No texto A Rua é Nós – Frase de um Missionário Urbano, disse aos meus leitores para procurarem ouvir mais o rapper Emicida porque, com certeza, iriam me ver falando mais dele aqui. E, conhecendo uma considerável parcela deles, sei que não estão naquela ideia maniqueísta e ultrapassada de gospel versus secular. Então, nesta semana, trago uma breve análise da música “Mandume”, parte do mais recente disco de Emicida, Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa… Mandume é um personagem cuja imagem é de um homem de grande porte físico, com o corpo descoberto e mais jovem. Mas a canção contém muitas informações contidas e vamos lá, oro para que esse texto lhe edifique! Em amor!
É necessário citar algumas coisas da música fora da letra que são as suas participações especiais. Emicida sofreu duras críticas por parte de alguma feministas radicais que criticaram supostas mensagens machistas e ofensivas na música “Trepadeira”, do álbum anterior. Entretanto, se você ouvir a música com um pingo de atenção entenderá que não existe nada de machista na canção, a não ser que eu esteja muito errado do conceito de machismo. Mas, esse não é o foco do texto. Chega até ser de uma ofensa sem tamanho chamá-lo de machista, pois quem acompanha sua história desde 2010, por exemplo, sabe que várias de suas músicas contém participações de mulheres e algumas músicas bem românticas. E pra provar isso, Emicida chamou Drik Barbosa para participar da canção e é ela quem abre o rap, com duração de mais de oito minutos. Outro convidado ilustre é Rico Dalasam, primeiro rapper negro e homossexual no Brasil. Ele defende e luta por essas duas classes: negros e gays. O time é fechado com Amiri, Muzzik e Raphão Alaafin. A música, assim como todo o projeto, luta contra o racismo que infelizmente nos cerca e ainda é muito grande em nosso país. Eu também sou um expoente dessa luta contra o racismo. Em oportunidades que tenho de participar de eventos e palestras sobre o assunto, procuro trocar uma ideia bem positiva sobre o assunto.
“Mandume” é uma das melhores músicas de toda a carreira do Emicida e aqui eu preciso levantar três questões sobre a música antes de analisá-la: Racismo, desigualdade social e hipocrisia. Os três conceitos andam juntos, mas com alguns impactos particulares. E o que o cristianismo tem a ver com isso? O apóstolo Paulo em Gálatas lutou contra o racismo quando quem estava fazendo isso era o próprio apóstolo Pedro. No livro Gálatas para Você, Tim Keller ilustra muito bem de forma teológica esse acontecimento. Dentro de nossos templos existe uma das maiores desigualdades sociais: Existe igreja para pobres e para ricos, para “normais” e para os de tatuagens, para os negros e para os brancos. Sim, por mais que você negue isso, existe isso sim em nossas comunidades locais. E sobre a hipocrisia, nem preciso falar nada, né?
A música fala claramente dos negros e da luta diária contra o preconceito. O refrão, por exemplo, é enfático. Os versos falam claramente dos negros (até com o uso intenso de palavrões). Infelizmente, é assim como os racistas nos veem. Faço parte da maioria negra brasileira e também me sinto no direito e dever de defender minha cor. Nunca sofri racismo de forma clara, mas já fui o último da fila na escola pela minha cor. Isso é racismo. E os versos preenchem duas das categorias citadas: racismo e desigualdade. Por sermos negros e pobres, qualquer pódio que conseguirmos chegar, vamos ser vistos como “pessoas determinadas que venceram na vida apesar do lugar que vieram”. Moro em um residencial desses financiados pela Caixa Econômica Federal e tenho muito orgulho de morar onde moro e de vir de onde vim, mas isso não é motivo para abaixar a cabeça e dizer “sim, senhor” para tudo. Cristo, como Deus, fez um ótimo papel de homem aqui na Terra. Quando todos viravam as costas para as mulheres, ele as abraçou e perdoou seus pecados. Quando todos descriminavam os deficientes, ele os curou. E nós? Achamos que a única bandeira que temos que levantar é a de Deus contra o diabo, sem saber que o “diabo” pode estar em coisas tão mais próximas do que em filmes de terror como a descriminação, preconceito e corrupção.
Quantos negros você vê sendo os protagonistas das novelas da Globo? Praticamente nenhum. Porque negro é sempre o cara que dirige para as madames, mantém a segurança do prédio, o humilhado. Negras são sempre as empregadas, as coitadas e humilhadas. O racismo não nasceu agora, séculos atrás já existia, só foi agravando mais e mais. O nazismo matou centenas e hoje a gente mata sonhos e autoestima de muitos com esse preconceito.
Aguardem para a segunda parte desse texto que irei analisar as partes de cada rapper, por enquanto, ouçam a canção. Um Brinde!

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