O crescimento do novo movimento no Brasil, iniciado pela Aeroilis em meados de 2001, originou uma quantidade considerável de ótimas bandas, de vários estilos, que engloba desde o rock até o tropicalismo brasileiro. Uma dos grupos originários desse cenário foi o Quarto Fechado. Com um som guiado pelo rock alternativo e com influências de Foo Fighters e Switchfoot, o quarteto composto por Eduardo Stosick (baixo), Paulo Ferreira (guitarra), Thiago Soares (bateria) e Helon Borba (vocal e guitarra), lança um EP de cinco faixas em 2012 chamado de Um Brinde ao Recomeço, de forma independente por formato digital, disponível no blog da banda. Oriundos de Florianópolis, de forma inversa, lançam seu EP sem qualquer apresentação, no entanto, tem atingido um considerável público, espalhado por todo o Brasil. Seus integrantes já são experientes na cena underground, tendo outros projetos paralelos. O vocalista Helon Borba já foi guitarrista e vocalista na banda Adorelle, e também já foi baixista da Aeroilis.
Quando se leva em conta toda a proposta musical das bandas desse meio, percebe-se a riqueza cultural, poética e musical, e nesse contexto, Quarto Fechado se supera magnificamente quando se quer falar de conteúdo reflexivo. Poucas bandas conseguem criar uma identidade, letras e estrutura artística, não como um conjunto de pedaços e que se misturam fazendo uma colcha de retalhos, mas como uma união musical e conceitual formando uma obra conectada e interligada em si. O grupo catarinense realiza isso com destreza, sendo a melhor de rock na cena do novo movimento.
Vamos começar pelo nome da banda: de acordo com os integrantes vem da ideia do que você faz enquanto está sozinho, de quem você é. E o versículo da banda, Mateus 6.6, remete justamente a esse nome: “Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.” Mateus 6.6
Ousaria ir mais longe. Um relacionamento pessoal com Deus se baseia no secreto, não aquele em que a pessoa demonstra a sua devoção a Deus querendo mostrar a todos o quanto é cristã. Parte do pessoal, do às sós com o Eterno, e ao se deparar com o conteúdo musical da banda, encontramos reflexões que partem dessa relação íntima com o divino.
Um Brinde ao Recomeço começa com uma canção com riffs de guitarra inesquecíveis. Em “Estrada para Perdição“, percebe-se a organização melódica da banda de utilizar uma guitarra base e uma guitarra solo, duas camadas com diferentes entonações. Na estruturação rítmica introdutória, a canção lembra um pouco “Break Free” do Hillsong United. A letra retrata a brevidade do nosso coração, de como os sentimentos são passageiros e falhos, e com um pedido a Deus, clama que possamos não ser guiados por ele. Hellon Borba finaliza canção com gritos cantando sobre a perdição do coração. Harmonicamente, apresenta o melhor trabalho de guitarra do EP.
Seguindo o tom confessionário da primeira faixa, “Meu Barco” é outra brilhante composição. Elaborada em ótimos trabalhos de cordas elétricas, entre dedilhados e power chords, a balada possui uma letra espetacular, versando num tom eclesiástico. Retrata sobre algo que é um dos fundamentos do cristianismo: tudo tem seu lugar. E quando algo sai de seu devido espaço, o equilíbrio se perde. Só a essência de Deus pode trazer algo ao seu equilíbrio. Isso reflete a última canção do EP, “Desordem em Mim”, que quando tudo se encontra fora de sua devida posição, há uma desordem dentro de nosso ser.
Em uma nova canção que trata assuntos reflexivos, “Fast Food” apresenta camadas de guitarras suaves na introdução, até ganhar peso no refrão e na ponte. A linha de baixo é contínua. O grupo capricha na composição dos versos, relatando sobre como o ser humano é um ser apressado, que gosta de ideias rápidas e superficiais, um “fast food intelectual”, mas na verdade, como é retratado na canção anterior, tudo tem seu tempo e que nada vem depressa. Aliás, é esse o apogeu do EP: a conexão das músicas. Outra ótima canção e uma excelente construção de versos.
“Eu Sozinho”, com pegadas de guitarras abafadas, orientadas pelo rock alternativo, apresenta a letra mais poética e complexa do álbum. Bem trabalhada musicalmente, acompanhando o estilo das outras faixas, traz dois níveis de guitarra, e uma ótima produção de baixo, principalmente no trecho “Eu acredito sim / Amar é repartir”. Aliás, o backing vocal dessa parte é perfeito e condiz bem com os versos. A obra retrata sobre um tema diferente: a desigualdade encontrada nos pés do universo, e em belas palavras declara um gesto de humildade: “De pés descalços me sinto mais vivo”. Calçados podem dar uma metáfora para a condição social de uma pessoa. Sapatos sociais para alguém importante e de classe, sandálias de hippies, tênis da Nike, Olympikus, para quem gostar de praticar esportes, entre outras alusões. Estar de pés descalços é metaforizar sobre a igualdade, abandonar todos nossos conceitos e conquistas. Estar de pés descalços é entrar em contato com a nossa origem, e também, repartir a dor do outro que se encontra descalço de riquezas.
Finalizando o projeto, a quinta faixa apresenta uma condução diferente das músicas anteriores. A canção mais lenta e confessional do conjunto exibe acordes de piano que caem perfeitamente com a balada. “Desordem em Mim” foi uma ótima escolha para finalizar o álbum. A melodia, diferente das primeiras obras, só expõe as duas camadas comuns de guitarra após o refrão. Um arranjo bem introspectivo, com ótimas elaborações de cordas elétricas e um belo trabalho de piano, expressa excelentemente os versos cantados por Helon Borba sobre a desordem dentro do nosso ser. O trabalho musical lembra bastante a segunda canção, pela letra bem introspectiva e poética.
Para acompanhar o belo e reflexivo trabalho de Quarto Fechado, o EP tem uma capa, muito bem produzida e editada, que não apenas embeleza o álbum. A arte contextualiza toda a obra do projeto. Nota-se resumidamente na imagem que há uma bela cidade de cabeça para baixo, na parte de cima, onde deveria estar o céu, e embaixo está uma lua, que deveria estar na parte de cima da foto. Essa troca de lugares na imagem define todas as composições do EP, principalmente as canções “Meu Barco” e “Desordem em Mim”: a desordem humana, a sensação de que tudo está fora do lugar. E é aí que entra todo o significado do título do trabalho musical. Nas palavras dos integrantes da banda:
“É no abrir e fechar de olhos, no giro do ponteiro, que mais um dia corrido passou. Consumindo a ponto de dificilmente pararmos um instante para repensar nossas ações, posturas e ideias.
Porém quando repensamos, podemos nos assustar com nossas próprias atitudes, e chegar à conclusão de que é hora de mudar, de fazer diferente.
Nessa hora nos dispomos a recomeçar. Mas não um simples recomeçar, como quem tenta novamente algo que não deu certo, e sim um recomeçar diferente.
Um recomeçar de insatisfação, um recomeçar de mudança, assim nos permitimos mudar, evoluir, e até mesmo nascer de novo.
E quando conseguimos, temos sim motivos pra comemorar.
Sendo assim, um brinde ao recomeço.”
Esse grande projeto, apesar de pequeno, traduz todas as “bagunças humanas”, suas confusões, vazio e superficialidade, e nos convida à mudança, ao recomeço, “como se fosse capaz de voltar” (Eu Sozinho), a nascer de novo, a repensar em nossas atitudes. Ele reflete a direção que o “Meu Barco”, o nosso barco está tomando, em um caminho onde está tudo em desequilíbrio, a “Estrada para Perdição”, e o nosso eu se encontra em desalinho, nessa “Desordem em Mim” e cada vez mais nós ficamos focados no nosso próprio ego, como se fosse só “Eu Sozinho” para se preocupar no mundo, alimentados por um “Fast Food” intelectual, e nessa verdadeira desordem, Deus nos oferece um caminho de reinício. Assim, ”vamos acreditar que o mundo pode amanhecer diferente” (Fast Food).
O primeiro lançamento do Quarto Fechado demonstra uma maturidade, identidade musical e filosófica que indica o quão longe o grupo pode ir e mostrar. Uma banda que exibe em seu trabalho, um desejo de construir uma carreira longe de clichês gospel e longe da linguagem “evangeliquês” da maioria dos cantores atuais e uma união entre os integrantes formando um único ser, não um grupo de super músicos individuais. O trabalho dos arranjos, as guitarras, o baixo, a bateria e o piano, foram bem executados, e a interpretação vocal de Helon Borba foi agradavelmente exercida, dando emoção às músicas, contextualizando-as com seus gritos. O álbum mostrou seis elementos: cinco ótimas músicas (difícil escolher a melhor) e um sexto, a conexão das músicas com a projeção gráfica e o nome do trabalho. O sexto ponto foi o auge desse projeto, a interligação dos itens, formando uma obra esplêndida e conceitual.
A banda peca apenas na divulgação musical. O blog do grupo precisa ser melhor formulado e projetado, pois é por lá que a propagação de sua música será feita.
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