NOTA: Este texto era parte integrante da coluna Destrinchando, do antigo portal Gospel Músikas, hoje parte do O Propagador. Pela fusão dos portais, todos os textos do Destrinchando estão na coluna de análises/resenhas de discos.
Em 6 de junho de 2009, o grupo Trazendo a Arca lançava o segundo álbum de inéditas de sua carreira, e, somando com os discos lançados pelo Toque no Altar este era o sexto.
É importante nos situarmos ao contexto histórico em que o disco foi lançado – mesmo que este seja um tanto quanto recente. No gospel nacional, o mercado estava vivendo uma fase pós-estouro de Regis Danese, Lázaro e Damares, principalmente com suas canções “Faz um Milagre em Mim”, “Meu Mestre” e “Sabor de Mel”, respectivamente. À exceção de Lázaro, todas as demais canções possuem uma tendência letrística muito forte pela horizontalidade, em palavras mais informais, trazem o homem como foco de sua temática, embora todas elas falem de Deus. Em 2009, Fernandinho chegara com seu trabalho Uma Nova História, com a música-título apresentando uma letra altamente positivista. Coincidência ou não, o mercado estava colhendo uma gama de discos e canções frutificadas a partir de uma tendência a qual o Toque no Altar (grupo ao qual o Trazendo a Arca se dividiu) plantou, de deixar a verticalidade para apresentar uma horizontalidade, em assuntos, as vezes altamente ligados à vertentes neopentecostais, como prosperidade e milagres.
Não querendo debater aqui a validade de tais canções, o fato é que, Pra Tocar no Manto é um disco que rompe de maneira forte toda essa tendência dentro e fora da carreira do Trazendo a Arca. E, o natural era que isso mesmo acontecesse, principalmente pelo desligamento com o Toque no Altar, e consequentemente o Ministério Apascentar em Nova Iguaçu. Não faria o menor sentido o grupo dissidente continuar a compor e produzir canções que colocassem em contradição sua nova vibe.
O que me deixa fascinado, a princípio, não é a mensagem confrontadora e reflexiva que molda as faixas – mas sim, o ineditismo de Luiz Arcanjo, vocalista como principal compositor e, consequentemente frontman na concepção e produção deste projeto. No disco anterior, Marca da Promessa, a maior parte das faixas são assinadas por Luiz, Davi Sacer, Ronald Fonseca e Deco Rodrigues, ou seja, uma contribuição em grupo. Das 12 canções do álbum, Arcanjo contribui em todas como compositor, sendo que assina sozinho 5 delas, incluindo a faixa-título, single do CD. A explicação para isto é fácil. No ano anterior, Davi Sacer lançou Deus não falhará, seu primeiro trabalho solo, escrito em maioria pelo próprio em parceria com Ronald Fonseca, e Ronald trabalhou como compositor em várias canções do álbum Separados do Ministério Unção de Deus.
A respeito do conceito do álbum, esta mostra a capacidade criativa do Trazendo a Arca, que não se limitou a continuar a apresentar as mesmas temáticas, já manjadas. Enquanto “Marca da Promessa” declarava forte: “eu sei que chegará minha vez!”, “Serás Sempre Deus” diz em baixo e reflexivo tom em uma das canções que melhor representa o disco: “e ainda que a dor me diga que não, sei que é por amor, estás me ensinando que sempre És Deus”. A parte mais confrontante e forte está reservada para o final do repertório, com a seguinte pergunta: “quem é você, quando ninguém vê?”. Nota-se, que no ambiente religioso cristão sempre fomos acostumados a negar nossa verdade e a valorizar uma vida de aparências. Perdemos a nossa integridade enquanto somos corroídos por dentro em nossa realidade. E isso também entra na questão de nossos interesses. Temos nos esquecido de sermos francos e sinceros com Deus em relação à nossa vida espiritual para alcançar objetivos terrenos, que no final somente inflam nossa carne.

Fonte: Trazendo a Arca
Mas não é só de reflexão que o álbum vive. “Yeshua” é um bom exemplo de celebração, sem se prender a frases pobres, somente para entretenimento ou aprendizagem fácil nas igrejas, mostrando, com clareza o nível do amor e soberania de Deus, que, abrindo mão de toda a Sua glória, se fez menor que nós. Isso que fez Pra Tocar no Manto um álbum difícil de consumo para as igrejas, pois sua mensagem não é óbvia, tampouco superficial. “Semeando com Lágrimas” mostra a capacidade de Luiz Arcanjo em adaptar poeticamente um Salmo em uma canção bem estruturada, o que mais tarde renderia ao conceito de Salmos e Cânticos Espirituais, um sonho antigo da banda. “Dono das Estrelas” revela uma adoração a Deus não pelo o que Ele pode dar, porém, enfatizando o que Ele é e por Sua soberania. Outro ponto positivo! O trabalho, no geral, exalta a Cristo, mesmo em nossas fraquezas, relevando, em versos o quão dependentes somos dEle e do Seu amor, embora nossos sentimentos e experiências e convicções pessoais tentam nos afastar de Sua vontade.
No geral, Pra Tocar no Manto é um disco confrontador, dissertando e provocando reflexões sobre nossa identidade como filhos de Deus e Igreja de Cristo. É um projeto que, convence o seu ouvinte das suas maiores fraquezas pessoais, mas ao mesmo tempo mostra a quem devemos e como sempre recorrer. Que o ser humano, mesmo fazendo parte de uma igreja, de aparentemente servir a Deus corretamente não é blindado de fraquezas, tristezas, e dificuldades. Deus não dá somente “sim”. Pelo nosso bem, e pelos caminhos dEle que são maiores que os nossos, podemos compreender que em muitos momentos o não é necessário. Em “Perdoa”, por exemplo, retrata muito bem o lado antropocêntrico dos cristãos atuais, a arrogância, a vaidade que atinge tanto pela natureza do ser humano quanto pelo tipo de “evangelho” que muitas vezes é pregado hoje. Necessitamos ser livrados, isolados de nós mesmos. Mensagem forte demais para um trabalho congregacional, não? Eu particularmente acredito que seja, mas é necessário, completamente, principalmente no contexto atual que vivemos.
Quando Pra Tocar no Manto estava próximo de ser lançado, Arcanjo disse ao portal Casa Gospel: “As pessoas que ouvirem esse CD vão sentir uma diferença tanto na produção musical quanto nas letras. É um CD reflexivo, embora tenha muitas celebrações, é mais maduro; há canções que vão confrontar.” E realmente, hoje, após vários anos do lançamento do projeto, Luiz continua certo. Pra Tocar no Manto foi, e até hoje é o álbum liricamente mais maduro do Trazendo a Arca. O que reflete como uma pena é o fato de que na música em geral, principalmente no gospel nacional letras confrontantes, reflexivas, complexas e pouco comerciais não sejam bem aceitas, ainda mais no congregacional. Isso não é um reflexo de fracasso do disco, porém muito pelo contrário. O público da banda não estava – e ainda creio que não esteja preparado para digerir esta mensagem. Na verdade, até músicos envolvidos na produção do disco, como o ex-vocalista Davi Sacer não demonstram uma compreensão da proposta de Pra Tocar no Manto. Segundo afirmações do cantor em um vídeo divulgado em 2011, ele “percebia que depois do CD Marca da Promessa a gente começou a compor outras canções, mas que eram canções que já não estavam tão conectadas à igreja como eram as canções do Marca da Promessa pra trás”. Davi não está errado em sua afirmação. É claramente notável que foi um risco do Trazendo a Arca apresentar canções sobre verdades que a igreja brasileira, no geral não vivia e nem vive nos dias de hoje, porém nunca, liricamente são inferiores aos trabalhos anteriores do conjunto.

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