrista Pablo Chies. Em 1995, você convidou o baixista Paulo Marotta pra cantar “Muro de Pedra” no disco “Nada a Perder”. Como é a relação entre você, Braconnot e Marotta, após tantos anos juntos?
    Somos eternos amigos. O mais legal foi esses dias ver meus filhos com os filhos do Pedro cantando e tocando violão lá em casa. Foi emocionante! O Paulinho está um pouco mais distante, no Pará. Mas também é uma festa quando nos encontramos. Eles são incríveis.


    O PROPAGADOR – A importância do Rebanhão foi ímpar na modernização da música cristã nacional. Após tantos anos e possibilidades de volta, vocês gravarão um DVD de 35 anos. Como se deu essa decisão entre vocês? Há novidades que público pode esperar dessa volta e que podem ser adiantados?
    Temos conversado muito sobre isso, de gravar um DVD de 35 anos, estamos ouvindo gravadoras, ouvido o pessoal que tem visitado o Facebook dando opiniões de lugares para gravarmos e repertórios. Estamos muito motivados. Se der certo vai ser legal. Tem agências de viagens querendo saber onde será, para fazer excursão, até para cruzeiro no ano que quem recebemos convite. Estamos orando e atentos aos sinais de DEUS para este projeto.


    O PROPAGADOR – Nesses 35 anos de carreira você viu o cenário gospel mudar diversas vezes. Considerando seu início, o que mais mudou? Você acha que evoluímos, regredimos ou ambos?
    Evoluímos é claro! “Mas uma coisa ainda falta”, isso te lembra algo? “Um bate papo” (Lucas 18:18)


    O PROPAGADOR – Você é parte viva da história da música cristã nacional. Você interpretou e compôs canções que são verdadeiros clássicos. Como é olhar pra trás e ver sua trajetória? O que mais te orgulha na história que você construiu?
    Não sou pretensioso a ponto de chegar a me orgulhar! Mas, fico feliz em saber que dei minha contribuição.


    O PROPAGADOR – No dia 14 de dezembro deste ano completam 30 anos da gravação de “Janires e Amigos”, que além de ser o primeiro álbum cristão gravado ao vivo é o último trabalho de Janires com o Rebanhão. Quais lembranças você tem desta gravação? Houve alguma grande dificuldade a enfrentar? Como foi para você a saída de Janires do grupo, visto que ele era o “mentor” do Rebanhão?
    Esta gravação foi muito legal e corajosa. Não esqueço: tudo engatilhado, mas deu certo, era tudo em cima de milagres. Ele saiu do Rebanhão para realizar um sonho. Foi para BH e ficar perto do pessoal da MPC. Sentimos muito, mas ele nos deixou preparados, para continuar o que ele começou. Aprendi muita coisa com ele, levei bem até onde pude, depois fui também atrás do meu sonho, onde estou até hoje, muito feliz com minha herança que é minha esposa, Pra. Adriana e nossos filhos, Rafael, Lucas e Davi Felix. Uma escola de louvor e adoração chamada Rios de Adoração com muitos alunos formados. E com uma alegria muito grande no coração toda vez que subo num púlpito para cantar ou pregar ou num palco pra fazer um show. “Não Posso Me Calar” porque é “Lindo Senhor”


    CONTATOS:
    Twitter: @carlinhosfelix1

    Contato: agendacarlinhosfelix@yahoo.com.br

    Site: www.carlinhosfelix.com.br

  • Entrevista: Wolfgang Werneck (Primerandar)

    Wolfgang Werneck é vocalista e guitarrista da banda Primerandar. Pra quem não conhece, Primerandar é uma banda de rock, original de Minas Gerais, nascida no final de 2008, sendo integrada atualmente  por Wolfgang Werneck (vocal e guitarra) e Joaquim Jorge (bateria) como membros oficiais. O Propagador entrevista o músico, que fala de suas atividades musicais, fé e estilo.

    O PROPAGADOR – Olá Wolfgang, antes de tudo, obrigado pela humildade de ceder essa entrevista pra gente! E eu começo perguntando, por que “Primerandar”?

    Olá, nós da Primerandar é que agradecemos pelo espaço cedido, muito obrigado. “Primerandar” é um nome pra nos lembrar sempre das nossas origens, o que nos trouxe até aqui, toda caminhada começa pelo primeiro passo, e quando objetivos são alcançados é sempre bom ter algo que nos lembre de onde viemos pra não perdermos a essência de nós mesmos.


    OP – A partir de que momento nasceu seu interesse pela música? Houve um momento ou foi natural?

    Eu era menino, tinha uns 9 anos (acho), ia pra casa de um cara que tinha violão e ele deixava eu “tocar” (fazer barulho), por isso eu pedi um violão pro meu pai e ganhei um “Tonante” de presente de aniversário de 10 anos. Só comecei a tocar com 12, depois disso eu virei fanático por música.


    OP – Ouvi variáveis vezes o EP de vocês e gostei muito do formato “poesia cantada”. Como é o processo de composição das letras na banda?

    (Obrigado) Isso é muito variável, a inspiração pode chegar de formas diferentes, mas o que acontece com mais frequência é que eu crio primeiramente algum riff no violão ou encontro uma sequência de acordes que me agrada, e daí começo a escrever em cima. Normalmente escrevo sobre fatos corriqueiros, ou algo que tem me tocado de alguma forma, então é bem natural abordar os assuntos já  que faz parte do meu dia a dia.


    OP – Bandas como Tanlan, Palavrantiga Os Oitavos e Hibernia, quebraram (ou ao menos estão tentando quebrar) a barreira que havia entre “gospel” e “secular” com suas letras poéticas. A Primerandar faz parte desse novo movimento que almeja romper com esse rótulos? O que acha das bandas citadas?

    Não necessariamente, é claro que há um padrão entre as bandas citadas e isso inclui Primerandar, mas, fazer parte de um movimento requer ter um objetivo em comum. Esse nunca foi nosso objetivo, temos a música como um simples prazer, uma coisa que nos apaixona e nos dá liberdade para sermos um pouquinho mais de nós mesmos, é arte por arte. O fato de sermos cristãos simplesmente fica claro, porque faz parte de nós, e pra mim, é impossível deixar de lado uma parte de mim quando escrevo uma letra. Não sinto a obrigação de falar de qualquer assunto que não me toque por motivos de crenças ou outras coisas, talvez por isso haja uma relação taxativa quanto a sermos “gospel” ou “secular”, mas em minha opinião somos apenas uma banda (se é que isso faz algum sentido). Gosto das bandas citadas, apesar de conhecer muito pouco de Os Oitavos e Hibernia e pouco de Tanlan, espero algum dia ter o privilégio de dividir palco com esses caras.


    OP – Como você define o som da Primerandar? Quais as principais influências musicais da banda?

    Honestamente, não sei definir o som, eu diria rock, o que seria genericamente abrangente. As influências são muito variadas, se eu começar a citá-las, com certeza esquecerei de várias, mas deixo algumas que vem a minha mente agora: Foo Fighters, U2, Coldplay, QOTSA, Thrice, Johnny Cash, Bob Dylan, Emery, John Mark Mcmillan, Nando Reis, Black Drawing Chalks e um monte que esqueci (risos).


    OP – Como você ver o cenário underground em nosso país?

    Pra mim tem crescido bastante, mas ainda peca em alguns aspectos; a tendência – eu acredito – é de melhoria. O autoral tem sofrido bastante por falta de lugares para tocar, e ás vezes , o mal procedimento das casas para com as bandas. Isso falo com mais propriedade sobre BH e região que é a nossa casa.


    OP – E quais os novos projetos da banda para este ano?

    Agora estamos totalmente concentrados em gravar o álbum novo , as músicas já estão selecionadas e estamos em processo de criação. Como passamos por um momento delicado de perda de alguns integrantes, por enquanto não estamos tocando, e muito provavelmente só voltaremos a tocar após o lançamento desse novo álbum, Quem quiser ficar a par das novidades é só curtir a nossa página no Facebook (https://www.facebook.com/bandaprimerandar).

  • Entrevista: Eli Soares

    Ele é considerado um dos principais nomes da nova geração da música gospel nacional e é ele, Eli Soares, esse mineiro cheio de estilo, nosso entrevistado de hoje.

    Vamos falar sobre carreira, influências, música secular e muito mais. Confira!

    O PROPAGADOR – Você é de Belo Horizonte, cidade referência no cenário musical nacional, berço de grandes cantores e bandas gospel e seculares. Como foi o início de sua carreira em uma cidade efervescente artisticamente? Esse ambiente influenciou sua formação musical?

    Belo Horizonte é a cidade que eu amo. Nasci, cresci e formei família aqui. Aqui estão as melhores lembranças e momentos que vivi na vida. Mas em relação ao celeiro de adoradores que é a cidade, o ambiente não me influenciou, mas me motivou. Até porque eu vim de uma escola de black music, soul pop que é diferente da maioria dos ministros oriundos de BH. Mas, por ter contato com tanta qualidade musical e ministerial, fui motivado a ter um ministério e seguir uma carreira.


     

    O PROPAGADOR – Seu primeiro disco foi prêmio por sua vitória no Showveiro, concurso de calouros do programa Balaio da Rede Super. Como foi essa experiência?

    Louvo a Deus por ter participado do Showveiro, pois ali foi onde dei o pontapé inicial para a carreira musical na minha vida. Foi uma experiência muito marcante pra mim como músico sair vencedor de um projeto cheio de gente boa cantando. Foi a partir desse concurso que entrei a primeira vez num estúdio para gravar e percebi o quanto era bom profissionalizar o talento. Me deu mais vontade de aprender a fazer as coisas de verdade.


     

    O PROPAGADOR – Do “Eli Soares”, seu primeiro disco, até o “Casa de Deus” se passaram alguns anos. Como você sentiu sua evolução musical nesse período?

    Eu acho que o meu amadurecimento musical foi muito importante para a gravação do “Casa de Deus”, pois tive a oportunidade de estar na estrada e ela me moldou bastante para esse projeto. Pra quem conhece os dois discos sabe que dá para ver a diferença de estilo e de pegada e até mesmo na construção dos arranjos e das letras. O crescimento tem sido importante. Nunca paramos de aprender.


     

    O PROPAGADOR – Além de intérprete, você também é compositor de praticamente todas as faixas do disco. Qual é seu processo pessoal de composição? Dentre suas músicas autorais, qual a que mais lhe marcou?

    O processo de composição pra mim é um variado. Depende mais do que Deus tem para me dar na hora. É algo que vem do Espírito Santo mesmo e se eu tentar sentar em algum lugar com o violão e tentar fazer algo de mim vai sair caricato, esquisito mesmo. E veio de Deus a canção que mais me marcou que é “Me ajude a melhorar”. É uma oração, uma experiência muito particular com Deus. Prova disso é a identificação que a maioria das pessoas tem quando ouve esse louvor. Fico feliz de ter sido escolhido pelo Senhor para levar essa canção para todos que precisam.


     

    O PROPAGADOR – Alguns sugerem que seu estilo musical lembra o cantor Thalles, fenômeno do segmento na atualidade. Houve essa influência? Você se incomoda com a comparação? Quem são suas referências musicais?

    Muita gente já me comparou muito com o Thalles. Temos coisas em comum, né?  Gravei duas músicas dele, chegamos a fazer um som juntos, somos negros e temos um cabelinho durinho e um estilo voltado pro pop-soul. (risos) Nunca me importei com essa comparação e me sinto honrado. Mas hoje, acredito que me achei na música e apresento aquilo que tem mais do meu estilo e claro baseadas nas minhas referências que são Stevie Wonder, Michael Jackson, Fred Hammond e Kim Burrell.


     

    O PROPAGADOR – Na música “Me Ajude a Melhorar”, você diz: “Meu Pai, o mundo insiste em me comprar(…)“. Com seu talento, você já recebeu propostas artísticas para cantar no meio secular?

    Já recebi inúmeras propostas e uma mais interessante que a outra. Não condeno quem faz música secular também, mas confesso que nunca senti que era isso que Deus tinha pra mim, pra minha vida. Deus me travou de uma série de pontos de vista diferentes e eu nunca aceitar nenhum convite.

    [youtube https://www.youtube.com/watch?v=qjmKzG1oSiQ]


     

    O PROPAGADOR – Falando em secular, como você vê a música fora das fronteiras cristãs? Acredita que é possível conquistar espaço entre o público não cristão com o chamado Crossover? Em entrevista recente ao O PROPAGADOR, o cantor Leonardo Gonçalves afirmou não acreditar que o público cristão esteja pronto para digerir esse tipo de intersecção entre gospel e secular. Qual a sua posição quanto a isso?  Sendo cristão, é possível fazer música secular?

    Eu concordo com o Leonardo. Acredito que algumas pessoas ainda estejam distantes de entender isso. Na minha concepção existem três tipos de música: as que falam de Deus, as que falam sobre o inimigo e as que falam da vida, independente de religião falando sobre sentimentos, histórias experiências de vidas. Dentro desses três estilos, religiosa, secular e profana, entendo que secular não é pecado, o profano sim.


     

    O PROPAGADOR – Algumas vertentes cristãs rejeitam a música secular. Você acha possível consumir música não cristã? Para você, ela pode ser referência de sonoridade?

    Não rejeito não. Acredito que sim, é possível consumir música secular uma vez que você entenda do que se trata a letra da música, por exemplo, quando é cantada numa língua estrangeira. Para nós músicos é importante obter referências de estilos, sons, ritmos de toda música. Música secular não é sinônimo de música ruim, pelo contrário. Existem vários artistas bons, com qualidade excepcional nesse meio. Ouço, colho o que tem de melhor e isso não muda a minha espiritualidade com Deus.


     

    O PROPAGADOR – Seu terceiro disco, o “Casa de Deus”, foi relançado em fevereiro com o selo da Universal Music Christian Group (UMCG). Como é, sendo tão jovem, ser um dos primeiros contratados pelo braço gospel brasileiro da maior gravadora do mundo? Que peso tem isso?

    Esse peso é o peso da responsabilidade. Estar na maior gravadora do mundo indica que as pessoas esperam de mim o mesmo nível de qualidade que a Universal tem hoje. Preciso sempre fazer boa música, levar minha verdade e ser luz com meus testemunhos e atitudes. Passar o máximo das coisas de Deus, da glória de Deus pra vida das pessoas. O peso da responsabilidade é grande, mas se Jesus me colocou nesse patamar, aqui estou eu para servir.


     

    O PROPAGADOR – Na UM Entretenimento, você é parte de um projeto de gerenciamento de carreira que, até a criação da empresa, ainda era inédito no Brasil. Como é participar disso? Como tem sido essa parceria?

    A UM hoje é meu braço de suporte para o artista. Ela oferece coisas que são muito necessárias na carreia do músico. Essa estrutura facilita o caminho.


     

    O PROPAGADOR – Você está em um momento de consolidar sua carreira musical, acabou de se casar, está tendo seu talento reconhecido nacionalmente, está conseguindo atingir vidas com sua música, ou seja, está se realizando. Quais são seus sonhos? Onde você almeja chegar aqui na terra?

    Se Jesus voltar agora eu subo feliz e muito. Sou uma pessoa simples, pé no chão. Consegui gravar minhas músicas, estou casado. Não preciso de mais nada. Tudo o que eu mais queria Jesus já me deu. Agora, o que eu faço com isso tudo é o que vai me deixar bem ou não. Agora é só continuar cantando por esse Brasil levando a palavra dos nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

  • Entrevista: Soraya Moraes

    “Não gravo versão por que não tenho opção, gravo porque ouço muita música americana e as músicas que ministram em minha vida eu gosto de compartilhar”

    Com uma trajetória de sucesso na música cristã, reconhecida tanto pelas vendagens expressivas quanto pelas premiações que venceu, Soraya Moraes é hoje um dos grandes nomes da música evangélica e não é por acaso. A cantora iniciou carreira na banda Metanoya, em seguida passou a integrar o ministério Renascer Praise gravando seis discos, os volumes 2 ao 6 e uma coletânea de versões em espanhol “La Unción”. Seu grande sucesso no grupo foi a canção “Deus é fiel”, que fez seu nome e voz conhecidos por todo o Brasil.

    Segundo em carreira solo, Soraya Moraes chamou atenção do público com o disco Milagre, com a gravação da versão do sucesso “When You Believe”, canção que integrou a trilha sonora do filme “O Príncipe do Egito” e ganhou o Oscar de melhor canção, conhecida como “Se tu quiseres crer” no país.

    Depois disso, o reconhecimento de seu talento foi consagrado com a conquista do Grammy Latino de melhor álbum de música cristã em língua portuguesa em 2005. Em 2008 Soraya Moraes vence o prêmio nas três categorias em que foi indicada. Melhor álbum de música cristã em língua portuguesa com o CD “Som da Chuva”, Melhor álbum de música cristã em língua espanhola com o CD “Tengo sede de Tí” além de desbancar outros artistas nacionais da música secular na categoria Melhor Canção Brasileira com o hit “Som da Chuva”.

    Em 2013 Soraya Moraes assinou contrato com a multinacional Sony Music por onde lançou o álbum “Céu na terra”. O disco contém 12 faixas e conta com participação de Rayssa Moraes, filha da cantora na faixa “Porque teu é o reino” de autoria de Tony Ricardo, além da participação especial da cantora Cassiane na faixa Silêncio de Deus.

    O Propagador esteve no escritório da Sony Music no Rio de Janeiro onde pode entrevistar com exclusividade a cantora Soraya Moraes que falou da carreira, conquistas e do novo trabalho “Céu na terra”. Confira nossa conversa com a cantora no vídeo abaixo:

  • Entrevista: Pedro Braconnot

    Pedro Braconnot é cantor, compositor, multi-instrumentista, produtor musical e pastor. Atravessou várias décadas influenciando a história da música cristã nacional como integrante e, posteriormente, líder da banda Rebanhão. Já produziu grandes nomes da música cristã nacional, como Cristina Mel, Ozéias de Paula, Denise Cerqueira, João Alexandre e outros. Confira nossa entrevista com o músico.

    O PROPAGADOR – Seu encontro com Jesus Cristo foi na juventude. Em sua conversão e, logo após amizade com Janires, quais foram os maiores desafios nos quais você vivenciou em sua caminhada de neófito?

    Tive uma experiência com Jesus aos meus 19 anos. Exatamente no final de uma adolescência intensa como geralmente é com todo mundo né? Nesta época conheci o Janires que foi o meu primeiro discipulador. Andamos juntos e comecei a tocar com ele ainda novo na fé. Minha experiência com Deus foi muito forte e percebi que havia acontecido algo que seria para a minha vida toda. Eu passei por vários desafios, tendo sido exposto ao palco ainda muito novo na fé. Isto trouxe também desafios no meu amadurecimento espiritual, mas no final das contas o que havia acontecido comigo era para sempre e em meio às lutas de um jovem cristão eu sempre optei em lutar por minha fé. Hoje fazem 33 anos de caminhada, a vida com Deus é maravilhosa porque quanto mais perto dele mais nos conhecemos a nós mesmos e o realce nos ajuda a vencer tanto os obstáculos pessoais quanto os externos. Sem dúvida os maiores desafios são os que rolam dentro de nós mesmos. A maturidade é ganha pela luta consigo mesmo, ou seja, a reação que aprendemos a ter diante de cada passo que damos frente aos desafios da vida.


    OP – Como lhe surgiu o interesse pelo teclado e o piano? Quais os músicos nos quais mais se inspirou?

    Minha mãe estudou piano por anos e sempre tinha um piano em casa. Quando a ouvia tocar me dava vontade de aprender. Com 13 anos entrei finalmente numa aula particular de piano clássico no Rio de Janeiro, mas foi o Rebanhão que me ligou para sempre com a música me dando asas para continuar fazendo música a minha vida toda.


    O PROPAGADOR – Sua primeira composição gravada foi “Refúgio”, um rock progressivo que permaneceu um bom tempo no repertório dos shows do Rebanhão. Como essa canção surgiu?

    Foi realmente a primeira música que fiz. Simplesmente brotou falando um pouco da minha realidade de andar distante de Deus e ter recebido o brilho de sua luz sobre a minha vida que me fez mudar a direção radicalmente. Quando descobri o amor de Deus, mesmo que ainda jovem e sem um entendimento tão profundo, pois o amor de Deus é como um oceano insondável de tão profundo e imenso, pude ver que era isso que eu queria para sempre em minha vida. Essa música marcou o início da minha experiência com Deus.


    OP – O senhor, conciliando a carreira no Rebanhão, também trabalhou como produtor musical, arranjador e músico convidado, tendo gravado com grandes nomes da música cristã, como Cristina Mel, Ozéias de Paula, Denise Cerqueira, Sinal de Alerta, Carlinhos Felix, João Alexandre, Altos Louvores e muitos outros. Emerson Pinheiro também já lhe indicou como grande influência. Qual a importância dessa multi utilidade musical na construção de sua carreira musical? Como é ser parte viva da história da música cristã nacional e referência para quem segue nos caminhos musicais que o senhor ajudou a abrir?

    Me sinto muito feliz pelo trabalho que tive a oportunidade de realizar junto a tantos nomes da música cristã brasileira. Tudo começou porque eu era o tecladista do Rebanhão e começaram a me chamar para gravar. Eu sempre tive uma atração pela tecnologia e meu pai me deu um computador Apple em 1987, antes mesmo de a internet ser febre no Brasil eu me dedicava à gravação em computadores o que veio a ser o caminho nos estúdios do mundo inteiro. Cada vez que eu entrava em um estúdio de gravação queria aprender tudo e então parti para esta profissão como um meio de apoiar o ministério do Rebanhão financeiramente. Conheci muita gente boa neste tempo e fiz muitos amigos, mas também pude ver o lado frio e comercial que invadiu a música cristã que a meu ver em muitos casos deixou de ter uma mensagem forte e profética para se contentar com letras que agradassem a maioria. Uma mensagem mais lugar comum em prol do sucesso comercial.


    OP – A importância do Rebanhão para a música cristã é inegável e inquestionável. Mas qual a importância da banda e dos integrantes na sua vida? Em algum momento, naquela época, o senhor seria capaz de supor a importância que o que faziam teria para o futuro da nossa música?

    Quando comecei no Rebanhão não tinha ideia do que iria acontecer. Para mim, como novo convertido, era muito normal cantar músicas em uma linguagem textual e musical jovem e divertida, mas para muitos se tratava de algo inaceitável para os padrões religiosos da época. No entanto, com certeza, o Rebanhão foi e continua sendo um fato marcante em minha vida. Tanto o trabalho do grupo, quanto as amizades que fizemos. Além disso, hoje posso ver tantos testemunhos de pessoas que foram tocadas através deste trabalho que não tenho dúvida de que foi um instrumento de benção, um vaso de honra. Sou muito feliz pelo que Deus fez com o Rebanhão durante todos estes anos.


    O PROPAGADOR – Após o fim do Rebanhão, o senhor decidiu dedicar-se ao ministério pastoral, sendo consagrado pastor. Hoje está à frente da IHOP (International House of Prayer) em Caratinga. Fale-nos um pouco deste projeto, sua experiência com o movimento das casas de oração e sua visão a respeito da igreja brasileira.

    Quando parei de viajar com o Rebanhão no ano 2000, senti que precisava de um tempo maior para a família e me preparar para uma nova fase que estaria por vir. Eu e minha amada esposa Anya Braconnot fomos ordenados pastores em 2002 e hoje temos cinco filhos e nossa família é simplesmente a maior benção de todas que Deus já nos deu! Depois que nasceu nossa última filha chamada Victoria em 2006 nos Estados unidos, nos alistamos de corpo alma e espírito neste mover de oração que o Espírito está promovendo ao redor do mundo. Deus tem levado centenas de milhares de pessoas ao redor do mundo a orar e adorar coletivamente em uma onda de avivamento que tem se espalhado cada vez mais. Como no modelo do tabernáculo de Davi a música era de vital importância, eu me sinto em casa quando passamos horas adorando e intercedendo no que chamamos de harpa e Taça (Ap 5:8). Voltamos para o Brasil e estamos liderando uma casa de oração em Caratinga, Minas Gerais. Durante a copa do mundo 2014 estaremos apoiando um ministério do IHOP-KC que vai levantar salas de oração nas doze capitais onde haverá jogos da copa. 32 dias de oração: 24 horas contra o tráfico humano, turismo sexual, pedofilia e tudo que tenha a ver com a injustiça social sobre o Brasil. Vai ser um tempo intenso, eu sou apaixonado pela oração da igreja, a noiva de Cristo precisa saber mais de sua autoridade como intercessora.


    O PROPAGADOR – Janires, em suas canções apresentava um cristianismo que transcendia as clássicas quatro paredes que muitas vezes são impostas. Como compositor, várias de suas canções mantiveram essa característica, como as canções “Palácios” e “Elo Perdido”. Em sua opinião, qual é a importância da música cristã na abordagem social e de questões do cotidiano?

    Às vezes o cristão é taxado de ignorante e alheio à sociedade porque evita tratar temas que transcendem o linguajar bíblico. É muito fácil não “errar” quando se canta os salmos de Davi e por assim em diante. Mais creio que como Davi falava do Egito e de seus cavaleiros nos seus salmos, porque não falar de realidades atuais em nossas músicas? Creio que precisamos manter nosso foco na Palavra, mas não podemos nos esquecer de fazer músicas que possam se comunicar com o mundo em uma linguagem mais atual. O trabalho do Rebanhão ficou conhecido por causa desta visão e isso é um objetivo que não pode ser esquecido. Fazíamos uma música para alcançar almas que não tinham nem coragem de entrar em uma igreja, mas conseguiam ouvir um “Baião”, por exemplo.


    O PROPAGADOR – Uma de suas mais recentes composições de destaque no cenário nacional é “Ame mesmo Assim”, gravada por Cristina Mel e escrita em parceria com Anderson Freire. Em um dos trechos da canção, a letra diz: “Se você marcar uma geração com o seu canto / Com o passar do tempo esquecerão a sua voz / Então, tente lembrar que o mundo não te dará honras”.  A canção, e principalmente este trecho tem algo autobiográfico? Considerando a vida, na qual passamos por várias fases, qual é a sua visão a respeito do sucesso já vivenciado?

    Na verdade tudo passa nesta vida, mas podemos fazer coisas que tenham valor eterno. Essas coisas são as mais importantes. O sucesso dos homens é passageiro, por isso ser conhecido no céu é o que mais quero na minha vida. A única coisa que sobe com a gente depois desta vida são as almas que apresentamos diante do Senhor. Não por mérito nosso, mas por causa dEle. Precisamos fazer amigos eternos.


    O PROPAGADOR – No final de 2013, foi lançado no iTunes a canção “Mais que Palavras” com a participação de sua filha, Lídia, nos vocais. Em março, foi divulgada no Soundcloud “Nada Mais”, dedicada a sua esposa Ayna Braconnot e mais recentemente “Amado da Minh’alma”. Essas canções podem se tornar um álbum solo?

    Podem e devem (risos). Tem muito mais para ser gravado se Deus quiser.


    O PROPAGADOR – No aniversário de Carlinhos Felix em janeiro de 2013, o senhor cantou ao lado dele canções do Rebanhão. O guitarrista Pablo Chies também estava presente. Como é a sua relação com os demais ex-integrantes do Rebanhão, especialmente Paulo Marotta e Carlinhos Felix?

    Graças a Deus somos amigos e contamos com a presença dos dois em uma reunião para gravar um DVD Rebanhão 35 anos.


    O PROPAGADOR – Em dezembro, completam 30 anos da gravação de Janires e Amigos, o primeiro álbum da música cristã nacional gravado ao vivo. O senhor possui alguma lembrança em especial desta gravação? Como foi encarar a saída de Janires, visto que além de “mentor” e líder, era grande amigo da banda?

    O Janires foi um cara único, ele saiu talvez porque nós não conseguíamos seguir no ritmo dele. Deus o usou de maneira especial e o levou. No entanto tinha outros planos para o resto de nós. Foi um desafio quando ele disse que ia sair, mas conseguimos seguir em frente com a graça e misericórdia de Deus.


    O PROPAGADOR – Agradecemos pela entrevista. Gostaria de deixar alguma mensagem para nossos leitores?

    Agradeço a oportunidade e quero convidar os leitores a participar deste movimento Rebanhão 35 anos na nossa página do Facebook e em breve no site www.rebanhao.com

  • Entrevista: Fernando Augusto (Tutuca)

    Fernando Augusto, também conhecido como Tutuca foi baterista durante a fase clássica do Rebanhão, juntamente com Pedro Braconnot, Carlinhos Felix e Paulo Marotta. Permanecendo no grupo durante seis anos, mas com vastas experiências, o músico baterista nos conta um pouco do que viveu e experimentou durante e fora deste tempo, além do projeto de 35 anos do grupo.

    O PROPAGADOR – Como se deu sua conversão e início da vida cristã?

    Eu me converti através de um convite feito pelo grupo jovem da Igreja Episcopal do Rio de Janeiro na Tijuca, bairro onde nasci e cresci.


    O PROPAGADOR – Como lhe surgiu o interesse pela música e a bateria?

    Me interessei por bateria desde meus 5 anos de idade e ganhei uns tambores de ritmos percussivos. Participei de bandas escolares, e depois comecei a tocar em bandas de amigos da minha rua. Logo depois ingressei na escola de música Vila Lobos, onde fiz o curso em canto, percussão e bateria. Após o curso, participei de festivais musicais de escolas e bandas de covers. Daí passei a tocar em casas noturnas do Rio de Janeiro como o Peplo, na zona sul e existe um lugar na Barra da Tijuca. Porém quando me converti aí sim me dediquei apenas à música cristã.


    O PROPAGADOR – Você entrou no Rebanhão numa época de mudanças, com a saída de Kandell e Janires. Como se deu a sua entrada no grupo, e quais as referências que a banda tinha naquela época?

    Após a minha saída da Igreja Episcopal, fui convidado pelo amigo Marcos Brito, guitarrista da Banda & Voz a conhecer a Igreja de Nova Vida da Tijuca, onde conheci o Carlinhos Felix (pois tocávamos juntos na banda da igreja) e aí, num certo dia ele me convidou para entrar na banda. Nossas referências musicais era um som pop de bom gosto.


    O PROPAGADOR – O primeiro álbum do grupo com sua participação, “Semeador”, assim como o sucessor “Novo Dia” foram lançados por uma gravadora multinacional. “Novo Dia” também foi produzido por Paulo Debétio, que trabalhou bastante com a cantora Alcione. Como era para vocês ver que o trabalho do Rebanhão alcançou um patamar alto para os padrões da época?

    Ficamos muito felizes por ter tido esta oportunidade e pelo reconhecimento da gravadora aprendemos muito com estes grandes profissionais.


    O PROPAGADOR – O Rebanhão também foi pioneiro em fazer shows em casas em que a participação de músicos cristãos era nula, como o Canecão. Quais são as maiores lembranças que você tem destes feitos? Em algum momento, naquela época, o senhor seria capaz de supor a importância que o faziam teria para o futuro da nossa música?

    As lembranças… eram muitas!!! Mas um fato engraçado é que logo após o último ensaio na estreia desse show ficamos com muita fome e fomos comer pizza no shopping do Rio Sul. E outra: quando recebemos no palco do Canecão tivemos a visita do Abram Laboriel e do Alex Acunha, que eram músicos consagrados da época. Tínhamos uma relação de família. Sempre estivemos juntos, éramos amigos dos familiares, frequentávamos as casas de cada um. Enfim, uma relação de afetividade e alegrias. Não imaginávamos que teria grande impacto futuro.


    O PROPAGADOR – Após os trabalhos pela PolyGram, a banda lançou Princípio pela Gospel Records, e hoje é considerado o clássico da banda pós-Janires. Em relação ao sucesso de canções como “Palácios” e “Selo do Perdão”, como foi a turnê de divulgação deste trabalho? Após Princípio, você deixou o grupo. Quais atividades musicais tem desempenhado de lá pra cá?

    A divulgação foi ótima. Viajamos muito por todo o Brasil, e éramos muito bem recebidos pelas capitais onde passávamos. Eu iniciei um ministério junto a minha esposa chamada Andréa, que já louvava a Deus antes de nos conhecermos. Gravamos 2 CDs e 1 DVD. Continuo gravando em estúdios.


    O PROPAGADOR – Qual a sua visão sobre a música cristã nacional atual?

    Sobre a música atual, acredito que tenha trabalhos de valores, estúdios e tecnologia de ponta. Eu prefiro ter uma visão pelo ângulo positivo.


    O PROPAGADOR – Recentemente, Pedro Braconnot anunciou a reunião do grupo. Desde 2000, são quase 15 anos inativos, e são quase 25 contados após sua saída. Como se deu essa reunião? Qual a expectativa de vocês para este trabalho? Tem alguma novidade a adiantar?

    Olha, a expectativa é muito grande! Eu, inclusive falei com o Paulinho Marotta, também com o Pedro e fiz exatamente esta pergunta e o Paulo me respondeu que estava muito animado e feliz, assim como eu. Acredito que este projeto seja do coração de Deus. Com certeza é uma forma de devolvermos ao Senhor através da música tudo que ele tem feito de bom na vida de cada um de nós, ao longo destes 35 anos. Com certeza em breve nos reuniremos.


    O PROPAGADOR – Agradecemos pela entrevista. Gostaria de deixar alguma mensagem para nossos leitores?

    Deixo um grande abraço a todos os amados irmãos leitores do portal O Propagador, e espero ter contribuído. Que Deus abençoe a todos.

  • Entrevista: Hadassah Perez

    Ela tem apenas 19 anos e é considerada uma das grandes promessas da música gospel nacional. Fazendo seu pop eletrônico, a goiana Hadassah Perez vem conquistando jovens e adolescentes de todo o Brasil, levando a Palavra de Deus por meio de sua música. Nessa entrevista exclusiva, Hadassah fala sobre sua carreira, música, desafios, inseguranças e fé. Confira!

    entrevista hadassah perez


    O PROPAGADOR – Vamos começar com uma curiosidade. Seu nome de nascimento é Damaris. Por que escolheu Hadassah?

    Quando comecei a gravar minhas músicas, já existia uma cantora com o mesmo nome que eu bem famosa no cenário gospel. Como o estilo de música dela é diferente do meu, orei e pedi a Deus um nome artístico. E como sempre fui apaixonada pela história de Ester na Bíblia, eu escolhi ‘Hadassah’, por ser o nome judeu da rainha Ester e ‘Perez’ complementou pois é meu sobrenome. Deus logo em seguida me deu confirmação desse nome através de uma pastora que não me conhecia no Sul do país!


    O PROPAGADOR – Você iniciou sua carreira profissional aos 15 anos e já dentro do pop eletrônico. Por que apostar logo de cara em um estilo tão pouco explorado no meio gospel? Você não teve medo de rejeição à sua música?

    Esse é um estilo musical que eu sempre amei e sentia falta no gospel brasileiro. A aposta é a certeza do que Deus colocou no meu coração desde o começo.  Não posso negar o receio que senti, mas eu confiei em Deus em meio a tantas Palavras que Ele me deu, logo muitos pastores começaram a perceber que não era um estilo que tirava os jovens das igrejas, pelo contrário, atraia eles!

     


    O PROPAGADOR – A música gospel ainda não é muito familiarizada com a batida eletrônica. Tendo um estilo pouco convencional para os padrões conhecidos no meio, você já enfrentou alguma situação de resistência ao seu som?

    Sim, muitas. Principalmente porque as pessoas as vezes esquecem que uma música não é composta apenas pela ‘batida’, mas também pela letra. Por causa disso, criam uma resistência antes mesmo de entender do que a letra fala. Mas como eu sempre digo, a música foi Deus quem criou, então todos os ritmos são Dele.


    O PROPAGADOR – Você ficou dois anos como independente com seu “Tudo que eu Preciso”. Quais são as maiores dificuldades para levar a carreira sem o respaldo de uma gravadora?

    Infelizmente um trabalho independente, ainda, enfrenta muitos obstáculos. Tem pouca credibilidade aos olhos do mercado fonográfico. Distribuição e assessoria para a expansão correta do trabalho é difícil de conseguir. Mas, quando Deus quer algo, nada é impossível!


    O PROPAGADOR – Quais são suas expectativas para esse novo momento em sua carreira, com o “Tudo que Eu Preciso” relançado recentemente, agora com o selo Universal Music Christian Group? Que projetos futuros você pode nos adiantar?

    Quero realmente que o Brasil e o mundo conheçam esse trabalho, esse ministério, através esse dom que Deus me deu. O contrato com a Universal Music Christian Group é muito mais do que poderia sonhar. Fazer parte do cast gospel da maior gravadora de música é sinônimo de poder alcançar muitas pessoas pregando o evangelho através da minha música!


    entrevista hadassah perezO PROPAGADOR – Você só tem 19 anos, já é apontada como uma das grandes revelações da música gospel nacional e ainda tem contrato com a grande Universal Music. Isso te assusta? Como você, sendo tão jovem, faz para lidar com as pressões e expectativas sobre você e seu trabalho?

    Sim, assusta um pouco – risos- Mas graças a Deus tenho pessoas que me apoiam e me ajudam muito. Conto principalmente com a ajuda dos meus pais que sempre estiveram comigo dando suporte para que eu chegasse até aqui. Investiram em mim desde o começo crendo na palavra do Senhor. É essa energia, essa força que me motivam a cada dia.


    O PROPAGADOR – Você está se tornando uma referência para adolescestes Brasil afora. Você sente o peso dessa responsabilidade?

    Sim, sinto. E acho isso bom. Me ajuda a ficar firme cada dia mais na presença de Deus, me santificando, buscando, porque quero ser essa referência para eles! Referência somente de coisas boas. Podemos ser o que quisermos em Jesus. Ser jovem é benção, mas devemos aproveitar com sabedoria. 


    O PROPAGADOR – Em entrevista recente, você disse que o principal segredo para quem quer iniciar no ministério é a santificação. Como ser jovem, bonita, inteligente, conhecida e ainda se manter santificada à Deus e fiel a seus princípios?

    É difícil? É, muito! Mas Deus não disse que iria ser fácil, né?!! – risos – Obrigada pelos adjetivos acima! Procuro ser o melhor pra Deus, tudo que faço tem que ser de excelência porque Deus não mandou um anjo qualquer para morrer por mim e me dar a liberdade, me dar a vida, o perdão pelos meus pecados. Ele mandou o próprio filho, Jesus! A santidade é algo muito importante em um ministério. Como ser um templo do Espírito Santo se eu me contaminar com as coisas desse mundo? Então busco sempre estar limpa e santa perante Deus, para que eu possa ser usada por Ele nesse ministério.

  • Entrevista: Leonardo Gonçalves

    Ele é um dos grandes nomes da música cristã nacional. Dono de uma voz privilegiada, de técnica vocal apurada e talento natural para composição, Leonardo Gonçalves é sucesso de público e crítica. Em vias de lançar “Princípio”, seu primeiro DVD, o cantor fala com exclusividade ao PROPAGADOR sobre sua história, inspiração, projetos, família, trabalho, sonhos e fé.

    leonardo gonçalves entrevista

    O PROPAGADOR – Você é de uma família musical. Seu pai foi integrante do Arautos do Rei, o maior grupo vocal do Brasil e seu tio, Williams Costa Júnior, é um grande e reconhecido produtor musical. Você sempre sonhou em trilhar o caminho musical, ou a música foi um sonho mais tardio?

    A música na verdade nunca foi um sonho pra mim. É verdade que desde o ventre da minha mãe fui exposto a música de qualidade e desde muito cedo (com 5 anos de idade) tive aulas de música, mas, especialmente onde cresci, isso fazia parte de uma educação geral; ter aulas de música não era algo “profissionalizante”, mas algo que deveria me ajudar a constituir-me gente, no sentido mais amplo. Estudei Viola da Gamba por 7 anos (dos 7 aos 14), mas sempre fui um instrumentista muito limitado; não tinha e não tenho facilidade pra coisa. Foi quando comecei a cantar que “me descobri” na música. E, dado meu background, comecei até a cantar relativamente tarde, com 15 anos de idade, já no Coral Jovem do IASP e no grupo Tom de Vida.

    Já escrever, sempre foi algo que fez parte da minha vida. Comecei a tentar minhas primeiras narrativas com 7 anos de idade e a partir dos 13 anos não lembro de um tempo em que não escrevi. E foi aos 11 anos de idade que decidi que eu queria estudar Literatura e lecionar. Cheguei a me formar em Letras, mas o chamado para a música e para o ministério acabou sendo mais forte.


    O PROPAGADOR – Musicalmente, quem te inspira? De onde vem suas referências musicais?

    Primeiro acho que temos separar “inspiração” de “referência”. Já me compliquei por confundirem as duas coisas, rs. Vamos mudar “referência” para “influência”, pode ser?

    O que me inspira é o Eterno; e meu relacionamento com Ele; as angústias e as certezas que provém deste relacionamento. Em segundo lugar: Sua criação; e meu relacionamento com Sua criação e Suas criaturas. Viver é algo extremamente inspirador. Mas na medida em que você se conhece e reconhece o plano dEle para você e para a humanidade, isto também é extremamente desconcertante. Mas esta tensão entre o que é e o que deveria ser é uma fonte inesgotável de inspiração.

    Quanto a influências musicais… Antes de citar coisas específicas, quero explicar um conceito que creio explicar não somente como penso, mas também muitas de minhas decisões em relação ao que eu escuto: Eu creio que, da mesma maneira que não existe um ser humano que é 100% bom, também não há, sobre a face da terra, nenhum ser humano que seja 100% ruim. Nós cristãos muitas vezes temos a mania de descartarmos uns aos outros inteiramente por causa de, às vezes, uma só coisa. Queremos muitas vezes encontrar na vida ou na intenção de alguém confirmação ou segurança de que o que esta pessoa faz (artisticamente) é bom ou “do bem”. Só que qualquer vida que for analisada sempre terá suas falhas; e acho muito perigoso começarmos a dividir se esta ou aquela falha é, para nós, aceitável ou não; quais falhas são “menores” e quais “maiores”. Quanto às intenções… Diz o ditado popular que “de boas intenções o inferno está cheio”; e ao mesmo tempo que, às vezes não intencionalmente, fazemos coisas ruins, eu também creio que, às vezes sem nos apercebermos disso, podemos fazer coisas muito boas, verdadeiramente inspiradas.

    Além disso: se há criatividade, se há profundidade, se há beleza, se há elevação de alma, como não atribuir isto ao Eterno? Como alguém poderia fazer estas coisas se não pela capacidade que Ele lhe deu? Entendo que para muitos cristãos estas afirmações sejam extremamente complicadas. Por um lado, há muitas pessoas que não se querem dar ao trabalho de refletir, e há muitos cristãos que sequer buscam um nível de auto-consciência que lhes permita o mínimo de auto-análise. E muitas destas pessoas preferem respostas prontas, fáceis, ou melhor: alguém que lhes diga o que ouvir e como ouvir. E por outro lado há aqueles que temem o que pode acontecer se cada um pensar por si, e a que conclusões cada um chegará baseado em suas próprias reflexões e que não teríamos como administrar ou controlar isto. Já eu creio que Ele dotou a cada um de nós de inteligência e de capacidade de reflexão. E não fazermos uso dela chega a ser um insulto a Quem nos criou.

    Talvez alguns não compreendam o porquê de uma “introdução” tão longa a uma pergunta tão simples. Fato é que, se Wolfgang Amadeus Mozart vivesse hoje, em uma época de instagram e Facebook, talvez a grande maioria dos cristãos o desprezasse enquanto ser humano e descartasse toda sua obra. Não apenas a “secular”, mas também a “sacra”. Até porque seria difícil aceitarem que uma pessoa com hábitos tão desprezíveis fosse capaz de produzir qualquer coisa sublime. Mas a verdade é que o Criador não nos usa por sermos bons, mas o fato de sermos usados por Ele é o que nos torna bons, apesar de não o sermos. E também há, como mencionei anteriormente, o fato que Ele criou a TODOS NÓS (não apenas aos cristãos) à Sua imagem e semelhança. E por mais que o pecado nos deteriore, não há como nada apagar esta centelha do divino que há em cada um de nós. E eu prefiro procurar esta centelha não apenas na arte, mas também nos meus relacionamentos com outros seres humanos.

    Sei que mesmo depois desta longa explicação há quem cite Tiago 3:11: “Porventura deita alguma fonte de um mesmo manancial água doce e água amargosa?” Basta ler o texto todo pra entender do que o autor fala: “Mas nenhum homem pode domar a língua. É um mal que não se pode refrear; está cheia de peçonha mortal. Com ela bendizemos a Deus e Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus. De uma mesma boca procede bênção e maldição. Meus irmãos, não convém que isto se faça assim. Porventura deita alguma fonte de um mesmo manancial água doce e água amargosa?” (Tiago 3:8-11) Veja que em nenhum momento ele diz que não é assim; ele diz que todos nós deveríamos fazer de tudo para que não fosse assim, embora esta seja –ainda– nossa realidade. Hoje busco separar ao máximo da minha capacidade o artista de sua obra; e me contento em avaliar e desfrutar da obra, sem ter que avaliar e julgar o artista.

    Vamos, então, às minhas influências musicais. Ouço realmente muita coisa diferente. Tenho mais de 1.000 cds em casa, fora as bibliotecas digitais e/ou virtuais. Tem sempre algumas coisas que estou ouvindo atualmente –e entre estas eu citaria Os Arrais, Noah Gundersen, The Brilliance, Andy Gullahorn, Bon Iver, Josh Garrels, Leeland, etc.– coisas que já passaram pelo “teste do tempo” e que sempre volto a escutar –como Bach, Tschaikovsky, Cindy Morgan, Radiohead, Michael Jackson, Justin Timberlake, Peter Gabriel, Sting, João Alexandre, Coldplay, etc.– e ainda tem as coisas que eu escuto “profissionalmente” (porque de alguma maneira participo da produção destas coisas) que também tem um grande impacto no meu trabalho, como Daniela Araújo (hoje, de longe, minha maior influência), Oficina G3, Felipe Valente, etc.… e tantos outros que eu nem saberia citar.

    leonardo gonçalves entrevista


    O PROPAGADOR – Você já morou em alguns países mundo afora. Essa experiência internacional influenciou na sua música? Quais as diferenças você enxerga entre a música evangélica produzida aqui e lá fora?

    Bem… na Europa foi onde morei mais tempo e lá quase não há produção de música cristã expressiva, como nos EUA ou no Brasil. Curiosamente entrei em contato, mesmo, com a música cristã dos EUA depois de voltar a morar no brasil, por influência dos meus primos brasileiros que entendiam tudo do mercado de música cristã americana, rs. Eu acho que em muitos sentidos diferentes, ter morado fora por tanto tempo me influenciou e influencia. A começar pelo fato e saber que em outros lugares os hábitos são diferentes –e que isto nada tem de superior ou inferior– me faz rejeitar qualquer conceito de normatização. Outra coisa é que minhas influências vocais quase todas não são brasileiras e que por isso, naturalmente, eu aspirava a um tipo de voz que não era muito comum por aqui, quando eu comecei a cantar.

    Agora a principal diferença que enxergo é do mercado, mesmo. O brasileiro é diferente e por isso a música brasileira é diferente. E por muito tempo, também, o mercado fonográfico de música cristã no brasil era tão pouco rentável que não tinha como se investir muito dinheiro em produção. E isso acabou influenciando tanto o gosto do público como também a produção em si. Tenho dados de 2 DVDs de pagode –que dizem ter como público-alvo as classes C e D à semelhança da maioria dos evangélicos no Brasil– em que foram investidos em torno de 2.500.000,00R$ na produção de cada um deles. A média das “grandes” produções evangélicas é o dízimo disso. Mas o público evangélico parece não se incomodar com isto.


    O PROPAGADOR – Em entrevista concedida há alguns anos, você declarou que descobrir sua ascendência judaica foi o que te levou às pesquisas que acabaram culminando no “Avinu Malkenu”, lançado em 2010. Como foi essa experiência de lançar um trabalho no idioma de Cristo e de seus antepassados? O fato de se descobrir judeu, em algum momento foi fator de impedimento ou preconceito no meio musical?

    Olha… há tanto preconceito no mundo que acho difícil a gente, quando sofre preconceito, saber o porquê, no momento em que sofre, rs… Não lembro de nenhuma situação em que eu tenha ficado com esta impressão, no entanto. Uma pequena correção: os estudiosos crêem que Jesus e seus discípulos falavam Aramaico; mas a língua dos cultos e da Bíblia de sua época era o Hebraico, claro. No cd há uma canção em Aramaico; o resto é em Hebraico, mesmo. A experiência foi incrível. Indizível, na verdade. O tanto que aprendi e continuo aprendendo a respeito do Novo Testamento, quanto mais eu mexo com a cultura judaica, não tem palavras. Não poderia nem citar um exemplo apenas e acho que só este assunto mereceria uma entrevista completa, rs.


    O PROPAGADOR – Há alguns anos você disse em entrevista que estava preparando um disco em inglês totalmente com músicas inéditas. Mais tarde, no “Princípio e Fim”, você gravou “There”. Esse projeto ainda existe? A carreira internacional é o próximo passo?

    Gravar um cd em Inglês é uma coisa; carreira internacional, outra, rs. Tenho muita vontade de gravar um álbum em Inglês, mas não sei se eu teria condições de fazer disso uma carreira. Já não tenho nem mais idade nem condições de fazer o necessário para fazer uma carreira internacional “virar”. Teria de me mudar pra lá, correr risco de perder meu público aqui, por algo que não somente é incerto mas até improvável. Encaro meu possível projeto em Inglês como o fiz com meu cd em Hebraico: como um projeto paralelo que me dará a oportunidade de explorar coisas artisticamente que não posso no meu trabalho principal que é em Português. E continuo sonhando com isso. Mas sem nada concreto.


    leonardo gonçalves entrevista

    O PROPAGADOR – Você é aclamado como uma dos melhores cantores da música cristã nacional, não apenas por sua alta técnica vocal como também pela qualidade musical de seus discos. Isso pesa na hora de produzir novos projetos? Como você lida com a alta expectativa que o público e a crítica criam em torno de seus trabalhos?

    Nenhum público e/ou mídia poderiam colocar sob meus ombros uma pressão maior do que minha família e amigos –mesmo sem saber disso– colocam. E nem eles conseguem colocar uma pressão maior do que simplesmente esta: que Ele espera o meu melhor; e que qualquer coisa menos do que o meu melhor seria um insulto a Ele. Então não estou “competindo” com ninguém. E nem com meus trabalhos anteriores. Mas estou sempre em busca de dar o meu melhor. Stravinsky sempre respondia à pergunta de qual sua maior obra da seguinte maneira: “A próxima.” Mesmo que não seja verdade, gosto de pensar assim.

    Eu sempre avalio o meu trabalho levando em consideração 4 itens: arte, produção, conteúdo teológico e conteúdo espiritual. E quero fazer o melhor nas 4 áreas, de preferência de maneira equilibrada. Os arranjos, as melodias, as letras, a interpretação, tudo que diz respeito à arte precisa ficar o mais bonito possível; a produção precisa ser a melhor disponível, com mais clareza e menos ruído entre o ouvinte e eu; o conteúdo das letras precisa ser relevante, teologicamente atual e correto (e tenho com quem discutir todas as idéias antes de gravá-las), além de apresentado da forma mais bela possível; e com tudo isso não pode faltar o ingrediente principal: a “unção”. E não é fácil dar 100% em todas estas áreas equilibradamente. E estou longe de conseguir fazê-lo. Mas vou morrer tentando…


    O PROPAGADOR – Você faz uma música que definitivamente não é popular, no entanto, você conseguiu popularidade e reconhecimento do grande público. Isso é surpresa, visto que você não se enquadra no padrão do gospel mais acessível?

    Foi uma grande surpresa pra mim. E continua me surpreendendo aonde o aprouve ao Eterno levar minhas canções e minha voz. Nunca esperei muita coisa, mas realmente é surpreendente, levando tudo em consideração. Mas há pelo menos uma tentativa de explicação: especialmente no começo do meu trabalho, quem me escutava muito eram os músicos; de bandas, de igreja, etc… Aliás, muitos falaram que meu (primeiro cd) não “daria certo” porque eu estava fazendo música para músicos. Não sei se isto é verdade, mas fato é que há músicos em todas as igrejas; e eles são formadores de opinião. E tenho certeza que esta foi uma das maneiras que o Senhor encontrou para tornar meu ministério viável.


    O PROPAGADOR – Você é adventista e os artistas da igreja costumam ter maior reconhecimento junto aos membros da própria IASD. Você, no entanto, especialmente a partir do enorme sucesso de “Getsemani” expandiu essas fronteiras, passando a ter sua música tocada em todas as igrejas. Ministerialmente, o que isso significa pra você?

    Em primeiro lugar isto significa que canto em eventos muito diferentes, de tamanhos e estruturas muito diferentes e em praticamente todas as denominações. E gosto disso e acho que me adapto bem a isso. Mas isso também significa que eu não preciso me preocupar em agradar apenas um grupo de pessoas, me dá uma independência incrível nas decisões que, por causa disso, sou capaz de tomar, ministerialmente.


    O PROPAGADOR – Há algum tempo, você participou de um show do cantor Ed Motta. Como foi isso? E as reações do seu público a essa parceria? Você acha que o público cristão está pronto a digerir esse tipo de intersecção entre o gospel e o secular?

    Foi ótimo. Foi demais! E o fiz baseado no que eu escrevi naquela resposta às influências e referências musicais. Com certeza o Ed foi a primeira pessoa que eu vi cantar no estilo que eu queria cantar em língua Portuguesa. E passei incontáveis horas analisando e imitando seu jeito único de adaptar a sonoridade do soul a esta nossa língua. Pra mim a parte mais legal não foi nem cantar com ele e, sim, conhecê-lo pessoalmente e poder trocar figurinhas com ele. Quanto à reação do público… De maneira geral os músicos gostaram muito. Tanto do reconhecimento do Ed quanto do que rolou musicalmente, mesmo. Mas sem sombra de dúvidas o público cristão NÃO está pronto para digerir este tipo de coisa. Literalmente graças a D-S eu não dependo de nenhum público específico. E não preciso agradar a nenhum público especificamente. E por isso posso fazer o que Ele colocar no meu coração sem ter que medir tanto as conseqüências. ABSOLUTAMENTE não me arrependo. E com certeza faria tudo igualzinho.


    O PROPAGADOR – Sobre o DVD “Principio” que está prestes a ser lançado, quais são as novidades que o público pode esperar? Como foi a experiência gravar um DVD pela primeira vez? Quais foram os principais desafios?

    O principal desafio foi participar de uma produção desta magnitude. E senti demais a pressão disso, no dia, na hora do “vamu ver”. E é um peso financeiro, mesmo. Pelo menos na minha cabeça funciona assim. Num cd em estúdio, eu posso insistir e refazer quantas vezes eu quiser, até ficar do jeito que eu acho que pode e deve ficar. E com a ajuda da Dra. Blacy Gulfier eu fico seguro de que vou conseguir chegar no resultado que eu quero.

    Já no ao vivo… com todo o investimento feito, se eu ficar doente, já era! E fiquei tão louco com isso que uma semana antes, eu realmente fiquei doente. Com febre e tudo. Claro que eu poderia refazer, depois, minha voz, mas tomei a decisão consciente de me expôr, de ser vulnerável e até mesmo quebrar este “mito” que vocês mencionaram antes de “um dos melhores cantores da música cristã nacional”. Sei que haverá comentários especialmente em uma ou outra música, mas já estou mais bem resolvido com isso e oro para que não seja um ruído para a transmissão da mensagem; e hoje até creio que isso pode ajudar na transmissão desta mensagem.

    Um exemplo: bem no meio da programação teve uma música em que fiquei emocionado; chorei, mesmo, durante a música do começo ao fim, praticamente. Até entendo que isso possa ficar legal, no DVD, porque foi algo muito do momento e um momento realmente muito especial pra mim. O problema é que depois que você chora, a voz muda. E sempre pra pior. Quem trabalha com voz sabe disso. E minha voz CLARAMENTE esteve pior depois desta música. Justamente nas músicas pelas quais o público mais espera que são “getsêmani”, “Ele vive” e “novo”. Eu só espero que a força da mensagem não diminua por causa disso. Porque usamos 90% do que foi gravado no segundo dia de gravação do DVD (que foi 3a feira, dia 11.06.2013).


    O PROPAGADOR – Seus discos sempre tiveram a presença marcante de uma orquestra. “Principio e Fim”, inclusive, teve toda a orquestração gravada em Praga. No DVD “Princípio”, no entanto, você optou por uma banda de base e apenas a canção “Getsemani” teve um grande back vocal. Qual o motivo por optar por essa abordagem aparentemente mais simplista de sua música?

    Se eu colocasse orquestra eu ia ter que fazer overdub. Gravação ao vivo de orquestra nunca funciona. Tem que gravar antes ou depois. Ou investir 2.000.000,00R$. Gravar um cd com banda, do ponto de vista técnico, é mais simples e mais viável. E eu teria como garantir que realmente fosse tudo ao vivo. Além disso, uma das coisas que mais inspiram a criatividade é limitação e vulnerabilidade. Conscientemente escolhi me limitar e, desta maneira, me forçar ainda mais a escolher os músicos certos, a elaborarmos os arranjos certos, os timbres certos, etc.… Enfim… Com apenas 4 músicos em cima do palco, todo mundo se sente nu. Ninguém pode se encostar em ninguém em nenhum momento. Tem que dar 100% o tempo todo. E na mix dá pra escutar exatamente o que cada um tocou o tempo inteiro. Cada um em seu lugar. Se você escolhe os músicos certos, esse tipo de pressão revela o melhor de cada um… E creio que conseguimos captar isso. Mas, de fato, pela falta de orquestra neste DVD algumas canções tiveram de ser deixadas de fora…


    O PROPAGADOR – Sua esposa, a Daniela Araujo, está participando do DVD em dois momentos. Como é essa parceria musical entre vocês?

    Nossa… Tá aí outro assunto que dá uma entrevista inteira. Nós 2 somos movidos por Amor a duas coisas: a D-S e à arte que reflete esse D-S. Nada nos fascina mais, nada nos empolga mais. Nada nos emociona mais. Mas nossas semelhanças terminam por aí, rs… Somos pessoas fundamentalmente diferentes na nossa aproximação a estas coisas. E, de alguma maneira, o Eterno nos dá a capacidade de usarmos isto em nosso favor e para Sua glória.

    Ela é extremamente competente em áreas em que tenho dificuldade e vice-versa. Infelizmente nem sempre podemos aproveitar o melhor um do outro, porque o meu trabalho me consome muito e o trabalho dela também consome muito a ela. Mas das 3 músicas inéditas deste DVD duas são dela, além da música de trabalho “sublime” (que eu já havia gravado no cd “princípio e fim”, mas que nunca havíamos trabalhado)… Mas se ela não estivesse tão envolvida com seu cd “Criador do mundo” tenho certeza que ela teria ajudado ainda mais nos arranjos; ela é uma arranjadora incrível.


    leonardo gonçalves entrevista

    O PROPAGADOR – Você faz planos para sua carreira? Se pudesse escolher, como gostaria de ver seu ministério daqui a dez anos?

    Puxa… Pergunta muito difícil. Sinceramente? Daqui a 10 anos eu gostaria de ser professor, dar aula e cuidar dos meus filhos (que espero que até lá eu já tenha). É um grande privilégio poder tocar e alcançar a vida de tantas pessoas através da minha voz e música; mas o impacto que um professor de língua materna tem sobre a vida de seus alunos também é inestimável e, sinceramente, me atrai muito mais do que “os palcos da vida”. E também é um ministério.

    Mas vou continuar cantando e gravando cds enquanto aprouver a Ele… E é fácil constatar que é esta a vontade dEle pra mim, porque, muito embora eu seja um PÉSSIMO administrador da minha carreira, minha música e arte continua sendo viável. E enquanto ela o for, creio que é da vontade dEle. E se este é um método ruim de determinar qual a vontade dEle, tenho certeza que Ele me mostrará, rs.

    Mas morro de medo de amar mais meu ministério ou a vida que levo do que o próprio Senhor. E quero fechar com uma paráfrase de Os Arrais: “me dê os bens que de imediato eu possa abandonar”; e eu digo: “não me dê nada, Senhor, sem o qual eu não possa viver; nem ministério, nem carreira, nem voz, nem nada!” E digo isso com a certeza de que, se eu perdesse minha voz num acidente e nunca mais pudesse cantar, eu encontraria uma outra maneira de servir ao Senhor, ajudando no estabelecimento de Seu Reino; e por mais triste que isto fosse para mim (perder a voz), Ele me bastaria, e saber que sou dEle.

  • Entrevista: Os Arrais

    Eles foram os vencedores do nosso Top 10 de melhores discos de 2013, com o aclamado “Mais”. Analisamos minuciosamente o disco e demos nota 9 para o marcante e profundo CD que os lançaram ao mainstream. Deste então, chamaram a atenção de alguns com um grito silencioso. Perturbaram os mais céticos com uma tranquilidade sonora. Agora, a dupla André e Tiago Arrais nos concede uma entrevista exclusiva abordando os mais variáveis assuntos: o início, a carreira, fama, crítica, ensinamentos teológicos e projetos futuros. Acompanhe!

    arrais entrevista crítica

    OP: Como tudo começou? Conte-nos um pouco da história da dupla.

    Tudo começou da maneira mais natural possível. Eu (Tiago) comecei escrevendo músicas no período do segundo grau. Pouco tempo depois o André também começou a escrever músicas. As músicas eram simples, mas sinceras. Quando fui para o UNASP-EC no interior de São Paulo continuei escrevendo, e pouco tempo depois o André decidiu ir para a mesma instituição. E lá continuamos escrevendo, cantando aqui e ali, até que o dia chegou de tocarmos juntos. O André cantava as músicas dele, eu fazia vocal, eu tocava e cantava minhas músicas e o André fazia vocal. Quando eu fazia minhas visitas pastorais de estágio cantava para as pessoas em suas casas, hospitais, etc. Nossos amigos e colegas gostavam bastante de nossas músicas e desta maneira nos motivaram a gravar um CD com estas músicas. Pela providência Divina e com o apoio de muitos conseguimos gravar o primeiro CD chamado “Introdução” e este foi o começo de tudo.

    OP: O primeiro disco (Introdução), embora bastante poético, foi composto essencialmente por músicas mais diretas e pessoais com letras mais fáceis de serem assimiladas. O “Mais”, em contrapartida, é rebuscado, entretanto foi o trabalho que projetou vocês. Houve alguma surpresa, ou desde o inicio vocês tinham a ciência de que o “Mais” sendo profundo teria maior alcance? 

    Sem dúvida. O período entre o CD Mais e Introdução é de mais ou menos 5 anos. Houve bastante amadurecimento neste período. Muita água passou debaixo da ponte. Mas nunca imaginamos que o CD Mais chegaria aonde chegou. A princípio tínhamos o planos de lançar o CD de maneira independente. Mas pela providência Divina, Deus orquestrou algo diferente para o CD Mais que não poderíamos ter antecipado. Tivemos apoio de muitos amigos como o Léo (Leonardo Gonçalves), a Daniela Araújo, o Duca Tambasco e o pessoal do Oficina G3, fora o pessoal da Sony que nos deu um apoio muito grande par ao CD chegar aonde chegou. Nunca imaginávamos que o CD Mais chegaria ao 1o lugar no iTunes em pouco tempo, etc. Deus foi muito bom. Nosso objetivo desde o CD introdução era de ser fiéis ao nosso chamado de ensinar a Palavra através de música. Assim, sempre buscamos fazer o nosso melhor ao nos colocamos nas mãos de Deus. A glória é Dele. Nós somos vasos quebrados e imperfeitos, Ele é o tesouro. Mas sobre o alcance dos dois CDs, o engraçado é que esta semana o jogador Neymar postou a letra de uma de nossas músicas chamada “Cada Passo” do primeiro CD Introdução! Por mais que o CD Mais teve um alcance maior, Deus continua usando as músicas antigas para alcançar pessoas em todos os cantos com a Palavra.


    OP: O que atualmente vocês escutam e o que os incomodam na música cristã atual?

    O André e eu temos gostos muito semelhantes. Mas ouvimos de tudo. De músicas cristãs antigas americanas até Brahms. Dentre nossos favoritos estão Andrew Peterson, Andy Gullahorn (que produziu Mais conosco), The Brilliance, Sara Groves, e no cenário nacional Léo, Dani, Felipe Valente, Os Iglesias, e Fernando Queiroga estão entre os que mais admiramos (sem contar Stênio Marcius e outros gigantes da música cristã nacional).

    Sobre o que nos incomoda… pouco nos incomoda. Não estamos em posição de julgar ninguém. A pior coisa é julgar a intenção de alguém. Quando julgamos a intenção de alguém compor algo não damos o direito do outro se defender. Cada músico tem uma consciência, e um dia irão prestar contas diante do Eterno com relação a suas obras. Somente Deus sabe quais músicos estão fazendo um trabalho para glória pessoal e quais fazem um trabalho para Sua glória em favor do Reino. Podemos avaliar os frutos, mas nunca iremos saber o que agrada ou desagrada a Deus. Assim, pouco nos incomoda. Gostaríamos que certas coisas fossem diferentes, mas cada um diante de si e da missão que lhes foi dada.


    os arrais entrevista

    OP: Podemos dizer que a mensagem dita em suas canções não tem exatamente o mesmo apelo popular como as músicas mais conhecidas do meio gospel. Se for comparar, a ótica é meio torta. Para que as pessoas entendam pra onde a roda gira, expliquem melhor a visão que vocês têm do evangelho e a mensagem que querem passar. Há algum ensinamento especifico da bíblia que é pouco explanado na música contemporânea que vocês tendem a defender? 

    Boa pergunta. Nossa perspectiva sobre o evangelho e a mensagem que queremos passar é a perspectiva de Cristo. A bíblia diz em João 8:31 “se permanecerdes em minha Palavra verdadeiramente sereis meus discípulos…” Uma coisa é cantar músicas com linguagem Bíblica. Outra coisa é escrever e cantar músicas com a sabedoria que a Bíblia oferece. É muito fácil sentar e escrever uma música que fala informações sobre Deus. Difícil é escrever algo que parte de uma experiência real com Cristo através da Palavra, especialmente no contexto de sofrimento. Uma música que tenha raiz em uma realidade concreta. Meu irmão e eu temos apenas um ministério: o ministério da Palavra. A música faz parte deste ministério de ensinar a Palavra, mas tanto o André como eu estamos em uma universidade nos EUA cursando mestrado e doutorado em teologia porque a música é só parte do ministério, a música é a porta de entrada… existe muito mais na Palavra do que uma música pode abraçar. Assim, como a missão de Cristo era fazer discípulos que continuassem a obra Dele nesta terra até o Seu retorno, e como discipulado está diretamente ligado a “permanecer na Palavra” nós usamos nossas músicas para mostrar a beleza, a profundidade, e o poder que a Palavra têm de nos fazer “mais” do que nós seriamos sem Cristo.

    Sobre defender algum ensinamento… a Bíblia não precisa de defesa. Ela é o que é. Para nós, e para Paulo “é o poder de Deus para salvação daquele que crê” (Romanos 1:16). O problema é que hoje em dia nós entendemos o valor do texto Bíblico para espiritualidade, mas a Bíblia não nos fascina, não nos desfaz, não nos comove. Nosso trabalho é usar a música para ser um tira-gosto daquilo que a Bíblia oferece, assim, se você gosta das nossas músicas, espere para ver o que a Palavra tem para oferecer!


    OP: Vocês dois, além de músicos, são profundos estudiosos da Bíblia e Teologia (Tiago faz doutorado em Antigo Testamento e Filosofia Cristã; André é mestrando em Divindade). Qual a importância desse estudo e como isso reflete na música que fazem?

    Extremamente importante e faz toda a diferença na nossa música. Nós temos o privilégio de estudar a Palavra por 6-8 horas por dia na universidade (e as vezes mais!). Estamos imersos num ambiente acadêmico onde muitos tem esta mesma experiência que nós estamos tendo. E é como diz o ditado, nós somos o que somos mais o nosso ambiente. Ter passado estes anos aqui tem mudado nossa perspectiva sobre muitas coisas, mas a principal delas é a importância da educação. Educação segue os mesmos parâmetros da Redenção que Cristo oferece. Se não fosse assim, porque é tão importante “conhecer” a Cristo de acordo com a Palavra? Pense no texto de João 17:3 – “esta é a vida eterna, que conheçam a Ti.” Nossa vida eterna, nossa salvação em Cristo está diretamente relacionada ao conhecimento de Deus. Conhecimento que nunca tem fim! É permanecendo na Palavra que somos transformados e de acordo com João 8 é somente assim que encontramos verdadeira “liberdade.” Assim, o estudo da Palavra afeta diretamente quem somos em primeiro lugar. Mesmo sem estas músicas, a Palavra tem um papel central na nossa vida. Nossas músicas são apenas um pequeno reflexo daquilo que Deus está fazendo em nós, e daquilo que Deus está disposto a fazer em qualquer um que estiver disposto a ouvir Sua voz através da Palavra. Nossos próximos CDs por este mesmo motivo serão ainda mais Bíblicos, Pentateuco primeiro, Salmos em segundo, e iremos tentar cobrir a Bíblia, cantando e escrevendo sobre as experiência de nossos antepassados na fé! Para que desta forma possamos receber nova motivação para permanecer na jornada, e para que possamos continuar aprendendo do amor e da graça de Deus estendida a todos nós através da revelação da Palavra.


    OP: A respeito dos próximos trabalhos, vocês adiantaram nas redes sociais que já estão com dois projetos finalizados: O “Torah” e o EP “Salmos”. Poderiam nos adiantar alguma informação a mais sobre a sonoridade e previsão de lançamento?

    Sonoridade de agora em diante não irá ser diferente do CD Mais, poucas diferenças. Queremos manter a mesma produção pois esta é a maneira que tocamos nossas músicas. Sobre previsão e lançamento não temos idéia ainda. Só iremos entrar em estúdio quando tivermos os fundos para pagar o projeto por completo. Até lá é esperar e confiar que se for da vontade de Deus tudo irá acontecer naturalmente. Iremos fazer nossa parte, e o resto, Deus no controle.


    OP: Criticas sempre existirão. Esbarrando no maior entrave da dupla, acredito que o folk (estilo de maior predominância em seus trabalhos) veio gerando algumas críticas como “músicas que dão sono” (afirmativa já mencionada por vocês). Isso é algo que – na pior das hipóteses – permeou ou pode afetar e mudar a regência de futuros álbuns? 

    Não nos afeta nem 1%. E nada irá mudar. Nós escrevemos as músicas da maneira que escrevemos. Umas são mais animadas, outras são menos. Tudo depende do que queremos comunicar, do que a letra diz. Nem todos entendem esta relação de música (forma) e letra (conteúdo), e não esperamos que todos entendam também. E no final das contas, dormir faz bem, se nossas músicas ajudam, ótimo! rs.


    os arrais entrevista

    OP: Na música “Oração”, vocês referem à grandeza de Deus em relação à finitude humana (“que o meu nome morra com meu corpo e o de Cristo permaneça em tudo”). Qual a relação de vocês com a fama? São contrários a ela por achar errado, ou consideram como inevitável para quem consegue destaque com o trabalho? 

    A fama não é um problema em si. O problema é o ser humano. Os construtores da torre de babel em Gênesis 11 buscavam um “nome,” um tipo de “fama” egoísta, voltada para o “eu,” para as obras como um fim em si mesmo. Logo em seguida no capítulo 12 de Gênesis Deus chama Abraão e diz que irá dar a ele um “nome,” um tipo de “fama” diferente, uma “fama” em serviço de muitos, uma “fama” que termina glorificando a Deus e não as obras do homem. Nunca buscamos o primeiro tipo de fama. A fama egoísta, que busca aplauso de homens nas custas do favor de Deus. Como disse antes, meu irmão e eu cantávamos nossas músicas em visitas pastorais, em casas, em barracos, mansões, em hospitais, em asilos. Isto nos dava e ainda nos dá muita alegria. Pois a música tem esta função de alcançar as pessoas onde elas estão, e quando podemos orar pelas pessoas, falar para elas da Palavra e não somente cantar, o trabalho é ainda mais completo e profundo. Desta maneira, se esquecerem de nós amanhã, para nós, nada irá mudar, iremos continuar fazendo aquilo que sempre nos deu alegria: ensinar a Palavra de diversas maneiras, para poucos ou para muitos. Recebemos muitos emails com convites para cantar em diversos locais. As vezes estes emails contém informações como: “3 mil pessoas estarão no evento…” e muitas vezes nem respondemos. Não estamos atrás de fama, atrás de multidões, mas atrás de fazer a vontade de Deus, para 1 ou para 10 mil com a mesma intensidade e devoção. E foi por isso que escrevemos: que nosso nome morra com nosso corpo e que o de Cristo permaneça em tudo. Se no final de nossos dias as pessoas lembrarem mais de nós, e menos do Cristo do qual falamos, cantamos, e servimos, teremos falhado. A fama que queremos é aquela fama que traz glória a Deus. Se é plano de Deus que nossas músicas se espalhem pelo Brasil todo gerando uma certa “fama” que assim seja, mas nosso ministério, nossa vida e existência não dependem disso. Ele sabe. E é por isso que de alguma maneira Ele honrou nossa disposição de usar nossos dons para minoria nos dando oportunidades de cantar para uma maioria que não nos conhecia. A fama que queremos é a fama diante Dele, uma fama onde nós desaparecemos, e Cristo permanece em tudo. Uma fama que no serviço faz o homem desaparecer para que a glória Dele seja manifesta. João Batista estava certo: “importa que Ele cresça e eu diminua…” (João 3:30). Perfeito exemplo a ser seguido!


    OP: Residindo nos Estados Unidos, pretendem iniciar um ministério ou projeto voltado especificamente no idioma inglês? 

    Quem dera! Temos algumas músicas em inglês, mas infelizmente todos os fundos que temos e recebemos dedicamos para os projetos brasileiros em português. Nossa vida aqui nos EUA é passageira. Se um dia retornarmos para cá, iremos pensar mais uma vez nesta possibilidade, mas no momento nosso foco é no Brasil.


    OP: Como vocês veem o futuro da dupla? Mesmo sendo matéria de competência Divina, se vocês pudessem escolher e trabalhar nisto, como vocês – enquanto músicos – se enxergam no futuro? Considerando o momento que decidiram fazer música profissionalmente, vocês já atingiram o que sonhavam? Ultrapassaram? Ou ainda não alcançaram? 

    Há sempre mais. Enquanto Deus nos der melodias iremos compor pois isto é natural para nós. É uma maneira de sintetizar teologia para que ela seja comunicada de uma forma mais simples e bela, através de arte. Mas sobre o futuro nosso plano é continuar nos colocando nas mãos de Deus como temos feito até aqui. Iremos continuar escrevendo músicas e é Ele quem decide aonde estas músicas irão chegar. Assim, com ou sem CD, com ou sem fama, iremos continuar nesta trilha. Nosso sonho é cobrir toda a Bíblia na forma de música. De Gênesis até Apocalipse, para que as pessoas tenham um desejo renovado de estudar estes livros cheio de beleza e poesia, livros que contam a história da humanidade na vida de pessoas que como nós viveram alegrias e tristezas, desafios e incertezas, que lutaram com o “eu” ao aprenderem a confiar num Deus que muitas vezes nem podiam ver. Desta maneira, sempre existe mais para ser feito, mais para ser escrito. Mas nos colocamos nas mãos de Deus, nós somos apenas instrumentos, ele é o Músico, o Regente.