Ninguém é louco de dizer que um disco, lançado lá nos idos de 1994, chamado Raimundos, não foi de extrema importância para o rock brasileiro. Quando esses ‘caras’ produziram uma obra contendo clássicos que misturavam hardcore, punk, forró e outros gêneros tipicamente brasileiros e revelou canções como “Puteiro em João Pessoa” e “Nêga Jurema”, o país conhecia um quarteto que se estabelecia, especialmente, pela criatividade de um guitarrista chamado Rodolfo.
Enquanto outras bandas, como o Legião Urbana, se despediam ou se afundavam em melancolias, esses sujeitos de Brasília se jogavam a um som cheio de atitude, humor e energia, que marcaram a cena nos anos 90. A história mostraria que a intensidade ainda se seguiu com o disco sucessor, Lavô Tá Novo (1995), que revelou “Esporrei na Manivela” e “Eu Quero Ver o Oco” e a mistura musical que faziam, chamada de forrocore. E no sucesso meteórico do Mamonas, então (que mesmo tendo uma vibe musical distinta, era fortemente adepta do humor), o Raimundos encontrava legitimidade para o meio, que sofria retrações comerciais frente ao sertanejo e pagode.
Mais tarde, escorregaram com Lapadas do Povo (1997), mas certamente a banda teve o atestado de que, naquela altura do campeonato, a grande massa e a indústria não estava levando o rock (embalado nos Acústicos MTV) tão a sério. Com um disco mais direto, complexo, estranho e próximo ao hardcore, a banda teve imensa dificuldade de se inserir nas rádios. A única opção, então, era retornar a caricatura que os fizeram conhecidos, mas sempre a inserir uma certa crítica bem implícita. A capa de Só No Forévis (1999), maior sucesso comercial do Raimundos, já tecia, com uma dose certeira de ironia e bom-humor, a declaração de que os ‘pagodeiros’ estavam tomando espaço. “Me Lambe”, “A Mais Pedida” e o enorme hit “Mulher de Fases” era uma amostra das várias boas músicas no repertório, como “Fome do Cão” e “Alegria”. Fecharam os anos 90 com um sucesso que nenhuma outra banda, nos anos 2000, emplacou.
Se o sucesso do grupo estava cada vez maior, seu guitarrista e principal letrista, Rodolfo, não estava em seus melhores momentos. O músico, que sempre enfatiza isso, tornou-se cristão protestante após afundar no vício em drogas, o que mudaria fortemente sua visão acerca das coisas. Agora, tomando uma nova “ótica”, Abrantes notou que estava sendo um “personagem”, e para não se tornar uma mera caricatura decadente, optou deixar a banda em 2001.
O Rodox surgiu em seguida, com o disco Estreito, cujas canções, por vezes, falam abertamente da nova fé de Rodolfo. “Olhos Abertos” abre o disco com frases como “Mais de uma coisa eu sei / Foi o homem quem criou a lei / Que eu conheço e não sigo / Hoje eu só sirvo ao meu Rei” e é seguido por “Não Lembro Mais” e seu trecho “Já não sou mais eu quem está na direção“. O grande feito do Rodox, talvez, é de ter chamado a atenção de dois diferentes públicos: parte do público cristão, menos legalista e mais ligado ao rock, e ao público não-religioso, que acompanhou a banda por consequência do caso Rodolfo. Musicalmente, era um grupo com excelentes músicos, trazendo até Canisso, ex-colega de Raimundos, na última formação. Mas aquele equilíbrio estético entre as boas letras, sem qualquer proselitismo, e as experiências de fé de Rodolfo tinha um curtíssimo prazo de validade. Logo Abrantes queria promover suas crenças sem a aprovação de seus colegas, a gota d’água.
Punk e cristianismo, uma mistura possível ou estranha? Seja qual a resposta, uma banda, em cenário protestante, chamava a atenção naquele período. Militantes, conjunto surgido no fim dos anos 90, chegava em 2004 com o seu segundo disco de inéditas, Escute o que Digo e Faça como eu Faço. Com letras menos religiosas que o anterior, o trabalho, que foi distribuído pela gravadora Gospel Records, trouxe a participação de Rodolfo na música “Velho Homem”.
Se os Militantes alçavam, a cada projeto, em trabalhos mais complexos e menos religiosos, Rodolfo foi exatamente ao contrário. Seu primeiro disco totalmente solo, Santidade ao Senhor, deu as pistas do caminho que o músico seguiria deste então: letras presas ao “evangeliquês”, que versam seu novo momento sem qualquer autocensura. Além da sonoridade não se comparar aos anos de Rodox, as canções acabaram soando compreensíveis apenas para a massa evangélica, o que é uma pena.
Os Militantes chegaram a 2010 com o seu disco mais agressivo e direto, Destrua o Controle, com canções que, em maioria, fazem críticas diretas a mídia, política e economia. Algumas músicas já soaram completamente sem qualquer traço de religiosidade, e o som, mais agressivo do que nunca.
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